domingo, 15 de julho de 2012

Alien O oitavo Passageiro - 1979


Título original: Alien
Ano de lançamento: 1979
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Dan O'Bannon, David Giler e Walter Hill
Sinopse: Uma nave espacial, ao retornar para Terra, recebe estranhos sinais vindos de um asteroide. Ao investigarem o local, um dos tripulantes é atacado por um estranho ser. O que parecia ser um ataque isolado se transforma em um terror constante, pois o tripulante atacado levou para dentro da nave o embrião de um alienígena, que não para de crescer e tem como meta matar toda a tripulação.


O cinema viu nascer, em 1979, aquele que se tornaria um clássico de horror sci-fi inquestionável: Alien, o oitavo passageiro. Pessimista, sombrio, sufocante, perturbador - e ao mesmo tempo belo -, Alien reúne todos os ingredientes de horror, suspense, drama e ficção em uma produção campeã de bilheteria, que impulsionou a carreira do então jovem Ridley Scott no cinema e transformou a jovem Sigourney Weaver em uma das maiores estrelas da década seguinte.

Visto hoje, o filme ainda encanta com sua direção de arte primorosa e seus cenários soberbos. A iluminação do filme, sua fotografia, a forma como é conduzido, insiste em fazer com que se mantenha intocável, mesmo nas cenas em que os efeitos especiais envelheceram - vencedores, aliás, do Oscar de Efeitos Visuais. Passando pela superfície do satélite rochoso LV 486 até as galerias de uma nave abandonada, chegando aos corredores mal iluminados e claustrofóbicos da Nostromo, tudo foi criado meticulosamente de uma maneira completamente orgânica.

Ma...ma...mamãe!
O Alien e seus elementos acompanhantes foram criados pelo pintor surrealista H. R. Giger, enquanto os artistas conceituais Ron Cobb e Chris Foss criaram os aspectos humanos do filme. Impossível não reparar na beleza decrépita da Nostromo, uma carroça espacial puxando uma carga de minério cheia de corredores estreitos, sucata, tubulações, correntes e dutos de ventilação, em contraste com ambientes esbranquiçados de laboratórios, onde a tecnologia parece ultrapassada e nociva. O aspecto industrial dessa carreta velha espacial difere do ambiente surreal imaginado por Giger, cheio de galerias amplas e tortuosas de uma nave abandonada no satélite que, como praticamente todo mundo já sabe, dará origem ao horror vivido pela tripulação da Nostromo. 

Da mesma forma, o som é outro ponto importantíssimo em um filme como esse e a produção não faz feio. Tanto os efeitos sonoros quanto a trilha sonora, do já lendário Jerry Goldsmith, contribuem para o clima de terror e claustrofobia desde o primeiro momento em que os famosos letreiros surgem aos poucos na tela. O tema de Alien, uma vez visto o filme, é inesquecível em sua tenebrosidade e melancolia, e nas sequências de horror - principalmente naquela que envolve o capitão da nave e os dutos de ventilação - a trilha contribui para garantir sustos genuínos ao espectador, sem subir demasiadamente ou seu uso se tornar  fácil e apelativo. 
O famoso "Space Jockey"
Se nesse campo da técnica não existe o que se questionar, no campo de atuações também não existem pontos contra, o que garante boa parte da fama inabalável do filme até hoje. Não há uma atuação que prejudique o conjunto, que é inteiramente coeso. Se há um ponto em que o filme merecia mais cuidado, no entanto, é com o personagem Brett - e o espectador poderá perceber isso porque há, ironicamente uma conversa no filme entre ele e Ripley em que esta sugere que ele apenas está lá para repetir as coisas, como se não tivesse personalidade e fosse um papagaio do companheiro Parker. Já o ator Tom Skerrit, na pele de Dallas, o capitão, a certa altura demonstra a incompetência do personagem ao não saber o que fazer com o colega Kane enquanto o mesmo está com uma larva (o chamado Facehugger) grudada em sua cara - da mesma forma que se mostra ineficiente em lidar com o funcionário de ciências Ash e exercer sua autoridade, retirando de si sua responsabilidade sobre ele - o mesmo Ash que é visto com desconfiança por Ripley e que mais tarde se revelará um problema para a tripulação, quase a assassinando. 

FUUUUUUUUU
Ash é o personagem misterioso da trama, que, inexpressivamente, nota-se, acompanha tudo como um espectador ávido pela tragédia de seus colegas, até culminar naquela cena em que se é revelado que é um androide, enviado pela companhia para trazer o espécime a um de seus departamentos. A trama em torno do androide, aliás, deixa claro que ele sabia de tudo desde o começo e que a companhia já conhecia a criatura, fazendo com que a tripulação da Nostromo se torne simplesmente as peças de um jogo de tabuleiro. Ash é, como a criatura que ele enaltece em determinado momento, desprovido de remorso, sentimento, ou considerações pela vida humana e conta muito aqui o talento de Ian Holm (o Bilbo Bolseiro em pessoa, de O senhor dos Anéis). Demonstra também um grau elevado de frustração sexual - ele tenta sufocar Ripley com uma revista masculina, refazendo um gesto realizado pela larva da criatura quando quer inseminar suas vítimas, em um local onde permeiam imagens de mulheres nuas nas paredes.

Lambert representa claramente a fragilidade humana e feminina diante do perigo. Ela representa o medo do público. Defronte ao caos da situação dentro da nave, ela sugere que todo mundo caia fora e se arrisque fugindo - mas no momento em que se vê diante da ameaça, mesmo com os apelos de Parker para que ela fuja, se petrifica e não consegue se mover, como se aceitasse um destino trágico sem questioná-lo. Já Parker, com suas preocupações com os pagamentos ao começo do filme, começa a ter a clareza e a pensar em medidas para eliminar a ameaça - ele sugere que congelem Kane e mais tarde decide por tentar matá-la ao invés de fugir. Por fim, Kane, o primeiro a se levantar e o primeiro a morrer, funciona como personagem guia, o veículo pelo qual o espectador sacia suas curiosidades e ansiedades (é através de sua curiosidade que a criatura entra em contato com os outros tripulantes). E, no meio disso tudo, está a icônica e paradigmática personagem Ripley, que merece um capítulo a parte.

Weaver e a heroína modelo para o cinema:
bela, inteligente e durona
Com elenco afiado, Scott conduz um suspense que aumenta a cada cena até a sequência final e inverte o papel de herói principal em determinado ponto da produção, no que a crítica julgou chamar de "Tubarão" espacial, numa referência a outro já clássico do cinema, o filme de Steven Spielberg lançado também na década de 70. Econômico, Scott esconde o máximo possível o bicho, sendo visto aqui e ali e preparando a plateia para o final em que será possível vê-lo por inteiro, tal qual o monstro marinho de Spielberg. 
Antes de Alien, os filmes de ficção e monstros traziam mulheres frágeis, unidimensionais, que gritavam e esperavam que seus machos heróis fossem salvá-las do perigo. Havia sim, contudo, ficções em que mulheres eram heroínas - alguém chutou Barbarella? - mas elas se restringiam a fazerem a imaginação dos homens com sensualidade e provocação, em produções de quinta categoria. Sinais dos tempos, Ripley dividiu esse momento no cinema, criando complexidade e impondo respeito na sua figura gigante, com cara de poucos amigos, mas ainda assim sensual, através da atriz Sigourney Weaver. Dito isso, criou-se uma personagem antológica que rivaliza em importância com o próprio vilão e que vem sendo imitada aqui e ali em tentativas fracassadas. Nunca o cinema veria, aliás, uma heroína tão marcante quanto a criada por ela e que até hoje é insuperável na galeria de personagens  femininos cinematográficos.

A tripulação da Nostromo em foto promocional
É curioso perceber como Ridley Scott sugere que Ripley será vítima do alienígena na cena em que ela se divide com Parker e Lambert, para abastecer a nave de emergência. O espectador começa a crer que o alien a ronda e que ela será presa fácil a partir do momento em que abandona seu lança-chamas para ir atrás de um gato. Ajuda também o fato de que em todos os momentos, a tripulação foi atacada individualmente - cada um foi atacado enquanto estava só e o espectador conclui que ela será mesmo a próxima. Mas, numa breve reviravolta, o alien ataca Parker e Lambert, deixando Ripley sozinha.

É a partir daqui, também, que Sigourney Weaver assume a dianteira do filme e o faz com todo o talento e todo o sucesso merecido. Nesses eletrizantes momentos finais, a então novata atriz não decepciona no combate com a criatura e coloniza a atenção do espectador em todos os segundos. Há uma evidente transformação em sua personalidade: se do começo até o meio do filme Ripley era uma profissional burocrática, arrogante, cheia de regras, antipática, típica funcionária exemplar da empresa em que trabalhava, suas crenças passaram a mudar a partir do momento em que ela percebe que foi traída pela corporação; e o espectador começa a perceber que ela tinha razão desde o começo em executar seu trabalho com o cuidado e desconfiança necessários, para não comprometer a segurança da tripulação (como evidenciado no diálogo entre ela e Ash anteriormente, no laboratório, em que ele sugere que segue seu trabalho com a mesma competência e rigidez que ela). 

Ripley precisa armar uma estratégia para fugir, o que acaba dando errado inicialmente. Tenta reverter a situação e também não consegue. Está encurralada, desesperada, sozinha, em um ambiente que parece ter se tornado hostil e que está prestes a voar pelos ares - a nave Nostromo - e que ela parece não mais conhecer pelo grau de desorientação que apresenta.

Criador e criatura
Uma vez conseguindo fugir da Nostromo e descoberto que ela não está só dentro do veículo de fuga, Ridley Scott foca a lente de sua câmera em Ripley, de calcinha e sutiã, em (quase) um close de suas partes íntimas. Do lado de fora, a boca do alien se projeta, tal qual um pênis ereto, para fora, cheio de baba. É um duelo de viés sexual, entre o macho e a fêmea, que inconscientemente permeou todo o filme, mas o espectador menos atento não reparou. 
A própria estrutura física do alien, com sua cabeça enorme, lembra a de um pênis rígido e saliente. As entradas por onde a tripulação da Nostromo invade a nave abandonada, no satélite rochoso, nos remetem a um canal vaginal, escuro e úmido. Repare que, ao encontrarem o fóssil abandonado no meio de uma elevação arredondada, Scott parece filmar o local como um grande útero materno, cheio de dobras e saliências, como se ali um dia houvesse vida. O mesmo vale para o porão de cargas da nave do fóssil - o famoso Space Jockey, cujas maiores informações tivemos no recente Prometheus - no qual os ovos o habitam, como se fossem séries de óvulos à espera de serem fecundados. 

Um dos cartazes do filme.
Há ainda outros sinais sexuais presentes na trama. A morte de Lambert, em um ataque sexual bizarro e chocante, que desperta o lado doentio imaginário do público; a larva dentro de um ovo, prestes a nascer, que é sabiamente iluminada por Scott tal qual uma criança dentro do útero de uma mulher grávida; o próprio parto da criatura, que é uma sentença de morte antecipada, uma vez que quando um hospedeiro dá a luz, ele morre (uma vida substituindo outra) e por fim, o próprio estágio larval da criatura, que tem uma característica de cunho sexual ao infectar suas vítimas. A larva em forma de aranha e cheia de dedos insere um tubo na garganta da pessoa para depositar seu organismo: tudo isso faz com que Alien seja diferente de todas as outras ficções já lançadas no cinema. Faz com que o filme seja único.
Voltando ao combate final entre a bela e a fera, a fera não se vale mais do que espaço que tinha: no módulo apertado, ganha quem demonstrar mais inteligência e usar a racionalidade - e, claro, controle emocional. Aí, nosso inconsciente nos leva a uma cena anterior, onde sugere Ash, antes de ser incinerado, que a criatura é um sobrevivente, desprovida de emoção. Ripley então precisa se equiparar a ela (note que ela canta para poder controlar seu nervosismo e se controlar emocionalmente para esperar o momento certo de agir) e por fim destruí-la (se usando de sua inteligência). Ou seja, Ripley superou a criatura, se usando dos mesmos instintos de sobrevivência e do diferencial da humanidade em relação a ela. 

Desde o seu lançamento, Alien influenciou gerações de cineastas, de histórias em quadrinhos, de filmes e de games de sucesso, dos quais o mais notável -, além daqueles da própria série e dos seus combates com outro ícone do cinema, o Predador, - é o jogo Dead Space. Rendeu continuações de sucesso, se tornou uma marca valiosa no mundo do entretenimento, e sua produção também é a responsável por ceder uma estética presente em muitos filmes seguintes, como "O enigma do outro mundo", passando por mais recentes, sejam de sucesso em produções caras ou não, como "O enigma do horizonte", "Cargo", "Pandorum", o próprio "Predador", dentre muitas outras. 

É por estas e outras razões  - cada espectador, ainda hoje, teoriza sobre diversos personagens e temáticas subentendidas no filme e poderíamos ficar aqui discutindo até o ano que vem sobre isso - que Alien mantém intacta sua qualidade de filme relevante no cinema e sua aura imbatível de clássico absoluto.  

Cotação: 5/5

Obrigatório.

TRAILER

Bônus:

Neste blog (clique aqui), é possível ler o livro escrito durante as filmagens do filme, por partes, de Alan Dean Foster, com base no roteiro e lançado quase que simultaneamente ao filme. É possível também conhecer mais sobre a produção e sobre outros significados de personagens (inclui uma análise extensa e interessante sobre Ripley, ampliando conceitos sugestivos e fazendo questionamentos importantes) e do próprio filme. Recomendado!






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