sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O planeta dos macacos - 1968 (The Planet of the Apes - 1968)

Título Original: The Planet of the Apes
Ano de lançamento: 1968
Direção: Franklin J. Schaffner
Roteiro: Michael Wilson, Pierre Boulle, Rod Serling
Elenco: Charlton Heston, Kim Hunter, Roddy McDowall
Sinopse: George Taylor (Charlton Heston), um astronauta americano, viaja por séculos em estado de hibernação. Ao acordar, ele e seus companheiros se vêem em um planeta dominado por macacos, no qual os humanos são tratados como escravos e nem mesmo tem o dom da fala.



Por Jason

Uma nave espacial lançada da Terra viaja à velocidade da luz com quatro tripulantes, que tentam provar que nessas condições o tempo passaria mais devagar para eles do que para quem ficou no planeta. Ao despertarem de uma hibernação induzida depois de uma viagem de 18 meses de seu tempo, o astronauta que comanda a missão, Taylor (Heston) comprova que na Terra já teriam se passado dois mil anos e que a teoria estava correta. Mas um acidente leva o aparelho a um planeta desconhecido e três tripulantes sobrevivem.

Esse começo de Planeta dos Macacos é, do ponto de vista narrativo, singular. Primeiro porque é impossível para o espectador que nunca viu o filme prever o que os tripulantes sobreviventes da nave encontrariam pela frente - daí parte do êxito do filme quando a revelação chega -, uma vez que o planeta parece um grande deserto desolado e sem vida. Segundo porque existe, para os sobreviventes, outro problema - o fato de que os suprimentos estão acabando e eles vão precisar de fonte de alimentação e de água se quiserem se manter vivos. Esse aspecto de filme de sobrevivência logo no começo dá ao filme um tom angustiante, salientado pelas paisagens desérticas e pela trilha sonora climática do já lendário Jerry Goldsmith. 

Depois de uma longa caminhada, eles finalmente encontram os nativos do planeta: seres humanos, que não possuem o dom da fala, vivem como seres primitivos, e são caçados violentamente como animais por... macacos (!). Nesse momento de fuga em que são atacados pelos símios, Taylor é ferido na garganta, fica incapaz de falar e começa a comer o pão que o diabo nem quis amassar.

Baseado no romance de Pierre Boulle, La planète des singes, Planeta dos Macacos deve ser revisto cuidadosamente porque está cheio de simbologias e analogias com a nossa sociedade - e o tempo se encarregou de o fazer uma ficção tematicamente perene que, se envelheceu do ponto técnico (seus efeitos especiais fazem feio hoje, uma vez que 2001 Uma odisseia no espaço, da mesma época, sobreviveu incrivelmente melhor nesse quesito), mantém a sua capacidade de encantar com a sua trama e sua crítica social amarga. 

O dom da fala, por exemplo, é justamente um dos trunfos evolutivos dos seres humanos. Foi o que possibilitou desvendar o mundo e fazer contato com outras comunidades, fazendo o ser humano avançar historicamente e em sociedade. Ao subtrair este dom no filme, Taylor é reduzido a um homem das cavernas, é levado para um laboratório, o da doutora Zira e seu noivo Cornelius, e tratado como uma experiência.

Ambos, Zira e Cornelius, aqui, com técnicas e estudos rudimentares tais quais os homens da Idade Média, tentam provar que os macacos são descendentes dos homens, teoria esta contrariada pelo Doutor Zaius, o eixo condutor que terá ligação direta com a sequência final na praia e nas escavações arqueológicas realizadas na chamada "região proibida". O jogo aqui passa a se inverter, numa das críticas sociais mais inteligentes e bacanas que o cinema de ficção já viu: de um lado, os animais dominantes e inteligentes, que possuem na violência o argumento do "controle" de sua população de escravos. Do outro, os homens, reduzidos a criaturas insignificantesinúteis, escravizados por uma sociedade rudimentar mas bem estruturada hierarquicamente (os mais fortes, os gorilas, fazem parte do exército, os chipanzés são os estudiosos, pesquisadores, como Zira e Cornelius, etc). E no meio disso tudo, está a figura de Taylor, representando o próprio espectador transportado do presente para esse futuro pessimista.  

Machucado, Taylor, que tem um dos parceiros lobotomizado, engendra sua fuga, com o apoio de Zira e Cornelius, e caminha para aquele que é um dos finais mais surpreendentes e festejados de todo o cinema. É justamente o que esconde a região proibida que dá ao filme o tom de sintonia com o seu tempo. 

Planeta dos Macacos nasceu em plena época de Guerra Fria, de desenvolvimento bélico e de corrida espacial. Basta lembrar que no começo da década em que foi realizado, os russos mandavam um homem para o espaço e anos depois, Neil Armstrong pisava na lua, sondas desciam em Vênus e Marte, o que fazia do filme algo que parecia tátil e realista. A década de 60 era a década em que se imaginavam conquistas espaciais, e as viagem interplanetárias pareciam mais sólidas uma vez que o homem era capaz de chegar ao espaço.  Martin Luther King brigava pelos direitos civis dos negros, havia a Guerra do Vietnã, embargos entre EUA e Cuba, as experiências com drogas, revolução sexual, o assassinato de John Kennedy e os protestos juvenis contra a ameaça de endurecimento dos governos. 

Planeta dos Macacos parece resumir tudo isso. É notável a analogia que o filme faz com os laboratórios existentes ainda hoje na indústria farmacêutica e de cosméticos, dentre outras, que testam seus produtos nos animais antes de lançarem no mercado, algo que ainda deixam os defensores dos animais de cabelos em pé - e que serviu de base, percebe-se, para o argumento da recente recriação desse universo ficcional em Planeta dos Macacos A origem de 2011. Fato, por sua vez, que mantém o filme ainda sintonizado com a atualidade porque nada mudou de lá pra cá. 

Há também os conflitos com o governo rígido e a cultura dos símios, representado na figura complexa de Zaius, numa alusão a busca dos direitos civis pela qual a sociedade cruzava na década de 60, bem como críticas aos prejuízos dados a sociedade pela censura, pelo poder alienativo e pelo fanatismo religioso - representado no culto cego ao símio Cesar e na figura de Zaius como se este fosse seu representante máximo. Há a figura submissa da mulher, um eco do que foi visto durante muito tempo na sociedade humana, representada na figura bela, mas muda, da coadjuvante e interesse amoroso de Taylor, um sinal de que ainda havia coisas no nosso mundo que precisavam ser mudadas. E o fim, claro, que serviria de sinal de alerta para o rumo que a humanidade estava tomando. 

Mais atual, impossível.

Cotação: 5/5

Um dos melhores filmes do gênero. Clássico obrigatório. 

TRAILER





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