segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Dúvida - 2008 (Doubt - 2008)



Título Original: Doubt
Ano de lançamento: 2008
Direção: John Patrick Shanley
Roteiro: John Patrick Shanley
Elenco: Meryl Streep, Viola Davis, Amy Adams, Philip Seymour Hoffman
Sinopse: 1964. O carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) tenta acabar com os rígidos costumes da escola St. Nicholas, localizada no Bronx. A diretora do local é a irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), que acredita no poder do medo e da disciplina. A escola aceitou recentemente seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster), devido às mudanças políticas da época. Um dia a irmã James (Amy Adams) conta à diretora suas suspeitas sobre o padre Flynn, de que esteja dando atenção demais a Donald. É o suficiente para que a irmã Aloysius inicie uma cruzada moral contra o padre, tentando a qualquer custo expulsá-lo da escola.



Por Jason

Dúvida traz um tema perigoso - moral e religião -, mas bem desenvolvido, bem focado, com um roteiro bem elaborado e apoiado em performances arrebatadoras. Ele nos conta como um fato sugerido, do qual não se tem provas suficientes para atestar sua veracidade, pode trazer sérias consequências a todos os envolvidos, seja direta ou indiretamente.

No eixo da trama está um garoto, um coroinha, o primeiro negro a ser aceito numa escola religiosa, a St. Nicolas. A irmã James (Amy Adams), depois de perceber que o menino tinha ingerido álcool e ver o Padre Flynn (Hoffman) colocar a roupa do menino no armário do mesmo, deduz e suspeita que o padre pode estar aliciando sexualmente o garoto - embora, além de não ter certeza do que houve, não consiga sequer dialogar a respeito, apenas sugerir. Ela recorre a irmã Aloysius (Streep), que começa desesperadamente a traçar um plano para tirar o padre de lá, mesmo sem possuir qualquer prova que seja contra ele.

A direção, mesmo burocrática e sem arrojo, é eficiente ao transmitir o clima imposto pela irmã Aluysius ao ambiente: reparem no tom frio do jantar com a irmã e suas companheiras, no ambiente da escola sem vida e cheio de cores neutras, como se o lugar estivesse parado no tempo. Em contrapartida, o ambiente descontraído e mais iluminado do Padre Flynn onde os religiosos jogam conversa fora. Logo no começo ou nas cenas rodadas dentro da igreja, Flynn é filmado no altar sob luz, enquanto a irmã surge como uma ameaça no escuro, ao fundo do templo - uma ótima sacada do filme. E a direção é também eficaz no sentido de explorar toda a capacidade de atuação do seu elenco - e este, por sinal, é afiadíssimo. 

Amy Adams se encaixa bem como uma mulher ingênua, a irmã James, que aos poucos vai aprendendo com a superiora a ser rígida e desenvolver um senso mais apurado de proteção - até tomando uma postura mais radical dentro da sala de aula que ela comanda. Mas Adams é engolida pelos parceiros de cena (vide a cena em que discutem dentro da sala de Aluysus sobre o que aconteceu com o garoto negro). Phillip Seymour Hoffman dá seu show como o padre Flynn, um homem com clareza mental suficiente para perceber que os tempos mudaram - e a igreja tem que mudar - mas que esconde algo que deixa todo mundo em sua volta em dúvida sobre suas condutas, com a alegação de que precisa proteger o garoto. A grande dúvida do filme, é, aliás, se ele fala a verdade quando diz que não fez absolutamente nada com o garoto e tenta convencer as irmãs - e o espectador - de que não está mentindo. 

A entrada de Viola Davis, numa excelente performance de poucos minutos em cena, como a mãe que é capaz de compreender a natureza do filho e de fazer tudo para protegê-lo, até surpreendentemente aceitá-lo como ele é, traz mais fogo a discussão do tema central do filme. Num diálogo arrasador com a irmã Aluysius, a mãe demonstra uma tentativa de fugir de sua realidade à medida que ampara o filho (o pai espancava o menino) e imprensa a irmã na parede, fazendo-a questionar sobre sua própria conduta (a ter, no fim das contas, a dúvida). 

Mas o filme é mesmo mais um passeio de Meryl Streep, uma monstra. Meryl conduz o filme sem que praticamente deixe o espectador escapar o olhar dela. Ela dá a sua personagem todas as camadas de uma mulher repressiva e disciplinadora  que impõe medo para conseguir respeito, o que vai de encontro aos conceitos de educação oferecidos pelo padre e aos novos tempos (materializados, reparem, na figura compreensiva e exposta de Viola Davis). A irmã de Meryl é uma mulher que cisma com doce, com canetas, que penaliza os alunos, e justifica sua perseguição ao padre por sua experiência de vida - apenas seus conceitos morais que podem, ou não, estarem de acordo com o restante da sociedade mas que ela acredita serem absolutos. E torna-se, assim, obcecada em derrubar o padre, mentindo, manipulando, e usando de sua falta de apreço e empatia por ele, enquanto ele jura inocência no ocorrido e ao passo que o filme avança mais funda para deixar na dúvida o espectador sobre o que realmente aconteceu entre o padre e o coroinha.

Dúvida é um filme complexo, que traz a tira colo um subtexto que levanta reflexões sobre a postura, conduta religiosa e moral da Igreja. É filme de atuações, de atores de grosso calibre, com um ótimo roteiro e boa direção, e que sabe explorar o que tem de melhor. Não deve se esperar explicações e mais explicitações sobre o ocorrido. A verdade do filme e a solução para a reflexão central que o filme propõe está, ao seu final, na consciência de cada espectador.

Cotação: 5/5

Selo de qualidade O horror, o horror.

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