domingo, 30 de setembro de 2012

Howl - 2010 (Howl - 2010)



Título Original: Howl
Ano de lançamento: 2010
Direção: Jeffrey Friedman, Rob Epstein
Roteiro: Jeffrey Friedman, Rob Epstein
Elenco: Aaron Tveit (Peter Orlovsky)
Alessandro Nivola (Luther Nichols)
Andrew Rogers (Lawrence Ferlinghetti)
Bob Balaban (Judge Clayton Horn)
David Strathairn (Ralph McIntosh)
James Franco (Allen Ginsberg)
Jeff Daniels (Professor David Kirk)
Jon Hamm (I) (Jake Ehrlich)
Jon Prescott (Neal Cassady)
Mary-Louise Parker (Gail Potter)
Sean Patrick Reilly (Six Gallery)
Todd Rotondi (Jack Kerouac)
Treat Williams (Mark Schorer)
Sinopse: "Howl" é uma das obras que definiram a geração beat, ao lado do romance "On the Road", de Jack Kerouac. Escrito em 1955, contém referências a práticas sexuais que motivaram, dois anos depois, um processo por obscenidade contra Lawrence Ferlinghetti, dono da City Lights Bookstore, editora que publicava nos EUA a coletânea que continha o poema.

Por Jason


Serei breve sobre esse filme que traz uma figura interessante, o escritor e poeta americano Allen Ginsberg.

Por que não ver?

Animação 2D e 3D se misturam com poesia e com sequências de depoimento do autor de "Howl", que foi o livro de poesia mais vendido da história dos EUA, tendo vendido mais de 1 milhão de exemplares em pouco tempo. O filme é montado de uma forma que é difícil de acompanhar. Complexo na narrativa do poema, parece demorado (mesmo não tendo mais que uma hora e meia), e um tanto difícil em seu entendimento. O filme se concentra praticamente no poema extenso e a poesia complicada que dá título ao filme. Quando o filme se concentra na sua história de vida, é maravilhoso, curioso e intrigante. Mas quando ele retorna para a viagem psicodélica do poema é praticamente impossível de assistir. O filme, como cinebiografia de alguém tão importante para a cultura literária contemporânea, é superficial.

Por que ver?

Primeira vez em que vejo James Franco sumir dentro de um personagem. O Allen de James é uma figura intrigante, homossexual, sexualmente fracassado e foi infeliz até encontrar Peter Orlovsky (Aaron Tveit), que, como ele afirma, lhe deu o amor na mesma medida que ele tinha para dar. Perdeu a virgindade tardiamente, a mãe era louca e foi internada várias vezes até ser lobotomizada e morrer em um hospital psiquiátrico. O pai era poeta. Allen precisou de tratamento psiquiátrico, se apaixonou diversas vezes por muitos homens - héteros, sem concretizar suas paixões - e associou muitas vezes amor a sexo por não ter uma clareza suficiente para entender sua sexualidade. Esse distanciamento, como ele mesmo admitira, serviu como um catalisador para um auto exame e para a sua própria obra. 

Por outro lado, o julgamento que corre por fora sobre a obra Howl nos dá uma ideia da alienação completa da sociedade em torno de uma obra literária: a briga é para saber, simplesmente, se Howl tem valor literário ou não, se é obsceno ou não, porque o uso de alguns termos e sua linguagem acabou ofendendo alguém aqui e ali. A obra é tratada como obscena e pornográfica por uns, como um grito de liberdade homossexual por outros e, para se dar uma noção de como o julgamento corre completamente desconcertante, o advogado de acusação da obra convida pessoas apenas para entender o que está escrito naquelas palavras aparentemente sem conexão alguma. Como resume bem uma destas pessoas, o advogado Jake interpretado por Jon Hamm, há certas obras literárias que não devem ser estudadas ou decifradas, como uma obra de arte. Devem apenas ser sentidas.

Nesse sentido, vale prestar atenção no depoimento de Allen. Allen escreveu o poema resumindo uma série de coisas que incluem principalmente a sua própria vida e seus romances e affairs fracassados - vida que se funde com o momento vivido pela população nos anos 50 e pelo mundo. Como ele diz, o seu poema é sobre tudo e um autor de livro precisa escrever sobre o que ele quer escrever e da forma que ele quer escrever. O que os outros pensam sobre a obra é problema dos outros, não do autor.

Jon Hamm e David Strathairn também estão bem, dentro das possibilidades do roteiro - o filme dá margem apenas para James brilhar. Ainda tem participações de Jeff Daniels, Treat Williams, Mary Louise Parker e Alessandro Nivola.

Não é um filme que eu recomendaria. Mas sugiro fazer uma cinebiografia de Allen Ginsberg. Um homem que teve a mãe que teve, a vida que levou, com passagens por um hospital psiquiátrico em que se relacionou com um doente tratado com choques elétricos, encontrou paz e amor em outro homem com quem viveu durante trinta anos, e teve influências na obra de Bob Dylan, Jim Morrison, Paul McCartney, John Lennon, dentre outros,  atingiu o sucesso com um poema polêmico e representou uma geração merece uma cinebiografia maiúscula.

Preste atenção:

No discurso do personagem Jake de Jon Hamm no tribunal sobre a obra e o seu discurso anti censura - e na forma como o juiz finalmente encerra o caso.

Nas cenas de romance entre Allen e seus paqueras, incluindo uma em que  se percebe que o interesse por ele é apenas um alívio de um viciado em sexo - e ele é flagrado num momento constrangedor de sexo oral por uma das namoradas do parceiro. Há uma diferença, que existe entre os romances anteriores e com Peter Orlovsky, na forma carinhosa como os dois se tratam, como se um compreendesse o outro. 

Cotação: 3,5/5

Boa biografia, feita de uma forma diferenciada e criativa, mas cansativa, confusa, e que não faz jus a esse importante personagem da história da literatura mundial.

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sábado, 29 de setembro de 2012

Trilha Sonora - Trilogia X-Men

Bem, minha gente, assim como a Tia Rá, eu também adoro uma boa trilha sonora. E eu resolvi falar das musgas que acompanham a trilogia original dos super heróis favoritos de Rá Hannibal: Os X-Men.

X-Men – O Filme foi um dos pioneiros em termos de adaptações de quadrinhos levadas a sério. Bryan Singer e sua equipe fizeram questão de estabelecer uma história verossímil e com personagens e enredos que fossem além da pancadaria e dos efeitos visuais. Criou-se assim uma ótima trilogia (que tem seu ápice no segundo, e não no terceiro filme) que acabou por ser prejudicada por uma troca de diretores. Os dois primeiros foram dirigidos por Bryan Singer e o último pelo irregular Brett Ratner. Nessa novela toda, a série de filmes dos mutantes da Marvel  teve compositores diferentes para cada um dos seus filmes.

X-Men – O Filme
X-Men – O Filme é o que tem a trilha sonora mais fraca. Composta por Michael Keman, é uma trilha muito preguiçosa, que mistura sem muito sucesso algumas coisas eletrônicas e efeitos de sintetizadores a cara de filmes de série B para sessão da tarde com solos de violinos e cellos que seriam marcantes em trilhas sonoras de filmes de suspense. O tema da Mística, por exemplo, seria interessante se fosse mais bem desenvolvido e tivesse aparecido mais vezes. O maior mérito da trilha de Keman foi criar na faixa X-Jet o tema que seria melhorado e utilizado por Jonh Ottman na trilha de X-Men 2.

Cotação: 2/5

X-Men 2
Com orquestrações mais trabalhadas e complexas e uma mixagem infinitamente superior, a trilha da segunda parte da saga é elevada a um nível bem superior por Ottman, que trata de criar uma unidade entre as músicas e estabelecer ligações entre música e personagens. Ele pegou o que Keman tinha feito precariamente em X-Jet e recriou o tema que podemos ouvir na abertura do filme, em algumas cenas de ação épicas e nos créditos finais (Na OST ela está óbvia nas faixas Main Titles, We’re Here to Stay, Life Goes On/The Lake e Suite From X2)

Além do tema principal, são 3 os destaques da trilha sonora de X2:

“White House Attack” é a trilha da estonteante cena inicial (que vem logo após a abertura/créditos iniciais) que é o ataque fantasticamente coreografado, filmado, montado, dirigido e editado à Casa Branca pelo Noturno. E aqui temos uma brincadeira no mínimo irônica do Ottman com uma das peças do Requiem de Mozart: Dies Irae. 

Além de ser uma peça enérgica e ser adequada para uma cena de ação, a letra do hino – que acredita-se ter sido escrita por Tomas de Celano e foi utilizada não só por Mozart como por Verdi e outros – traduzida do latim diz o seguinte:


Dia da Ira, aquele dia

Em que os séculos se desfarão em cinzas,
Testemunham 
David e Sibila!

Quanto terror é futuro,
quando o Juiz vier,
para julgar a todos irrestritamente!”


Humor refinadíssimo o do John Ottman, se levarmos em consideração o contexto?

Outro destaque da trilha é “Sneaky Mystique” que nem faz parte de uma cena realmente marcante (mas é ótima), porém ficou tão interessante que é um dos temas musicais mais recordáveis. Tanto que ganhou duas versões na deluxe edition da OST.


Por fim, temos o tema de Jean Gray, que na trama está em pleno processo de redescobrimento dos seus poderes – que parecem estar saindo de controle e aumentando. Quem é fã dos quadrinhos e dos desenhos logo entende que se trata de uma transição para que ela se transforme em Fênix. E Ottman foi muito eficiente ao compor o tema dela que sempre aparece nos momentos em que seus poderes se manifestam e cumprem um papel importantíssimo na cena final. Até por que se o tema musical não funcionasse, o efeito da ultima cena não seria o mesmo. O tema aparece principalmente em Storm’s Perfect Storm, Goodbye e Life Goes On/The Lake. E claro na Suite from X2.

Resumindo a trilha de X2 é muito superior à primeira, muito eficiente, adequada e bem mais empolgante do que o trabalho do Keman no primeiro filme. Tanto que ganhou uma edição com 2 discos que termina com um resumão ungido da trilha conhecido como “Suit from X2”.

Cotação: 4/5

X-Men – O Confronto Final
Mas é no capítulo final da trilogia que a trilha sonora alcança o seu ápice. O John Ottman fez um trabalho eficiente, mas seu xará, o John Powell fez algo muito mais grandioso e empolgante.

Se o 3º filme deixou a desejar enquanto conclusão da trilogia, sua trilha sonora acaba se tornando um dos destaques da produção.

Powell criou os temas mais memoráveis da série e evoluiu a música tema – que aqui aparece e reaparece muito mais vezes sem se tornar cansativa.

Aliás, ele mudou o tema sem quebrar a unidade. Ele pegou a mesma sequência de acordes do tema desenvolvido por Keman e Ottman, acrescentou algumas notas novas e novos arranjos e deu o toque que faltava para que ele chegasse ao ápice. 

O tema já aparece em uma de suas muitas formas na primeira faixa “20 years ago”, que acompanha a cena de abertura. Mas é na segunda faixa, correspondente aos créditos iniciais, que atende pelo nome de “Bathroom Titles” que ele toma forma e já gruda na cabeça. Infelizmente essa faixa na OST é diferente no filme. E a do filme é MUITO mais legal. Assista abaixo uma comparação entre as duas:



A música tema aparece em 90% das faixas da OST e algumas vezes é imperceptível a uma ouvida superficial, mas ajuda a estabelecer uma unidade “narrativa” sem cansar (Algo que acontece na trilha sonora do último filme da franquia lançado, “X-Men First Class” que tem um tema principal – Magneto - com muito potencial, que gruda na cabeça, é interessante e até empolga mas cansa rápido). 

Brigando tete-a-tete com o tema principal, está o tema da Fênix Negra. Potente, dramático e grandioso como a fama da personagem, ele aparece pela primeira vez em “Whirlpool of Love” e a cada vez que reaparece, a música vai crescendo gradativamente até chegar ao seu ápice (tanto narrativo quanto musical) em “Phoenix Rises”. Reparem como a estrutura das faixas “Dark Phoenix’s Tragedy” que faz par com “Farewell to X” se parece com a estrutura de “Phoenix Rises”. São dois momentos dramáticos, mas o último assume proporções gigantescas, onde a trilha sonora faz jus ao momento.


Aqui, a trilha funciona tão bem fora do filme que não cansa e as faixas se interligam de maneira muito óbvia. Tão óbvia que quem assistiu o filme repetidas vezes consegue rever as cenas através da trilha.


Tudo termina com a faixa “The Last Stand” que tem aqui a função de Suite, mas sem estar FORA do filme. É exatamente ela que ouvimos no final do filme e no inicio dos créditos finais, mas ela revisita tudo, fazendo questão de reafirmar todos os temas musicais e ainda nos arrebatar para o sentimento de Gran Finale (aliás a trilha é bem melhor nisso do que o roteiro, RS).

Cotação: 4,5/5

Enfim, Rá Hannibal adora X-Men, cansa-se da trilha do primeiro filme, curte muito a do segundo e simplesmente acha a do terceiro puro amor! Principalmente “Phoenix Rises”!

Eu e Meu Guarda-Chuva (2010)


Título Original: Eu e Meu Guarda-Chuva

Ano de Lançamento: 2010

Direção:  Toni Vanzolini

Roteiro: Adriana Falcão, Bernardo Guilherme, Marcelo Gonçalves

Elenco: Lucas Cotrim, Victor Froiman, Rafaela Victor, Daniel Dantas, Felipe Kannenberg, Paola Oliveira, Arnaldo Antunes, Leandro Hassum

Sinopse: Na última noite de férias, três amigos – Eugênio, sempre munido do guarda-chuva herdado do avô, Frida e Cebola – embarcam em uma aventura mágica ao visitar sua nova escola. Um barão, que deveria permanecer em um antigo quadro da parede, ganha vida e comprova sua fama de “terror dos alunos”. Salas e corredores viram o palco de uma fuga repleta de ação que leva a viagens a lugares desconhecidos e ao encontro com personagens inusitados e divertidos.

Por Ravenna Hannibal


Por que ver?


Um filme brasileiro infantil de aventura que flerta com a fantasia e não tem o Renato Aragão e nem a Xuxa. Já é motivo suficiente pra dar uma conferida.
Além de fugir das presepadas do Didi e da Xuxa, “Eu e Meu Guarda-Chuva” é um filme divertidinho, daqueles legais de se ver em família e tal. É claro que estou falando de famílias bonitinhas e normais... Isso não se aplica a nós, as irmãs Ravenna. Não me imagino sentadinha num sofá de luxo no nosso mausoléu ao lado da Tia e da Lady Rá assistindo esse negócio.
O visual é bem interessante, com uma fotografia muito bela quando necessário, e também quando o enredo pede, é sombria na medida certa – afinal, é uma história infantil, mas de assombração –,  bons efeitos visuais em varias cenas (alguns constrangedores em outras) e momentos sutis interessantíssimos. A cena em que o peixe sai do aquário, por exemplo, é emblemática, ao representar que o Eugênio havia entrado de novo em seu sonho – situação representada também pelo guarda-chuva de repente molhado.

É um filme MUITO infantil, inocente e em muitos momentos de uma ingenuidade divertida. E louco. Bem louco. Parece uma mistura estranha da versão infantil de A Origem, com Castelo Rá-Tim-Bum – O Filme e uma versão um pouquinho mais sóbria de Alice no País das Maravilhas. E é um filme que ilustra bem o sentimento das crianças nas vésperas do primeiro dia de aula. Há muitos pequenos elementos que causam identificação com o público infantil, objetos, os pesadelos em relação a novidades (nova escola, primeiro dia de aula, etc), paixonites da pré-adolescência, a vontade de ser um herói e salvar o dia, e todas essas coisinhas que são cliché, mas funcionam.

 Quem é velho e chato com cinema – como eu – não vai gostar dele, mas ele funciona MUITO bem para o público a que se propõe sem ser idiota demais. Em todo o tempo se percebe que a despeito de ser uma produção nacional voltada para um público infantil, a equipe cuidou para que tudo fosse feito com esmero. Maaaaaasss....



Por que não ver?


O primeiro motivo pra você passar longe disso é o elenco mirim. Eles são muito ruins. MESMO. O horror, o horror! Acho que não perdem nem para o quarteto de portas das Crônicas de Nárnia. Não há muito que dizer sobre o elenco adulto, afinal, com exceção de Daniel Dantas, a maioria é participação especial. Destaque para Arnaldo Antunes que surge muito inutilmente num papel divertido.
Mas além do elenco não funcionar, falta algo no filme. Algo que faça o público no geral – não só as crianças – se interessarem pela história e pelos personagens. Além da canastrice do elenco, a história não estabelece ligações convincentes entre os personagens – nem mesmo no casalzinho – exceto talvez na relação não muito palpável do Eugênio com o falecido avô, que é representada principalmente pelo objeto-título do filme.
Aliás, esse é um dos pontos negativos: Apesar de ser utilizado em momentos interessantes, o tal do Guarda-Chuva não é assim tão importante no enredo a ponto de estar no nome do filme. Não sei como funciona no livro e na peça de teatro, mas no filme não justifica.
A coreografia nas cenas de luta – e as cenas em si – é patética.
Não tem também algo que faça uma ligação plausível entre tudo o que acontece no decorrer da história, fato que talvez usem como justificativa o fato de que se trata de um sonho. Mas não temos explicações,  motivos... NADA! Por isso a comparação com Alice ali em cima.
Tem uma série infinda de defeitos que se fossem reparados, fariam o filme se elevar bastante como uma produção infantil.


Preste atenção:
Na fotografia principalmente, em algumas cenas belas e curiosas e em alguns trocadilhos e piadinhas que são divertidas.

Cotação: 1/5

É divertido, é infantil, é bonitinho, é bem filmado, mas tem um elenco de dar dó, um roteiro fraquíssimo e poderia ser melhor. MUITO MELHOR. Rá Hannibal deixa passar, mas não sem antes tirar um bife.

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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Monster - Desejo Assassino 2003 - (Monster - 2003)



Título Original: Monster
Ano de lançamento: 2003
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Patty Jenkins
Elenco: Charlize Theron, Christina Ricci, Bruce Dern
Sinopse: Vítima de abusos durante a infância, Aileen Wuornos (Charlize Theron) tornou-se prostituta ainda na adolescência. 
Ela está prestes a acabar com a própria vida quando conhece Selby (Christina Ricci), uma jovem lésbica com quem acaba se envolvendo. 
Certa noite, depois de ser agredida por um cliente, Aileen acaba matando o sujeito. 
O incidente desencadeia uma série de outros assassinatos, que faz com que ela fique conhecida como sendo a primeira serial killer dos Estados Unidos.





Por Jason

De cara, Monster - Desejo Assassino é uma paulada na consciência do espectador. Apesar da simplicidade do filme e da sua cara de telefilme, a atuação e a transformação física de uma deusa como Charlize Theron são tão assustadoras que a mulher engole a câmera, o roteiro, o cenário, a direção, o filme e os olhos do espectador com uma facilidade impressionante. É impossível não ver a Aileen de Charlize no filme e não  se assustar depois de ver uma foto da atriz com toda a sua beleza estonteante e glamour em uma campanha de moda. Charlize, relegada até então a coadjuvante de luxo e a mais uma dessas loiras de Hollywood que chegam e saem sem provar a que veio, se entrega completamente a um filme difícil, por vezes pesado, com uma personagem sofrida de personalidade complexa e maltratada pela vida.

Para o filme, Charlize engordou quinze quilos, atuou com uma pesada maquiagem para dar a sua pele um aspecto desgastado pelo sol, mudou sua voz, sua expressão facial e seus trejeitos. O resultado é que ela papou quase todos os prêmios aos quais concorreu (o IMDB cita 18 só para a atuação dela). Todos merecidos. Mas o talento da atriz não seria possível de se explorar se ela não tivesse em mãos o material de sua personagem: Aileen Wuornos.

Dando uma olhada na biografia da personagem, só podemos concluir que Aileen não viveu uma vida - ela simplesmente existiu no mundo. Filha de pais adolescentes, a mãe a abandonou com o irmão - que mais tarde morreria de câncer -, entregando-os aos avós. Seu pai era psicopata e se matou na prisão, seu avô a molestava sexualmente e ela engravidou do próprio irmão aos 14 anos, entregando seu filho para adoção. Aileen começou a se prostituir cedo, teve um casamento fracassado, e começou a cometer pequenos delitos; foi presa, pagou sua cota de culpa na prisão e voltou a se prostituir - até cruzar com Tyra Moore. 

No filme, Tyra virou Selby, e é interpretada por Cristina Ricci. No papel de Selby, Ricci, ignorada pelas premiações, tem aqui uma atuação madura e complexa. Ela dá perfeito suporte para Charlize e sua personagem é a válvula de escape para a vida miserável que Aileen teve até ali. Por não conhecer carinho, amor e atenção com os homens que tanto a maltrataram e a rejeitaram, Aileen começa a fantasiar com Selby uma vida, juntas, felizes, longe da prostituição e totalmente nova - mas completamente distante da sua realidade. 

Sem nunca ter um emprego fixo definido, sem currículo, se prostituindo pelo valor mais baixo que se tinha notícia, na beira das estradas e correndo risco de morte, ela não consegue nem trabalho e nem atender as exigências cada vez maiores da interesseira Selby. O ápice de toda a desgraça em sua vida vem quando Aileen é espancada, estuprada, e ameaçada de morte por um dos seus clientes (numa das cenas mais chocantes do filme). Ela consegue se livrar do agressor e o mata.

A partir daí, como se engendrasse sua vingança contra todos os homens da Terra, Aileen começa a matá-los, como se em suas mortes ela se realizasse, se aliviasse de toda a dor, e os fizessem pagar por toda as maldades pelas quais ela passou na vida. Mas Aileen não encontraria felicidade, amor ou paz de espírito e aqueles momentos passados com Selby nada mais foram do que situações passageiras. Quando a situação se complicou ainda mais para Aileen e ela fugiu do controle dos seus atos, foi a própria Selby que a entregou aos policiais. 

O melhor do filme é que ele não discute se Aileen foi culpada ou não pelos crimes e o roteiro não trata a produção como um filme de tribunal nem policial, se concentrando em apenas apresentar os fatos como eles são conhecidos, para que o espectador tire suas próprias conclusões. Ele condensa, de maneira até mesmo leve, a infância sofrida e a adolescência problemática da garota em um prólogo rápido. O foco é, assim, a destruição de uma vida adulta, cujo fracasso já estava solidificado na infância, no começo de tudo. 

Se há um pecado, é o do fato de o filme não ir um pouco mais além e não mostrar, por exemplo, que Aileen foi diagnosticada na prisão com transtorno de personalidade Borderline, uma doença mental causada por longa exposição a traumas e que faz seus portadores cometerem esforços frenéticos para se evitar um abandono, além de serem bastante impulsivos. Também não explora o fato de que a polícia usou a sua imagem para se promover, como Aileen representasse um troféu já que os casos de assassinatos atribuídos a ela eram explorados por sensacionalismo midiático.

No entanto, a Aileen do filme - e provavelmente a real - foi assim, um produto do meio em que ela viveu. Foi tratada pelos jornais e pela polícia como o "monstro" do título, que apenas a viam como uma prostituta assassina serial matadora de homens, o "resto social" - e os homens, claro, como vítimas, afinal, porque são homens, muitos deles casados (mas que deixavam suas esposas em casa e suas famílias para se entreterem com prostitutas baratas). Hipocrisia? A verdade mesmo é que Aileen já estava condenada à morte pela sociedade que deu as costas para ela, tratando-a como lixo, desde o momento em que ela nasceu. 

Cotação: 5/5

Obrigatório.

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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Incrível Hulk - 2008




Título Original: The Incridible Hulk
Ano: 2008
Direção: Louis Leterrier
Roteiro: Zak Peen, Edward Norton (não creditado)
Elenco: Edward Norton, Liv Tyler, Tim Roth, William Hurt, Tim Blake Nelson, Christina Cabot.
Sinopse: Vivendo escondido e longe de Betty Ross (Liv Tyler), a mulher que ama, o cientista Bruce Banner (Edward Norton) busca um meio de retirar a radiação gama que está em seu sangue. Ao mesmo tempo ele precisa fugir da perseguição do general Ross (William Hurt), seu grande inimigo, e da máquina militar que tenta capturá-lo, na intenção de explorar o poder que faz com que Banner se transforme no Hulk.

Por Lady Rá

O Hulk é um personagem complexo de difícil de se trabalhar e todas as suas adaptações para o cinema acabaram gerando polêmica. Depois de uma versão fracassada dirigida por Ang Lee em 2003, a Marvel tentou dar um novo gás ao Gigante Esmeralda nos cinemas, que não teve um grande retorno financeiro, mas foi alívio para aqueles que não aprovaram a versão de 2003 (e Lady Rá se inclui na lista). Aqui as origens do personagem são contadas através de flashbacks, dessa vez Bruce Banner (Edward Norton) e sua namorada Elizabeth Ross (Liv Tyler), enganados pelo General Ross (William Hurt) estavam trabalhando em um projeto para criar um soro para ajudar as Forças Armadas dos Estados Unidos. Banner testa o soro em si mesmo e é exposto à radiação gama, transformando-se em um monstro verde e agressivo. Quando Banner descobre a verdade sobre o projeto, ele passa a se esconder de todos.

Anos depois, Banner vive escondido em uma favela brasileira e trabalha em uma fábrica de refrigerantes, enquanto tenta descobrir a cura para seu “problema”. Devido a um incidente na fábrica, o General Ross (William Hurt) consegue descobrir seu esconderijo e passa a perseguí-lo. Toda a seqüência de ação que se passa no Brasil é um show a parte, talvez a melhor do filme. Primeiro com Bruce correndo pelos becos da favela, tentando se esconder e ao mesmo tempo tenta manter o controle emocional e não se transformar no Hulk. E quando finalmente se transforma, ele não é revelado rapidamente, o Hulk permanece oculto pelas sombras, enquanto é mostrado o pavor de seus perseguidores, o que cria um excelente clima de tensão e expectativa até que finalmente ele é revelado. É interessante ver que a princípio ele não “esmagar” ninguém, ele só que ser deixado em paz, e só fica muito agressivo, porque as pessoas insistem em perseguí-lo.

O longa consegue equilibrar a carga dramática do personagem, com as cenas de ação. O drama, aliás, graças a boa interpretação de Edward Norton como um sofrido Bruce Banner, que age como se carregasse uma maldição e quer desesperadamente se livrar dela e mesmo assim, consegue ter senso de humor. Mas o Hulk, feito em CGI também tem sua contribuição naquela cena fofa da caverna com a Betty Ross (só eu achei aquilo o cúmulo do bonitinho, gente? *-*). Porém, como nem tudo são flores, o filme tem pontos fracos, um deles é a interpretação apática de Liv Tyler no papel de Betty Ross e o fraco desenvolvimento dos vilões vividos por William Hurt e Tim Roth, o que não dá muitas chances para os atores se destacarem. E se o filme é bem conduzido em sua maior parte, ele acaba desandando um pouco no terceiro ato, que é um tanto apressado. Principalmente com relação ao surgimento do Abominável. 

Mas o filme cumpre bem o que se propõe, ser uma boa diversão e inserir o personagem naquele que viria a ser o mais ambicioso projeto da Marvel Studios. Além de explorar bem o drama do cientista Bruce Banner, sem cair no drama excessivo da versão de Ang Lee. É uma pena que o filme não tenha tido o sucesso esperado.

Cotação: 4/5

Eu adoro o Hulk dos Vingadores, mas também adoro a versão do Edward Norton. Porém ele foi entrar em atrito com a Marvel, e deu no que deu. Quem saiu ganhando foi o Mark Ruffalo, que caiu nas graças do público. De qualquer forma, gosto muito das duas versões. Já o Eric Bana eu prefiro esquecer. =)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Sem Limites - 2011 (Limitless - 2011)




Título Original: Limitless
Ano de lançamento: 2011
Direção: Neil Burger
Roteiro: Alan Glynn, Leslie Dixon
Elenco: Bradley Cooper, Robert De Niro, Abbie Cornish
Sinopse: Na trama, Bradley interpreta Eddie, um escritor desleixado que aceita a sugestão de um amigo e toma uma pílula super-potente: após ingerir o medicamento, em poucos minutos, as atividades cerebrais da pessoa aceleram de maneira surpreendente, fazendo com que a pessoa consiga usar praticamente 100% das atividades cerebrais. Metido a esperto, Eddie usa o “fortificante” para ganhar dinheiro e fama. Entretanto, um executivo veterano (interpretado por Robert De Niro) começa a perseguir o rapaz com o intuito de saber mais sobre a pílula.


Por Tia Rá

Quando tia Rá encasqueta com algo, olha gente... sei não...

Mas assim, por acaso eu me deparei com esse filme que não tinha intenção alguma de ver. Estava eu toda trabalhada na preguiça depois de uma semana toda trabalhando que nem condenada, quando no fim de semana decidi por fazer aquele download básico da produção em questão. Não me arrependi - amém - mas pela proposta do filme, esperava bem mais.

A ideia é boa: uma droga sintética que faz com que a pessoa use não os 20 por cento que vocês pobres mortais humanos usam - sou um alien -, mas os 100%. Só que, claro, se trata de uma droga, e a pessoa fica dependente dela. Quem para de tomar essa pílula do dia seguinte começa a sentir dores de cabeça terríveis, entra em coma e morre. Só que Eddie (Bradley Cooper), depois de quase ir pra o além por causa da droga, consegue manejar as doses certas e conviver com ela. FIM.

Até lá, no entanto, ele saiu da vida de escritor falido e fracassado, enriqueceu rapidamente, deu golpes, foi acusado de assassinatos, sofreu com os efeitos da droga - que cria lapsos de memória dos quais não se lembra -, se separou e voltou para a namorada (Abbie Cornish, de Sucker Punch, péssima), e deu o pulo do gato em Robert De Niro (ótimo). 

Mas cadê o drama disso? O_O

Bradley Cooper se esforça, mas é desinteressante em cena. O filme não tem drama. Tem uma ou outra sequência de correria, textos em OFF desnecessários que ditam o que você está vendo na tela e sugerem que o espectador é burro, efeitos especiais pontuais e uma montagem interessante - quando ele está drogado, ele consegue ver números, letras, ver coisas que não existem, pessoas semelhantes a ele de um lado para outro em lugares diferentes sem que ele se lembre, dentre outras coisas. É uma boa sacada da direção em otimizar o entendimento do que acontece no cérebro dopado de Eddie, sem dúvidas. A fotografia também é boa. Nota-se que quando Eddie usa a droga, o filme fica mais colorido e iluminado, como se representasse o efeito da pílula no corpo e na mente humana. Mas, nada salva o filme da ausência de drama. 

Vejamos:

Sua ex mulher tomou a pilula, ascendeu na carreira, mas quando percebeu já estava quase morta e perdeu tudo. E o drama? Nada dele.

Seu ex cunhado, um traficante, foi assassinado e ele estava lá por perto, sendo acusado do crime (cuja trama afunda repentinamente e deixa o espectador completamente zonzo). Nada de drama.

Foi acusado por se envolver com uma mulher enquanto estava drogado e não se lembrava e a mulher foi assassinada num hotel. Ok. Mas cadê o drama?

Sua namorada é perseguida por um capanga de um dos grandes da indústria, com o qual ele acaba negociando uma fortuna para a empresa de Robert De Niro. Para escapar, ela toma a pilula. E as consequências, onde estão? Numa conversa entre os dois personagens depois de uma noite juntos, na beira da cama? Cade o drama nisso?

Tipo, as coisas vão passando, se sucedendo, entra frame, sai frame, take após take, e o espectador é incapaz de se conectar com o personagem e com o filme. O relacionamento e a dinâmica entre Robert De Niro e Bradley Cooper é ótimo e rende as melhores partes do filme. Talvez a montagem tenha se esforçado em passar ao espectador o efeito da droga no corpo de Eddie, devido a rapidez como as coisas vão se sucedendo e é eficiente no sentido de passar a sensação de vertigem causada pela droga em diversos momentos. Mas quando termina o filme, não é só Eddie que está acabado, é o espectador que já está exausto de tudo aquilo. 

Melhor conseguir uma pílula daquela pra quem vai assistir o filme.

Cotação: 2/5

DOOOOOOOORRRRGGGAAASSS MANOOOOLOOOO!

TRAILER

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Recadinho do além túmulo - Dissertando sobre Prometheus (2012)


Revisitando Prometheus.

Bom, esta sessão é o nosso beco das considerações. Aqui nós falamos o que queremos sobre filmes, acontecimentos, bobagens e tudo mais - sem que ninguém venha pra cá encher a paciência.

Desta vez venho aqui para fazer algumas considerações sobre este filme que me deixou com a pulga atrás da orelha: Prometheus. Coisas que não percebi quando vi pela primeira vez, mas que, agora com o lançamento de DVD e Blu Ray, me possibilitaram ter uma maior visão e sugestões do que foi apresentado na tela. E, confesso, o filme funciona melhor numa revisita mais cuidadosa. Vamos ao que interessa?


Como diria minha irmã Lady Rá, senta que lá vem tese de doutorado.


Teorias...

Antes de começarmos, podemos concordar de imediato com algumas coisas: Prometheus pode ser visto como uma prequel da cinessérie Alien ou isoladamente como um filme totalmente novo. Na primeira, é fato que Prometheus não se compara ao já clássico Alien, o oitavo passageiro por uma série de motivos notáveis (basta assistir os dois filmes para saber). Na segunda opção, bem melhor, nota-se que Prometheus é um filme que impressiona em diversos sentidos e está ali, no alto, como uma das mais exóticas e brilhantes ficções dos últimos tempos por oferecer um interessante argumento e não apenas um filme com efeitos especiais, como muitos pensam. 

A começar pelo prólogo do filme que, por exemplo, resume bem o que será visto dali em diante. A ideia defendida por um dos personagens, David, de que "às vezes, para criar, é preciso primeiro destruir tudo" é revelada nas sequências iniciais. A simbologia do sacrifício como forma de gerar vida, tão presente na cinessérie alien também está aqui: o criador dos seres humanos, com sua pele de mármore, tal qual uma representação grega de um Deus, se sacrifica com uma reação química para dar origem a vida. 

Há quem diga que o planeta mostrado, o local do sacrifício desse começo, filmado brilhantemente por Scott - que salienta a geografia estranha e nos remete a vasos sanguíneos em planícies acidentadas como se fosse a pele do criador se desfazendo - seja a própria Terra em seus tempos remotos. Acontece que a vida, como demonstrado no filme, é capaz de brotar em qualquer lugar, desde que haja uma combinação de fatores: no caso, uma reação entre um líquido preto desconhecido com um material genético - ou uma simples espécie de estufa no meio de um planeta deserto. 

O roteiro do filme, habilidoso em gerar questionamentos, deixa margens para interpretações - e isso é ótimo porque não existe respostas para tudo e não há nada mastigado para o espectador. Primeiro porque não fica claro quem são os engenheiros, de onde eles vem e o que eles querem. São cientistas espaciais, certo, conhecedores de biologia e química, avançados tecnologicamente, que fundiram "máquina" a "genética" (eles usam trajes biomecânicos) e foram vistos no filme Alien, de 1979, pela primeira vez, na forma de fóssil. 


Prometheus sugere que estes engenheiros criaram os seres humanos não só no prólogo, mas pela descoberta de sua semelhança física com os seres humanos e sua codificação genética idêntica, como bem descobre a personagem Elisabeth Shaw. Porém, como questiona Shaw, o espectador também deseja saber quem os criou, porque eles criaram os seres humanos e porque depois de tanto tempo desejaram destruir. Seria uma questão de vaidade, para tentar impedir que a criação superasse o criador, ou apenas pela necessidade de se criar algo maior e mais complexo? Teriam os engenheiros se revoltado com a sua criação porque elas "pecaram" contra os criadores?


Há referências bíblicas e históricas dentro do filme que o espectador mais atento poderá perceber. A começar pelo sonho de Shaw, sobre a morte de sua mãe, sua conversa com seu pai. Os próprios engenheiros dormem em câmaras que lembram sarcófagos (seria a vida eterna que a humanidade crê desde os tempos remotos?) e um deles acorda dois mil anos depois (o que nos dá a ideia de que a nave partia para a Terra na Era de Cristo).  Em um mural, além da presença da figura de um "homem", há a de um alien como o cinema conhece, em uma espécie de crucificação. Teria a crença de ressurreição de Cristo passada aos homens nessa época pelos próprios engenheiros? Questionando mais além - seria Cristo um dos engenheiros, capturado e sacrificado por aqueles que ele ajudou a criar, o que despertaria a ira de seus companheiros? 


Existe mais a se perguntar. Quando os humanos chegam naquela espécie de pirâmide no meio do nada, descobrem uma série de objetos com líquidos dentro, uma câmara com uma cabeça em formato humano ao fundo (um dos cenários mais marcantes do filme e provavelmente da ficção). A câmara tem uma atmosfera de conserva, o que dá a entender que se trata de um laboratório gigante para experimentos científicos, uma vez que - percebam - a cabeça de um dos engenheiros morto muitos anos atrás se encontra em perfeito estado de conservação ali dentro. A diferença é que, como existe aquele líquido que pode formar uma nova vida, se usando de um DNA, há aqueles que podem simplesmente "recombinar" um DNA: o líquido preto é capaz de transformar um verme em uma serpente que regenera rapidamente sua cabeça, mas ao contato com o DNA humano masculino, ele acaba por transformar a pessoa em um tipo mutante, como se eliminasse completamente os vestígios de DNA humano. Com o feminino, ele gera uma vida estranha, dando a possibilidade de uma mulher estéril, como Shaw, engravidar. 

A presença dos humanos dentro da câmara que foi aberta altera a atmosfera, líquido começa a vazar, as paredes começam a mudar e, como um sistema de defesa, ela parece reagir produzindo uma tempestade de sílica no planeta. Por qual motivo? Isso traz recordações de outro filme de ficção: o mal fadado Missão Marte, quando, no momento de invasão de uma base marciana com o formato de um rosto, um furacão de poeira é formado para atacar os visitantes indesejados, como um inseticida. 

Da mesma forma, é interessante perceber como David, o andróide interpretado por Michael Fessbender, parece conhecer tudo antecipadamente, assim como o andróide Ash no filme de 1979. É ele que sabe que aquele não é o único ponto existente dentro do satélite LV 223 com naves como aquela do engenheiro, carregadas de ampolas cheias daquele líquido preto, o que deixa a entender também que os engenheiros montavam uma operação de limpeza planetária da qual os humanos eram as vítimas.

O filme também não explica porque a nave vista no começo do filme é diferente da vista durante o filme e pilotada pelo engenheiro. Teria a raça de engenheiros diferentes hierarquias dentro dela ou a mudança dos veículos representa uma evolução tecnológica? Há também uma mudança de satélite em relação ao filme de 1979, o que deixa uma sensação de que o filme não se conecta perfeitamente ao final com a série e não pode ser classificado como uma prequelEssas e outras questões e suposições garantem uma espécie de mitologia em torno do filme que deverá ser amplificada com uma continuação.


Técnica a serviço do filme


A parte técnica do filme é completamente soberba. Os efeitos especiais são impressionantes e, em momento nenhum, exagerados. Desde um holograma até a geografia do planeta, passando pela nave Prometheus, sua cabine cheia de imagens digitais, e as criaturas alienígenas, tudo é ultra perfeito e dentro do contexto apresentado pela trama. Não há excesso nem festivais de efeitos especiais. Scott mistura efeitos práticos, maquiagem e efeitos digitais para criar sequências assombrosas, como o encontro com uma serpente alienígena (premeditado momentos antes de maneira brilhante), o pouso da Prometheus ou a brilhante sequência que vai revelar a decolagem da nave de um dos chamados engenheiros - a criatura fossilizada encontrada pela tripulação da Nostromo no filme de 1979. Há ainda uma cena especial que já entrou para antologia do cinema: a bela cena em que David é envolto por um mapa estelar num dos compartimentos da nave alienígena e descobre que ela se dirige para a Terra. Não vamos citar a assombrosa sequência de impacto entre as duas naves e a cena do parto de Shaw que deixaria até a tenente Ellen Ripley, grávida de uma rainha alien, de cabelos em pé.

A direção de arte e cenários é outro trunfo do filme, um dos melhores se não o melhor do ano. Tudo é grandioso e ultra perfeito, desde o próprio planeta, filmado magistralmente por Scott, passando pelos compartimentos da Prometheus, todos maravilhosamente recriados em estúdio, até as cavernas onde a trama se desenrola. Os cenários, baseados na obra do design H R Giger, inspiram material orgânico, deformados, cheios de saliências. São um prato cheio para os olhos. O filme recria veículo e figurinos de maneira brilhante e são bem fotografados e filmados por Scott (repare na iluminação dos capacetes, em tom amarelado, fazendo contra ponto com a escuridão das cavernas). 

A fotografia e iluminação se alternam entre tons que vão do azul (como na cena de encontro entre Vickers e David), ao festival de cores da cabine da Prometheus, o breu das cavernas, o tom arenoso do planeta, o tom febril e frio do prólogo que entra em contraste com o vermelho quando a vida começa. É lindo ver a cabine da nave dos engenheiros ser iluminada por hologramas e Ridley salienta o contraste de tons de uma maneira maravilhosa. Até os efeitos sonoros são bem elaborados - Scott não salienta barulheira no momento de explosão das naves, para não tornar o filme barulhento como um Transformers. Todos eles são bem pontuados - repare no som feito pelos tentáculos da criatura ao agarrar o engenheiro, nos sons abafados das portas que se abrem dentro da Prometheus, os ruídos feitos pela serpente no meio do liquido preto ou o ácido corroendo o capacete e a pele de um dos personagens enquanto este grita. São sensíveis detalhes, que deixa o filme em um patamar superior.

Se o filme ainda cumpre muito bem sua função de apresentar uma trama dentro do universo criado pela série, o trio principal, Michael Fessbender, Noomi Rapace e Charlize Theron garante parte do êxito do entretenimento proporcionado pelo filme. Cabe a Charlize, no papel da fria Meredith Vickers, a função de vilã da trama, uma mulher interesseira, que não pensa duas vezes em visualizar o cargo ocupado pelo pai morto, pelo qual ela não demonstra nenhum amor e muito menos eliminar alguém de sua tripulação se isso comprometer a sua missão. Noomi Rapace defende perfeitamente sua complexa e Elisabeth Shaw, que tem parte de sua personalidade definida em um sonho, numa cena bem elaborada. Sem poder engravidar, Shaw recebe de David a notícia de que está carregando em seu ventre um feto e não hesita um só momento em retirar aquilo de sua barriga. Mesmo costurada, carrega seu terço no pescoço e vai atrás daquilo que acredita, custe o que custar. Michael Fassbender, por sua vez, no papel do androide de última geração David, carrega a maior ironia da trama: seu "pai", o dono da organização que financia o projeto, afirma que David não tem alma e não é humano. Ironicamente, David carrega sentimentos mesquinhos ou puramente humanos, como inveja, ciúmes, curiosidade e sarcasmo. É ele que inicia um processo de contaminação entre os tripulantes que vai levar a evolução da criatura como o cinema conheceu.

As sequências pós parto de Shaw foram criticadas por alguns críticos de cinema, pelo fato de Shaw fazer coisas que não caberia a uma mulher recém parida, mas não consigo ver isso como algo que comprometa o desenrolar da trama, uma vez que a cirurgia nela foi bem sucedida, ela não para de sentir dor até o final e se usa de injeções analgésicas ao ponto de ficar praticamente drogada. 

E os problemas...

Mas Prometheus peca. Se Noomi defende com unhas e dentes sua personagem, há aquela sombra que paira o tempo todo de Sigourney Weaver e sua tenente Ellen Ripley.

Existe, sim, o problema de montagem no último ato. O filme prepara um combate entre Shaw e o engenheiro sobrevivente da queda da nave. E simplesmente corta antes do tempo, como se tivesse faltado algo entre o momento do começo do conflito e o momento final. E, claro, não dá para passar em branco: as falhas do roteiro. O filme não explica qual o motivo do "filho" de Shaw ter se desenvolvido daquela forma, mas deixa supor que ele se alimentou de pessoas - há manchas de sangue na porta do módulo e, no momento após o parto, Shaw não pegou na porta mas no interruptor que a abriu. 

Há um excesso de personagens descabido no filme - o filme apresenta como população da nave 17 integrantes, mas a conta parece não bater. Se no primeiro filme da série todos os sete personagens eram bem delimitados em suas personalidades, o filme apresenta gente que entra e sai sem contribuir com nada, como se servisse apenas de material para morrer (sete personagens seriam suficientes). 


Um dos casos mais graves é o do capitão da nave. Se no filme de 1979, o Dallas de Tom Skerrit era um homem que confiava demais nos outros, não era capaz de questionar o oficial de ciências, não se importava com a segurança da tripulação permitindo a entrada de alguém contaminado dentro da nave, mas organiza o time quando a coisa aperta, o capitão Janek de Prometheus só terá função ao final (e, percebam, a função de sacrifício). Não ajuda em nada a presença dos personagens Filfield e o biólogo Millburn, uma desculpa esfarrapada do roteiro para colocá-los em uma enrascada e movimentar a trama, uma vez que o biólogo não serve para nada, notem (apenas para morrer), e Fifield entra na trama apenas para eliminar o excesso de contingente populacional da produção ao mostrar os efeitos um pouco mais avançados do contato do líquido preto com o DNA humano. O filme renderia muito bem sem eles.


Cotação: 4/5

Prometheus custou pouco mais de 100 milhões de dólares (parece mais caro) e arrecadou quase 400 milhões no mundo todo. Recentemente foi anunciado que uma continuação sairá em 2014 e o filme deixa uma brecha, não responde questões e alimenta outras mais complexas. Torço para que uma continuação corrija os erros apontados neste primeiro capítulo porque, como filme redondo e integrante da série Alien, Prometheus deixa a desejar, mas como ficção, num mundo de mesmice que habita o cinema hollywoodiano, se garante muito bem com nota máxima.

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