segunda-feira, 30 de julho de 2012

Batman – O cavaleiro das trevas ressurge (2012)






Título Original: Batman - The Dark Knight Rises 

Direção: Christopher Nolan 

Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan 

Elenco: Christian Bale, Tom Hardy, Michael Caine, Morgan Freeman, Gary Oldman, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt , Marion Cotillard, Juno Temple, Nestor Carbonell, Daniel Sunjata, Matthew Modine. 


Sinopse: Oito anos se passaram desde que Batman desapareceu na noite e passou de herói para fugitivo. Ao assumir a culpa pela morte de Harvey Dent, o Duas Caras, o Cavaleiro das Trevas sacrificou tudo pelo que ele e o Comissário Gordon esperavam ser o melhor. Por um tempo a mentira funcionou, com a criminalidade em Gotham City sendo destruída pela lei anti-crime de Dent. Mas tudo irá mudar com a chegada de uma ladra com interesses misteriosos. Muito mais perigoso, porém, é o aparecimento de Bane, um terrorista mascarado cujos planos cruéis para Gotham buscam tirar Bruce de seu exílio autoimposto, mas mesmo usando novamente seu capuz e sua capa, Batman pode não ser páreo para Bane. 


O Ministério da Saúde Adverte: 


O conteúdo deste texto pode causar efeitos colaterais gravíssimos em portadores de Noletismo Crônico, como ficar putinho e dar chilique. ^^ 


Um pequeno aviso: 


Este texto contém spoilers, ou seja, se você ainda não foi ao cinema e saiu com dor de cabeça graças a batucada de Olodum de Hans Zimmer, é melhor não continuar lendo. 



O surgimento do mito. 

Midas made in china.
Batman, super-herói dos quadrinhos da DC Comics, parecia estar relegado ao esquecimento cinematográfico depois de duas adaptações pífias comandadas por Joel Schumacher. Mais eis que surge ele: o deus do cinema, mago dos roteiros forjado a partir de restos mortais de grandes cineastas de Hollywood, o intelectual, O CARA, o mito – só que não – Super Christopher Nolan. (Nolan para os íntimos). Esse grande homem e cineasta, que veio para revolucionar o mundo das adaptações de quadrinhos (Jason me mata quando ler isso), deu uma abordagem interessante para a história do Homem Morcego, com o belíssimo Batman Begins (2005) reascendendo nos corações nerds dos fãs do Morcegão, as esperanças de ver o herói bem defendido no cinema. E deus Nolan continuou tendo êxito com o filme seguinte, o Cavaleiro das trevas (2008), que, embora eu tenha lá minhas ressalvas com aquela trama mexicana envolvendo Harvey Dent, é um inquestionável sucesso, em grande parte graças a atuação sensacional de Heath Leadger no papel do Coringa. E, devido a esse grande feito o Sr. Nolan (que nesse meio tempo entregou outros filmes bastante elogiados por público e crítica) construiu uma legião de seguidores fieis (que minha terrível irmã Tia Rá, apelidou carinhosamente de Noletes), que acreditam que o cara é o próprio Midas (se não conhece a história do Rei Midas, consulte pai Google). 

Obviamente que com os dois excelentes trabalhos anteriores e com outros bons trabalhos no currículo (trabalhos bons, de fato, mas que Noletes consideram obras-primas), era de se esperar que o desfecho da trilogia não fosse nada mais, nada menos que um grande épico. E poderia ter sido mesmo, só que não. 

Gatão!

Uma trama recheada de excessos: 


Mas vamos com calma, pessoal! O cavaleiro das trevas ressurge é um ótimo filme de ação e diverte em alguns momentos ou faz pensar em outros. A trama não é ruim, ao contrário, ela é bem costurada aos dois primeiros filmes da franquia, de modo que os três formam um todo bastante consistente – e em até certo nível, bastante coerente. Oito anos depois dos eventos de O cavaleiro das trevas, Bruce Wayne permanece recluso em sua mansão, a sua empresa está quase falida, mas Gotham vive momentos de paz. Porém, eis que surge o vilão Bane – um cara feio, bombado e que usa focinheira de pitbul – para tocar o terror na cidade, fazendo com que Batman tenha que voltar a ativa. Paralelas a isso, pequenas subtramas são adicionadas a história, entupindo o filme de personagens, alguns úteis, outros nem tanto. Os principais são Selina Kyle/ Mulher-gato (Anne Hathaway), uma ladra habilidosa, cuja presença no filme é totalmente dispensável. A milionária Miranda Tate (Marion Cotillard), que fica rodeando o Bruce igual urubu na carniça e tem interesse em fazer negócios com a Empresa Wayne em um projeto de energia limpa. Personagem desinteressante que custa dizer a que veio, e que aparece aqui e ali como um fantasma e some no meio da trama, para reaparecer num momento vergonha alheia no terceiro ato. E também temos o vice-comissário Peter Foley (Mathew Modine) um babaca, que acha que vai prender o Batman, que está ali para desperdiçar dinheiro do orçamento com o cachê que pagaram pra ele. 



Situações cretinas: 


A direção de Nolan continua eficaz, embora não seja nada original, mas seu roteiro peca em muitos momentos. E dá-lhe spoilers: Pra começar, quando Bruce resolve trazer Batman de volta a ativa, Alfred temendo pela vida do jovem patrão (a quem ele viu nascer, cuidou, trocou as fraldas, viu crescer, deu conselhos, lambeu as feridas, só faltou amamentar), faz de tudo para impedí-lo, pede demissão (inclusive conta da carta que Rachel havia deixado no segundo filme), numa cena mal feita, que envergonharia escritores de novela mexicana. Bruce fica putinho e se limita e dizer “Adeus, Alfred”. Daí o mordomo simplesmente... puff. Desaparece! Até entendo que o rompimento serviria para deixar Bruce ainda mais  fragilizado, mas custava trabalhar melhor nesse desentendimento? Ok, Alfred é completamente esquecido. Bruce não demonstra nenhum sofrimento pela perda. Que se dane o Alfred! Aham, Nolan, senta lá. 

Como Bruce Wayne, macaco véio, calejado, confia na primeira carinha bonita que lhe aparece com um projeto de energia sustentável e coloca a empresa nas mãos da vadia que ele nunca viu na vida? E o envolvimento romântico deles, acontece rápido demais, para quem estava em luto eterno pela mulher amada e tinha perdido um pai, pela segunda vez. Não convenceu. 

Oi oi oi, vem dançar comigo
mexe e remexe...
Batman está de volta a ativa e é o que importa aqui. Ele luta com Bane, e este quebra sua coluna (há controvérsias, alguns defendem que ele apenas deslocou a vértebra, mas com aquele golpe do Bane, sei não), o abandona num poço gigante situado nos quintos dos infernos, cujo serviço de quarto não é dos melhores, mas pelo menos tem televisão de tela plana e curandeiro milagroso. Batman é curado no poço, sua coluna fica boa e ele tenta sair de lá várias vezes. Enquanto em Gotham, Bane toca o terror (terror mesmo, liberta condenados da cadeia e deixa toda a policia da cidade presa num túnel). O Comissário Gordon se une ao policial John Blake para tentar recuperar a ordem em Gotham. 

Bruce finalmente sai do poço, embora pareça absurda a recuperação dele lá dentro, a forma como ele ressurge é de uma beleza ímpar, valeu pela mensagem. Como ele volta pra Gotham (toda cercada) sem um tostão furado e sem documento, only God Knows. De volta a cidade ele une forças com a bisca da Selina, Gordon, John Blake e Lucius para deter Bane. 

Sylvester Stallone:
 "Eu inventei isso!"
Aí a confusão é geral, com direito a policiais e bandidos armados saindo no braço no meio da rua, no melhor estilo Rocky V. Batman saindo no braço com Bane e libertando Miranda (ah é, ia me esquecendo que ela foi seqüestrada por Bane, mas como ela some durante quase toda projeção, o povo nem lembra mais dela) que se revela a grande (cof, cof) vilã da trama. A filha de Ra's Al Ghul, aloka, que só quer ver Gotham destruída. Miranda/Talia foge para detonar a bomba, que Gordon está tentando desativar dentro de um caminhão. Batman fica gravemente ferido no corpo e no coração (coitadinho, mais uma punhalada...) e a mercê de Bane, mas eis que chega a Selina e mete-lhe um tiro e Batman sai lindo e gostoso pra terminar de salvar Gotham. Mas e a facada que levou? Oi? O final é ainda mais confuso, mas chega de spoilers, por hora. =) 




Cenas de ação



Lindona! Divaaaaa!!!
As cenas de ação iniciais e durante do filme são bacanas, Bane derrubando um avião. Depois a invasão e a fuga da bolsa de valores. A volta de Batman com sua moto super fodônica tentando pegar Bane, e a empolgação de um policial quando o vê. O surgimento da Batnave (melhor atriz do filme, linda e poderosa, merece um Oscar). Porém não há nada de novo, são cenas recicladas de diversos filmes de ação. Aquela perseguição do caminhão que transportava a bomba e o acidente que mata Talia/Miranda, Transformers feelings, com direito a take cuspido de Terminator 2. Tudo isso, acompanhado de uma trilha sonora pesadíssima de Hans Zimmer, parecendo batidas de tambor que mais lembram uma versão “sombria” das batucadas do Olodum. 


Herança de Joel Schumacher:


Batman se teletransporta? Ele sempre aparece para salvar alguém que está em perigo, como ele sabia do paradeiro dessas pessoas e que eles estavam em perigo, é um grande mistério. Telepatia? 

A cidade está sitiada, terror geral espalhado pelas ruas, e Batman ainda tira uma onda com aquele símbolo do morcego queimado para mostrar que estava de volta. Estava com tempo né? 

Selina, Batman e Gordon olhando com cara de paisagem para Tália, diante daquele discurso patético pré-morte dela. Oh my God! 

E o beijo da bisca da Selina no Batman faltando poucos minutos para a bomba explodir não combina nem um pouco com a abordagem estabelecida por Nolan. 


O que funcionou:


Como já disse antes, a trama é bem interessante, apesar de todas as falhas. O problema é que para que ela se desenvolva, Nolan cria situações inverossímeis. A mensagem que Nolan quis passar, com a ideia de que qualquer um pode fazer a diferença, basta ter coragem e força para enfrentar os seus medos é louvável. Assim como a metáfora da decadência moral da sociedade - que fica a toa na vida vendo a banda passar em vez de agir - retratada em toda trilogia. O personagem John Blake, é bastante interessante, porque representa o fio de caráter que ainda resta em Gotham, um homem de bem, que acredita na justiça e na verdade. Aliás, embora sua "vidência" a respeito da identidade do Batman seja no mínimo estranha, o  momento de sua conversa com Bruce Wayne é um dos mais belos do filme.

O quê que eu tô fazendo aqui?

Momento “OI?”: 


No terceiro ato descobrimos aquela tal Miranda Tate, aquela que “dá uma” com o Bruce e estava esquecida durante quase toda projeção é a grande vilã Talia, filha do Ra's Al Ghul. Todo seu papo filantrópico de energia limpa era desculpa para ter acesso ao reator nuclear da empresa Wayne. Ok! Mas como se convencer de que aquela coisa tão sem sal, sem tempero pode ser uma vilã? Para uma reviravolta desse naipe, era preciso que Nolan trabalhasse melhor as atitudes dessa personagem e não a jogasse ali algumas aparições parcas, sem nenhuma força dramática. Para entender melhor, vamos ver um exemplo recente: Quem viu A ilha do medo, sabe que há uma reviravolta no final, em que um personagem revela ser outra pessoa. O que rola é que esse personagem tem atitudes ambíguas durante toda a projeção, atitudes passiveis de interpretações diferentes, mas que são explicadas e compreendidas no ultimo ato. Com Miranda isso não acontece, ela não é ambígua, é mal desenvolvida, apenas fica pagando de gatinha do Bruce Wayne. Fail. 




Elenco irregular: 


O elenco veterano é eficaz: Batman e Bruce Wayne continuam sendo bem defendidos pelo lindão do Christian Bale. Michael Caine continua aquele velhinho fofo que todos tem vontade de abraçar (eu quero um Alfred pra mim, eu juro). Morgan Freeman eficiente como Lucius Fox, sempre pronto a ajudar Bruce com suas invenções bacanas. Quanto ao Gary Oldman, a família Ravenna só tem a declarar o mais puro amor que sente por esse ator maravilhoso. 

 Tchau, Bane! Esse filme tem vilão demais!
Entre as novidades a coisa já muda de figura: Como boa surpresa temos apenas Joseph Gordon Levitt, no papel do corajoso policial John Blake, o único personagem bem desenvolvido entre os novatos na franquia. Anne Hathaway está até bonitinha e graciosa, como a interessatíssima Selina Kyle/Mulher gato (digo interessantíssima nos quadrinhos), mas não faz muito além de usar uma roupa colante, dar saltos, chutes e tiros, pilotar uma moto e se oferecer pro Batman. Está ali como enfeite, afinal, todo filme de ação precisa de uma “gostosa” (o que a magricela não é, vale ressaltar). Marion Cotillard, lindíssima, uma excelente atriz prejudicada por uma personagem tão sem sal que dá preguiça de vê-la em cena. Tom Hardy, como vilão Bane, saído diretamente de academias de fundo de quintal, depois de tomar muita bomba, direto para Gotham City. Tudo que faz é gritar e sua expressão corporal é a uma mistura de lutador de UFC com jogador de futebol americano. Mathew Modine canastrão, inútil, suas cenas são desperdício de um tempo precioso e Juno Temple, só serve pra cheirar o cangote da Anne Hathaway, o que essa criatura ta fazendo no filme pelamordedeus? 


Resumo da ópera:


O filme é legal, até diverte, serve como passatempo. Assim, tipo Temperatura Máxima numa tarde de domingo. Algumas falhas do filme seriam totalmente perdoáveis se não fosse uma produção que se leva tão a sério.  Tem um epílogo um tanto apressado e desajeitado, mas ainda consegue ser bonito e comovente, além de passar uma mensagem legal.

Não se trata de implicância gratuita, é decepção mesmo, porque Nolan é realmente competente e fez o Morcegão ressurgir (literalmente) de forma digna no cinema e justamente por isso, Lady Rá ficou decepcionada com esse terceiro capítulo da saga. Porque poderia ser mais, muito mais. 

Cotação: 3/5
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