quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Alien 3 - 1992 - (Alien³ - 1992)



Título Original: Alien 3
Ano de lançamento: 1992
Direção: David Fincher
Roteiro: Dan O'Bannon, David Giler, Larry Ferguson, Ronald Shusett, Vincent Ward, Walter Hill
Elenco: Sigourney Weaver, Pete Postlethwaite, Lance Henriksen, Charles Dutton, Danny Webb 
Sinopse: A tenente Ripley (Sigourney Weaver) vai parar em um planeta que na verdade é uma colônia penal de segurança máxima, onde todos os internos são assassinos e estupradores. Lá não existem armas e é um lugar totalmente isolado do mundo civilizado. Dentro deste contexto, o alienígena volta a atacar, matando tudo que se move, mas com uma misteriosa diferença: ele não ataca a tenente Ripley.


Por Jason

Está aí um filme subestimado e que o tempo vem se encarregando de dar o cuidado que ele merece. Para todos os efeitos, Alien 3 é um filme estranho. É estranho na sua concepção, é estranho dentro da série. Há uma relação de amor e de ódio com o filme, perpetuada fazem vinte anos. Muitos afirmam que ele foi o responsável por iniciar o declínio da franquia nos cinemas. Eu, particularmente, apesar de reconhecer que muitas pessoas torcem o nariz para ele, tenho que discordar: é um filme inferior na sua composição aos antecessores, mas superior ao mal fadado Alien A ressurreição e se mantém como uma boa ficção cheia de simbologias interessantes. 



Como é de conhecimento dos fãs, o filme sofreu horrores para sair do papel. Houve conflitos entre o diretor e os produtores, que queriam um filme de uma forma enquanto David Fincher, em seu primeiro trabalho no cinema, queria fazer um trabalho mais autoral, assim como foi com Ridley Scott no primeiro e James Cameron no segundo. Aliás, vale ressaltar, que Fincher renega este filme como um filho bastardo, tratando-o como se fosse algo que ele não quisesse fazer, o que é uma grande bobagem e soa como falta de maturidade do diretor – uma vez que ele faria coisas piores do que esta na sua carreira e os produtores estavam temerosos em deixar já uma franquia de sucesso nas mãos de um diretor iniciante. 

O fato é que tantas mudanças no roteiro dessa continuação chegaram ao ápice de forçar o diretor e os atores a terminarem o roteiro durante as filmagens. Havia uma ideia, um roteiro e um diretor inicial, e tudo foi descartado de uma hora para outra pouco depois da produção começar. O estúdio, então com uma data de estreia marcada, de repente não tinha sequer atores e diretor para conduzir o projeto. Durante a produção, surgiram problemas com efeitos especiais, e esses problemas são visíveis no resultado final. O orçamento inicial estourou e o set de filmagem era um caos, com pressões do estúdio, que, sem o filme terminado, fazia divulgações maciças. Essa bagunça, com toda certeza, resultou em prejuízo para o filme como parte de um conjunto. 


O filme descarta os personagens deixados pelo filme anterior, o sucesso de ação “Aliens, o resgate”, o que gerou confusões por parte do ator Michael Biehn e os direitos sobre sua imagem. Alien³, contudo, sobrevive muitíssimo bem como uma visão sombria, pessimista e desconfortável do futuro do homem. 

Incompreendido, no filme, os humanos foram reduzidos a tipos de almas penadas, que vagam num verdadeiro inferno esperando por uma absolvição que nunca vem. Esse mote religioso é o tom mais forte do filme, pois Fincher filma o planeta Fiorina Fury 161 como um purgatório, onde todo mundo espera por um julgamento ou salvação: a tenente Ripley traz consigo, como o próprio Lúcifer expurgado do céu, uma espécie de anticristo, como anuncia um dos personagens após a sequência de morte no refeitório - "A ira de Deus, o dia do apocalipse"


O alien é visto, assim, pela seita cristã fundamentalista que se estabeleceu naquela prisão, como um demônio. Ripley é a mãe do monstro, mas igualmente é vista por Fincher como uma virgem Maria por ser a única pessoa capaz de salvá-los (operando um milagre), trazendo um anticristo como pena e castigo por ter sido violada e engravidado, embora não tenha tido propriamente relações sexuais (assim como a Virgem Maria, que concebeu o filho de Deus). É só reparar no começo do filme, em que alguns takes revelam a figura de Ripley envolta em um lençol como se estivesse em um sudário com mãos sobre o peito. 

Mas Fincher vai mais longe. Há takes reveladores da concepção complexa de Ripley, seja na cena em que ela abre os braços, pedindo para ser morta, ou quando se suicida ao final. Aqui, aliás, há outro destaque do sub texto do roteiro. Ripley ganhou uma chance ao despencar do céu, sobrevivendo a queda. Mas carrega uma vida que lhe matará e matará a todos ao redor (a vida do alien está ligada à morte de seu hospedeiro, sua "mãe"). Ou seja, é algo que pode ser visto mais recentemente em Prometheus, onde, em uma das subtramas, fica evidente que para existir a vida como a conhecemos é preciso deixar de existir algo - ou alguém, no caso, o "engenheiro". Por outro lado, o suicídio de Ripley não vem por livre arbítrio, por livre decisão, mas por necessidade e pela responsabilidade materna que ela carrega (a ideia de sacrifício e de crucificação que fica evidente no momento em que ela salta na fornalha de braços abertos). 


Há, no papel de um dos lunáticos, que se encanta pelo demônio - e na versão do diretor, acaba libertando-o depois que o alien é preso num depósito - uma crítica embutida a alienação religiosa, que torna as pessoas cegas. Há também uma mensagem, na forma de um míssil, para aqueles que acreditam que a religião é capaz de salvar qualquer pessoa, uma vez que, antes de serem religiosos, os presos são homens passíveis do pecado da carne e tentam estuprar Ripley, sendo domesticados pelo líder deles na base da porrada. Sexo, religião, violência se misturam para compor o painel da sociedade atual, disfarçada de futuro na trama.


A melhor parte do filme é sua direção de arte, encantadora. Fincher filma a prisão, como já citado, tal qual um purgatório. A escória da sociedade está lá, reduzida a um ninho de ratos, imundo, escuro, fétido, onde a tecnologia é rudimentar (ecos dos filmes anteriores) e nociva ao ser humano (o robô Bishop, de última geração, se tornou lixo e perdeu sua função). No lugar, não há armas, e, como os homens das cavernas, a principal fonte de luz vem do fogo. A fotografia, brilhante, salienta a sensação de pessimismo e desolação, ao alterar a coloração, ora azulada e morta, como na sequência do necrotério, ora escura, como na superfície do planeta, ora quente como o inferno, como nas caldeiras de fundição de metal do local ou febril, como nas cenas da enfermaria. Não há tons alegres, apenas opressores nesse esgoto enorme. 


Por fim, um nome: Sigourney Weaver. A atriz está para a série assim como  a própria criatura, entendendo Ripley e os motivos que a levam a tomar todas as decisões da personagem. Ao raspar a cabeça, Ripley está se equivalendo, naquele visual andrógino, a um homem. Como em Aliens, o resgate, ela precisa superar não apenas a si mesma mas também os homens do local, mesmo que isso represente abandonar a sua fé ou sua própria vida. Há, por trás disso, uma mulher, sensível - que chora ao saber que seu interesse amoroso do filme anterior está morto, que sua filha "adotiva" está morta, - mas durona, que não pensa duas vezes em examinar o corpo da criança com as próprias mãos e os próprios olhos para saber se a criatura veio ou não com ela. 

Há, no mais, os problemas. Se o prólogo é excelente (e é, do ponto de vista narrativo e de execução), seu epílogo é urgente demais e deixa uma sensação de que faltou algo. Há os personagens que não são bem desenvolvidos - o médico, o coordenador do local, o lunático. Há os buracos do roteiro, feito às pressas: na versão do diretor, Ripley não pariu a criatura enquanto cai na fornalha, uma vez que a coisa mata quem dá a luz a ela e seria impossível para Ripley segurá-la enquanto ela caía - mas esta foi a versão lançada nos cinemas. Há os problemas com os efeitos especiais, que mudam o tamanho da criatura constantemente e fazem feio em certos momentos em que é possível vê-lo como um boneco animatrônico em miniatura colocado em um fundo azul, algo impensável dentro da série que sempre trouxe efeitos de primeira de linha até então (os dois primeiros filmes foram agraciados com Oscar de efeitos especiais).

Fincher, apesar de dar ao filme um tom mais gore, com sangue em profusão, e de dar uma novidade a ela - o ponto de vista da criatura - também a expõe demais, revelando mais do que o necessário, uma vez que o mistério e o suspense da mesma está em não conhecer a sua verdadeira forma. Há a morte do agente "85", repentina no final e que soa descabida, como uma forma arranjada às pressas para tirá-lo de cena. Não ajuda em nada saber que um dos prisioneiros, Morse, ficou vivo e foi levado pela companhia. O período em que o alien fica encubado também é maior neste filme e não há uma explicação para isso - deduz-se que seja por se tratar de uma rainha, com uma incubação mais demorada. O filme também não explica como um ovo alien foi parar no veículo de emergência, uma vez que para isso ele teria que ser posto pela rainha ou carregado até lá por uma das criaturas (o que o desconecta com o final do segundo filme e deixa uma ponta solta).


Entre erros e acertos, Alien³ continua sendo filme acima da média no gênero atacado recentemente por um festival de mesmices e continua valendo uma visita. 

Cotação: 3,5/5

Sigourney Weaver criou a heroína definitiva de ação e ficção, que aqui rivaliza com o próprio vilão em importância para a série e é o retrato de personagem paradigmático, pelo qual talvez o cinema nunca encontre uma substituta a altura.


TRAILER


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