segunda-feira, 25 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Clones, por Jason



O macabro Jason nos traz mais uma ficção, com um tema muito explorado no gênero, neste conto com um final surpreendente! 

A trama é simples: dois cientistas tem uma conversa reveladora sobre o futuro da humanidade. De um lado, uma mulher, no seu gabinete, do outro, um homem, através de um vídeo. Não dá para falar muito. Acompanhem!

CLONES
Por Jason

       A doutora Anna girou na poltrona, com um ar de preocupação. Parou de frente para a enorme parede de vidro, que permitia ver a megacidade do alto. Havia uma cortina de fumaça sobre ela. Uma densa e escura névoa que anunciava a manhã. O sol, como sempre, estava encoberto.
Sobre sua mesa polida de vidro, havia uma tela fina. Nela, a imagem transmitida em tempo real de um homem.
― Perdemos mais um ― disse ela. ― Mais um. Fizemos todos os procedimentos, tudo corretamente... Porque eles não duram?
― Qual a causa desta vez? ― perguntou uma voz masculina.
― Suicídio.
― Deus...
― Tendência à depressão, não temos como lidar com isso. Podemos lidar com todas as doenças, genéticas ou não, podemos consertar, prever, mas não podemos lidar com isso. Depressão pode ser uma doença adquirida, por um fato, um acontecimento.
― Quando aconteceu?
― Ontem à noite — prosseguiu ela, com o relato. — Enquanto estávamos na apresentação e eu recebia os convidados no saguão. Um dos agentes veio me avisar.
― Nossa! E quanto ao corpo? E se...
― Não vão descobrir, fizemos o processo de eliminação.   Era um dos funcionários. Construído via coleta sanguínea. Um que a doutora julgava ser dos melhores.
― Mas ele descobriu que era?
― Não. Eu creio que não. Só não tenho como saber o acontecimento. O que levou a isso. Vou precisar investigar.
― Como permitiram isso? Achei que eram fiscalizados vinte e quatro horas.
― E são.
― Como ele se suicidou então?
― Veja com seus próprios olhos.
Anna girou de novo na poltrona e passou uma das mãos sobre a tela. O movimento fez com que ela transmitisse um vídeo para a pessoa, para que esta pudesse assistir.
O vídeo mostrava um homem deitado em uma cama num quarto escuro e pequeno. O ocorrido se passou à noite, pois havia uma janela próxima à cama pela qual se viam as luzes da cidade acesas. Ele se sentou na cama, balançou a cabeça. Parecia estar chorando. 
Em determinado momento, o homem se levantou, aparentemente deixando o quarto, e retornou com um copo na mão. Deixou o copo em uma cômoda ao lado da cama e foi para a janela. De repente, ele se inclinou e saltou por ela.
― Foi repentino, não tínhamos como esperar por isso.
― E as avaliações psicológicas, não apontaram nada?
― Nada, absolutamente nada — respondeu ela.
― E o que a senhora acha que está faltando para eles? Nós damos tudo, damos uma vida completa. Um trabalho, um carro, uma casa e se possível uma família.
― Eu não sei ― lamentou ela, ― sinceramente, eu não sei. Eu os acompanho desde o parto. Eu os estudo vinte e quatro horas por dia até nos meus sonhos. E eu não sei o que está errado.
O parto.
Eles nasciam de dentro de grandes aquários, que mais pareciam tubos de ensaios. Eles eram gerados em um período de nove meses nestes lugares, dentro de um líquido e em uma temperatura que imitava a dos úteros humanos. Ligados por aparelhos e fios simulando cordões umbilicais, eram alimentados e o metabolismo acelerado até atingirem a maturidade: a idade física do modelo original que tinha cedido suas células para o processo, a menos que os doadores fossem pessoas mortas.
No momento do parto, eles entravam em convulsão e o líquido era retirado, deixando o corpo sustentado pelos fios até que eles fossem cortados. Embalados como se fossem crianças, homens e mulheres eram mandados para incubadoras especiais, onde eram testados e selecionados. Aqueles que apresentassem desenvolvimento corporal abaixo da média ou desenvolvessem doenças, bem como riscos destas após o parto, eram eliminados.
A eliminação se dava por total destruição do recém-nascido. Quando as falhas eram detectadas ainda nos ventres artificiais, as “gravidezes”, como os cientistas falavam, eram abortadas: a alimentação cortada e os fetos destruídos em soluções ácidas para não deixarem vestígios. Quando detectadas posteriormente ao parto, o “feto”, o ser em si, era encaminhado para o tanque de eliminação de recém-nascidos onde era transformado em líquido que serviria de alimento para os outros.
Se aprovado nos testes, o feto, com corpo de ser humano adulto, criança ou de adolescente, dependendo do doador das células, era encaminhado para câmaras especiais. Nelas eram feitos implantes de memória e desenvolvimento de atividades cerebrais compatíveis com as extraídas do doador original.
  Eles lhe davam uma vida, lhe criavam um mundo de percepção sensorial e psicológica, lhe davam experiências que eles nunca tinham vivido realmente e através de um processo demorado eram colocados na sociedade como pessoas comuns ― sem que ninguém além de um pequeno grupo de pessoas soubesse da origem daqueles seres.
Na sociedade, eles seriam monitorados vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Toda a vida daquelas pessoas criadas artificialmente pertencia àquele centro de produção. Eles não eram conhecidos por nomes, mas registrados por códigos de barras invisíveis a olho nu, localizados na pele da nuca.
Anna conhecia todo o processo muito bem. Mas a forma como via tudo mudou quando fizeram um clone seu.
Dos primeiros aos últimos, Anna acompanhara com misto de felicidade e terror cada uma das tentativas feitas por ela mesma e sua equipe de criar uma cópia sua. Voluntária do programa de aperfeiçoamento de produção de cópias, ela viu cópias suas serem abortadas ou voltarem aos tanques de ácido depois de nascidas.
Depois de inúmeras tentativas, uma delas foi bem sucedida até a etapa final do projeto, logo depois em que inseriram as memórias fictícias e a preparavam para o mundo. Estas cópias não eram tratadas como se fossem cópias, mas sim, como seres individuais: tinham memória própria, de uma vida que não viveram, mas que foi criada para que se aceitasse sua existência. Eles não sabiam que saíam de um tubo de ensaio, que eram frutos de um experimento.
Em suas memórias, familiares, amigos, irmãos, parentes distantes, lembranças de infância. No entanto, o cérebro humano era complexo demais para o domínio dos cientistas e a cópia começou a perceber a falta de ligações entre suas lembranças, bem como recordações de seus sentimentos e sensações. Havia coisas que apenas as reações reais, e não meras programações delas, podiam transmitir para o ser humano.
  Enquanto vivia em um lar na cidade, a cópia começou a apresentar síndromes, distúrbios mentais como insônias, pesadelos, paranoias, fobias, até terminar como uma louca, passar por duas tentativas de suicídio e consumar o ato na terceira. 
Em geral, o quadro clínico se repetiu inúmeras vezes nas cópias seguintes de outras pessoas além dela. Os avanços rápidos na área permitiram a criação de três grupos para estudos: 
  1 ―  aqueles gerados a partir de pessoas mortas, que guardavam características dos seus doadores mas possuíam outras memórias e que, fisicamente, podiam nascer como recém-nascidos normais ou com crescimento acelerado artificialmente dependendo da vontade dos cientistas;
2 ― aqueles gerados a partir de pessoas vivas que sabiam de sua natureza, de onde vinham, quem eram seus doadores celulares e quais suas funções na sociedade e para com o modelo original;
3 ― aqueles gerados a partir de pessoas vivas, que não conheciam sua real natureza.
Segundo os estudos acompanhados pela doutora Anna e sua equipe, eram os do grupo 2 que tinham mais chances de sucesso de levar uma vida considerada normal até o período determinado de existência, desde é claro, que as cópias não apresentassem “distúrbios mentais adquiridos” ― como depressão em virtude de um acontecimento externo (perda de um “ente” querido, por exemplo) e nem questionassem o prazo determinado de vida.
Nenhuma das cópias produzidas em laboratório tinha chegado ao máximo de vida útil. Todas apresentaram problemas de acordo com os grupos:
1 ― O grupo desses apresentava indivíduos com noção espacial e temporal deficiente. Não raro, mesmo passando pelos implantes cerebrais, questionavam o tempo em que estavam vivendo, não reconheciam a cidade e a época em que viviam e apresentavam doenças. A principal delas era o envelhecimento precoce, seguido de depressão, falta de sensibilidade e desenvolvimento de psicopatia e sociopatia. Não raro também acabavam com uma aparência apática, como se fossem zumbis, com raciocínio lento e por fim, deterioração mental completa.
2 ― O grupo destes apresentava quase sempre indivíduos sociopatas ou psicopatas, que tentavam obter individualidade almejando a morte dos modelos originais ― daí o afastamento das cópias de seus modelos reais. A maior parte questionava sua durabilidade, embora não transformassem isto em um grande problema, mas acabasse resultando em pessoas depressivas. O conhecimento do tempo de vida também os deixava depressivos e precisavam ser tratados com remédios e acompanhamento psiquiátrico intensivo. Mesmo assim, nenhum chegara ao final do período determinado pelos cientistas.
3 ― O problema estava na farsa criada para manter vivas todas as lembranças simuladas para a cópia e fazer com que elas sempre fizessem sentido e parecessem reais. Havia também casos de relatos de Alzheimer e perda de memória definitiva, desorientação sensorial e temporal. A maioria descrevia sensação de vazio em suas vidas e em geral se isolavam ou se apegavam a pessoas que serviam ao grupo cientifico e se passavam por pessoas normais para ajudá-los no desenvolvimento e no entrosamento com a sociedade.
Anna pensava em tudo isso enquanto conversava. Nos painéis luminosos, estavam avisos de epidemia e anúncios de pontos de distribuição de remédios. A cidade estava praticamente deserta. A recomendação que militares munidos com máscaras davam para os que ainda estavam no trânsito era a de que os cidadãos deveriam voltar para suas casas e ficarem lá até a liberação das autoridades. 
― Mas temos que descobrir. Nossos investimentos estão todos indo pelo ralo desse jeito.
Anna bufou de raiva.
― E acha que eu não sei? Se não conseguirmos criar uma cópia perfeita, então tudo irá por água abaixo. Eles não podem morrer antes do prazo que nós determinamos. Mas eles seguem um padrão de suicidas. Talvez a chave de tudo esteja nos implantes de memórias.
Anna virou para a parede para ver a cidade.
― Doutora... Acha que teremos mais investimentos na área a partir de agora?
― Eu imagino que dentro de um prazo de cinco anos estaremos vendendo nossos produtos para todo o mundo. Mas há muito a se fazer ainda. Veja, temos que corrigir os sintomas daqueles que já morreram. Temos que corrigir doenças mentais que sejam adquiridas no processo. Imagine uma situação como a que vou descrever...
― Sou todo ouvidos.
― Imagine que criamos um grupo de clones humanos para serem enviados até uma colônia espacial. Eles trabalham perfeitamente bem durante todo o período existencial, supondo quatro anos... Mas, ao descobrirem que algo nas suas cabeças os desligará para sempre, ao perceberem que outros vão embora depois do prazo de validade... 
― ...Provavelmente não reagirão bem.
― Exatamente. Nossos produtos precisam de tempo determinado de duração. Eles não duram o mesmo que um ser humano saudável e nós sabemos disso. O que está acontecendo é que não estamos chegando ao prazo máximo de vida deles porque eles estão se destruindo antes disso. E o problema na hipótese que citei não é a criação de trabalhadores espaciais suicidas, mas de psicopatas, por exemplo. Ou pessoas capazes de se rebelarem contra aqueles que os criaram ou aqueles que deram origem a sua aparência.
― Nesse sentido, trabalharmos com quem já está morto seria melhor.
― Em parte. Eles carregam as dores e alegrias dos seus originais. E em noventa e nove por cento dos casos se sentem completamente deslocados no tempo que acordam.
― A senhora é a responsável pelos setores de produção dessas coisas. Deve estar escrito em algum catalogo, deve estar marcado.
― Em primeiro lugar, não são coisas, são pessoas como todas as outras. São obras de arte. Merecem respeito, são seres humanos.
― Com prazo de validade. Eu sei ― resmungou a voz. ― O que estou querendo saber é outra coisa. Eu preciso saber se existe outro que tenha nascido da minha esposa.
― Eu estou te dizendo. Eu garanto que não existe nenhum dos seus além daquele que você nos autorizou a produzir. E ele está bem perto de você.
― Tem certeza?
― É claro que tenho ― confirmou a doutora. ― Mas qual o motivo dessa preocupação?
― Eu acredito que ela esteja desconfiando que haja algo de errado com ela.
― Bobagem... 
― Bobagem? Você sabe melhor do que eu que eles procuram aqueles que lhe deram a aparência. Eles procuram, eles tentam acabar...
― Isso aconteceu com uma série de produção em testes. Deu errado, mas já corrigimos isso. Você acompanhou todos os processos. Você sabe como funciona, sabe que isso não ocorre mais.
— Ela reclama de dores na cabeça. Ela tem atitude questionadora e aprendeu rapidamente a duvidar de mim e a me imprensar contra a parede. Às vezes ela questiona sobre os pais falecidos. Mesmo levando-a no cemitério, ela diz que não consegue se lembrar deles. 
— Antes de tudo, nossa cópia é uma mulher. Nunca subestime as mulheres, meu querido.
  — E se for um dos que fizemos com base em originais mortos? 
― Isso é impossível. Todos foram eliminados, seja por doença, por suicídio ou por nossa decisão.
― E se eliminaram a pessoa errada e agora tem uma cópia de uma pessoa morta vagando por aí pela cidade em busca de vingança?
Anna arregalou os olhos.
— Isso não vai acontecer — contestou ela. ― Você pretende contar para ela?
― É claro que não ― a voz estava bastante inquieta. ― Eu falei sobre isso, sobre termos um filho.
― E acha que ela engoliu a mentira?
― É o ponto fraco dela. Droga, eu não gosto de fazer isso. Ela não merece isso, não merece...
― Eu sei como se sente. Você precisa esconder essas coisas, não deve ser nada fácil.
― Não, não é.
― E por qual razão você acha que a desculpa funcionou? Ela não suporta a ideia de ter filhos?
― Não é que não suporte ― respondeu ele. ― Ela só acha que não deve ter. Não nessa cidade, nesse lugar. Ela vê casos de crianças rejeitadas todos os dias. De pessoas que querem devolver para os orfanatos, até de robôs crianças jogados no lixo ou sendo devolvidos para as fábricas. Não deve ser fácil para ela.
― Eu imagino ― disse, irônica. ― Não fizeram um filho ontem, não?
― É claro que não.
― Fez bem, nesse momento em que estão passando, um filho na vida de um casal como vocês só atrapalharia seu trabalho e o dela.
― Como eu vou contar para ela? Como ela vai fazer parte disso? Ela tem um conceito muito rígido de justiça, ela jamais me perdoaria. Ela é muito correta, muito justa.
― Depende da forma que for feito. E depois, você também é justo e correto. O que você fez não foi nada de errado. Você age em nome da ciência.
― Em nome da ciência eu criei uma cópia de uma pessoa que já morreu. 
― Está arrependido? ― perguntou ela, se levantando. ― Essa cópia está se saindo muito bem. Ela é acima da média. Está com desempenho incrível nos testes. Quer dar uma olhada?
― Não tenho como competir com ela. Mais cedo ou mais tarde ela vai ligar as coisas, ela vai descobrir. E vai me pressionar. Eu a conheço.
― Ela não é um problema para você. Aliás, não existe problemas em sua vida. Você leva uma vida perfeita. A vida da nossa cópia pertence ao nosso grupo de estudos. Ela é nossa propriedade ― respondeu ela. ― Você não pensa em trazer seus pais de volta? Você não pensa em ter esse poder?
― É claro que eu penso.
― Ter a oportunidade de rever o passado. Rever sua relação com eles. Dizer tudo o que gostaria de dizer ao menos por um dia, mas nunca teve coragem. Passar um fim de tarde numa praia com eles.
― Sim, eu penso nisso ― disse ele, com grande desconforto ―, mas eu penso também a que preço isso seria viável. E quantas tentativas precisariam dar erradas...
― Os meios não interessam, o que interessa é o fim. O dom da criação e o da ressurreição. Trazer os mortos à vida e poder viver um tempo mais com eles, ou quanto tempo mais quisermos, por uma quantia mínima. É isso que eu quero proporcionar às pessoas. Quantas pessoas não gostariam de viver eternamente? Nossos clones nos darão a oportunidade de vivermos para sempre. De perpetuarmos a espécie humana até o fim do planeta Terra. O que acha? 
― Eu não sei se eu quero. O ser humano tem o seu começo, meio e fim, como tudo tem que ter na vida. Mas, como eu sempre disse... esta ideia sempre mexeu comigo.
― A vida é um túnel. Deus está dos dois lados, fazendo o milagre da vida e nos esperando depois da morte. No período em que ficamos neste túnel nós não temos ninguém além de nós mesmos. Viver e morrer são apenas dois caminhos opostos pelos quais todos nós temos que seguir. Mas no futuro bem próximo só permanecerão neste segundo caminho quem quiser.
― Doutora Anna, eu tenho que desligar... 
— O que houve?
  — Ela chegou.
Ele desligou.
Anna se levantou, com uma habitual expressão de preocupação. Rodou pelo escritório, mexeu na tela e respirou fundo.
— O processo está se concluindo — rezingou ela. — Gravando relatório médico. Fiz contato com um deles, de nome Carlos. Doutor Carlos. O mesmo acredita ser casado com um dos nossos produtos, como pensamos. A interação e a inserção na sociedade estão tento resultados positivos. 
E finalizou.
  — Ele acredita não ser um dos nossos produtos.

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