domingo, 13 de janeiro de 2013

Lincoln - 2012


Título Original: Lincoln
Ano de lançamento: 2012
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Doris Kearns Goodwin, John Logan (I), Paul Webb, Tony Kushner
Elenco: Daniel Day Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon Levitt, David Strathairn, John Hawkes
Sinopse: O filme contará a vida do presidente americano Abraham Lincoln, o drama será centrado na condução do Norte à vitória na Guerra da Secessão. A trama, roteirizada pelo dramaturgo Tony Kushner, se baseia na biografia Team of Rivais: The Genius of Abraham Lincoln, escrita pela historiadora vencedora do Pulitzer Doris Kearns Goodwin.


Por Jason


Indicado a 12 Oscar (2013), tudo em Lincoln é um show de técnica e como filme, beira a perfeição. O filme é visualmente impecável: a direção de arte é tão detalhista que chega a chocar - repare nos detalhes das paredes das salas, salões, casas, com suas molduras, seus papéis de paredes, seus lustres, uma imagem aqui e ali, os móveis, etc. Toda a ambientação da câmara, da Casa Branca, etc, tudo impressiona. Seus figurinos são memoráveis, o roteiro beira a perfeição técnica, e o filme ainda atinge o ápice em outros setores, seja na maquiagem dos atores, nos penteados, ou em locações escolhidas para as filmagens (são poucas externas, mas todas excelentes). Não é um filme épico, não é um dramalhão para chorar, pelo contrário. É um filme de atuações, de elenco, de direção precisa e de roteiro politizado. A fotografia de Janusz Kaminski, tradicional colaborador dos filmes de Spielberg, é densa, sem ser escura demais, e ganha mais claridade perto do final, como se a direção quisesse mostrar que a nação norte americana tinha tirado o pé da lama e dado um passo grande na cura do câncer que a afligia por toda a sua história - a escravidão. 

E a escravidão é o tema que permeia o filme do começo ao fim. O roteiro, complexo, bem elaborado e consistente, é provavelmente o melhor do ano em todos os sentidos, porque dá a Spielberg a chance de explorar seu elenco assustadoramente perfeito e meter o dedo na ferida da história americana. Ele começa mostrando a Guerra Civil e os anseios daqueles soldados jovens que não querem estar ali e lutam por algo que não sabem realmente o que é (o verdadeiro e real sentido de ser livre) e avança com Lincoln tentando fazer valer a 13ª emenda constitucional, que daria fim a Guerra e traria liberdade para os negros. 

Lincoln, na pele de um desempenho sobrenatural de Daniel Day Lewis, não é endeusado como as pessoas podem pensar, muito menos um exemplo de pessoa. Era um pai ruim, distante dos filhos, e parecia não sentir a perda de um deles - além de um marido igualmente aquém do que pode se chamar de bom. Foi um homem que teve um pai áspero e ignorante, mas que tinha clareza suficiente para saber que todos são iguais independente de cor, de credo ou de religião. Lincoln era, na verdade, aquela pessoa que fez aquilo que ninguém queria - mas deveria - fazer. Foi seguindo esses princípios, os do pai, que Lincoln tentou - e conseguiu - consolidar essa 13ª emenda constitucional, dando liberdade aos negros de todo o país, penalizando a escravidão, e transformando a história de sua nação.

Como já citado, Daniel Day Lewis tem um desempenho soberbo e simplesmente desaparece na pele de Lincoln. É uma performance assustadora, dessas que o espectador fica com a boca aberta. Econômico nos movimentos, na voz, curvado, andando quase mancando, Day Lewis É Lincoln, com todas as nuances, detalhes e aparência possível. Mas sua performance estaria completamente solta se não tivesse a seu favor Sally Field, como a mulher um tanto neurótica que teme perder outro filho para a guerra e exige uma postura de pai de Lincoln, ao mesmo tempo que sofre pelo outro filho falecido e oscila psicologicamente - e perigosamente - até ameaçando os planos de Lincoln. Sally tem aqui sua oportunidade de mostrar seu talento sem nenhum momento apelativo ou de dramalhão, e na tela não teme a presença de Day Lewis em cena. Quando o filme encontra os dois, ele explode. O mesmo vale pela presença de Tommy Lee Jones, ótimo como um personagem que, ao final, revelará um segredo aos olhos do espectador. Outro que se destaca é David Strathairn, completamente ignorado nas críticas e pelo público, em um desempenho discreto e eficiente. 

A direção de Spielberg é um trunfo. Nas mãos de outra pessoa menos habilidosa, o filme ia virar uma caricatura ou um dramalhão pesado. Ele dirige o filme com a mesma maturidade que em A lista de Schindler. Spielberg não faz as pessoas chorarem, derramarem lágrimas a toa, não apela para patriotismos idiotas, e faz com que os espectadores entendam a situação complicada da nação - e, obviamente, se revoltem e se envergonhem, tal qual Lincoln. Ele manda um torpedo para a crítica, que já estava viciada em questionar suas atitudes como realizador e fazer piadas de sua capacidade como diretor. Quando Lincoln é assassinado - quem não conhece a história? -, Spielberg não está com sua câmera no momento do crime, mas em uma figura que representa o futuro daquela nação que ele queria ver livre do fantasma da escravidão (uma criança) e o discurso final vai de encontro ao visto momentos antes, deixando uma interrogação na cabeça do espectador: era essa a nação livre pela qual tanto lutaram? Era esse o país de paz pelo qual as pessoas almejaram? Nada mais ácido.

Mas, vamos aos pecados... Lincoln é um filme difícil. O roteiro é complexo e demora a engrenar. Não me incomodaria de ver as pessoas o chamando de chato - porque, em muitas vezes, pode ser. É lento, e tem montagem arrastada. A trilha sonora de John Williams é bonita e funcional, pontuada aqui e ali, quase imperceptível na verdade, mas sem destaque e sem brilho. Há um personagem que não se desenvolve no filme - é o de Joseph Gordon Levitt, que interpreta o filho de Lincoln, Robert Todd. O ator entra no filme e sai sem dizer a que veio. Há ainda a questão do tema: Lincoln trata de um tema universal com elegância, genialidade e respeito - o negro e a escravidão - e de um homem que mudou uma parte disso com uma atitude simples e dialogando, debatendo a respeito, usando de artimanhas políticas - mas é uma figura da história norte americana. Ou seja, é um pedaço de uma nação na tela que pode soar desinteressante, distante, para muitas pessoas.

Cotação: 4/5

Spielberg manda um míssil na cara da crítica e mostra que pode fazer um filme maduro sem uma gota de apelação. Extrai performances sobrenaturais do seu elenco e explora sua técnica ao máximo - e o filme merece todas as indicações ao Oscar que conseguiu. Mas Lincoln, no saldo final, é um filme lento, politizado, difícil, voltado para poucos apreciadores.


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