domingo, 20 de janeiro de 2013

O Gabinete do Dr. Caligari (Das Kabinett des Doktor Caligari, 1920)


Título Original: Das Kabinett des Doktor Caligari
Ano de lançamento: 1920
Direção: Robert Wienes
Roteiro: Carl Mayer, Hans Janowitz
Elenco: Conrad Veidt, Werner Krauss, Hans Heinrich von Twardowski, Lil Dagover, Friedrich Feher, Rudolf Lettinger
Sinopse: O clássico do expressionismo alemão acompanha a intrigante história de um certo Dr. Caligari que chega a uma cidade apresentando um estranho sonâmbulo chamado Cesare que diz estar dormindo a 23 anos e prevê o futuro, porém suas previsões são macabras demais e parecem se cumprir com perfeita exatidão.

Por Ravenna Hannibal

Todo mundo sabe que eu adoro um suspense, não é? ADOOORO serial killers também.
E estou aqui pra falar de um negócio muito antigo que é considerado por muitos um dos primórdios desse segmento.
E claro, um dos maiores e mais significativos exemplos do expressionismo alemão.
Se não houvesse título nesse post e você for um cinéfilo já saberia do que estou falando.

“O Gabinete do Dr. Caligari” é de 1920, e além de ser um ícone cinematográfico, é um sutil, porém incisivo, filme que em meio a toda  a sua realidade distorcida continha alegorias políticas com tom de crítica (algo inclusive que acarretou uma mudança no roteiro original que está diretamente ligada ao desfecho da história).

Veja bem, adoro diálogos bem construídos e tudo o mais, mas há algo que me encanta em filmes mudos: eles exigem muito mais das imagens e isso é uma virtude, visto que, querendo ou não, o cinema é uma arte visual.
Ou melhor, audiovisual! E não é por ser um filme mudo, que o som deixa a desejar. Um dos maiores trunfos do filme dirigido por Robert Wiene é a trilha sonora macabra, que juntamente com a fotografia típica do estilo, as atuações e o roteiro, forma um conjunto cinematográfico que é uma aula mais do que atual de como fazer um filme que seja fantástico, assustador e cheio de significado ao mesmo tempo.

É sempre delicado fazer um texto sobre um filme tão clássico, pois além de ser sempre difícil apontar defeitos em algo tão cultuado e tão diferente, ele já intocável pelos padrões e gostos do século XXI, mesmo que seja um filme que influencia até hoje o modo de fazer filmes. Temos enredos que usam recursos parecidos – quem já assistiu “O Gabinete do Dr. Caligari” e “A Ilha do Medo” sabe do que estou falando – e também estética influenciada por ele – Tim Burton parece beber com certa obviedade dessa fonte expressionista, compare os seus cenários distorcidos e a aparência de alguns dos seus personagens com a estranha, desproporcional e obscura cidade e o estranho, ambíguo, maquiado e sombrio Cesare.

Saindo da esfera e significação histórica do filme, temos o filme em si.
Temos uma história intrigante e que parece absurda por si mesma e pelos cenários e personagens improváveis. É perturbador o modo como é filmada, o modo como os cenários foram montados, como o elenco trabalha. Todas essas características inerentes do expressionismo alemão contribuem para uma atmosfera de contínua tensão.

O roteiro nos conduz por uma história que mesmo sendo improvável, intrigante e surpreendente é enxuto, não se deixa perder e se amarra muito bem. Aliás, se soluções parecidas foram usadas posteriormente em outros filmes pareceram forçadas e frustrantes, aqui o desenvolvimento do roteiro se permite surpreender-nos sem ficarmos frustrados por não ser o que esperávamos.
Mesmo dentro da atmosfera fantástica e até mesmo bizarra, é um filme verossímil.

“O Gabinete do Dr. Caligari” nos apresenta personagens que são fascinantes, cada um à sua maneira. Temos um protagonista apaixonado e sensível, que se importa com seu melhor amigo e preocupa-se com sua noiva, o que não o impede de ser esperto e corajoso em sua luta por justiça e ainda parecer lunático em primeira instância. Sua noiva é uma figura inusitada e mesmo não sendo uma personagem exatamente complexa, nos causa certo desconforto. O personagem-título é uma figura muito bem construída e assustadora, com seus olhos loucos e expressão permanente de quem sempre está tramando algo maligno. E temos Cesare, um personagem no mínimo curioso, que além de medo, desperta fascínio pelo seu estado e também pela sua personalidade. Sim! É um sonâmbulo de personalidade marcante, e ainda ambígua.

Esse desfile de personagens nos mergulha em seu mundo distorcido e diferente da realidade através de atuações primorosas para o que o cinema expressionista se propunha, um cenário surreal e instigante que ajuda a contar a história, uma direção mais do que eficiente em manter o espectador ligado, e um roteiro primoroso que mantém um crescente clima de suspense.

O final pode até ter tirado o significado crítico histórico do roteiro, mas com certeza é um desfecho surpreendente, bem colocado e ainda nos deixa uma ponta de ambiguidade mórbida que só torna o filme ainda mais genial.

Mas estamos falando de um filme clássico e mudo. Pra que melhor experiência do que assisti-lo? Se você curte cinema e ainda não viu, vá ver!

Cotação: 5/5

Um comentário:

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