quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A.I - Inteligência Artificial - (A.I. Artificial Intelligence, 2001)

Fábula futurista



Título original: A. I. Artificial Intelligence
Ano de lançamento: 2001
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Steven Spielberg, baseado em projeto de Stanley Kubrick e em conto de Brian Aldiss
Elenco: Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O'Connor, Sam Robards, Jake Thomas, Brendan Gleeson, William Hurt, Ken Leung, Clark Gregg, Kevin Sussman, Tom Gallop
Sinopse: A.I. passa-se num futuro distante; é uma história de humanidades numa época de máquinas inteligentes. O filme foca a relação e os desafios envolvidos quando um menino andróide, o primeiro programado para amar, coexiste como membro de uma família. Depois de uma série de circunstâncias inesperadas o deixarem sem aceitação quer junto dos humanos, quer junto das máquinas, ele viaja para descobrir o local ao qual realmente pertence.


Por Jason

O prólogo de A.I. debate um tema interessantíssimo de uma maneira clara e eficiente: a questão do amor incondicional entre um "objeto", no caso, um andróide, semelhante ao ser humano fisicamente, e um ser humano. Uma das funcionárias da empresa que projeta robôs lança um questionamento que vai permear todo o filme: a de que uma vez possível se criar um andróide que ame um ser humano incondicionalmente, nada garante que esse amor será recíproco, pois, para o ser humano, os andróides sempre serão máquinas, objetos que não possuem carne e osso e são descartáveis. É a eterna questão: o que define um ser humano? 

Para o criador, representado na figura de William Hurt, o que separa os homens das "criaturas" é justamente sua capacidade de amar. Nesse contexto, surgirá em cena Monica, que se transformará na mãe humana de David e não contrariará as previsões pessimistas da funcionária. O estranhamento entre David e Monica, que não superou o estado vegetativo de seu filho legítimo, é desenvolvido com maestria por Spielberg. Sem diálogos, o diretor mostra as reações, a adaptação e os conflitos entre "mãe" e "filho", criando até mesmo um clima bizarro em que David começa a perseguí-la pela casa, tratando tudo como um incômodo jogo lógico.

A entrada do filho legítimo na trama mudará tudo. Tentando disputar as atenções com a mãe, criança humana orga e criança robô meca rivalizam entre si até que Monica acaba por fazer uma escolha inevitável. Ela toma a decisão de se livrar de David, numa das cenas mais brilhantes e emocionantes do filme, justo quando havia na família uma mistura de sentimentos legitimamente humanos. O próprio irmão humano começa a defender David dos amigos curiosos em uma cena chave, a da piscina, que representa uma mudança de atitude de Monica para com David e será importante na sua decisão em se livrar do robô.

Até a cena do abandono no bosque, Inteligência Artificial nos remete ao clima pessimista e sombrio dos filmes de Kubrick, idealizador do projeto e da história, baseando-se no conto Supertoys Last All Summer Long. Repare como Spielberg define a personalidade de Monica - salientando a sua vaidade como mulher ao se maquiar para visitar o filho, uma atitude que foi repetida momentos antes pela andróide Sheila durante a reunião com o professor Hobby. Ou no momento em que Monica percebe que David usou o perfume dela e ela se aflige. Os cenários, sempre pouco iluminados e frios, dão ideia constante de repressão sentimental, sufocamento, dor e depressão. Toda essa parte do filme é simplesmente impecável. O drama vem da situação em que os personagens foram lançados e de como eles estão tentando se adaptar a ela. Nota-se que há também um drama maior permeando todo o cenário: o fato de que todo mundo em Inteligência Artificial está buscando alguma coisa, está procurando por algo ou por alguém. 

David busca o amor incondicional da mãe, e submete essa busca ao tentar "ser" humano, mesmo que não entenda o conceito de "ser humano", como explicado por Joe após o encontro com o Dr Know (voz de Robin Williams). Monica busca ter o filho novamente; Martin, seu marido, quer a sua família e sua vida de volta antes que a mulher se deprima completamente pelo estado do filho - e é ele, curiosamente, que leva David para casa mas que não desenvolve amor por David, sem nunca esquecê-lo que o garoto é na verdade uma máquina. O professor Hobby (Hurt) busca não só seu sucesso de mercado, mas suprir a falta de seu filho. O mesmo vale para os andróides descartados pela sociedade, incluindo Gigolo Joe (Jude Law), que buscam uma liberdade impossível em um mundo onde as máquinas não são bem vindas. A sociedade de Inteligência Artificial busca a superação do narcisismo - refletido na cena de vaidade e de espelho de Monica ou na maquiagem que ela passa para ver o filho (em coma), mesmo estando sofrendo por perdê-lo. É uma sociedade mesquinha (o filho dela se sente único e não quer dividi-la) e egoísta, que só se importa com os seus desejos em detrimento dos outros (como os mecas sexuais) e onde os androides são mais humanos do que os próprios humanos.

Mas é a partir daqui também que o filme se divide, saindo de um drama denso e passando a incorporar elementos de uma aventura infantil, com toques de pinóquio e de fábula futurista. David busca ser humano, procura uma identidade, como individuo no mundo em que as pessoas exterminam criaturas como ele em feiras de banhos de ácido, ao som de Heavy Metal e para uma plateia enlouquecida.

É a partir desse ponto também que surge Gigolo Joe, destinado aos prazeres sexuais humanos, que embora não acrescente muito a trama, não compromete o desenvolvimento de David. Joe funciona, na verdade, como veículo para mostrar ao espectador o outro lado dos mecas, destratados pela sociedade e servindo de instrumentos para seus prazeres sexuais - mais ou menos como o nível social baixo do tempo em que se passa o filme (a classe mais baixa é justamente a dos robôs ultrapassados e sem registro, destruídos na feira, do qual Joe passa a ser incluído após uma emboscada).

Como todo filme de Spielberg, o filme traz esmeros técnicos de cair o queixo. Seus efeitos especiais são completamente orgânicos. Não há uso exagerado dos mesmos, porque tudo é feito para complementar o desenrolar da trama. O mesmo vale para a maquiagem, com o uso de protéticos, e para a brilhante direção de arte, que dá um show no momento em que explora a cidade do prazer ou os ambientes decadentes da Manhattan submersa pelo oceano - que Spielberg apresenta de forma semelhante a apresentação da Ilha Nublar de O parque dos dinossauros, percebam. A trilha sonora de John Williams é impecável em transmitir todo o futurismo, a atmosfera mecânica e sombria do filme e é eficiente nos momentos de drama, sem transformar as sequências em dramalhões desnecessários.

O elenco é afiado. Frances O'Connor domina a cena como a mãe Monica, que assimila aos poucos o meca como sendo seu filho, mas que sabe que precisa se livrar dele pelos problemas que ele começa a trazer para a vida familiar. É notável a discussão que ela tem no começo, quando David é levado para a casa da família, onde ela não aceita a presença dele. Ao final, ao invés de devolvê-lo para a fábrica que o criou, ela decide por poupá-lo do seu destino trágico e chora copiosamente pela decisão, deixando no ar a questão se ela fez isso por amá-lo ou por amar o que ele fez por ela como um objeto qualquer. Da mesma forma, o filho mostra todo o conflito de ciumes com o novo "irmão", mas (na cena chave da piscina), começa a demonstrar compaixão tardia, evitando que os amigos o machuquem - e quase paga com a própria vida. 

No auge disso tudo, um degrau acima, está Harley Joel Osment, uma das melhores presenças do filme, interpretando um personagem com força e rivalizando com qualquer ator mais experiente. É uma pena ver um ator mirim de tamanho potencial ter o destino infeliz que teve em Hollywood, se afastando das telonas e tendo seu nome vinculado a uso de drogas. Seu David é de uma complexidade tremenda e, mesmo não demonstrando expressões faciais quase o tempo todo, como um androide, David consegue expressar sentimentos humanos como raiva, amor, persistência, otimismo e até depressão - quando se joga do prédio em uma tentativa de suicídio.

O que pesa contra Inteligência Artificial, no entanto, é a sua fragilidade a partir da metade do filme e a forma como Spielberg encontra soluções fáceis para o seu roteiro, desnecessariamente. Há deslizes e coincidências gritantes, como na parte em que a menina encontra o urso Teddy (o personagem é uma das melhores sacadas do filme) ao mesmo tempo em que acha David na jaula (e, reparem, isso só servirá mais tarde para o roteiro como forma de libertar David dali, num maniqueísmo absurdo). O filme também traz momentos de pieguice extrema, como no encontro entre David, Joe e o Dr Know, ou na parte em que David finalmente encontra a fada azul e conversa com ela após a chegada de visitantes de outros planetas. Sua montagem também ora se arrasta, ora prejudica o desenvolvimento e o envolvimento do espectador com o filme. Não fica claro como Gigolo Joe, criado para os prazeres, consegue pilotar um anfibiocoptero - vai ver é coisa de máquina para máquina...

O epílogo do filme também soa desnecessário e ainda por cima longo além da conta. Se o filme terminasse no momento em que David fica preso debaixo da água, diante da estátua da fada azul, com a narração bem pontuada, A.I. seria um dos filmes mais densos, pessimistas e interessantes que o cinema de ficção já viu - e talvez por isso ganhasse um status superior ao qual se encontra hoje, escondido ali na carreira de Spielberg sem despertar muitas paixões. Deixaria no ar inúmeras outras questões na cabeça do espectador e, talvez, algumas certezas. Mas Spielberg precisa mastigar tudo para o público - com direito a narração em OFF subestimando a inteligência do mesmo - e quase não deixa nada para reflexão, embutindo uma mensagem de "esperança" para todos, do tipo "só o amor constrói", ou "tudo é possível quando se sonha", toda uma bobagem e infantilização que por pouco não arruínam o produto final.

Cotação: 3,5/5
TRAILER


Filme acima da média, um legítimo arrombo imaginativo de Spielberg, que merece uma reavaliação cuidadosa, mesmo com seus defeitos notáveis          

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