domingo, 23 de setembro de 2012

Rebecca, A Mulher Inesquecível (Rebecca – 1940)






Título Original: Rebecca
Ano de lançamento: 1940
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Robert E. Sherwood, Joan Harrison, adaptação por Philip McDonald e Michael Hogan, baseado em romance de Daphne DuMaurier
Elenco: Joan Fontaine, Laurence Olivier, Judith Anderson, George Anders, Gladys Cooper, Florence Bates
Sinopse: Uma jovem de origem humilde casa-se com um rico nobre inglês e acaba tendo que enfrentar o fantasma das memórias da sua esposa anterior, Rebecca, que parece estar presente em todos os lugares, mesmo após sua morte.

Por Ravenna Hannibal

Há uma relação de amor e ódio do público com filmes muito antigos. Muitos não gostam por estarem acostumados com o modo contemporâneo de fazer filmes. O outro lado da moeda são aqueles que idolatram qualquer coisa que tenha sido filmada antes dos anos 80. Você sabe que nós, as Ravennas, adoramos velharias. E eu, Rá Hannibal, particularmente adoro as velharias do Tio Alfie Hitchcock.
Apenas uma película do rabugento com cara de grão de bico conquistou o Oscar de Melhor Filme: Rebecca.
O filme foi baseado no romance de Daphne DuMaurier, que Hanni aqui leu e adora! E além de amar o livro, considera uma das adaptações mais difíceis da literatura para o cinema. Por que? O livro é denso, é psicológico, é feito de atmosfera e tem uma personagem título que está presente em todas as páginas sem aparecer em nenhum momento em carne e osso.
Quando li, fiquei pensando como raios alguém adaptaria uma trama assim. Hitchcock me respondeu bem satisfatoriamente a pergunta.
Do produtor David O. Selznick (do clássico E O Vento Levou), Rebecca é o primeiro filme norte-americano com direção do Alfred Hitchcock (filme, aliás, que nem é tão norte-americano assim).
O filme já se inicia com uma cena onírica que parece ao mesmo tempo ser de um romantismo nostálgico, mas que é sombria e misteriosa, apresentando o cenário que será palco dos acontecimentos mais importantes da trama.
Aliás, a belíssima mansão – Manderley – é mais que um cenário, é quase um personagem da história que cumpre um papel importantíssimo na construção dos personagens de carne e osso.
Logo após a instigante abertura, os personagens vão surgindo de forma gradativa e bem preparada. O início parece um belo e bem desenvolvido conto de fadas onde a mocinha pobre encontra um homem rico (e indecifrável) que se apaixona e casa com ela.  Acontece que ao casar-se com Maxim De Winter e mudar-se para a mansão onde ele morava, ela se depara com a maior adversária que poderia ter: Rebecca, a esposa anterior de De Winter. Isso seria comum se não fosse o fato de que Rebecca morrera fazia um ano, e ainda assim sua presença era constante. Para a jovem – que por força e genialidade narrativa nunca tem seu nome citado – mais do que constante, a presença de Rebecca era sufocante e até ameaçadora. Aliás, o contraste entre ela e Rebecca é ainda mais evidente por seu jeito de garota, insegura e desastrada. O filme é extremamente eficiente ao mostrar o quanto a nova vida dela a torna ainda mais insegura e a faz sentir-se acuada através dos cenários, figurinos, enquadramentos e, sobretudo a atuação de Joan Fontaine, que mesmo sendo uma belíssima mulher, consegue passar toda a insegurança e insignificância da personagem diante da sua predecessora. Dentro do roteiro e do visual tudo corrobora para essa sua imagem: As reações misteriosas do Maxim, a grandiosidade de Manderley, a quantidade de empregados e coisas que uma Sra. De Winter deveria fazer. E é claro: Rebecca.
Judith Anderson DIVA! Uma das cenas mais emblemáticas do filme.
A presença de Rebecca é justamente onde reside o maior mérito desse filme. A personagem título não aparece em carne e osso e fisionomia em nenhum momento do filme. Você não sabe como é o rosto dela, nem o corpo. Mas ela está lá, presente em cada pedaço de Manderley e na memória de todos que a conheceram. E é assim que ela se faz presente: nos comentários das pessoas, nos objetos onde suas iniciais estão bordadas, no olhar distante de Maxim. Ela está lá.
Mas ela está lá ainda mais presente por causa de Mrs. Danvers, a governanta da casa, interpretada brilhantemente por Judith Anderson.  A governanta de Manderley conhece muito melhor a casa do que a nova Sra. DeWinter, e por isso acaba tomando mais espaço ainda na trama, agindo como a mais forte indicação da presença de Rebecca. Mrs. Danvers é simplesmente obcecada, apaixonada por Rebecca. Ela idolatra a antiga patroa de uma maneira doentia. E faz questão de sempre lembrar isso da maneira mais sutil e sórdida possível à sua nova patroa, que parece sempre estar agindo como uma empregada ao invés de uma dama da alta sociedade.
Por trás dessa trupe de personagens e atuações fascinantes está a direção que é no mínimo eficiente ao estabelecer um clima de tensão crescente numa história onde, a grosso modo não acontece nada realmente além do âmbito psicológico (pelo menos até a certa altura do campeonato). Se no livro a presença de Rebecca é facilmente sentida pela narração em primeira pessoa, sempre subjetiva, aqui temos o uso de câmeras subjetivas, jogos de luz e sombra, enquadramentos e planos sequencia interessantíssimos que ajudam a manter Rebecca e a tensão que envolve o relacionamento dos recém-casados sempre presentes na tela. Em uma cena específica, enquanto Maxim descreve ações da esposa anterior, Hitchcock fez questão de criar uma sequencia genial onde a câmera acompanha todos os passos de Rebecca sem que ela realmente esteja em cena, e a impressão que temos é que ela está ali.
E essa é apenas uma das sequencias geniais que permeiam um roteiro bem amarrado e um enredo que, por mais que a principio pareça simples, se revela surpreendente por várias vezes em seu último ato e culmina com um desfecho de tirar o fôlego, acompanhado de feitos especiais muito bons para 1940.

Resumo da Ópera:
É bem verdade que a fotografia (que rendeu Oscar de Melhor Fotografia – Preto e Branco ao filme) e  a montagem poderiam ter sido bem mais eficientes para criar uma atmosfera mais densa e mais próxima ao que lemos no romance, mas isso não tira os méritos que o levaram ao Oscar de Melhor Filme. Rá Hannibal acha que Rebecca é diva, é amor, é paixão. Rebecca é um clássico obrigatório para quem curte Hitchcock e também o bom cinema. Agora, se você é daqueles que acham que Jogos Mortais é a expressão máxima da genialidade do suspense, passe longe.

Cotação: 5/5

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Oi, querido!
      Obrigado!
      Clássicos são tudo de bom!E é ótimo revisitá-los numa época onde o cinema anda saturado de adaptações, remakes, prequels e continuações.
      Volte sempre!
      Até mais!!

      Excluir

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