terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Pra virar filme... Ou não! - "Futuro Perfeito" - Parte 2


Por Tia Rá

Tia Rá já conseguiu identificar uma grande metáfora sobre o futuro da nossa sociedade, nessa conversa entre dois personagens produzida pelo nosso Jason. Crítica à beleza e a exploração de corpos sarados, belos, ou magros e raquíticos como o das modelos que desfilam roupas caras - mas que parecem portas de tão esquálidas  né gente? 

Há uma ideia também de banalização sexual e a distorção de ideais de beleza. Dado o nosso presente, em que mulheres lindas se matam de tanto vomitarem para chegarem à uma beleza inexistente e homens se matam em academias com tanta substância química proibida e nociva, suspeito que esse seja o destino da nossa sociedade mesmo. O "Futuro Perfeito" do título. Mas... É esse o futuro que a gente quer ter? Creio que não.

Abaixo, a parte 2 de 3. Acompanhem esse tema interessante e pesado. A parte 3 já foi enviada pelo Jason para nós e sairá aqui amanhã, neste mesmo Bat-canal, neste mesmo Bat-horário! Lembrando que isso é só o começo, temos uma lista de temas e textos ainda, um deles deve agradar em cheio a você leitor!

Bjs suculentos da Tia Rá e divirtam-se! Ou não...



FUTURO PERFEITO
Por Jason
(Parte 2 de 3)


Lila dormia na rua, em motéis de quinta categoria, bebia e se atolava de comida sempre que podia. Comida, comida e mais comida. Comer para ela era tão ou mais prazeroso do que se relacionar sexualmente, com muitos homens ao mesmo tempo. 

— Às vezes, eu gastava todo o dinheiro de uma noite de programas com hambúrgueres cheios de ketchup, mostardas e maioneses. Aqueles lanches de andares de altura, deliciosos e cheios de coisas gordurosas como bacons e calabresas.

Às vezes, ela se vendia por belo um prato de comida. Às vezes, dormia com um homem, e acordava, com outros ao seu lado, bêbada, sem sequer lembrar-se de como eles tinham aparecido ali. Às vezes, deitava-se em um lado da cidade, e acordava em um carro do outro lado dela. Às vezes, sua compulsão por comida era tamanha que ela comia enquanto estava transando com algum cliente.

— Eu abria as minhas pernas enquanto eles me comiam e eu saboreava um delicioso pedaço de pizza ou uma enorme torta de chocolate. Alguns cuspiam em mim e me chamavam de porca e de imunda, não só porque eu sou gorda... mas porque gosto de me lambuzar com chocolate e ser chupada dessa forma.

Dormia nas estradas, com os caminhoneiros.

  — Caminhoneiros são os piores homens que existem. São piores do que robôs. Eles tratam as mulheres como se fossem buracos sem vida, minha filha... Eles não querem saber se está doendo, se você não vai aguentar. Eles não beijam na boca, não... Eles só querem vadiar e espalhar doenças. Das estradas para as mulheres em casa, da casa para as mulheres das estradas.

Com 17 ou 18 anos, conheceu um homem que se casou com ela. Eles moravam em um barraco na favela de Nairo, a maior da megacidade, e ele era dono de um pequeno ponto de prostituição na entrada do bairro. Nairo era uma grande favela que havia passado por um desastre industrial vinte anos antes e começava a sofrer com a estruturação de um crime organizado e tráfico de mulheres. 

  — Ele fumava demais, transava pouco, mas me dava comida. Nunca tinha comido tão bem em minha vida...! Eu comia enquanto transava com ele. Ele mamava nos meus peitos — contava, à medida que fazia um gesto com as mãos percorrendo seus seios. — Ele gostava do meu leite. Sim, eu tinha leite, eu comia alimentos que me faziam ter leite, para que ele pudesse deitar no meu colo e colocar a boca nos meus peitos e mamar como um bezerro... Seis meses depois, morreu de câncer no pulmão. Foi quando assumi as meninas do ponto e passei a tomar conta do lugar, contratando mais meninas novas até poder me mudar.

Raquel ouvia tudo aquilo sem o menor espanto ou constrangimento. Tinha perdido a conta de quantas mulheres iguais a Lila já havia prendido. Os depoimentos sempre se assemelhavam: mulheres, pobres, gordas, consideradas feias, prostitutas, fumantes ou drogadas. Algumas tinham filhos, outras não. Apresentavam alto índice de abortos propositais porque viviam engravidando de clientes ou desconhecidos. Raquel já tinha prendido uma prostituta que tinha realizado quase dez abortos em pequeno espaço de tempo e, em virtude disso, estava gravemente ferida e doente.

As mulheres mudavam de cor, de aspecto físico, mas a essência era a mesma. Era, no entanto, obrigação do trabalho de Raquel registrar tudo aquilo. Ela fingia dar atenção àquela mulher obesa e ouvia sua lorota para arquivar seu depoimento.

Dez anos já tinham se passado desde que Lila tinha assumido os negócios. As meninas dela, ela se orgulhava, não eram esqueléticas. Eram todas gordas, pobres, e feias. Não tinham acesso a educação e eram completamente ignorantes no que dizia respeito aos seus direitos e deveres para com o Estado e a sociedade. 

— Algumas são pretas, outras brancas como eu. Algumas têm tantas dobras no corpo que é impossível contar, como eu. Muitas foram deixadas aqui no chão da cidade, porque o alto da cidade não quer. Se você nasce com tendência a ser obesa — raciocinava, com a frieza de uma psicopata —, eles lhe jogam lá do alto dentro de uma clínica de adoção e aí, os interessados vão até lá, e compram você. 

— Então é assim que é feito?

— É — respondeu ela. — Você tem mais sorte se já nascer na cidade baixa. As rejeitadas são criadas para serem prostitutas quando crescerem. Elas também podem virar mercadoria ou passarem por processos de engorda, como porcas, para virarem atrações de circo. Quanto mais se engorda, mais se paga uma taxa de ocupação espacial. As meninas que agencio é que pagavam por minha ocupação.

— Humm... certo, então eram as meninas que trabalhavam para você... que pagavam sua ocupação? — perguntou Raquel, fingindo interesse naquilo. Escorou as costas na poltrona e balançou a cabeça em afirmação: — Hum... Entendo...

— Escuta minha filha... Se você nasce embaixo, você não perdeu nada. Já nasceu para ser nada. Nada, apenas isso. Porcaria nenhuma. Nada. Todos os dias, eu tento passar para as meninas as minhas experiências. Elas também querem ser donas de casas de prostituição quando crescerem. 

— É mesmo? Certo...

Em determinado momento, Lila oscilou da frieza para a emoção, no primeiro momento até aquele instante do depoimento.

— Se você é puta, não deve ter medo de nada. Não deve esquecer-se de nada também. Desde pequena, eu era chamada de todos os tipos de nomes. Eu era tratada como uma “vaca inútil, cheia de gordura” — descrevia, com olhos marejados de lágrimas, diante da total passividade de Raquel: — Era assim que meu avô me chamava enquanto me colocava de quatro e enfiava o seu pau na minha bunda... Você não sabe o que é isso e nem imagina o que é ser criança enquanto seu avô te come... Prostitutas gordas são muito mal tratadas, você sabia? Os homens não gostam de mulheres gordas, só para bizarrices. Mas o mercado vem mudando, porque as mulheres vêm ficando cada vez mais magras e chupadas, como varetas de assar carne de churrasco. Não servem pra nada.

FIM DA PARTE 2

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