terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Trilhas Sonoras - Lincoln, de John Williams (2012)



Não vamos ficar aqui perdendo tempo para elogiar a carreira de um mestre como John Williams e sua quantidade absurda de indicações ao Oscar - todas merecidas sem contar aquelas trilhas sonoras que deveriam ser ao menos indicadas e foram ignoradas, né povo? 

John já é uma lenda inquestionável no cinema se você gosta de cinema e nunca ouviu falar nele, já pode correr pra ponte mais próxima e se jogar. Mas isso tem um lado bom e outro ruim. O bom é que muitas de suas trilhas viraram referências na história do cinema, trouxe um sabor pop para a música no cinema, aproximou gerações de amantes dessa arte, criou temas inesquecíveis (entre outros elogios que não cabem aqui nesse humilde recanto da internet). O ruim... o ruim é que você sempre espera a perfeição de alguém com o currículo dele e John, como todo mundo, é humano, né gente... e de vez em quando erra a mão faz umas cagadas que vou te contar...

A trilha de Lincoln é uma partitura bonitinha, fofinha, leve, mas é óbvia, boring e às vezes parece preguiçosa e confusa. A variedade de instrumentação - violino, trompete, clarinete, fagote, trompa, violoncelo e piano - tira a personalidade dela. 

Vamos ouvir faixa a faixa?

Ela abre bem com dois títulos "The peoples house" (em que incorpora flauta e clarinete) e "The porpuse of the amendment", que, embora não empolguem muito e sejam esquecíveis, são bem realizadas a segunda tem algum tema de "Cavalo de guerra" nela. O tom de rancho fundo bem pra lá do fim do mundo entra na chata música folclórica americana "Getting out the vote". Até aqui, não temos um tema vibrante como Williams costuma realizar, nem um tema definido para que a trilha se apoie, tal qual o score de O hobbit e Os vingadores, por exemplo, que sofrem do mesmo mal.

Pelo contrário, a trilha parece ter pelo menos quatro temas simples (repare que eles parecem divididos, por instrumentos, como piano, cordas, violino e flauta). John encaixa um piano perfeitamente em "The american process" e o corta com um instrumento de sopro desnecessariamente ecos de O resgate de Soldado Ryan?. Retoma o piano na bela, sensível e relaxante "The blue and grey". Um violino dramático entra em cena na lacrimejante dramalhona "With Malice Toward None", que, apesar de parecer ter saído de um melodrama mexicano ou da novela das 8, é bonita e umas melhores da trilha porque inspira uma certa nobreza para o score. Essa faixa será retomada apenas no piano na melhor da trilha, com o mesmo nome, a última canção. Esse instrumento também volta no último minuto em "The Southern Delegation and the Dream", um elemento tenebroso e estranho dentro do score.

Pule a horrível fanfarra da marcha militar de "Call to Muster and Battle Cry Of Freedom". A bela e rápida "Father and Son" traz uma mistura de instrumento de sopro com piano ao final. "The Race to the House" lembra música tradicional de uma época americana - a da Guerra Civil - e meio a banjo, viola e violino, como uma música folclórica típica (e chata). "Equality under the law" é uma faixa matadora, típica de John Williams e será capaz de dar lágrimas nos olhos uma vez ouvida com atenção. Ela começa com flauta, solene, incorpora outros instrumentos e sobe, terminando num espetáculo emocional - há um trecho dela que me lembrou Alan Silvestri em O naufrago - que é o que gostaríamos de ter em toda a trilha, afinal.

Mais uma vez, em "Freedom's Call", Williams mistura tudo, com cordas, clarinete, piano, num resultado bonito, mas longo além da conta, que traz consigo ecos de O patriota e O resgate do soldado Ryan, o que tira o brilho e a originalidade do score. Um trompete ouvido em The Southern Delegation and the Dream volta com uma corneta e cordas em um tom angustiante para "Elegy". De novo, Williams mistura instrumentos, em  "Remembering Willie", com notas de harpa, violino, dando espaço para um piano fúnebre. É uma faixa bonita, mas, outra vez, sem brilho, esquecível. "Appomattox, April 9, 1865", no piano, incorporando vocais fantasmagóricos, instrumentos de sopro e cordas, passa desapercebida (e soa deslocada, uma vez que não havia essa opção na trilha antes). A bela, "The Peterson house and finale" é um melodrama triunfante e  recupera todos os temas - mas em uma música longa e cansativa de 11 minutos que parece não ter fim. 

Cotação: 3/5

John Williams faz uma trilha bonita, relativamente compacta (são 16 faixas + 1 reprise com instrumental diferente, contra as mais de 25 de outras partituras que ouvimos este ano) mas que nunca é marcante (falta um tema arrebatador) e nunca parece original (há uma terrível sensação de que já se ouviu alguma faixa dela em outro filme que a permeia do começo ao fim). Deve ser indicada ao Oscar 2013, com seus méritos, mas o fato é que a mistura de instrumentos deixa o trabalho sem personalidade e o conjunto, irregular. Vale, contudo, pela beleza de algumas faixas como "Equality under the law", cujo último minuto é algo que só um mestre é capaz de fazer. Os fãs, como nós aqui do blog, no entanto, seguem fieis ao seu trabalho.

Abaixo os destaques da trilha (em negrito):

The People’s House (3:41)
The Purpose Of The Amendment (3:06)
Getting Out The Vote (2:48)
The American Process (3:56)
The Blue And Grey (2:59)
“With Malice Toward None” (1:50)
Call To Muster And Battle Cry Of Freedom (2:17)
The Southern Delegation And The Dream (4:43)
Father And Son (1:42)
The Race To The House (2:41)
Equality Under The Law (3:11)
Freedom’s Call (6:06)
Elegy (2:34)
Remembering Willie (1:51)
Appomattox, April 9, 1865 (2:36)
The Peterson House And Finale (11:00)
“With Malice Toward None” (Piano Solo) (1:31)


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