terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Trilha Sonora - Titanic, de James Horner - 1997




Por Jason


É inegável que Titanic foi, além de um dos maiores sucessos da história do cinema, uma experiência cinematográfica e musical maravilhosa - que as gerações posteriores se encarregaram de tentar anular e desdenhar, sem êxito. A trilha sonora composta por James Horner, em seu melhor trabalho, venceu merecidamente o Oscar de Melhor Trilha e Melhor Canção em 1998, vendendo mais de 30 milhões de cópias ao redor do mundo (um dos álbuns mais vendidos da história da música e a trilha sonora instrumental mais vendida da história humana). Com todos os méritos.

James Horner não fazia um trabalho com James Cameron desde Aliens O resgate, uma vez que  Horner precisou preparar a trilha deste filme entre horas e minutos, pressionado pelo diretor e pelo estúdio, o que, segundo o compositor, comprometeria o resultado final - e o levou a uma discussão e ao afastamento dos dois. Cameron tinha intenção de fazer uma trilha com canções compostas e cantadas por Enya (uma canção da mesma foi utilizada no enorme e épico trailer internacional, "Book of days"). Enya não esteve disponível para tal compromisso e, após ouvir a partitura de Horner para "Coração Valente", Cameron teve consciência que era de Horner que ele precisava para o filme. Horner produziu a trilha tendo em mente o estilo das canções de Enya (na época, houve boatos que Enya processaria o compositor, uma vez que ela tinha sido sondada e que os vocais e as faixas remetiam-se automaticamente a sua voz e sua obra, fatos nunca confirmados), testou de vinte a trinta cantoras para os vocais e acabou escolhendo a cantora norueguesa Syssel Kyrkjebo. A parceria entre Horner e Cameron foi retomada, brigas e intrigas deixadas de lado e o resultado é esta trilha sonora atemporal.

O score sobreviveu maravilhosamente bem com o passar do tempo graças a uma combinação de estilos e sons, mas linearidade: os dois temas centrais de Titanic estão em duas metades do álbum cada um, disfarçados seja nos vocais de Syssel ou nos vocais sintetizados. Seja nos sons celtas, nos tons irlandeses ou na canção premiada na voz de Celine Dion, seja nos momentos de pânico do navio, ele está presente, resultando quase que milagrosamente em um composto único. Se contarmos que na tela temos vários filmes se apresentando ao mesmo tempo (o romance, a tragédia, o épico, etc), o esforço de Horner para fugir do óbvio é notável. "Fugir" porque a trilha de Titanic precisa equilibrar a relação de Jack e Rose (o tema de romântico de Rose, reparem), com o navio antes do naufrágio (seja no porto, no mar), com o requinte da primeira classe, o barulho da festa na terceira, os momentos emocionantes do naufrágio e a personagem em sua velhice. 

Entramos com  "Never an Absolution", canção que toca no momento em que a velha personagem Rose, salva por um bote salva-vidas, encontra o navio Carpathia ao amanhecer depois da fatídica noite do naufrágio. "Distant Memories", é o tema que faz a personagem Rose retornar ao Titanic. Voltamos ao porto e toda a glória do navio com o coral de Southampton: esse é o ponto da polêmica em torno de Horner e Enya. A faixa lembra inevitavelmente a canção de Enya "Book of days". Finalmente, pulamos para a antológica cena na proa do navio, "Rose", ainda poderosa e capaz de arrancar lágrimas.

Aqui, a voz de Syssel é acompanhada por piano, baixo elétrico e instrumentos de sopros. Reza a lenda que Cameron queria usar essa faixa para o final, selando o encontro de Rose com Jack de volta ao navio, mas a percepção de Horner fez com que ele trocasse a faixa por uma conexão entre ela e "An Ocean of Memories", que nada mais é do que uma versão estendida de "Distant Memories". "An Ocean of memories" é acompanhada de instrumentos de cordas, piano, e a voz, novamente, de Syssel, agora num tom que beira o fantasmagórico.

O Titanic deixa o porto em "Leaving Port", e os vocais sintetizados e a batida dos tambores parecem mostrar o tamanho do navio e a forma como ele se desloca pesadamente na água - até pegar velocidade, notem, com alteração de ritmo e invadir o oceano. Em seguida, embarcamos em "Take Her to sea, Mr Murdoch" em que automaticamente somos levados com o personagem Jack para a proa do navio e voltamos no tempo apreciando o enorme navio cruzar os mares.

A ação começa no meio do álbum, com uma mudança de tom em "Hard to Starboard", e chega a "Unable to Stay, Unwilling to Leave", a primeira abrindo o pânico a bordo do navio após o choque com o iceberg e a segunda se dividindo em dois temas que envolvem flauta, os vocais de Syssel e elementos de tambores (lembra do que citamos lá em cima, sobre os dois temas centrais da trilha? Eles aparecem claramente aqui). Esse segundo tema, pesado, abre passagem para "The Sinking", quando o navio ainda está mergulhando no oceano, e "Death of Titanic", quando o navio finalmente se quebra em dois e afunda. 

O uso de violinos, misturados a tambores e vocais sintetizados garantem um tom fantasmagórico e ao mesmo tempo tenso a essas duas trilhas, com o destaque para a "Death of Titanic": na faixa, enorme, com quase nove minutos, Horner sabiamente evoca a trilha sonora para auxiliar Cameron na sequência em que os passageiros despencam na popa inclinada do navio (aos 6 minutos). Ela também retoma "Hard To Starboard" aos 3:45 minutos, quando cresce freneticamente e dissonante, incorporando tambores de uma marcha (que recorda, prestem atenção, a trilha sonora de Aliens O resgate).  

"A promise kept" faz a transição de tempo entre a Rose jovem e a idosa, entre o navio em sua glória e o navio no fundo mar, com os corpos congelados na superfície e aqueles que estão à espera de uma salvação que nunca viria. Ela traz partes de todas as faixas e lembra mais um cântico fúnebre, como uma homenagem aos que ficaram no navio ou pereceram no mar e a esperança de vida da personagem Rose ao encontrar um apito para chamar um bote salva vidas. "A life so changed" faz Syssel retomar o tema "Never an absolution" e chegamos ao tema "My heart will go on".

Há uma sensação de estranhamento com a música uma vez que se ouve a trilha sonora toda (porque os vocais de Syssel durante todo o trajeto até ali não casam com a voz de Celine). Como seria a música tema "My heart will go on", então, na voz de Syssel? James Horner e a cantora mostraram como ficaria na premiere do filme em 3D em 2012 e o resultado seria mais voltado para uma ópera do que para uma canção pop. Cameron, aliás, não queria uma música tema, mas Horner convenceu o diretor a incorporá-la ao trabalho após ouvir um demo (a música foi gravada às pressas em uma única passagem pela cantora Celine Dion). Horner tinha em mente a ideia de uma canção pop para impulsionar o sucesso do filme, o que realmente aconteceu. A música ficou no topo das paradas por muito tempo, entre as dez mais tocadas do mundo durante longos oito meses. Nela, é evidente que Horner retoma o tema de "Rose", com "The portrait" (apresentada em um outro álbum, chamado "Back to Titanic") e a canção, apesar de esnobada hoje em dia pelo excesso de versões (duas versões diferentes com diálogos, versão  estendida, versão pop, e reproduções em todos os ritmos) é bela e representa o tipo de som romântico do fim de uma década. 

Por fim, "Hymn to the sea" retoma o tema de "Rose", "Never an absolution" e ""Unable to Stay, Unwilling to Leave" com instrumento de sopro escocês. O resultado de tamanho empenho é este: um trabalho simplista, mas  excepcional e marcante.

Cotação: 5/5

Tracklist:

"Never an Absolution" – 3:03
"Distant Memories" – 2:23
"Southampton" – 4:01
"Rose" – 2:52
"Leaving Port" – 3:26
"Take Her to Sea, Mr. Murdoch" – 4:31
"Hard to Starboard" – 6:52
"Unable to Stay, Unwilling to Leave" – 3:56
"The Sinking" – 5:05
"Death of Titanic" – 8:26
"A Promise Kept" – 6:02
"A Life So Changed" – 2:13
"An Ocean of Memories" – 7:57
"My Heart Will Go On (Love Theme from Titanic)" – 5:11
"Hymn to the Sea" - 6:26



        


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