sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Pra virar filme... Ou não! - Uranium




Voltei gente!

Tia Rá mais uma vez apresenta esta sessão interessante, onde somos convocados a ler e pensar, a imaginar como esses textos dariam - ou não - filmes! VEM COMIGGGOOOOO!!!! 

No melancólico e estranho "Uranium", Jason nos leva a uma visita por um território inabitado, um tipo de pesadelo pós apocalíptico. Mais uma visão do futuro, desse conjunto de contos pessimistas sobre o destino da humanidade. 

Vale a pena dar uma conferida!




URANIUM
Por Jason


Eu passeei pelas estradas abandonadas e elas pareciam não levar a lugar algum. Corri quilômetros, furando a atmosfera densa e misteriosa de um enorme deserto de sombras. 

Eu vi incontáveis e tortuosas árvores no caminho. Elas fediam a sonhos abandonados, vidas perdidas, dor e lamento. O céu tinha sempre a cor de um pesadelo pictórico e eu não via as estrelas, sequer sentia o calor do sol. Noite e dia se misturavam, como se fossem uma coisa só.
Eu passei pelas vias nebulosas em direção a cidade nuclear e elas ainda estavam lá, como trinta anos antes. Intactas. 

Trinta anos em que não viram movimentos nenhum. Trinta anos sem ninguém cruzá-las. Tirando uma rachadura aqui ou outra ali que havia se rompido no asfalto durante o inverno; ou uma raiz acinzentada que avançara sobre a pista aproveitando um feixe de luz solar no verão, aquelas eram as mesmas estradas de sempre. 

Ferro velho no caminho. Desvios. Achei que me perderia. 

Grãos de pólen cinza flutuavam em toda a região, como escuras e minúsculas bolhas de sabão. Trazia, cada um deles, histórias de pessoas mortas, memórias de horror.

Nas redondezas da cidade, a natureza reivindicava seu espaço. Vencia, pouco a pouco, a disputa contra a radiação da cidade atômica abandonada. Aqui e ali. Soluçava, com suas demonstrações de poder e domínio absoluto, sobre o que a ela pertencia, em um ou outro centímetro quadrado. Parecia pouco. Mas não era.

O odor de desastre exalava na região. 

Lobos corriam com seus filhotes entre a relva escura e as sucatas de veículos pela pista. Sinal de vida animal, só quilômetros antes da cidade.
  
Notei que árvores verdes brotavam, miúdas, doentes, ao lado de plantações transformadas em negrume. Elas povoavam a minha missão quase suicida: mostrar para o mundo o que tínhamos deixado para o futuro. Eu estava em Uranium, trinta anos depois. O primeiro a voltar para a cidade, três décadas após a sua morte.

Nossa antiga cidade nuclear, símbolo de modernidade e desenvolvimento, cidade modelo... Vinte anos trabalhando, fotografando, escrevendo, vendo o mundo mudar, mudando... e percebendo que as lições de Uranium estavam esquecidas em alguma sala de aula, de alguma escola, de alguma pequena cidade, em algum pequeno canto do país. 

Roupas especiais contra radiação, equipamentos eletrônicos blindados, baterias para abastecer o veículo utilitário especial. E coragem. Muita coragem.

Trinta anos antes, Uranium assistia, com o torpor de quem vê a morte se materializar numa nuvem radiativa, uma usina nuclear explodir. Todos dentro e ao redor de uma usina foram vaporizados instantaneamente pela nuvem da morte, que se espalhou furiosamente e consumiu a vida de mais mil pessoas. Durante mais trinta anos, mais de 500 mil pessoas morreriam em decorrência dela. 

Máquinas que foram enviadas para controlarem o fogo naquela fatídica noite foram desintegradas como brinquedos. Os bombeiros humanos que foram enviados em seguida foram cozinhados. A polícia atirava na população, que saqueava os bens e fugia. 

Gente fugia, morria, aos pedaços pelas ruas. Pânico. 

Radiatividade, horror, medo, morte. 

O inferno... O inferno. 

Quando o fogo foi controlado, mais homens foram então enviados para a morte a mando do governo, para selarem as portas daquele abismo. Vidas e mais vidas ceifadas.  

Caos.

Massas de pessoas migraram em filas quilométricas, naqueles terríveis dias seguintes, sob a ameaçadora e mortífera nuvem do inverno nuclear, que se movia engolindo quilômetros e quilômetros de áreas habitadas, como um monstro demoníaco insaciável por almas. Para trás ficavam suas vidas e seus sonhos. 

Com o êxodo de Uranium, e pequenas cidades em volta, espalharam-se refugiados por outras cidades e estradas tomadas por nevoeiros não dissipáveis — caminhos como aqueles que eu perambulava, cheios de camadas infindáveis de cinza. Eram intermináveis grupos de doentes. Pessoas que perdiam os cabelos, descamavam a pele, desidratadas, infectadas por doenças degenerativas, cheias de tumores, anoréxicas, apáticas, febris... Com seus filhos deformados e seus herdeiros anômalos, com ossos doentios que, de tão frágeis, partiam-se sozinhos. Marchando. Morrendo pelo caminho. 
Eu cheguei a Uranium... Nas ruínas de uma civilização moderna, absorvendo o passado monstruoso daquele lugar com os meus olhos arregalados. No fim do mundo.  

Uma placa enferrujada pichada com uma inscrição negra. População humana: zero.
Cercas de contenções... que tinham sido usadas três décadas antes para tentarem controlar a retirada dos habitantes da cidade. Em vão. Elas foram derrubadas e ainda estavam lá, estiradas no chão, devoradas por ferrugem.

Não era seguro viajar por ali. Nem com o aparelho que media a radiação, e me guiava, me indicando os locais mais seguros para que eu transitasse. Nem com o automóvel, incapaz de cruzar escombros espalhados pela rua. 

Caminhões do exército.

Helicópteros. 

Jipes militares. 

A nuvem da morte estava no solo e nas árvores. Nos carros abandonados, nos prédios em ruínas. No ar. Para qualquer lugar que eu olhasse. 

O céu da cidade tinha cor de fezes. Um tom úmido, fúnebre. Era como um véu escuro, pelo qual, por detrás, só apareciam as silhuetas de construções fantasmas. 

Cores da morte. 

Transitar ali, nas ruas sujas e abandonadas, era pisar em camadas de poeira cinzenta, tal qual pisar na superfície inóspita de um planeta distante. Como se eu fosse o último ser vivo da Terra. Eu, um astronauta, vagando solitariamente naquele lugar estéril como um espírito amaldiçoado. Uranium era um limbo.

O mundo desligado. 

Um buraco negro. 

Eu estava surdo. Não havia barulho de aves, não havia sons de automóveis, não havia vento, nada se mexia. Este silêncio invade a alma: era o espectro da morte.

Parei. Uma rua larga. Eu não via seu final. Não sabia onde começava. 

Onde estavam os lobos?

Sem tons verdes, que fosse aqui ou ali. Cidade morta, paralítica em um ponto de tempo e do espaço. Materialização do vazio!

Janelas abertas e enferrujadas por 30 anos. Não se mexiam.

Pelo centro urbano, ruínas de uma antiga igreja, um amontoado de escombros. Vi baratas. Sim, baratas, esfomeadas, revirando cadáveres de ratos infectados que tentavam se proliferar na região, mas acabavam dizimados pela radiação.

Havia lixo que estava ali, trinta anos, tentando se decompor. Chuva torrencial caíra dias antes, deixando a água atravessar, com suas goteiras, o miolo dos escombros. Mas as goteiras, como mágica, não faziam sons. Elas estavam abafadas pela sujeira.

Da abandonada escola, pedaços de papel digital voaram por uma das janelas. A primeira corrente de vento. Trazendo quatro grandes pedaços daquela tecnologia morta vinte anos antes. 

Desenhos. Rabiscos. Eles falaram comigo, contando memórias de tempos felizes que não voltariam nunca mais. 

Nas paredes da escola, bandeiras. Cartazes de “procura-se” cobertos por placas acrílicas, outrora transparentes; nos muros, intactos, com as fotos dos desaparecidos. Meu coração estava apertado. Sentia uma dor inexplicável ao saber que o tempo não tinha conseguido apagar as imagens dos desaparecidos. E eu não conseguia imaginar quantas pessoas estavam perdidas, quantas tinham sumido e quantas nunca mais seriam encontradas pelos parentes. 

O muro dos desaparecidos dava voltas em um quarteirão. E aquelas pessoas, de uma forma ou de outra, ainda continuavam a morrer.
   
Antigos prédios de farmácias e de lojas da cidade, que pareciam mumificados. Um Shopping Center.
Entrei. Vi vitrines, sem produtos, quebradas. Prateleiras metálicas enferrujadas. Outras vitrines, quebradas. Estantes tortas, cabides de roupas com tecidos devorados pelo tempo, nos mostruários. Propagandas de liquidações. 

A escada rolante não se movia, mas me permitia um exercício imaginativo ao ver pessoas subindo e descendo por elas. A cúpula da área central tinha caído e os estilhaços cobriam o chão. Áreas em que não se podia passar por desmoronamento de uma parte da construção. Portas de emergência estavam abertas. Sujeira e poeira, como eu jamais veria em outro lugar. 

Janelas abertas e letreiros, ainda ilesos à fuga desenfreada dos que por ali tinham passado para salvarem suas vidas. A entrada do cinema 3D exibia cartazes de um sucesso de bilheteria de trinta anos atrás. As salas estavam lotadas e as filas eram gigantes quando tudo aconteceu. Nem poderia imaginar o horror daquela gente presa ali dentro no momento da explosão.

A praça de alimentação. 

Eu podia ouvir as vozes das pessoas conversando, alteadas, enquanto comiam lanches nada nutritivos. Os casais de namorados com olhares apaixonados. Crianças. 

E então, de repente, o horror. Sirenes tocando, gritando para o perigo de contaminação, e toda aquela massa de pessoas morrendo esmagada e procurando saídas que nunca encontrariam.

Saí. 

Os automóveis, no estacionamento. Modelos que não eram mais fabricados. Ou estavam nas ruas durante muito tempo, encalhados num monstruoso engarrafamento. Mais ferros velhos. Aqueles que podiam ser levados foram arrastados e saqueados. Os que tinham ficado não eram mais do que fragmentos de um passado distante. 

Anúncios velhos, de trinta anos antes, estavam lá, sem letras, sem cor, conversando com quem para eles olhava. Eram propagandas de incentivo ao suicídio, de venda de órgãos, e um de destaque, com mais de dois metros de comprimento por quatro de largura, onde se podia ver claramente a figura nua de um travesti — sendo exterminado por um grupo de homens fardado como soldados.

Parques. Com carrosséis, rodas gigantes e montanhas russas desativadas, deteriorados. Olhei em volta. Cantei uma música mentalmente. Assobiei. Reconheci beleza naquele lugar que respirava morte. O silêncio me atordoava. A roupa cobrindo minha cabeça impedia de ouvir meu coração pulsar. Eu me sentia morto.

Mais adiante, sinais de vida vegetal. 

Plantas enormes e seus galhos cobriam os prédios. Trepadeiras venenosas deitavam sobre casas e todo tipo de construções. 

Casas de cupins sem insetos, monstruosas, sobre o telhado de casas abandonadas. Janelas dependuradas por fiapos de madeira podre, resistindo ao clima. Mato amarelado morto, alto, nas calçadas. Poças de lama, ausência de luz, cruzamentos com carcaças de automóveis e seres biônicos estáticos no meio da rua, como se estivessem atravessando-a. Uma loucura, um pesadelo.

A natureza revoltada tomava novamente a cidade, em um ponto onde a radiação não era forte para impedi-la. 

Encontrei um prédio que parecia intacto. Pensei... hesitante em entrar naquela frágil construção. E decidi.

Subi. 

A caminho do teto do edifício. 

Para o alto. Nas escadas. Elas gemeram com o meu peso. Tive medo de não conseguir voltar.

Corredores infindáveis e escuros escondiam o passado nebuloso. Eu podia ver as pessoas correndo por ali, ouvir seus gritos de horror, enquanto pelas janelas uma nuvem furiosa de radiação adentrava a construção, contaminando todas elas.

As portas dos elevadores estavam abertas. Portas dos apartamentos também. Aparelhos domésticos abandonados, da mesma forma como haviam sido deixados. Fogões com forno abertos. Geladeiras cheias de lixo, abertas. Armários escancarados para o nada. Para sempre.

Havia fotos desbotadas nas paredes. Crianças que estavam perdidas dos seus pais. 

Do alto, avistei a cidade que tinha sido evacuada às pressas. De lá, vi o cemitério da cidade. Os mortos estavam ali, enterrados, com placas e equipamentos radiativos. Era impossível para um ser vivo chegar às proximidades, sem os equipamentos ideais que eu carregava. Eu não sentia o vento, o ar, nada. Dentro daquela roupa espacial, o máximo que tinha era a visão de lápides destruídas pelo clima. E o pensamento de perigo latente pulsando na minha cabeça que sufocava.

Não fui muito longe e... surpresa!

No meio de todo aquele ar cinzento, uma rosa vermelha, cor de sangue, brotando, solitária e encantadora, entre cruzes desgastadas. Parecia uma miragem, um sonho. Sua imagem estaria guardada comigo,  antes que aquela demonstração de pulso da natureza se dissipasse e jamais retornasse.

De longe avistei o caixão onde todo aquele pesadelo nuclear tinha começado. Eu não tinha como chegar lá. Nada, absolutamente, seria capaz de chegar lá. Eu tinha cumprido minha missão. Tinha entrado em um local desabitado por seres humanos durante trinta anos. Por aquelas horas, enquanto começava a enlouquecer com o vazio daquele mundo, eu estava perdido em uma lacuna de tempo. E precisava sair dali. Precisava voltar.

Uranium deveria ser totalmente demolida e se transformado em um grande deserto sem dunas. Mas o governo, desinteressado, a abandonara, da mesma forma que seus moradores. Mesmo morta, ela continuaria a assassinar pessoas, através das gerações futuras.

Então passeei novamente pelas estradas abandonadas e elas agora pareciam me levar de volta, para algum lugar. Seguia por quilômetros de deserto e sombras e aos poucos o mundo clareava novamente. Não havia mais medo. Eu via a luz do sol do final da tarde e podia ouvir os ruídos do mundo novamente. 

Eu passei pelas vias nebulosas deixando Uranium marcada em fotografias, para mostrar as pessoas que jamais se importaram com ela e jamais ousaram colocar seus pés lá. E as estradas ainda estavam lá, como trinta anos antes. Virginais. Trinta anos em que não viram movimentos nenhum. Trinta anos sem ninguém cruzá-las. Tirando uma fratura aqui ou outra ali que havia se irrompido no asfalto durante o inverno; uma raiz acinzentada que progredira sobre a pista aproveitando um feixe de luz solar no verão, aquelas eram as mesmas estradas de sempre. 

Ferro velho no caminho. Desvios. Estava familiarizado com tudo. 

Grãos de pólen cinza não mais flutuavam diante dos meus olhos. Mas as memórias de horror não eram possíveis apagar.

Cavalos trotavam com seus filhotes entre a relva clara. Notei que árvores verdes brotavam, gigantes, vívidas e coloridas, ao lado de plantações transformadas em campos amarelados e brancos de flores. Eu tinha saído de Uranium, trinta anos depois. Eu era o primeiro a entrar e a sair da cidade, três décadas após a sua morte. E não conseguia sentir orgulho.

Enquanto eu deixava para trás aquele deserto atômico, eu me perguntava o que tínhamos deixado para o futuro. A radiação em Uranium ficará ali, incrustada nas paredes e no chão da cidade, em cada alma de seus habitantes que se foram, por milhares de anos. E os nossos filhos e os seus filhos, e os filhos de seus filhos, viverão amanhã os restos mortais de um ciclo de decomposição. Mesmo depois que os nossos ossos e essa memória trágica se transformem em pó.

FIM

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