quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O segredo de Brokeback Mountain - 2005 (Brokeback Mountain - 2005)



Título Original: Brokeback Mountain
Ano de lançamento: 2005
Direção: Ang Lee
Roteiro: Annie Proulx, Diana Ossana, Larry McMurtry
Elenco: Jack Gyllenhaal, Heath Ledger, Anne Hathaway, Michelle Williams
Sinopse: Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) são dois jovens que se conhecem no verão de 1963, após serem contratados para cuidar das ovelhas de Joe Aguirre (Randy Quaid) em Brokeback Mountain. Jack deseja ser cowboy e está trabalhando no local pelo 2º ano seguido, enquanto que Ennie pretende se casar com Alma (Michelle Williams) tão logo o verão acabe. Vivendo isolados por semanas, eles se tornam cada vez mais amigos e iniciam um relacionamento amoroso. Ao término do verão cada um segue sua vida, mas o período vivido naquele verão irá marcar suas vidas para sempre.



Por Tia Rá

Poucos filmes me fascinaram tanto quanto o vencedor de 3 Oscars, O segredo de Brokeback Mountain. Primeiro, pelo fato de ser um filme com temática difícil, mas tão bem conduzido que a abordagem dá a ele uma seriedade e ao mesmo tempo uma leveza e sensibilidade difíceis de se encontrar no cinema. Segundo pelo sucesso que alcançou, um feito histórico, e terceiro por ter perdido o Oscar de Melhor Filme para uma produção muitíssimo inferior (Crash-No limite, alguém se lembra?).

O filme começa mostrando a contratação dos cowboys Ennis e Jack para um trabalho na montanha Brokeback e o dia a dia deste trabalho frustrante, chato e sem nenhuma perspectiva, cuidando de ovelhas no alto da montanha gelada e reforçado por uma trilha bela e eficiente. A trama começa mesmo a embalar com quase trinta minutos de filme, quando os dois consolidam uma relação sexual que vinha se desenhando desde o primeiro momento em que os dois se viram antes de começar o trabalho. 

Não é uma cena fácil. Se todo o filme seguia até ali com suavidade, paisagens bonitas e a monotonia e degradação do trabalho, o sexo entre os dois vem de forma grotesca, abrutalhada, quase que como uma violência ou estupro, como uma paulada na consciência do espectador e uma injeção de ânimo e emoção naquela vida tão tediosa quanto a dos protagonistas. Na mesma proporção, é um momento triste, uma vez que momentos antes, Jack reclama de sua rotina infeliz no trabalho e dos sonhos que aspira, que nunca se realizariam. 

É a partir daqui que o filme de Ang Lee se encarregará de desenvolver maravilhosamente bem o impasse que nasce entre os dois cowboys. Se Ennis não sabe lidar com um sentimento que nunca conheceu na vida - seus pais morreram, foi criado por seus irmãos que o abandonaram para seguirem suas vidas, tornando-se emocionalmente distante - Jack precisa lidar com a falta de tato, rancor e amargura do parceiro. Ang Lee e o roteiro salientam isso de diversas formas - na forma como Ennis reage com revolta ao saber que precisam ir embora para retornar às suas pacatas vidas, na forma como agride Jack, ou quando desconta sua raiva na mãe de seus filhos.

Por outro lado, Lee filma a montanha como um lugar mais interessante, mais colorido, mais perigoso (o urso), mais aventureiro (a caça ao alce) do que a cidade completamente parada e quase unicor ou a vida frustrada, paralítica e massacrante de Ennis e seu casamento, que se complica com o nascimento dos filhos e as aspirações da mulher em tentar buscar seu espaço (representado na cena em que as crianças estão chorando e ela fazendo tarefas domésticas ou enquanto ela está trabalhando e precisa ficar com as crianças). Numa cena de sexo com a mulher, nota-se, Ennis tenta recriar o clima da montanha (apaga a luz e a vira do mesmo jeito que fez com Jack).  Do mesmo modo, Jack parece tentar disfarçar sua verdadeira sexualidade apresentando-se para a sociedade como um homem casado e pai de família, para tentar se livrar dos olhos da sociedade machista e preconceituosa - mas precisa enfrentar o insuportável sogro, que o odeia. 

No campo de atuação, o destaque fica por conta do falecido Heath Ledger. Ledger incorpora um homem completamente solitário, isolado sentimentalmente, amargurado, rancoroso, agressivo e que procura na mulher, e na sua vida, o próprio Jack e os momentos que teve com ele na montanha. Ambos, no entanto, sofrem pela vida que levam. Ambos possuem casamentos destinados ao fracasso e desmotivados - a única diversão de Jack e Laureen (Anne Hathaway) parece ser uma amiga falastrona (Anna Faris) e uma festa de baile convencional em que todos parecem ter a mesma cara e ouvirem a mesma música, no mesmo ritmo, sempre. 

Apesar de anos distantes, eles não se esqueceram um do outro e buscam a montanha como forma de aliviar toda a mágoa por serem quem são. Na tentativa de escaparem de suas vidas, Jack sonha com um canto para os dois, longe de tudo, onde poderiam se realizar como um casal convencional - e, nesse sentido, vale prestar atenção no epílogo, na conversa entre Ennis e Laureen (que deixa transparecer que ela descobriu algo) e no diálogo envolvendo Ennis e os pais de Jack (em que é revelado que Jack tinha planos de levar Ennis para lá mas, uma vez que não conseguiu, decidiu se separar e levar outro "amigo"). 

Se há problemas com a produção, ele está com relação ao desenvolvimento de outros personagens, como o interesse amoroso de Jack, que busca outro homem na tentativa de suprir a ausência de Ennis. Isso é apenas citado numa conversa com Ennis durante o encontro dos dois (ele cita que está traindo Laureen com uma mulher, mas o diálogo anteriormente depois do baile revela que o interesse é o marido dela). Há também o interesse amoroso de Ennis, que surge e some sem acrescentar muito a trama: há a tentativa do roteiro de mostrar como os dois estão seguindo com as suas vidas, é claro, mas a função dela é desnecessária. O personagem de Ennis já estava bem explorado e delimitado pelo roteiro e a reação pós divórcio do personagem já era muito bem caraterizada nos diálogos de Ennis com sua filha mais velha, na conversa com sua ex mulher em uma reunião de família que acaba em briga e no final, em que Ennis decidiu se isolar

Jake Gyllenhaal se garante como pode. Anne Hathaway não acrescenta como Laureen, embora não comprometa, e Michelle Williams se esforça para compor uma Alma sofrida pela vida que leva, pelo marido que tem e pela mágoa que carrega por saber da sexualidade do marido e não poder extravasar sua dor.

Contudo, Brokeback vem resistindo muito bem ao tempo e, prova da sua fórmula bem calibrada e eficiente, nenhum outro filme até agora, com a mesma temática, atingiu o seu sucesso novamente (o filme arrecadou quase 200 milhões de dólares no mundo, mais de dez vezes o seu custo). O final, com o close na fotografia da montanha, nos dá a mesma ideia que o personagem Ennis tem daquele lugar: Brokeback, a montanha,  está para Ennis assim como o filme está para o público. Inesquecível.

Cotação: 4/5 

Curioso perceber que Brokeback Mountain parecia sinalizar em sua época - década passada - outra visão de Hollywood e do público com a temática de romance homossexual no cinema, mais madura, séria e menos estereotipada, mas o tempo - e o preconceito? - se encarregaram de matar essa sensação. De qualquer modo, o filme foi um marco no cinema e vale uma revisita.

TRAILER

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