quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Pra virar filme... Ou não! - "Futuro Perfeito" - Última Parte



Por Tia Rá

E chegamos ao fim de mais uma sessão "Pra virar filme... Ou não", com a participação do Jason e sua visão distorcida da beleza e sexualidade do futuro nesse texto estranho, interessante, pesado e difícil. E vocês já sabem, todos os dias tem um texto esperando por você aqui no blog! Escolha o seu e façam suas apostas e não se esqueçam, em breve estaremos recebendo textos de todos os leitores que tenham interesse em publicar em nossas sessão para compartilhar nossas ideias com o mundo da Internet. Por que nós somos pequenas e humildes, né produção... Mas terríveis e desaforadas! hahaha

Fiquem agora com a última parte da nossa estreia. Ah, e não se esqueçam de avaliarem os posts lá embaixo, ok? Não custa nada, é só um clique! Eu mesma acho que isso dava um David Lynch ou David Cronemberg... Essas bizarrices sexuais e psicológicas, com personagens deformados fisicamente e psicologicamente, têm tudo a ver com eles! #TENSA! 

Beijos cheio de pus, feridas e nojeiras para vocês, meus bebês mutantes!




"Futuro Perfeito"
Parte 3 de 3
Por Jason

Pela primeira vez, Raquel tinha feito uma expressão de surpresa durante aquele depoimento.

— Eu me lembro perfeitamente da cara de prazer de cada homem que gozou em mim. Oh, e de cada um que se balançou em mim, que me apertou, me socou e me penetrou... De ser chamada de vadia e porca, de vaca, gorda, monstra. De cada gozada dentro de mim, dentro do meu rabo, entre as minhas pernas, na minha boca, na minha cara e nos meus cabelos... De cada pau grosso ou fino, grande ou pequeno, de cada um que trepei sem proteção. Eu me lembro, sim! Sim! Puta tem boa memória e precisa ter, para se lembrar sempre do que os clientes dizem sobre a gente e sempre do que a gente é.

Outro dos seus clientes tinha agredido em um programa. Raquel quis saber mais sobre isso, seguindo um cronograma particular de perguntas. Em nenhum momento Lila se recusava a responder suas questões.

— Mas ele me batia porque isso lhe dava prazer — respondeu, com toda simplicidade, ao ser questionada sobre o que achava disso: — Pagando bem, umas porradas aqui e outras ali não faziam diferença. Não estraga beleza alguma. Não existe beleza em um corpo flácido, cheio de dobras, grande e cheio de feridas. Por causa das dobras, que assam. Eu tenho feridas. No corpo, na alma, em todo lugar.

Raquel olhou para aquela mulher destruída. E indagou, com aquela voz suave, mas ainda sim firme, quais os tipos de sonhos que Lila tinha. Lila riu, Raquel não tinha entendido.

— Você não tem sonhos?

— Eu tenho. Sonho que estou correndo num jardim, magra e linda, como aquelas mulheres que vejo em painéis nas ruas. Não tão magra. Sem essas dobras no corpo — disse ela, apontando para a barriga —, e esse jardim está cheio de vaginas grandes e peladas, flutuando no ar. E elas incham e mijam sobre mim, numa chuva dourada.

Lila estava rindo. Raquel não movia um músculo do rosto.

— Eu vejo fontes de esperma, jorrando sêmen branco e limpo, onde eu posso tomar banho. Piscinas com homens musculosos me desejando loucamente. Loiros, morenos, negros. Todos musculosos e belos, os homens mais bonitos do mundo. Seus pênis são grandes e vigorosos. Deliciosos. Eu satisfaço todos eles sexualmente. Eu sou a melhor e mais bonita mulher que eles podem ter.

Encerrado o depoimento, Raquel anunciou, com a frieza sempre necessária para a sua atividade profissional, que Lila ia ser internada em um hospital psiquiátrico e passar por um processo de “seca”, até ser chamada para ser julgada se seria ou não devolvida à sociedade. Era o que Lila não desejava nem para o seu maior inimigo. Lila começou a chorar.

— Se não pagar o que deve, você será executada. Como você não terá meios de fazer isso, presa em um hospital psiquiátrico, será tratada. Até lá, aparecerá bem como modelo a ser seguido por pessoas como você. Veja pelo lado bom, você dificilmente escapará da execução. Mas ficará magra, bonita e famosa até o dia de sua morte.

O processo de "seca", como Raquel deixava claro, consistia em levar uma pessoa gorda para passar fome e emagrecer, à base de remédios em um centro psiquiátrico. A pessoa era medicada constantemente durante dias, para que a gordura fosse eliminada, naturalmente, até um peso determinado. O estado não bancava cirurgias para aquelas pessoas. Caso chegasse a um peso determinado no dia do julgamento, Lila poderia ter uma segunda chance de vida tendo a execução cancelada.

Os remédios, mais baratos e fortíssimos, causavam, além de sensações desagradáveis constantes e possíveis complicações por doenças, distúrbios mentais. Poucos eram os que se recuperavam do tratamento e voltavam para a sociedade, sãos. A maior parte cometia suicídio no primeiro mês de tratamento.

Perguntada por Raquel se queria acrescentar mais alguma coisa ao seu depoimento, Lila primeiramente disse que não. Depois, aos prantos, voltou atrás.

— As pessoas estão loucas. O mundo está louco! Não tem nada demais em ser gorda, não tem nada demais em ser feia.

— Não tem nada demais — interrompeu Raquel, com ar de autoridade —, tem a ver com estar fora dos padrões. A nossa sociedade é feita de regras e elas devem ser seguidas. Quem está fora das regras é eliminado. Essa é a lei.

— Mas você pode ser feia e gorda, viver uma vida feia, mas ser feliz. Ser feliz! Como eu sou! Eu sou feliz! Felicidade é o que importa. O que importa é você se sentir bem.

— Você não é feliz. Você é um monstro. É o que chamamos de “distúrbio da sociedade”. E como todo monstro, precisa ser exterminado.

Raquel chamou dois guardas para recolhê-la. Eles, de corpos robustos, musculosos, entraram por uma porta lateral e praticamente arrastaram Lila dali, com cadeira e tudo.

— Podem levá-la.

— Você pode ser feia e gorda, viver uma vida feia, mas ser feliz — repetia Lila. — Ser feliz! Como eu sou... Eu sou feliz!

Raquel, sem sofrer nenhum abalo emocional, voltou para o seu trabalho. Logo depois de Lila ser escorraçada da sala, outra mulher foi levada para o seu gabinete. E estava nas mesmas condições físicas que Lila.

FIM

2 comentários:

  1. Ainda que eu não acredite que nossa sociedade vá chegar a esse tipo de situação suportada por lei, a metáfora sobre distorção da beleza e dos padrões impostos pela mídia não poderia ser mais atual. A banalização e deturpação do sexo caem muito bem nessa história, onde os valores da sociedade são completamente invertidos. Enfim, apesar de ter achado a parte 1 bem mais impactante e consistente que as demais, gostei muito do texto e fiquei com vontade de saber mais dessa história.. daria sim um bom filme, ou bom roteiro pelo menos e nas mãos de um Cronemberg como bem lembrou a tia Rá ficaria no mínimo interessante. Valeu a iniciativa, ótima ideia a dos textos!

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