domingo, 24 de junho de 2012

NO MUNDO DE 2020 (Soylent Green) — 1973



A produção de ficção dos anos 70 é surpreendente. É dessa década a maioria dos filmes que contribuíram para a popularização do gênero e também a mudança de visão que o público e crítica tinham da ficção como gênero um tanto “marginalizado” ou voltado para um público específico do cinema — como “Laranja Mecânica”, “Solaris”, “Star Wars”, “Star Trek”, “Alien”, “Mad Max”, “Rollerball”, “Contatos imediatos de terceiro grau” e este, que é um filme até um tanto difícil de encontrar, o pessimista “No mundo de 2020”, de 1973, com Charlton Heston no papel principal.

Em 2022 a face da Terra está bem modificada. Em Nova York há 40 milhões de habitantes e o efeito estufa aumentou muito a temperatura, deixando o calor ficar quase insuportável. No entanto os ricos vivem em condomínios de luxo, onde belas mulheres são parte da mobília. Sim, no mundo futurista descrito no filme, ao se comprar um apartamento, o rico leva para casa uma mulher de presente, como se esta fosse uma mobília ou empregada disponível vinte e quatro horas por dia, o único meio que elas parecem ter de gozar de riqueza e luxo. Mas a comida está escassa para todos, tanto que um vidro de geleia de morango custa 150 dólares e a carne é algo especial apenas para os ricos, aonde fatias chegam a custar absurdos 300 dólares. 

Neste contexto um milionário é assassinado com lances de sadismo (com um gancho de carne), William R. Simonson (Joseph Cotten), que não esboçou gesto algum para se defender do assassino. O espectador, de cara, não entende aquela reação e é levado ao detetive Robert Thorn (Charlton Heston), que é designado para investigar o caso. No futuro, há uma comida distribuída para populares, o Soylent, uma espécie de biscoito, com várias cores, alguns chamados até de energéticos, e o último lançamento é o de cor verde, que, nas palavras do distribuidor, é feito de algas marinhas.



“Biscoito, pobretada! Olha o biscoito!!! Quem vai querer?! É de algas marinhas!!! 100% natural e nutritivo!!!”


Por que ver?
Porque “No mundo de 2020” é crítico, cínico, caótico e de um final perturbador. A visão pessimista da população de Nova York, inchada de habitantes, transforma a cidade em uma visão perturbadora semelhante à favela de um país de terceiro mundo asiático, onde milhares de pessoas transitam para lá e para cá, com turbantes na cabeça, debaixo de um sol escaldante, e parecem viver em uma eterna feira livre. Elas perderam suas identidades culturais, dormem nas escadas dos prédios, depois de um toque de recolher, amontoadas como bichos, sem terem privacidade alguma. Amontoam-se dentro das igrejas a procura de abrigo durante a noite, como se estivessem no meio de uma guerra ou no caminho para o apocalipse super populacional. E a câmera consegue captar muito bem a sensação iminente de caos, com uma quantidade absurda de figurantes fazendo parte desse contingente de transeuntes.

É um visceral alerta para a humanidade e sua superpopulação, abandonada pelo governo; sobre os perigos do crescimento populacional desenfreado que transformou os campos em espécies de propriedades fechadas para os ricos e as cidades se conformam em dar aos seus habitantes uma espécie de ração como comida. A polícia é igualmente pobre e caótica, desleixada, desordenada, um reflexo da sociedade que tenta proteger, mas está cheia de corrupção. E Heston encarna o tipo com perfeição. Seu detetive não pensa duas vezes em invadir a cena do crime e sair de lá roubando o que pode nas mãos para negociar com seus amigos. Seu personagem é uma pessoa por vezes ignorante, arrogante e sem nenhuma expectativa de vida melhor, que se deslumbra pelo simples fato de poder tomar uma ducha quente no apartamento da vítima, deitar numa cama com travesseiros e dormir, ou comer vegetais frescos. A população desse mundo é recolhida num motim com tratores, como se as pessoas fossem excremento ou resto de entulho. 

Há ainda várias cenas emblemáticas em todo o filme. A própria cena de morte do milionário, estranha e chocante ao mesmo tempo; a sequência absurda envolvendo a população revoltada, que é recolhida em tratores como se fosse resto de construção; a cena da igreja, em que o povo amontoado tenta se organizar e o padre, chocado pela revelação que conhecia antes do detetive, está completamente desorientado sem saber o que fazer. Ou a tocante sequência em que o amigo de Thorn vai para a chamada “casa”, uma espécie de lugar em que se dá entrada para morrer voluntariamente — porque a humanidade estava mesmo caminhando para extinção. Antológico. 

Antes de morrer, numa sequência de partir o coração, o amigo lhe faz as revelações depois de assistir a vinte minutos de imagens do que era o mundo um dia, cheio de vida e de cores, ao som de uma música clássica suave. Sobre esta cena, aliás, de acordo com uma entrevista, Charlton Heston contou que realmente começou a chorar de tão comovido com o desempenho do ator Edward G. Robinson. Robinson sabia que estava morrendo de câncer e sabia que este seria seu último filme. Sua cena de morte no filme foi a última que ele gravou (ele morreu apenas 10 dias depois), brilhante e emocionalmente conduzida pela música clássica de Tchaikovsky (Sinfonia n. 6, opus 74, em si menor, “Patética”) seguida da obra de Beethoven (Sinfonia n.6, “Pastoral”), e pelas sinfonias “Morning” e “Asas Death”, de Edvard Grieg’s. 

Em seguida a esta sequência, Thorn segue os rastros deixados pelo amigo e descobre o destino dos cadáveres da “casa”, carregados por caminhões de lixo, numa sequência também inesquecível, densa, e bizarra. E entende que o segredo que o milionário guardava e que estava mexendo com sua vida pessoal a ponto de não resistir a sua própria morte, colocava em risco o ser humano de forma geral, e principalmente as bases da sociedade. Essa revelação final, para o espectador, vem na forma de uma paulada no estômago e um soco na consciência.

Só a título de curiosidade: “No mundo de 2020” teve o título do livro em que foi baseado modificado ao ser adaptado para o cinema (o original se chamava “Make Room! Make Room!”, escrito por Harry Harrison) e é dirigido por Richard Fleischer, do péssimo “Guerreiros do fogo” (o filme da personagem Red Sonja — Brigitte Nielsen, mais conhecida como a ex mulher de Stallone que fugiu com a secretária dele — e reprisado muitas vezes em tv aberta, que trazia Arnold Schwarzenegger em papel especial como Conan); e diretor dos já clássicos “Conan, o Destruidor” (1984); “Tora! Tora! Tora!” (1970); “Doutor Dolittle” (1967); “Viagem Fantástica” (1966); e “20.000 Léguas Submarinas” (1954).
Não se deve subestimá-lo. Temos aqui um clássico obrigatório.



“Malditos! Como puderam? Esses pobres favelados pegaram meus biscoitos verdes nutritivos!!! 


Porque não ver?

A menos que você seja um pé no saco e não goste de ficção, não curta o Charlton Heston ou sofra de qualquer alopração parecida (melhor, se mate e poupe o mundo de ser a criatura insignificante que você é!). 

Se há o que se questionar do filme (estamos falando de um filme de 73, com uma montagem vigorosa, mas temos que descontar a parte técnica que nem sempre funciona, como em algumas cenas envolvendo sangue falso que tem a cor de suco de tomate) é mesmo o desenvolvimento da relação entre Thorn e Shirl, a mulher que servia ao falecido milionário. Um tanto forçada e deslocada dentro do roteiro, essa relação se desenvolve rapidamente, sem tensão ou suavidade entre as partes, e a personagem feminina acaba servindo apenas como interesse amoroso e contraponto ao estilo rude e amargo oferecido por Heston a seu personagem Thorn.



- Bando de favelado, vão dormir debaixo da ponte, pobretada!


Preste atenção!
No filme todo e me responda qual o chocante segredo do Soylent Green. Jason sentiu inveja. Selo de qualidade Jason, aprovado e garantido.

5/5

5 comentários:

  1. É impressionante como um autor pudesse ter tanta visão do futuro há 40 anos atrás ... 2020 esta chegando e a visão do passado parece que pode se materializar ...

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  2. Estava procurando informações sobre Soylent Green e vi que o Adoro Cinema usou parte da descrição de vocês. ! http://www.adorocinema.com/filmes/filme-300/

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  3. http://www.newstarget.com/2016-03-04-food-analysis-lab-censors-findings-showing-hotdogs-contain-human-dna.html

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  4. Que Soylent Green era confeccionado de corpos humanos de pessoas que ao rever senas de florestas, animais etc, sob fortes emoções, faleciam, então eram aproveitados nesses alimentos para populares. Assisti o filme 3 vezes no início dos anos 80!

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  5. Adoraria poder rever este filme hoje no PC!

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