segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Pra virar filme.... Ou não! - "Futuro Perfeito" - Parte 1



Por Tia Rá

Como citado no post anterior em sua introdução, Jason, e sua mente doentia, nos apresenta um mundo sombrio de realidade distorcida, metafórica e cheio de críticas, em que pessoas acima do peso são perseguidas e executadas numa cidade estourada de habitantes, cujo Estado é terrivelmente opressor. 

Na pequena trama, temos uma prostituta obesa Lila e a bela delegada Raquel. Lila foi capturada por não pagar taxas de ocupação espacial e está prestando seu depoimento diante da delegada dentro de um sala. Uma sala, duas pessoas diferentes, uma delas lhe falando como é a sua vida nesse futuro moralmente decadente. O resto, vocês deverão conferir logo abaixo. 

Mas atenção! Antes de prosseguir, vale ressaltar que o texto a seguir é proibido para menores de 18 anos por conter expressões de teor sexual e violência. Portanto, para os mais sensíveis, a hora de parar é aqui!

Beijos da Tia Rá e divirtam-se - ou não!



FUTURO PERFEITO
Por Jason
(Parte 1 de 3)

Seu nome de trabalho era Lila. Não se sabia o seu nome de nascimento. Lila não tinha nem registro. Não possuía documentos. Lila, para a polícia, não existia. O que se conhecia de Lila era o que ela contava.

Segundo ela, seu pai era um tarado por crianças. Sua mãe se juntou a ele quando tinha 15 anos — ele tinha 50 — e tiveram duas crianças. Era um pedófilo, maníaco sexual. Bebia muito, batia nela e ela o deixou. Mas sua mãe não queria os filhos. Lila e seu irmão foram adotados pelos avós maternos desde pequenos, que criaram as crianças como se fossem seus cachorros. Sua avó não era nada educada com eles: era viciada, em bebidas alcoólicas e analgésicos, agredia os meninos o tempo todo, com xingamentos, garrafadas e tapas. Ela costumava deixá-los de castigo dentro de um porão da casa, vivia irritada, neurótica e depressiva. Ao chegar em casa, bêbada, vomitava, urinava e defecava tudo, obrigando-os a limparem as suas imundícies. 

Aos seis anos, Lila começou a engordar descontroladamente. Ela comia de tudo, vivia ansiosa, mentalmente perturbada, e com problemas de insônia, o que a fazia passar noites em claro devorando o que estivesse pela frente. Já praticava sexo com o seu irmão, outra criança, desde essa época. Mas fazia questão de se preservar virgem, como ela mesma dizia, porque "só praticava sexo anal". Seu irmão morreria aos 19, por problemas com drogas.

Aos 12 anos, já obesa, seu avô começou a abusá-la não só moralmente como sexualmente. Ele usava do fato de ela ser gorda para demonstrar o quanto Lila seria desprezada pelas pessoas e ninguém, além dele, ia querê-la. No início, Lila não queria, pois, segundo ela, sentia nojo e uma dor inexplicável. Depois das inúmeras investidas do velho em tentar se relacionar sexualmente com a menina, acabou cedendo e aceitando — desde que ele só fizesse sexo anal, como ela relatava. 

— Ele tomava remédio para me comer — dizia, com uma naturalidade assombrosa. — Não queria perder a virgindade com aquele velho asqueroso e doente... Mas ele me ensinou os prazeres do sexo... Trepar me fazia bem. Eu me sentia viva trepando... Queria ser enrabada. Você não é mulher, se você não der a sua bunda para um macho do cacete grande, você me entende, minha filha?

Aos 14 anos, Lila ficou grávida. Mas não quis o bebê e fez um aborto. Ao ser questionada, se sentia arrependimento do que fez, Lila, abrutalhada, foi enfática: 

— Eu me lembro de ter me arrependido, não por ter matado aquela praga que nascia dentro de mim, mas porque a dor tinha sido muito grande... Eles destroçaram aquele verme dentro de minha barriga e arrancaram todos os pedaços daquela coisa, como se eu estivesse parindo biscoitos de carne, um a um... Nunca soube se era menina ou menino... Pouco importa... Eu não queria aquele demônio dentro de mim. Era de um homem que nem lembro o nome e nem lembro dele, na verdade. Eu ainda nem sei o nome dele. Eu perdi a virgindade com ele. Foi o que aconteceu.

Aos 15, decidiu ir para o chão da cidade, vender o corpo e ganhar uma grana para ter o que quisesse. Sobre esse início de carreira no mundo da prostituição, Lila explicava: — Era difícil vender um corpo como o meu. Eu tinha que disputar meu espaço com meninas magras, raquíticas, de aparência anêmica. Os homens só queriam as magras. Elas eram fáceis de mexerem na cama. 

Ela tinha perdido parte da audição, do ouvido direito, ao ser agredida por um cliente, em um programa rotineiro. Quando falavam com ela, tinha o hábito de se inclinar com a cabeça, do lado esquerdo, para ouvir melhor. 

Lila era fruto natural de uma grande cidade, em que mulheres anoréxicas apareciam em grandes e belos painéis, xingando, ofendendo e humilhando de todas as formas, mulheres “fisicamente deformadas” — este era o termo usado para designar na época — como ela. Uma grande cidade em que, ao sair na rua, era apedrejada, literalmente, por ser enorme e feia. Uma grande cidade que não tolerava pessoas como ela, em prol da busca da perfeição. Pessoas que buscavam a perfeição, mas que ainda assim eram visualmente e fisicamente imperfeitas, horríveis. 

Mulheres e homens como Lila viviam escondidos — muitas moravam nos esgotos e em bueiros. Na ânsia de emagrecerem, e se enquadrarem nos padrões moldados pela sociedade, tornavam-se neuróticas, depressivas, viciadas em remédios, doentes mentais e suicidas. 

Lila era o nada. Era a escória. Era ninguém.

— Eu me lembro do medo que tinha de ir às ruas, pois nas ruas estavam pessoas magras, famintas, esturricadas e por isso, elas eram todas belas... Todas lindas... — contava, com clareza surpreendente, no entanto. — E eu... gorda. Como um monstro. Cheia de gordura... Gorda. Os braços carnudos, a barriga grande... a bunda cheia de furos. Mas eu não estava nem aí... quando um homem passava e dizia: “Olha pra esse monstro”, eu dizia: “ eu sou um monstro também na cama" e cobrava mais barato do que as outras... coisas do tipoE assim, eu ia conseguindo os meus clientes e transando com eles. Recebendo um trocado ali e outro acolá. Eu desafiava os clientes a treparem comigo. Eu tinha que fazer meu nome. 

Condenadas a viverem dentro de seus lares, a maioria das mulheres como ela engordavam, e engordavam até pesarem mais de meia tonelada, até morrerem de tanto comer. Pagavam para ter sexo, pagavam para viver, pagavam mais para se vestirem ou pagavam mais que o restante da população para se moverem, pois ocupavam — segundo as leis vigentes — espaço demais nos transportes públicos, espaço demais em uma calçada, espaço demais em uma rua. 

— A gente acaba excluída da sociedade, na forma de lixo, caçada como se fosse demônio ou bruxa. Eu não tinha como escapar do meu destino. Eu tentei proteger minha vagina dos males dos homens, sabe... mas no final, não dá para negar a sua natureza. Acho que ser prostituta é uma arte, é pra poucos. Você não se envolve, usa seu corpo para dar prazer. Seu corpo é apenas uma carcaça, uma capa. Não tem valor algum. Eles usam, chupam, lambem, comem e descartam. Você se lava, se recicla, para que outros façam a mesma coisa. Ou seja, somos tudo lixo.
   
Agora Lila estava ali, diante de uma mulher que era um exemplo de beleza aos olhos da sociedade. Raquel.

Raquel trabalhava como delegada de uma divisão especial da polícia da cidade. Ela era responsável por prender pessoas especiais a mando do governo. Curiosamente, as pessoas que ela era responsável por algemar eram justamente obesas, como Lila, que estavam com as taxas ocupacionais atrasadas. Em geral, a ordem para quem resistia à prisão era a de execução. Lila não resistira à prisão e decidira colaborar, com o que fosse necessário. Aquele não era o seu primeiro interrogatório diante da polícia e, provavelmente, não seria o último também.

O contraste diante de Raquel era absurdo. Raquel, magra, alta e esbelta. O corpo fazia curvas generosas e excitantes, em uma roupa com textura de tecido emborrachado preto. As pernas, longas e envolvidas em meias pretas, subiam até a barra da saia da mesma cor, nos joelhos. O busto, não menos generoso, mostrava a pele alva descoberta num decote suave. Seu pescoço era delicado como seda. O rosto de menina, e a boca cheia, carnuda.

Era ruiva, com cabelos de fios ondulados esparramados sobre os ombros. E de olhos claros, radiantes. O sorriso chegava a ser assustador de tão perfeito: tinha todos os dentes, brancos, alinhados, nenhum doente. Os pés, calçados em caros sapatos pretos de agulhas finíssimas. Sua expressão não tinha nenhuma ruga. Raquel era o símbolo extremo de mulher nascida no topo da cidade, com tudo ao seu dispor desde a melhor educação, melhor estilo de vida, até inteligência acima da média. Lila se referia a Raquel como um produto perfeito, de última geração, de alta qualidade aos olhos do mundo. 

— Se você fosse puta, os homens pagariam o que não tinham para ter você. Todos os homens do planeta aos seus pés. Tudo o que os homens querem é um produto perfeito como você.

Lila, no entanto, era gorda, feia, de estatura baixa, dentes feios, mal vestida. A barriga, além de enorme, depositava massas de gordura sobre os quadris e fazia com que sua coluna curvasse para frente e para trás — tentando equilibrar aquele peso todo, mesmo quando estava sentada. Lila falava arfando como um cão, enquanto seu pescoço flácido e gordo vibrava. Gesticulava muito, com um jeito de se expressar afoito, mexendo os braços e as mãos continuamente. 

O nariz era grande, cheio de cravos e espinhas. Os seios eram flácidos e grandes. A pele estava castigada pela poluição, manchada com placas escuras e feridas; os cabelos maltratados, como de todos que trabalhavam expostos ao clima áspero da cidade, tinham cor indefinida, entre o preto e o loiro. Ela também apresentava marcas de violência sexual, como registrado nos exames posteriores à prisão.

Se havia um mundo de distância entre as duas, o que as separava fisicamente, naquele momento, era apenas uma mesa retangular feita de mármore. Raquel sentada de um lado dela, em seu asséptico e organizado gabinete, e Lila do outro lado, com as mãos amarradas em desconfortáveis algemas e os pés presos em correntes. Uma câmera atrás de Raquel, armada em um tripé, gravava tudo o que Lila dizia, suas expressões, os seus gestos, com a desculpa de que isso fosse usado num tribunal de acusação a favor ou contra ela. Sim, Lila seria condenada — e executada — por ser gorda, caso não pagasse o que devia ao Estado e emagrecesse. Esse era o preço que as pessoas como ela pagavam.

  — Eu era gorda e feia, mas cobrava barato e não tinha frescuras. No sexo, sempre me vali de tudo, sempre fui fogosa e safada na cama... Eu tenho sangue de vagabunda nas minhas veias. As outras meninas não. Elas não queriam fazer orgias, elas não queriam ser enrabadas, não queriam agir como um animal e tinham medo de dupla penetração anal... Elas não queriam transar com robôs, com androides. Androides eram frios. Rápidos. Não gozavam, não se preocupavam com o nosso prazer. Eles faziam várias vezes seguidas, sabe? Mas pareciam nunca satisfeitos. Eu não gostava de trepar com eles, mas quando se trabalha em um ramo assim, não importa como você aja, você tem que agradar o cliente. Sempre agradar o cliente, para ter o dinheiro, se não, você não come — disparava ela. — O dinheiro é pouco. Você tem que fazer o que for preciso se não, já era.



Fim da parte 1
 

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