segunda-feira, 11 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 2 - Iosis

Prometheus² - Fan Fic - Por Jason

2. IOSIS


Aquele dia poderia ter sido mais um de uma sessão religiosa como outra qualquer, como muitas que se difundiram pela Terra num passado distante, pregando formas de vida e conceitos de fé. 

Aquele dia poderia ser como outro qualquer para James, não fosse um detalhe: ninguém ali estava na Terra. Todos eram moradores da colônia espacial do planeta Iosis.

Cheio de planícies com crateras, montanhas de rochas e nuvens de areia, o planeta tinha uma cor predominantemente amarronzada, característica de sua superfície desértica. 

Num ponto da região equatorial residia a colônia espacial religiosa, uma verdadeira cidade cheia de labirintos e canais escuros, com a aparência de um monstruoso polo nuclear feito com rochas e concreto. Ao centro, em lugar um pouco mais elevado do restante da colônia, a sala de comando — morada do Bispo.

Esta sala central era abafada, empoeirada, com velhos computadores e conetores para enviar e receber informações de veículos espaciais. Construída em círculo, lembrava um local antigo e abandonado, ou uma sala de comando numa torre de controle de um aeroporto que não funcionava mais. Como todos os outros cômodos do lugar, cobria-se pouca iluminação, com o diferencial que, ali, a claridade surgia de uma fonte elétrica.

O sistema de ventilação, feito por tubulações monstruosas, possuía hélices em suas extremidades que, pouco ou quase nada, rodavam. Esse sistema, interligado para toda a colônia, pifava de tão velho e carente de manutenção adequada.

Havia uma mesa, ostentando um velho e horrível sistema de comunicação — um painel monstruoso, bancos inteiros de luzes piscando e indicando o funcionamento da tralha eletrônica de outros setores —, e uma poltrona, em que era possível encontrar o “Bispo”, o senhor de nome Arthur, quase sempre lá. Quando não ministrava sermões ou orava no templo, o Bispo mantinha contato com veículos de abastecimento para a colônia e trocava informações sobre esta para arrecadar fundos necessários à manutenção.

Quando James chamou-lhe à porta, acompanhado por Yamato, Arthur estava sentado em sua poltrona giratória de couro velho, preto e rasgado. Sempre autoritário, ele o ordenou que entrasse e sentasse ali, diante dele — numa velha cadeira estofada.

— Não temos muito tempo para discutir essa situação atípica então, serei o mais direto possível.

Arthur era um homem grotesco de tão gordo. Pele branca, com veias tão expostas que, ao ficar nervoso, a pele se enchia de placas avermelhadas. Sua aparência era asquerosa. Do alto de sua estatura mediana, seus movimentos eram vagarosos tais quais os de uma lesma. Transpirava, ratificando eterno cansaço, como se estivesse em uma sauna. 

O rosto mostrava suas dobras de gordura embaixo dos olhos e do maxilar, formando papas grosseiras. Era careca, como todos no local, mas a cabeça era grande e larga, brilhante. Exibia, orgulhoso, grandes rugas na testa e ao redor dos olhos. Os ombros e quadris eram robustos, típicos de uma pessoa acima do peso ideal.

— Nossos transmissores captaram movimentação de grande objeto na atmosfera. Os computadores estão indicando a localização de impacto. Eu perdi contato e suspeito que a operação de pouso do veículo não foi bem sucedida — informava Arthur. 

A voz dele era grave, vibrante. Sua boca mole se torcia ao pronunciar qualquer palavra, por mais simples que fosse. Falava arfando, no entanto, como se fosse um balão que estivesse faltando ar.

— Eu estou reunindo homens para seguir ao local de impacto, mas preciso de pessoas que já tenham operado trajes espaciais antes na vida. Sei que você é uma dessas pessoas, doutor.

— Está aqui perto?

— Cerca de três quilômetros, ao norte. Podemos usar o nosso velho guindaste para chegar lá e para puxá-lo, dependendo do tamanho. Não tenho resultados de quanto ele mede, mas pode estar em pedaços.

— O guindaste...? Desde que vim para cá ele nunca funcionou — disse James. Na sua voz, o tom evidente de desdém. — Acha que esse troço vai funcionar agora?

O Bispo mostrou os dentes. E que dentes...! Eram amarelados, por causa de duas décadas de vício em fumo e bebidas, antes de parar por perder um pulmão e resolver ir para aquela colônia “com a finalidade de encontrar paz interior e uma salvação para sua alma”. 

Cheio de si, confirmando perícia, retrucou: 

— Doutor, eu trabalhei durante muitos períodos com maquinário pesado e sei que ele funcionará perfeitamente. Ele é movido à energia nuclear, seu motor usa um turbo alimentado por fusão e é capaz de tracionar o dobro ou até o triplo do seu tamanho, dependendo do peso, do terreno e da distância. Aquela beleza é capaz de fazer coisas que nem imagina — explanou, cheio de evidente perícia —, mas... precisa de homens que saibam operá-la ou de nada adiantará. Eu poderia ir, mas, infelizmente, a roupa espacial não entra mais em mim.

— E onde estão os trajes e o guindaste...?

— No depósito de cargas. Nós temos mil pessoas morando aqui, mas apenas vinte são capazes de fazer essa atividade. Não podemos ignorar isto, porque não quero encrencas para o meu lado — disse o velho, agora de maneira ofensiva: — O veículo que caiu parece não ter natureza definida.

— Estranho falar isso, senhor, até porque não é da nossa natureza negarmos ajuda a ninguém... Se precisarem de nossa ajuda, assim faremos, como o Senhor gostaria que fosse feito — interferiu Yamato, tranquilizando-o. — Mas o que realmente me parece estranho é que uma nave venha parar aqui, neste planeta...

— Eu entendo em que ponto quer chegar — e o velho balançou na ruidosa cadeira, ante os olhares de desconfiança dos dois à sua frente —, e o que quero dizer é que sempre precisamos de cautela.

James virou o rosto e, por cima do ombro direito, perguntou, para o oriental: — Já usou uma roupa espacial antes? 

— Bom, faz cerca de dez anos que entrei em uma, quando me dirigia para cá. 

— Dez anos? — James ergueu os supercílios: — Como sabe que fazem dez anos? Não perdeu a noção de tempo?

 — Dez anos pelas minhas contas. Mas, independente disso, acho que posso operá-la ainda... Posso averiguar a capacidade delas, se quiserem... 

A escolha pelo oriental não era à toa: antes de decidir por ir para a colônia e continuar sua vida lá, Yamato era tecnólogo e trabalhava como engenheiro de comunicação e sistemas de veículos e uniformes espaciais. Ele consertava de trajes de astronautas a naves para uma grande indústria fabricante destes produtos. Também foi operador de máquinas pesadas em outra época, o que fazia uma das pessoas mais adequadas para a realização daquela tarefa.

— Vá com ele — ordenou Arthur —, vou entrar em contato com alguma nave próxima, para informar o ocorrido. Assim, não teremos como nos preocupar com a parte burocrática para não atrapalhar nossa paz.

— E quanto aos outros moradores? — inquiriu Yamato. — Eles vão querer saber tudo o que está ocorrendo...

— Deixe os outros comigo. 

— Espere, espere um pouco... Há outra coisa, senhor, que me preocupa... — pronunciou James.

— O que é, doutor?

James falou pausadamente.

— Faz tempo que não vemos a superfície do planeta. Vivemos aqui dentro, sem contato com o mundo lá fora, nem mesmo contato visual. Não saímos de dentro dessa colônia desde que chegamos aqui... Essa será a primeira vez em anos. Como será que os homens reagirão? — indagou: — Isso pode ter algum efeito psicológico...

— Não terão — discordou Arthur, abruptamente: — Sei o que eu digo. O que está lá fora é só um monte de areia e névoa. Aposto que ninguém vai querer ficar por lá ou fugir daqui, não é mesmo? Não existe nenhuma dificuldade em uma operação assim: é só sair, recolher o veículo caso seja possível e verificar a existência de feridos ou sobreviventes para prestarmos o socorro o mais rápido possível. Os passageiros são nossa prioridade.

James fez de sua face um sinal de hesitação. Arthur balançou a cabeça, com a sua fisionomia típica indicando que eles deveriam se movimentar mais rapidamente e providenciar o que ele queria.

— Tudo bem, então, não temos mais tempo a perder. Vou preparar a enfermaria... e poderemos ir...

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