quinta-feira, 14 de março de 2013

Pra virar filme... Ou não! - Prometheus² - Capítulo 5 - Enfermaria

Por Jason
5. ENFERMARIA



A enfermaria da colônia tinha pouca luminosidade, aspecto sórdido e mal cheiroso. Não era nenhum exagero dizer que parecia um banheiro gigante, ambiente degradado, com azulejos quebrados, encardidos, e um falho sistema de refrigeração. 
  Em parte do teto, mofado e com infiltrações, caíam goteiras das tubulações que por ali passavam — tubos de quase 2 metros de diâmetros levavam ar para outras galerias enquanto pequenas tubulações se enraizavam, com saídas para o interior. Era de uma aparência tão ruim que parecia estar desabando. 
  Havia um desagradável fedor de fossa, potencializado pelos ralos que engoliam de sangue de doentes a material hospitalar. 
  A maior parte das luzes, vindas do único gerador do setor, estava queimada. Havia uma única entrada e saída: um par de portas de aço velhas, trancadas por um enorme ferrolho por dentro e por fora. Suas dobradiças apresentavam camadas de crostas, tamanha a oxidação. 
  Macas de material rústico, como madeira e ferro, alinhavam-se, indicando ali alguma organização. Cortinas de plástico velho, separando-as, e prateleiras em armários sem portas, com vasos de substâncias que iam de álcool à ácidos, dividiam espaço com materiais cirúrgicos rudimentares. 
Destes materiais, os mais visíveis eram serras e espécies de facas. Bisturis, bandagens, gazes, algodão revelavam certa arrumação e cuidado.
Ali, naquele ambiente, aquela mulher, deitada sobre a cama, coberta com lençóis encardidos, repousava. Mexeu a cabeça, uma única vez, e abriu os olhos. Balbuciou algumas palavras desconexas, apertou os olhos e fios de cabelos desceram a testa com delicadeza. A luminosidade, mesmo pequena, incomodava. 
  Ela acordava. E era linda. 
  James, embora não pronunciasse, a admirava. Os cabelos, volumosos, eram grandes e lisos, de fios finos, castanhos claros. A pele branca tinha a delicadeza e cuidado de uma boneca de porcelana. Os lábios finos, de uma cor que iam do rosa ao violáceo, como jamais havia visto anteriormente em sua vida. 
Ela se mexeu e James, curioso, notou o nariz afinado, apreciando o perfil do rosto de traços ovais. Ela piscou os olhos, James recuou o corpo, sensibilizado, temendo que ela percebesse. Olhos estreitos, enigmáticos...! Duas lentes de cores castanhas, lapidadas como cristais.
  James, lentamente, se aproximou, aguardando por suas reações. Sentou-se numa parte da cama, sem piscar os olhos, acompanhando cada movimento dela. Ela, agora ziguezagueando a cabeça enquanto passava os olhos pelo lugar, soluçou. Não estava bem: os cabelos desgrenhados, suja, e a cabeça pulsando como se fosse estourar. 
— Que diabos de lugar é esse? — perguntou, quase sem voz. Estava zonza.
  Olhou para ele: — E quem diabos é você?
  James, parado, ansioso por aquele contato com ela, corou de emoção. Tinha certo ar jovial, desajeitado, tal qual um adolescente ao ver uma menina bonita. A estranha sensação de quem, fazia muitos anos, não via uma mulher. E, ainda mais, tão linda quanto aquela.
— Não... Não reconhece este planeta? Não reconhece essa colônia espacial?
Ela sacudiu a cabeça, negando. Queixou-se da claridade e da dor de cabeça. Sua voz, mesmo pastosa pela ocasião em que ela se encontrava, trazia no timbre incômoda firmeza. Permanecia aturdida, com claros sinais de incapacidade em distinguir se ainda sonhava ou se acordara.
— Com certeza, nunca estive aqui antes...
— Você está em Iosis — revelou James, disfarçando os tremores das mãos. — Sofreu um acidente... Seu corpo ainda está se recuperando de tudo o que passou. Relaxe um pouco e mantenha-se consciente.
— Eu estou bem.
Não estava. Ela demonstrou confusão mental. A cabeça balançava, de um lado para outro, tentando reorganizar as ideias. Verificou seus cabelos, como se não acreditasse que estivessem grandes.
Desviou os olhos para James, voltando a observar o decadente ambiente.
— O que disse...?
— Disse que você está em Iosis. 
Ela fez uma expressão de dúvida e total desentendimento.
  — Bom, ele é descrito... pelo controle de tráfego como um solitário planeta no braço de Sagitário, exercendo sua órbita em torno da pequena estrela Ogle... Na verdade, eu acho que Iosis é só um pequeno e insignificante mundo de torrentes de areia e pedra, entende?
Ele sorriu. Ela continuou séria. 
— Como você se chama...?
  — Meu nome é James. E sou o único médico formado e com experiência clínica dentro desta colônia — e ele sorriu mais uma vez, percebendo que ela fixava, finalmente, os olhos nele. — Essa é uma colônia de homens religiosos, a Colônia Espacial Religiosa Iosis, que carinhosamente chamamos de C.E.R.I. Somos homens que deixaram seus lares na Terra e em estações espaciais para viverem aqui, isolados, do restante do universo.
A mulher nada falou. Meneou mais um pouco a cabeça, estampando uma fisionomia de rejeição àquelas palavras. Respirou mais fundo que o habitual, uma vez que seus olhos inquietos não paravam de rodar pelo leito.
— Você sabe quem é? Pode dizer seu nome?
Ela balbuciou: — Meu nome é... Elisabeth Shaw...! E eu quero sair daqui! EU QUERO SAIR DAQUI!
— Não! Fique calma! Você precisa ficar calma!
— DAVID! Onde está DAVID?
Elisabeth tentou se levantar da cama, mas o máximo que conseguiu foi despencar no chão. James a segurou e Shaw, como se estivesse sem o controle do próprio corpo, começou a se debater. Puxou a maca, tentou caminhar, mas as pernas não respondiam aos comandos. Sentia dormência nos membros inferiores, um estranho formigamento. Tamanha atitude quase derrubou também James por cima dela, que a esta altura tentava inutilmente segurá-la. Seu estado era de puro pânico.
James correu até a bandeja de utensílios mais próximos. Shaw começou a rastejar enlouquecida para um dos cantos da enfermaria, tentando fugir daquele desconhecido. Começou a berrar descontroladamente, tentando resistir ao ataque de James sobre ela.  
— Durma mais um pouco, Senhorita Elisabeth Shaw — disse ele, aplicando-lhe uma injeção: — Conversaremos melhor mais tarde. Agora descanse... descanse...!
Shaw viu tudo rodar rapidamente e, simplesmente, apagou. 

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