terça-feira, 21 de agosto de 2012

Jogos Vorazes - 2012 (The Hunger Games - 2012)



Título Original: The Hunger Games
Ano de lançamento: 2012
Direção: Gary Ross
Roteiro: Billy Ray (I), Gary Ross, Suzanne Collins
Elenco:
Alexander Ludwig (Cato)
Amandla Stenberg (Rue)
Dayo Okeniyi (Thresh)
Donald Sutherland (President Snow)
Elizabeth Banks (Effie Trinket)
Isabelle Fuhrman (Clove)
Jacqueline Emerson (Foxface)
Jennifer Lawrence (Katniss Everdeen)
Josh Hutcherson (Peeta Mellark)
Lenny Kravitz (Cinna)
Leven Rambin (Glimmer)
Liam Hemsworth (Gale Hawthorne)
Paula Malcomson (Mrs. Everdeen)
Stanley Tucci (Caesar Flickerman)
Wes Bentley (Seneca Crane)
Willow Shields (Primrose Everdeen)
Woody Harrelson (Haymitch Abernathy)

Sinopse: A história é ambientada nas ruínas futuristas da América do Norte, agora dividida em uma capital e 12 distritos. Cada distrito fornece dois adolescente entre 12 e 18 anos, que competem no reality show de sobrevivência que dá nome ao livro. A trama é centrada em Katniss, adolescente de 16 anos que vai para o reality show no lugar de sua irmã, sorteada pelo distrito.

Por Jason

Em 2017 a economia estadunidense está em colapso e a sociedade encontra-se subjugada por um estado policial, com toda a atividade cultural sob censura. O governo mantém a população alienada patrocinando a transmissão pela TV de inúmeros programas de jogos, nos quais criminosos sentenciados lutam por suas vidas em shows ao vivo. O mais popular e sádico desses shows é o The Running Man, apresentado por Damon Killian.

Não, não estamos falando de Jogos Vorazes, ainda. Estamos falando da temática do filme O sobrevivente (1987), com Arnold Schwarzenegger, baseado em um romance de mesmo nome de Stephen King. É óbvio que ambos são filmes completamente diferentes, com bases literárias muitíssimos diferentes (e ninguém aqui está comparando nada) mas que tem como eixo condutor a mesma ideia e que, em tempos de reality shows expondo famosos instantâneos e a miséria alheia, ainda se mantém atual: a ideia da Tv e da mídia como veículo capaz de provocar alienação coletiva e degradação do ser humano. 

A primeira hora do filme é eficaz no sentido de mostrar como funciona esse novo mundo de Jogos Vorazes. Jovens são colocados em uma arena para brigarem até a morte, de onde só deve sair um. Cada Distrito, 12 no total, fornece um casal para o jogo. Do Distrito 12 vem Katniss, que se voluntaria em lugar de sua frágil irmã, e Peeta. Até esta hora, há uma metáfora que permeia todo o filme - a mesma de "O sobrevivente", portanto, a de alienação midiática, a do "show" em detrimento da própria vida. O reality show, Jogos Vorazes, precisa conquistar o público, dar a ele o que ele quer ver ao mesmo tempo em que enche seus cofres. Tudo é cronometradamente programado para que isso se realize, da criação dos dramas dos personagens até o romance entre eles, passando pela apresentação dos mesmos, pela expectativa e pelo figurino. Nesse futuro distópico, jovens são chamados de "tributos" porque servem como pagamentos e como forma de oferecer a um público um tipo de show televisivo macabro.

O filme começa mesmo a embalar a partir daí, quando a ação realmente se inicia, com o grupo de jovens adentrando a arena. Em uma execução de montagem e direção muito boas, o filme mostra a total desorientação dos jovens e a rivalidade entre eles, bem como a luta que segue imediatamente a entrada na arena. Mais tarde, o filme explora a cisão e a formação de grupos, cujo principal objeto é caçar a menina Katniss, que ganhou o público anteriormente. Nesse contexto, Katniss também precisará de ajuda para derrotar os inimigos que inclui não só quem está na arena, mas quem controla o jogo, que precisa manter a audiência mesmo que isso represente o uso de trapaças e mudanças nas regras, tal qual um programa de aspirantes a fama na televisão. 

Aqui, de novo, voltamos ao mote de "O sobrevivente", já que o personagem deste também é atacado pelos organizadores do jogo e farão de tudo para eliminá-lo, sem contar com a sagacidade dos protagonistas. É a velha ideia de gladiadores romanos lutando dentro de uma arena. Mudou-se o tempo, a época, mas trocaram os homens robustos por jovens despreparados. Tal qual uma novela mexicana, com a edição de um big brother, os organizadores dos Jogos Vorazes precisam passar para os espectadores todo o drama e horror dos jogadores, confinados na arena, explorando as fragilidades para conquistar o público.

Há outros pontos positivos no filme. Jennifer Lawrence, que julgo um tanto superestimada, mas promissora, segura bem o filme. Não é uma atuação espetacular, nada que arrebate, que explore seu potencial, mas Jennifer é segura e convence, passando confiança ao filme como uma menina ao mesmo tempo segura de si, ora vulnerável, e que decide, como todas as heroínas e todos os clichês, enfrentar um "sistema" perverso e enfrentar as regras de um jogo cruel - que inclui, dentre outras coisas, patrocinadores que lançam paraquedas com produtos úteis para os "personagens" populares. 

Todos os outros atores estão corretos, com exceção de Stanley Tucci, que me pareceu caricato e repetindo tiques nervosos de outros papéis. Woody Harrelson faz o básico, servindo de veículo e orientação para Katniss, "o instrutor do jogo" e só. A direção é precisa, os efeitos especiais falham aqui e ali (como nas sequências da cidade ou a dos cães raivosos) mas são eficientes, a ideia interessante, os figurinos exóticos e a direção de arte muito bons. Repare também na fotografia usada no começo, quando a perua Effie (Elisabeth Banks), com seu vestido espalhafatoso e sua maquiagem berrante, contrasta com a pobreza e aspecto morto do Distrito 12. São boas as sequências em que são mostradas a reação do público do Distrito 11 e o drama de Katniss, solitária e aparentemente frágil. A trilha sonora do filme também é eficiente. 

Os problemas, no entanto, são muitos e não dá para fingir que não existem, com a desculpa de que se trata de um filme de ficção ou de filme para adolescentes baseado em um livro voltado para este público. Um personagem interessante, mas não muito explorado, é Presidente Snow (Donald Sutherland), que representa a sociedade mesquinha e egoísta, que não mede esforços para promover o programa e atrair recursos e patrocinadores e não possui nenhuma compaixão pelos jogadores. Donald se resume a pronunciar frases prontas, feitas, que não colaboram muito com o desenvolvimento da trama - dessem mais tempo a ele, mais atuação, e o filme poderia ser muitíssimo mais interessante. 

O pior de tudo está na fragilidade do roteiro, como o fato de Katniss se antecipar e perceber a armação de Peeta contra ela de uma maneira fácil  e rápida demais - e, clichê como é, precisa colocar o arrependimento do garoto e instalar o romance entre eles posteriormente. Note que o roteiro é tão óbvio e clichê que dá a Katniss a sua arma dominante - o arco - se usando de uma colmeia (!) quando ela fica encurralada (saída fácil). Esse mesmo roteiro não demora também para eliminar o auxílio de Katniss, a menina Rue, de maneira tão rápida a ponto de não conseguir dar ao filme a carga dramática necessária nem envolvimento ao espectador. Sem que se possa torcer por ela, a menina chega, tem um papel importante - de orientar Katniss na sua fuga - mas é descartada praticamente em seguida. 

O filme não explica a tecnologia que realiza as criações dentro da arena e que faz com que fogo incendeie a floresta, derrube árvores e bolas de fogo sejam lançadas em direção aos participantes (nem como os cães assassinos são criados tão facilmente, gerados do nada, uma vez que são objetos "físicos"  construídos artificialmente dentro de um cenário real e são capazes de matar, um erro grotesco de roteiro). Lembra a forma de criação de um jogo de vídeo game ou de efeitos em um estúdio, como os que atormentavam o personagem vigiado pelo mundo todo em "O show de Truman, o show da vida"

A produção também não escapa das obviedades - em determinado momento, Katniss é salva de repente, porque a idiota interessada em matá-la fala mais porcaria do que age. O ápice do filme é de uma clicheria absurda,  mal executado, não empolga, em uma sequência digna de um filme trash, que envolve os cachorros projetados artificialmente e uma briga insossa do casal contra um vilão porcamente desenvolvido, que excetuando uma ou outra cena de preparação antes do jogo, cai de paraquedas para o espectador.

Falta ao filme também uma cena marcante, impactante, ou sequências de ação melhor conduzidas. A necessidade de atrair uma censura mais baixa impõe ao filme um tom insosso e um tipo incômodo de censura durante as mortes (nada é muito explícito ou chocante, nem violento, o que tira parte do peso e da noção do real perigo e ameaça do jogo). O filme terminou sem arrojo e sem coragem, num final feliz óbvio que parece improvisado, e me pareceu descartável. 

Em se tratando de personagem, aliás, quase nenhum é bem desenvolvido (vide o caso de Rue, da Effie, do interesse amoroso de Katniss antes da arena, de Snow e o do próprio vilão que só terá presença na cena decisiva final). Excluindo-se Katniss (repare na transformação dela, após a arena) e Peeta, que ora parece estar aliado a Katniss, ora, mesmo ao ajudá-la, parece esconder o jogo dela ou usá-la para sua vaidade, todos são unidimensionais. Depois, vinte minutos a menos também não incomodariam o resultado final, uma vez que em uma sequência ou outra, o filme se arrasta desnecessariamente e tenta embutir o relacionamento amoroso entre Kat e Peeta que, sem química alguma, não funciona. 

O saldo final é positivo, porque o filme tem uma ideia interessante e uma execução na sua primeira hora bem elaborada, além de uma boa atuação de Jennifer Lawrence que faz uma personagem carismática, é verdade (basta perceber que se o filme a trocasse por uma porcaria como Kirsten Stewart, teríamos sérios problemas de ausência de emoção no filme). Jogos Vorazes, porém, nunca arrebata o espectador. Ao final tem-se aquela impressão de super estimação de críticos, como se a crítica tivesse o elevado exageradamente a categoria de "imprescindível" e "original", e de público, que transformou o filme em uma das maiores bilheterias do ano. 

Cotação: 3/5

TRAILER


Não é nenhuma bomba, mas também não é a última maravilha como apregoaram e pode oferecer mais do que uma simples modinha adolescente, dependendo das suas continuações. Vamos aguardar.

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