segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A hora mais escura - 2012 (Zero Dark Thirty - 2012)




Título Original: Zero Dark Thirty
Ano de lançamento: 2012
Direção: Kathryn Bigelow
Roteiro: Mark Boal
Elenco: Jessica Chastain, Joel Edgerton, James Gandolfini
Sinopse: O longa sobre a caçada ao terrorista, que circula com o nome Kill Bin Laden, já estava sendo escrito por Mark Boal, que antes de ser roteirista era repórter investigativo. Mark Boal tinha acesso às atividades do mesmo grupo de oficiais a quem coube matar Osama. Agora, depois da notícia da execução, o roteirista muda o final da história, com direito aos minutos de tiroteio que resultaram na morte do saudita. 


Por Jason

Tenho a impressão de estar diante de mais um desses filmes superestimados, que volta e meia aportam nos cinemas, a crítica baba e depois, quando você vê o filme, percebe que ele não era nada do que diziam e fica aquém daquilo que deveria ser. Ao menos foi essa a sensação que tive ao final deste filme.

O filme é bem dirigido por Bigelow, isso não se pode contestar. A diretora cria ao menos três sequências interessantes e tensas de toda a projeção: três ataques terroristas (Londres, um restaurante num hotel conhecido por ter americanos e uma base americana) que surgem de repente na tela e assustam o espectador. Bigelow tem mão boa para ação e tensão, e cria outra sequência boa, a da caça a Bin Laden, que dura quase a meia hora final e tem um show de montagem - e que, mesmo assim, tem seus pontos fracos (Bin Laden não é mostrado e a fotografia da cena é péssima, mas não há do que se queixar do que está detrás do vídeo movimentando a câmera nervosa pelos corredores mal iluminados do local onde o terrorista está). A recriação dos cenários é outro ponto alto do filme, bem como a edição de som e seus efeitos sonoros (repare na sequência de caça a Bin Laden, nas explosões das portas, na gritaria que se segue, nos tiros), setor bastante competente da produção. 

Mas o filme escorrega feio em vários outros quesitos, que a crítica passou a ignorar para dar lugar a polêmicas descabidas. A primeira meia hora se resume praticamente a uma sessão de tortura que empata o avanço da trama (quinze minutos seriam o bastante para sintetizar a situação, mas o roteiro mastiga a sequência até ficar chata). Nela, vemos um prisioneiro, que é torturado, defeca nas calças, quase morre afogado, é preso em uma caixa, espancado e toda uma série de humilhações até soltar informações a respeito da rede terrorista Al Qaeda (o ator que interpreta é bom). Ou seja, a sequência é importante para o roteiro - e a polêmica toda em torno do filme vem dela, uma vez que mostra os americanos torturando os presos para obterem informações, quando todo mundo sabe que isso aconteceu de verdade (menos os americanos, que são alienados, claro). O problema é a interminável duração dela e a falta de avanço na trama. Logo de cara vemos também que a escolha de Jessica Chastain para o filme soa inconveniente. 

Como a personagem revela em uma parte, que antecede um surpreendente e chocante atentado num hotel, a agente da CIA, Maya, feita por Jessica, não tem relacionamentos, nem amorosos, nem de amizade, é uma pessoa sozinha, focada apenas naquele trabalho. Essa personalidade do personagem deve se refletir, óbvio, não só em suas ações, mas em sua postura diante dos que o cercam e de sua caçada ao terrorista Bin Laden, através do desmantelo de sua rede. Só que Jessica não consegue sumir dentro do personagem, não consegue conquistar o espectador. Ela passa o tempo todo do filme fazendo a mesma cara de apatia (não sei se propositalmente foi uma opção do roteiro) e entende que sua personagem, por ser "ativa" na caça a Bin Laden não deve expressar-se sentimentalmente. Jessica me lembra uma Julia Roberts, ruiva, de cabelo liso, mais magra e sem carisma. 

Embora o personagem seja bem delimitado pelo roteiro, que cria um arco de mudança na sua postura (repare na forma como ela encara a tortura no começo e como depois ela praticamente tortura outros presos para obter informações; como ela não chora durante o filme, apenas no final - pura esquematização do script), Jessica falha em algumas cenas vitais - na do atentado, em que seu carro é metralhado, ela não consegue expressar pânico e desespero; ou na discussão com o chefe Joseph, em que percebe-se que ela decorou direitinho o texto, mas parece que não sabe onde se posicionar diante da câmera nem em como usar seu tom de voz contra ele (muito menos como usar suas expressões faciais). Percebe-se também que ela não é interessante quando o filme a tira de cena para mostrar a ação dos soldados - essa sim, muito mais importante - porque ninguém repara que ela sumiu e só voltará no final.

Há outras coisas mais graves. A já citada fotografia no momento de caça ao líder da Al Qaeda, que deixa o filme acovardado, uma vez que expôs toda a violência na primeira meia hora de tortura e ali, naquele momento, misteriosamente o filme tenta esconder (!); a divisão em espécies de capítulos faz o filme saltar épocas rapidamente, mudar de lugar freneticamente, quando sequer terminou de resolver uma situação anterior ou desenvolver personagens (a líder da operação antes de Maya (Jessica Chastain), interpretada por Jennifer Ehle, cuja ingenuidade a vitimou, é um exemplo de falta de desenvolvimento); a ausência de dramaticidade do roteiro (gente importante da operação morre mas ninguém chora ou discute ou lamenta mesmo depois de anos de convivência) e a superficialidade e banalidade com que trata outros personagens de apoio a Maya chegam a corar (conte o povo que entra e sai e você vai entender o que eu digo) - sem contar o personagem de James Gandolfini, que é um caso de desleixo a parte.

No mais, fica a sensação de que a indicação para melhor atriz ao Oscar não foi merecida e toda essa babação e polêmica em torno de um filme de resultado mediano é completamente desnecessária. Zero Dark Thirty, A hora mais escura, parece repetir a alienação coletiva de outro filme anterior de Bigelow, o fraco, superestimado - e completamente esquecível - Guerra ao terror.

Cotação: 2/5

Vale pela competência técnica e por alguns momentos bem pilotados por Bigelow, que entende de ação e tensão, mas é longo além da conta, falta uma performance arrebatadora da atriz principal que mereça a Indicação ao Oscar e o resultado final não é nada de excepcional como andam relatando por aí. 




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