terça-feira, 12 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 3 - Resgate


Prometheus² - Fan Fic, por Jason

3. RESGATE


  A zona de depósito da colônia era uma gigantesca área de carga, cuja estrutura se assemelhava a um velho porão ou galpão industrial abandonado. 
  Ali, em dois andares, era possível apreciar suntuosos contêineres carregados de 40 toneladas de comida cada um, bem como itens diários de higiene —, lado a lado com barulhentos e monumentais geradores de energia. Lá também ficavam os geradores artificiais atmosféricos — grandes cilindros escuros, com mais de dois metros de altura, que permitiam manter uma gravidade semelhante a da Terra dentro da colônia. 
  Havia respiradouros, bombas d’água que sugavam água de poços e tanques artificiais; máquinas que levavam oxigênio para todos os setores. Tudo tinha aspecto velho, execrável e enferrujado: nas tubulações, por exemplo, jaziam incontáveis goteiras e vazamento de gases. Existiam remendos nos buracos, vazamentos de óleos que escorriam pelas paredes, manchadas e imundas. 
  Estruturas que amparavam os canais de oxigênio se castigavam por ferrugem. As tubulações de água sacudiam com a pressão, como se fossem explodir. O lugar era úmido e fétido. 
  As colunas de sustentação, cheias de volumes e curvas, vigorosas e metálicas, eram descascadas e enferrujadas. A zona tinha quilômetros de cabos pelo teto e pelas paredes. 
  Os guindastes de cargas, feitos de correntes de aço, balançavam, cheios de zunidos. No meio de chaminés que conduziam esgoto, água e ar, uma área, fechada a vácuo para conserva, estava reservada para roupas espaciais lá esquecidas. Foi dali que o grupo liderado por James retirou os equipamentos.
Para acessar a área era necessário acessar um teclado numérico, que possibilitava a descompressão da área fechada para que qualquer pessoa ali entrasse. Quando novo, esse sistema possuía uma central que avisava o momento exato de conclusão da operação. Agora, devido a idade do projeto, o processo era feito manualmente.
  Os trajes espaciais não eram usados fazia décadas. Para se ter uma ideia, eram do mesmo modelo dos utilizados na colonização espacial de Marte séculos antes. Yamato e James, no entanto, perceberam que tinham boas condições de uso por causa da câmara de conserva (embora os sistemas de GPS, os servidores bluetooth, relógios, marcadores de tempo e transmissores de alta potência — capazes até de enviarem dados diretamente para uma nave em órbita —, estivessem sem funcionar). As câmeras, montadas sobre o ombro direito do cosmonauta, também não funcionavam mais. Mas tinha, apesar disso, sensores, tanto para medir a saúde do astronauta, quanto do ambiente. Estes sensores ainda laboravam, devido à composição das baterias nucleares.
  O capacete espacial vinha com um visor de filtros para proteger os olhos da luz solar. Além dele, o usuário também usava na cabeça uma touca com fones de ouvido e microfones para comunicação via rádio — este em plena atividade. Um suprimento de água potável era fornecido por um canudo, ligado a uma caixa em anexo que o usuário carregava nas costas.
  James lembrou aos homens que esta caixa, na parte de trás do traje, poderia dar um suporte de vida de cerca de dez horas. A ideia era realizar a operação com o mínimo de tempo possível, que ele calculou em torno de cinco a sete horas. A caixa guardava desde a bateria movida a energia nuclear que fazia todo o traje funcionar até suprimentos de oxigênio e água — os quais se esgotavam dentro do citado prazo. 
  O problema era que, sem os marcadores de tempo, que não funcionavam, o usuário do traje não podia acompanhar e controlar as medições de gasto de ar e água em função de horas. Para se movimentar, o astronauta tinha um propulsor adaptado à roupa. O propulsor era movido a nitrogênio, mas o combustível também era limitado e nem James nem Yamato conseguiriam precisar quanto tempo teriam desse combustível.
  A roupa era dividida em módulos: capacete, tronco, braços, pernas, luvas e botas. As partes eram presas umas nas outras por travas mecânicas, fixadas após um pequeno giro. Pesava, ao todo, cerca de cem quilos — divididos em mais de dez camadas de tecidos.
James também retirou dali um tipo de maleta de primeiros socorros. Era uma mala com uma espécie de máscara para dar suporte à vida, que resistia à pressões e variações de temperaturas, muito usadas em ambientes inóspitos da Terra. Dentro da maleta, além de medicamentos, alguns aparelhos pequenos para raios X e um tipo de saco hermético, uma bolha, que se desenrolava ao redor do corpo do ferido e o embalava para o transporte.  
Mais ao centro do porão havia o enorme guindaste móvel. Era um veículo pesado, semelhante a um trator gigante, de pintura amarela desbotada.
Suas rodas, oito ao todo, de dois metros de diâmetro, eram constituídas por duas camadas, próprias para qualquer terreno. O casco do guindaste se estendia em quase dez metros de comprimento, como um caminhão usado em mineração. Um quarto deste tamanho era ocupado pelos motores na traseira, usados não só para tracionar o veículo como para movimentar e tracionar a grua sobre ele. 
Na cabine, mais alta, uma única pessoa o conduzia. O restante do pessoal precisava ir sobre ele, ao redor do aparelho, como numa locomotiva.
  Preparados para andarem na superfície do planeta, o grupo subiu. Yamato se voluntariou a conduzir o guindaste até o local indicado pelo computador principal do veículo. Não sabia operar com firmeza aquele monstro mecânico, mas, de todos, era o que possuía melhor habilidade. Seguindo o sistema de posicionamento dele, o asiático deduzira que chegaria ao ponto das coordenadas sem erros.
Para sair da área de cargas, os homens precisaram abrir, manualmente, os portões. Duas placas enormes de metal pressurizadas, ativadas por um sistema — um painel — nos próprios portões. Este sistema os destravava e os abria. Os espessos portões, usados para protegerem o interior da atmosfera alienígena, davam acesso a uma espécie de câmara gigante de pressão, um corredor largo e alto, pelo qual os astronautas deveriam permanecer até que se fechassem os primeiros portões — e eles pudessem ter contato com a superfície do planeta. 
  Toda a operação era demorada e cuidadosa. O corredor alterava e igualava a pressão atmosférica ali dentro, para que, ao serem abertos os seguintes portões, os homens e seus equipamentos não fossem esmagados pela atmosfera do planeta. 
  Feito todo este processo, Yamato conduziu o tanque para a superfície do planeta sem nenhum problema.  
  — Nem me lembrava como ele era — dizia James, quando um fio de luz entre os dois portões tomou a sua visão. James andava, num misto de deslumbre e espanto, com passos demorados. — Deus do céu, e eu podia jurar que era noite...
  Mas era dia. 
  Se existissem janelas para o exterior do planeta, os moradores da colônia religiosa veriam uma superfície cheia de fraturas colossais, coberta pela atmosfera rarefeita de dióxido de carbono. 
  O clima, quase sempre, despejava sobre o solo um tipo de neve carbônica — flocos escuros e leves, que boiavam como cinzas de um vulcão em erupção — como naquele momento em que aqueles bravos homens percorriam o solo. Havia muita poeira, como se as rochas cuspissem areia para o alto. Não havia nenhum sinal de vida: Iosis era um deserto grande, inóspito e rochoso.
  Não raro, a superfície era comovida por tempestades de poeira e redemoinhos. Havia, por causa disso, um temor adicional nos homens que naquele veículo monumental viajavam. James, entretanto, apreciava o céu, de cor amarelo-acastanhado, qual só se alterava de cores durante o nascer e o pôr-do-sol — quando adquiria uma tonalidade rosa e vermelha e a areia ganhava cor dourada. 
  Admirou-se, por perceber que era dia e podia ver o sol daquele sistema solar alienígena, minúsculo, por entre aquele degradê de neve escura. “Lindo” — pensava. — “Lindo...”
  Os homens, trancafiados naquela edificação de pedra e ferrugem, não tinham acesso a esta visão, uma vez que para lá se mudavam e decidiam lá viver. Não sabiam se era noite ou dia no exterior — e esse era o estilo de viver naquela colônia planetária. 
  Agora, depois de um tempo que sequer sabia precisar quanto, James contatava o mundo exterior. E estava maravilhado, como todos, com o que se deparava lá. Todos deslumbrados, excitados com a visão do planeta e com a oportunidade de caminharem sobre ele; de sair da colônia, pela primeira vez, em anos. 
  James escutou pelo rádio um dos homens afirmar que não tinha mais recordações da superfície do planeta.
— Eu nem lembrava mais de como esse planeta era. Eu estou aqui já faz mais de dez anos... 
— Como sabe que são dez anos? Todos aqui parecem estar há pelo menos dez anos. 
  Outro, mais animado, sugeria: — Poderíamos sugerir ao senhor Arthur que nos concedesse passeios semanais na superfície do planeta. 
— O senhor não ia gostar nada disso... — reclamou James. 
  O rádio ruía em sua cabeça. Assobiou, mudando de frequência. James tentava consertá-lo, operando os displays em seus braços, sem êxito. Mas os trajes espaciais cumpriam seus objetivos muito bem até então. 
  Alguns dos homens, ele percebeu, estavam visivelmente desorientados por estarem ali. As partículas de poeira cobriam os capacetes e os homens sentiam dificuldades em manter seus visores sempre limpos. Para embaraçar ainda mais a operação, ventava e a poeira do deserto, ora se dissipava, ora confundia a visão. 
  Não demoraram muito, contudo, para avistarem uma torre negra de fumaça que se erguia, com toda a sua imponência, rumo ao céu. O impacto violento do veículo no solo deixou um rastro de destruição pelo caminho: rochedos aparentemente atingidos por destroços, como se o veículo acidentado tivesse se desintegrado em pleno ar. 
  O guindaste apontou na direção correta e seguiu para lá.
  A região em que o veículo caiu era composta principalmente de minerais. Um terreno íngreme, montanhoso, só acessível para veículos daquele porte. Se estivessem de pé, James concluía, o acesso seria impossível. 
  Havia pedaços da fuselagem por todos os lugares. Uma fuselagem escura, de material estranho e misterioso. Ninguém conseguia reconhecer suas formas. Indícios do que parecia ser combustível ou água marcava a direção do impacto. Havia outro objeto estranho facilmente destacável na planície, como um tipo de motor ou turbina, que ainda girava. 
— Olhe, James... Olhe para aquilo!
A euforia de Yamato era notável. A espaçonave tinha se rompido e se aberto como uma lata de sardinha vazia.
— Aquela deve ser a parte traseira — indicava James, para o pedaço do veículo do tamanho de uma casa. — Parece grande...!
— Aqueles são os motores — explicava Yamato... E aquilo... OH DEUS!
Todos ficaram tão assombrados por aquela visão inesperada que ninguém conseguiu mais falar. Um estranho maquinário, mais impressionante que nenhum deles ali se atrevia a pensar existir, jazia no solo, inclinado, em uma bizarra forma de “U”. 
  Era uma nave! Sim, era! Estava desmantelada por um impacto violento no solo. Não poderia ser outra coisa, se não uma bizarra nave, de tecnologia estranha, desconhecida. A potência de sua velocidade e seus motores a fizeram se arrastar, por quilômetros, pelo solo, criando um rastro com a dimensão de estádios de futebol. James achou inacreditável que uma coisa daquelas tivesse despencado do céu e ninguém na colônia tivesse ouvido — porque com todo aquele tamanho, certamente aquilo faria todo o planeta estremecer! 
E as formas? A coisa era tão estranha que ninguém ali se achava capaz de imaginar existir tal objeto no universo. James ficou olhando para aquilo como quem via um fantasma no deserto: não achou horrível, mas sim inquietante, de modo que a tecnologia que conhecia não seria capaz de criar. 
— Céus...! — alguém exclamou pelo rádio.
  As linhas do maciço aparelho abandonado eram claras, mas antinaturais, dando a todo seu desenho uma perturbadora anormalidade. 
— Não conseguiremos rebocar essa coisa... — concluiu James.
O guindaste parou.
James fez um sinal para que os homens o seguissem e eles se alinharam. O maquinário desconhecido elevava-se por cima dos seus olhos e sobre as rochas circundantes, como se tivesse cavado um buraco e emborcado dentro dele. Parecia ter deitado sobre sua barriga, erguendo as pernas para o ar. 
Sua composição era metálica, enorme, com os dois chifres do “U” ligeiramente apontando um para o outro. Um dos braços era ligeiramente mais curto que o outro, e mais torcido para dentro. Ele estava monstruosamente quebrado, torto, devido ao impacto da queda. 
  Ao aproximar-se mais, viram que a nave se fazia ligeiramente mais grossa na base do “U”, com uma série de protuberâncias concêntricas, como grossas placas que se elevavam para uma cúpula final. A nave jazia imóvel, sem dar nenhum sinal de vida ou de atividade, mas emitia fogo e fumaça, criando uma torre negra que incendiava o céu. 
Naquela proximidade, a transmissão era ensurdecedora e os homens se apressaram a baixar o volume de seus capacetes.
Ao ver o restante do veículo espacial em escombros, soterrado na areia e nas pedras enquanto ainda fumarava, James concluiu: — Então estamos diante da dianteira, Yamato. Ou do corpo principal com os passageiros...
Depois de alguns segundos sem respostas, James escutou o outro dizer pelo rádio:
— Suponho que sim.
— E ao que parece... — James ironizou —, o computador dessa coisa não funcionou como deveria. 
— Não creio que ele caiu, James. 
— Por quê?
Yamato se emparelhou, com o dedo levantado indicando um pedaço do casco: — Ele foi derrubado.

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