terça-feira, 18 de setembro de 2012

Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011)




Título Original: We Need to Talk About Kevin
Ano de lançamento: 2011
Direção: Lynne Ramsay
Roteiro: Lionel Shriver, Lynne Ramsay, Rory Kinnear
Elenco:
Alex Manette (Colin)
Ashley Gerasimovich (Celia)
Erin Maya Darke (Rose)
Ezra Miller (Kevin)
James Chen (Dr. Foulkes)
John C. Reilly (Franklin)
Joseph Melendez (Waiter)
Kimberley Drummond (Student 4)
Lauren Fox (Dr. Goldblatt)
Leslie Lyles (Smash Lady)
Paul Diomede (Al)
Siobhan Fallon (Wanda)
Tilda Swinton (Eva)
Todd Fredericks (Party Guest)

Sinopse: Eva (Tilda Swinton) mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida. O motivo disso vem de seu passado, quando vivia com seu marido Franklin (John C. Reilly) e seus dois filhos: Kevin (Jasper Newell/Ezra Miller) e Celia (Ashley Gerasimovich). Seu relacionamento com o primogênito, Kevin, sempre foi complicado, mas Eva jamais imaginaria o que ele seria capaz de fazer.


Para começo de conversa, o aviso: Precisamos falar sobre o Kevin não é um filme que ganha o espectador rapidamente. Não é um filme fácil, não é cômico, não é agradável. É um sufocante drama, denso, que começa de maneira confusa e até ganhar corpo e embalar, demora um pouco. É pesado mas não por ser apelativo - não espere sequências de choradeira ou dramalhões nem sangue em demasia - e sim um mergulho profundo na vida de uma mulher completamente destruída pela vida que ela gerou, desde o momento de sua concepção até o momento posterior a uma tragédia.

O filme, de maneira não linear, nos apresenta Eva (Tilda Swinton) uma mulher de aparência depressiva que acorda com a porta de sua casa completamente manchada. Somos levados a conhecer sua rápida paixão com Franklin (John C Reilly), que leva ao nascimento de Kevin. É a partir daqui que o roteiro deixa de ser um pouco confuso e passa a acompanhar o desenvolvimento de uma mente atormentada. Eva não consegue "ser mãe". Quando o filho chora, perde a paciência o tempo todo, chegando ao ponto de parar diante de uma construção com o carrinho de bebê para ouvir o barulho de uma britadeira ocultar o choro da criança. 


A criança cresce buscando atenção da mãe completamente deslocada em sua função, que fica evidente na sequência em que Eva cola os mapas nas paredes do seu quarto, relembrando dos tempos em que era livre para ir onde quisesse e que não tinha as responsabilidades de cuidar de uma criança - e o menino acaba com tudo. Nota-se também que, mesmo quando está um pouco maior, Kevin, bastante inteligente, demonstra certa rebeldia - como se já tivesse dentro dele uma pré disposição para ações destrutivas que a mãe não consegue controlar ou impedir - e continua defecando nas calças propositalmente, o que obriga Eva a viver em um martírio em função dele, limpando suas imundícies. 


O pai é completamente relapso. Enquanto Eva não sabe o que fazer para parar o choro do filho, exausta, por exemplo, o pai simplesmente ignora seus apelos para não acordá-lo. O pai é um facilitador, um alimentador para Kevin, já que não consegue ver maldade no filho e dá aquele o que ele quer. Ensina a jogar video game - os jogos são violentos -, a ter uma vida facilitada, enche o garoto de presentes não condizentes com a idade (o menino é presenteado com brinquedos agressivos como arco e flecha). Kevin não é de todo uma criança inocente - ele mente sobre o que aconteceu com o seu braço, quando na verdade foi Eva que o quebrou no auge da impaciência. 


Já grande, Eva tenta recuperar o tempo perdido com o filho e as tentativas de estabelecer um relacionamento melhor com o filho acabam falhando. Eva não consegue compreender o filho, seus anseios, continua sem conseguir SER mãe. O menino, além de distante sentimentalmente dela, é isolado de outras crianças. Não ajuda em nada o fato de Eva engravidar e parir outra criança, o que só provoca ainda mais crises de ciúmes no menino (além de cometer maldades com a irmã, ele acaba deixando-a cega). 


O que o filme nos revela é que uma tragédia da proporção que acontecerá no final do filme, martelada na cabeça já desequilibrada de Eva, nasce no seio familiar desestruturado. A família não era pobre, mas tanto Eva quanto Franklin não conseguiam exercer as funções de pais e perceberem que havia algo de errado com o filho, que, já um adolescente introspectivo e problemático, vai invadir a escola na qual estuda, matar com arco e flecha (dado de presente pelo pai) uma série de colegas e... se não viu o filme e não quiser saber o restante, volte daqui)... matar o próprio pai e a irmã do mesmo modo.


Essa transformação de Eva em uma pessoa que tinha uma vida feliz e livre para uma mãe desestruturada emocional, psicologicamente e por fim uma mulher, além de tudo, financeiramente acabada, dá a Tilda liberdade para construir uma personagem completamente real. Sua Eva culmina em uma mulher depressiva, que carrega a culpa dada a ela, mas que não esconde o fato de compreender que seu filho já tinha péssima índole - e que ela nada conseguiu fazer para controlar a situação (em determinado momento, ela sugere que ele tenha autismo quando pequeno). Com a força que emprega a seu personagem, Tilda simplesmente DESAPARECE debaixo dele, traduzindo todos os nuances, complexidade, todas as camadas de uma pessoa que sofre por não saber lidar com o filho - mesmo depois que ele vai preso, nota-se - e que a sociedade julga não ter o direito de ser odiado por sua mãe. É a mesma sociedade que a humilha publicamente, lhe parando na saída de um estabelecimento para lhe dar um tapa em sua cara, sendo xingada e assediada pelo colega daquele emprego sofrível enquanto ela tenta reconstruir sua vida e tenta lidar com sua culpa. 


No entanto, o filme peca pela falta de linearidade no começo que deixa o espectador um pouco confuso, mas retoma o rumo. Carece um tanto de ritmo, além de uma trilha sonora muitas vezes deslocada. Desnecessário também o roteiro apresentar a tragédia antes do tempo nas memórias de Eva, porque reduz o impacto final ao espectador, que se antecipa. O ator que faz Kevin adolescente também não consegue passar todo o problema do personagem e convencer tanto como a sua versão infantil (o ator mirim é ótimo e passa uma realidade incômoda e desconfortável enquanto está demonstrando ser uma criança mentalmente perturbada e interage com Tilda). John C Reilly faz o básico, atua corretamente e não se destaca. 


Com a atuação soberba de Tilda, porém, e a dimensão que ela dá a sua personagem, Precisamos falar sobre o Kevin funciona como um tapa na cara do espectador e, sem rodeios, como uma análise crítica eficiente sobre a educação familiar de uma geração de crianças que a todo momento aparece em noticiários de televisão - como autores de chocantes atrocidades - para satisfazerem seus egos e suas necessidades de afetividade e de se sentirem, assim, parte de uma família, parte de um mundo, de uma sociedade, parte de "algo". Como salienta o final excepcional e a conversa entre mãe e filho na prisão, alguns não conseguem, mesmo depois de tal evento trágico, se encontrar. 



Para ver e refletir.

Cotação: 4/5

Preste atenção: 

Na performance esmagadora de Tilda Swinton, que consegue passar toda dor e desequilíbrio de uma mulher completamente arrasada e catatônica sem derramar uma lágrima. 



No uso do vermelho em cena (na casa manchada, no carro, na festa do tomate, na cortina, na pichação realizada no quarto de Eva pelo menino e nas cenas desfocadas do acontecimento, além de um close no supermercado em que ela está cercada de latas vermelhas de extrato de tomate e roupas que os personagens usam) que parecem "contar uma história", como se revelassem que a vida de Eva já estava mergulhada em sangue muito tempo antes (não a toa, há closes em suas mãos sujas de vermelho enquanto limpa a casa ou na cena que descobre que há algo mais dentro da pia de casa). 



Numa cena em que Eva questiona a mudança de ambiente, da cidade grande, para um lugar mais arejado e afastado - e como ela parece tão deslocada quanto o menino naquela casa. Essa questão do espaço é representada de diversas formas no filme durante os encontros de Eva com o filho - desde pequeno, quando ele está diante dela e ela tenta brincar com ele, com uma bola; no carro, na mesa que separa o filho dela na prisão ou na mesa de um restaurante; no quarto dela e sua tentativa de deixar uma identidade no seu ambiente; é como se houvesse sempre um obstáculo para que os dois se aproximem - e note que isso só acontece no final, depois de um diálogo que revela mais do que aparenta. 



Preste atenção também na alteração de tons e ambientes usados no filme, primeiro para mostrar o ambiente enorme da casa, arejado e iluminado, e a casa dela depois da tragédia, escura, reclusa, suja e desarrumada.



Há também a questão sexual que permeia o filme desde o nascimento de Kevin. Há uma perda da atração entre os pais dele depois do nascimento do mesmo e o menino presencia uma cena de sexo oral dos pais. Mais tarde, Eva flagra o menino se masturbando no banheiro e o mesmo não se sente ofendido nem com vergonha daquilo. O próprio aspecto físico de Kevin denota androginia, com suas roupas apertadas, blusas curtas. Sem contar na parte do cd com vírus de PC, o que dá a entender que Kevin tinha também problemas com sexualidade, típica de personalidade psicopata.



TRAILER




5 comentários:

  1. Eu gostei da sua critica, mas acho que a atuação do Kevin adolescente foi boa e gostei muito da trilha sonora. E mesmo a tragedia sendo apresentada antes do tempo nas memórias de Eva eu ainda fiquei ansioso querendo saber o que realmente tinha acontecido e por que a Eva ainda sofria por aquilo.

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    Respostas
    1. Olá, Rodrigo!

      Obrigado pelo comentário!

      Olha, me surpreendi mesmo com o fato de Kevin ter feito aquilo com o pai. Para mim, foi a maior surpresa porque não esperava, já que ele demonstrava ter uma relação ótima com o mesmo - o que era tudo dissimulação.

      Enfim, gostem ou não, é um filme interessante. E Tilda Swinton, essa mulher arrasa! rsrs

      Abraços e obrigado mais uma vez,

      Tia Rá!

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    2. Acho que a trilha sonora é propositalmente incongruente com o que está acontecendo no filme

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