domingo, 10 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 1 - Acidente

Prometheus² - Fan Fic - Por Jason

1. ACIDENTE



O interior do templo religioso possuía uma belíssima decoração: grandes velas repousavam sobre castiçais dourados, de onde estourava toda a densa iluminação amarelada. A luz, por sua vez, se refletia em séries de espelhos, todos estrategicamente posicionados para que ela inundasse o local. 

Espalhadas pelas laterais havia cem estátuas de mármore, com imagens de Jesus Cristo muito bem talhadas, cravadas em cruzes com dois metros de altura. 

Mais um dos símbolos religiosos dos fieis — uma roda de oito raios — podia ser vista atrás de um púlpito, numa das extremidades do interior. 

Havia um altar, com imagens religiosas e velas, coberto com tecidos vistosos, de cor branca. O teto do local, sustentado por colunas de estilo romano, subia dois andares de altura — curvo, como uma abóbada, cheio de afrescos de temática religiosa. 

Ao centro, uma grande hélice de cinco pás girava, devagar e silenciosa, refrescando o local. Estranhamente, não havia janelas: o lugar era fechado, de aparência sufocante, de modo que não dava para ver o seu exterior dali. Ao fundo dos religiosos, dois grandes portões de espessa madeira estavam trancados.

Os homens que participavam do culto revelavam uma religiosidade muito viva e profunda. Um dos religiosos passava entre os presentes, enfileirados em bancos de madeira rústica, e ofertava flores, velas e pauzinhos de incenso. 

Fiéis colocavam folhas de louro nas estátuas, murmurando uma típica oração: 

— “Refugio-me no Senhor, nos seus ensinamentos e na nossa comunidade! Preserva e transmite o que Jesus ensinou. Amém!”.

Todo o lugar cheirava a incenso. Todos os homens pareciam desligados do mundo, concentrados naquela reunião de religiosidade, meio deslocados, ou em transe espiritual. Curiosamente, não havia mulheres ali. 

Estes homens, tão cheios de crenças, usavam túnicas de cor marrom, as quais cobriam o corpo do pescoço aos pés. Sandálias de couro, campestres, cobriam os dedos e os pés. Não tinham cabelos: eram carecas, como monges. Suas vozes eram calmas, de tons suaves: juntas, elas formavam uma única canção.

— “Refugio-me no Senhor, nos seus ensinamentos e na nossa comunidade! Preserva e transmite o que Jesus ensinou. Amém!”.

Um homem próximo ao altar, de nome e traços asiáticos, pregava para a plateia lições que ele julgava serem dirigidas por Deus: era Yamato.

Jovem, completamente calvo, de estatura baixa e não mais que trinta anos, Yamato conduzia as orações detrás do púlpito — as mesmas orações gravadas em rolos de tecido que os fiéis faziam girar para acompanhá-lo e repetiam, cheios de vida, como fossem cânticos. 

— Lembremo-nos do que o Senhor nos disse: devemos não fazer mal aos outros e compreender os ensinamentos sobre o sofrimento. Entender que o ódio nunca desaparece, enquanto pensamentos de mágoas forem alimentados na mente. O ódio desaparecerá, quando esses pensamentos de mágoa forem esquecidos.

— Amém! 

— E o Senhor nos disse: aqueles que se respeitam e se amam devem estar sempre perto de Deus, para que não o sejam vencidos pelos maus desejos... Desejo de lucros, de privilégios e desejos que insultam a honra e que tanto nos trazem sofrimento. Como regente das orações desta nossa colônia religiosa, eu abençoo todos os presentes, com sabedoria... Porque nossa sabedoria é o nosso melhor guia e a fé, a nossa melhor companheira para encontrarmos a luz de Deus... Amém!

— Amém! — repetiram os fieis.

E os homens acompanharam suas frases seguintes.

— Jesus, pois, vendo as multidões, subiu ao monte; e, tendo se assentado, aproximaram-se os seus discípulos, e ele se pôs a ensiná-los, dizendo: bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus; os que choram, porque eles serão consolados; os mansos, porque eles herdarão a terra; os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos; os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; os limpos de coração, porque eles verão a Deus. Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus...

James acompanhava tudo com seu rolo de orações. Homem caucasiano, magro e de grandes olhos castanhos claros, seu rosto carregava marcas de rugas profundas de expressão. Homem alto, vistoso, com lábios bem contornados e delicados. O nariz se afinava, na face de traços triangulares bem definidos. Como fazia todas as semanas, James deixava seus aposentos e seguia para o templo, para se encontrar com os outros colonos, conversar sobre o poder do Senhor, entoar cânticos religiosos, realizar suas orações — e assim permitir se sentir mais próximo de Deus. 
Naquele dia, quando do término do culto, os pesados e ruidosos portões foram abertos. E James se retirou do local, lentamente, acompanhando uma fila com os religiosos. 

Aqueles homens não respiraram ao saírem dali, no entanto, o ar puro de um campo. Não viram montanhas, não havia cidade; Não havia jardins, flores ou uma rua. Não encontraram, sequer, um local que fosse semelhante ao seu planeta natal. 

Havia, em lugar disso, um enorme e redondo saguão, decorado por velas e imagens bíblicas. Nenhuma janela transparente para ver o exterior do local. Nada que lembrasse os monastérios, nada que recordasse os templos e suntuosas catedrais religiosas. 

No teto, tubulações corriam por todos os lados, de tamanhos diferenciados, desembocando em hélices que giravam para refrescar a atmosfera: a aparência era a de uma usina nuclear enferrujada, deteriorada e abandonada. 

Com este aspecto de construção industrial e ar claustrofóbico, o lugar se conectava com outros através de corredores nebulosos, erguidos em pedra, ferrugens e madeira. Eram como monumentais catacumbas medievais que pareciam não ter fim. O trânsito de pessoas por ali, contudo, era intenso.

James cumprimentava todas elas. Conhecia todos naquela colônia, jamais trocava seus nomes e gravava muito bem suas fisionomias. O velho John, homem de incontáveis rugas, ótimo em consertar e remendar tubulações e vazamentos. Trabalhou como mecânico industrial antes de ir parar ali, como tantos e tantos outros. Ou o pequeno Robert, de 1,60 de altura, dono de uma habilidade de solda, muito útil para remendar pedaços de metal que costumavam soltar do teto do lugar. 

Entre um aceno, um cumprimento e outro, James cruzou o saguão e seguiu pelos corredores para os seus aposentos. Não conseguia disfarçar o quanto sentia sono, bocejando cansaço sem parar. 

O local onde vivia era um quarto, um quadrado de pedras pequeno, vulgar e úmido. Havia uma porta de madeira, com uma janela gradeada. A cama era camponesa, de madeira robusta, com espumas sobrepostas formando um colchão e um travesseiro. Parecia uma cela medieval, de aparência extremamente desconfortável – e era!

No teto, dutos de ventilação para trazer oxigênio. Tão grandes que possibilitavam que uma pessoa andasse por dentro deles... Eram caminhos empoeirados, que exigiam manutenção. Um ou outro, nos alojamentos, ainda possuíam velhas hélices de quatro pás que, como ventiladores, procuravam refrescar o ambiente em épocas de calor. Tinham séculos sem receberem uma gota d’água de limpeza. 

James acendeu uma vela sobre uma pedra da parede, e ela começou a derreter com o calor de uma pequena e falha chama. Ficou de joelhos diante dela e agradeceu, por mais aquele dia de vida, em silêncio. Sentou-se sobre a cama e retirou as sandálias, como sempre fizera em todos aqueles anos morando ali. 

Em seguida, deitou-se sobre a cama, mas não conseguiu dormir. O sono desapareceu momentaneamente quando seu corpo foi vitimado pelo desconforto. Rodou para um lado, parou, olhou para as paredes. A hélice girava no teto, seus olhos a acompanhavam. Inquietude. 

De repente, alguém bateu na porta, chamando seu nome. Era Yamato. James, sem esconder surpresa, se levantou e foi atendê-lo. 

Yamato estava muito nervoso e transpirava muito, como se tivesse corrido quilômetros de distância. Agoniado, quase sem voz, avisou:

— Doutor, desculpe-me, mas tive que vir aqui correndo.

— O que foi? Alguém está passando mal?

Ele respondeu, falando tão rápido que mal dava para entender: — Não, não é ninguém da nossa colônia. Mas o Bispo me enviou até aqui para informar que precisa encontrá-lo na sala central... imediatamente. Ele quer que prepare a enfermaria também!

— Ora essa... Por que preparar a enfermaria se não há ninguém doente...? — perguntou ele, duvidoso. 

— Sim, não tem ninguém doente aqui. Mas...

Yamato perdeu a voz. Respirou. 

James ergueu as sobrancelhas. Assombrou-se: — O que houve? Fale com calma, homem! Está me assustando!

— Não há ninguém doente, pelo menos não é morador da colônia, doutor.

— Não vai me adiantar pelo menos do que se trata?

— É que o Bispo tem informações de que um objeto espacial ainda não identificado acabou de cair na região. Ele precisa de homens para sair e averiguar.

James congelou. Procurou raciocinar rapidamente, mas sua mente tinha pedaços soltos, pequenos espaços vazios, lacunas.

— Doutor...?

Concentrou-se: — Estamos na época de visitas? Você contou os períodos?

— Não, não estamos em épocas de visitas...! E depois, mesmo que eu contasse, não teria certeza absoluta. Nem sabemos em que ano estamos!

— Hmm... 

— Doutor James, pelo jeito é muito grave. O Bispo não nos chamaria dessa forma, caso não fosse...

— Está bem, está bem — apressou-se, calçando-se.  Vamos falar com ele! 

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