sexta-feira, 15 de março de 2013

Pra virar filme... Ou não! - Prometheus² - Capítulo 6 - Shaw


6. SHAW


Shaw finalmente despertou. Estava agora, aparentemente, menos confusa.
— Ainda se lembra de mim...?
James estava mais assustado do que ela. Na beira da cama, segurando uma seringa, suas mãos não paravam de tremer.
— Por favor, eu não quero... eu não quero aplicar isso de novo... Você precisa ficar calma. Ou vai chamar a atenção de todo mundo aqui. E eu lhe garanto, não será uma coisa muito boa...
Shaw bufou, olhou em volta. Não restava muito a fazer. Estava lá, defronte a ele. Ele era mais forte do que ela —, e ela não estava em condição alguma de lutar.
— Se eu quisesse te fazer algum mal, eu já teria feito. Mas eu não fiz nenhum mal a você. Você lembra do meu nome?
— James — disse ela, fixamente. — O que você fez, James?
— Lhe dei um sedativo. Como você está se sentindo? Está menos confusa?
  Shaw não estava muito bem, mas insistia em passar uma imagem de que poderia sair dali andando com as próprias pernas sem titubear. 
— Eu estou bem...
— Bom, muito bom... Já... Já estamos progredindo... Hmmm... Como costumam te chamar? De Elisabeth ou Shaw?
— Tanto faz.
  — Está com fome, Shaw?
Houve uma pausa entre os dois. Ele retomou.
— Você não é nenhuma prisioneira aqui. Fique tranquila.
Shaw hesitou, mas ao fim cedeu ao seu estômago, roncando como um leão faminto.
— Sim, estou muita fome — confessou. 
  Ela pôs as mãos na testa. Apertou as têmporas, pressionou-as por dois ou três segundos. — Preciso de um remédio para dor de cabeça. Parece que estou de ressaca...
— Vou providenciar comida e o medicamento e...
Ela interrompeu, sem permitir que ele se mexesse para sair: — Espere um pouco, espere...! Ainda não estou raciocinando muito bem... Mas... Está me dizendo que estou em Iosis...?!
— Sim — James se espantou com aquela reação. — Não conhece...? Está há cinco mil anos luz de casa, nesse planeta. Não compõe nenhum sistema solar e não existem planetas próximos, Shaw. Estamos no meio do nada.
— E em que ano estamos? — Shaw sentiu náuseas.
James se esquivou da pergunta, enrugando a testa.
— Por que está me perguntando isso? Parece que dormiu uma eternidade...! Olha, preste atenção: — ele tentou chegar mais perto: — eu preciso te examinar, para conferir como está seu estado mental, mas não tenho equipamentos apropriados aqui, então...
— De quantas maneiras você quer que eu diga que estou bem? Eu conheço os sintomas de dormir por muitos anos nessas câmaras, sei o que eu estou passando e aprecio sua preocupação... “doutor” James — disparou, sem pestanejar. — Eu só preciso que você responda as minhas perguntas.
Shaw manifestava irritabilidade. Era visível sua desordem mental naquele momento. James recuou, ressentido com aquele tom de voz agressivo. 
— Não se continuar a me tratar dessa forma.
Shaw respirou, tentando tranquilizar-se. Pôs as mãos em seu pescoço, como se procurasse algo, e não encontrou.
— Meu crucifixo... Onde ele está...?
James colocou as mãos por uma parte das vestes e tirou a joia, colocando-as nas mãos dela.
— É religiosa...?
Shaw retrucou: — Não. É só um presente. — E não o colocou no pescoço, guardando-o nas roupas.
— Somos homens de bem e só queremos ajudar. Eu quero ajudá-la. Mas não costumo falar com pessoas que não me respeitam. 
Shaw se pôs praticamente sentada na cama, ajeitando seu corpo de forma que a coluna ficasse ereta e pudesse conversar com James. Levou as mãos à cabeça, tentando arrumar os cabelos. A dor, no entanto, ainda incomodava. Murmurou uma reclamação, chateada. James não deu ouvidos.
  — Sim, claro... Então eu peço perdão... Por favor, prossiga.
  James tentou chegar mais perto outra vez, tentou tocá-la, mas ela impediu empurrando suas mãos para longe do corpo dela. 
  — Eu estou bem, estou bem. Isso sempre advém quando a gente... A gente passa muitos anos no espaço...
Ela se referia às variações no estado de humor, mal-estar, sonolência, fome, sede, alteração de pressão arterial, dores nas articulações e de outras tantas consequências tão constantes para quem viajava em sono profundo pelo espaço. 
  Uma vez ciente disso, Shaw tentou se mover, como se fizesse exercícios para que o corpo se adaptasse mais rapidamente àquele despertar. Esticou os braços para o alto, movimentando as mãos. Girou o pescoço.
— E eu compreendo. Mas... Algumas coisas precisam ficar bem claras aqui, doutora. Como eu disse, você está em Iosis. Aqui em C.E.R.I. nós pregamos uma convivência pacífica e estamos cada vez mais perto de Deus. Vivemos com pouco, apenas o suficiente para nos mantermos saudáveis, não só fisicamente como mentalmente também. Não temos luxos, não temos muito — aclarou ele, sentando-se na cama e mantendo-se a distância de um braço dela: — Uma nave nos traz mantimentos periodicamente. Temos uma central de contato e controle, feita por aquele que chamamos de Bispo, o senhor Arthur. Você está compreendendo?
— Sim — replicou ela. — Preciso de um espelho...
Houve outro instante de silêncio entre os dois. James estranhou aquele acesso repentino de vaidade.
— Um... Espelho...?
— Parece que passei uma eternidade dormindo — reclamou ela, mexendo nos cabelos mais uma vez. — Devo estar horrível.
— Não, não está.
— Tem ou não tem um espelho, doutor James?
James não sabia nem o que dizer, nem o que fazer.
— Você é um tanto... Difícil, eu diria...
— Eu sei.
— Todos que dormem em sono criogênico possuem essa queixa... de achar que passou uma eternidade dormindo. No seu caso, me espantou a deterioração óssea. Por isso, apliquei um soro com vitaminas e enzimas que aceleram a regeneração muscular e óssea em poucos minutos. Espero que não se importe...
— Não, claro que não. Eu teria feito a mesma coisa.
— É o procedimento que usamos quando os passageiros das naves de abastecimento precisam... 
Shaw não piscava, observando aquele homem careca e aparentemente desajeitado lhe falar coisas que pareciam não chegar a lugar algum. 
  — Quer... um espelho? — perguntou ele. — Eu vou conseguir... Acho que ninguém tem um por aqui, não somos dados a vaidades, mas, como eu sou médico, tenho algumas regalias e...
  — Tudo bem, esqueça o espelho... — pediu ela, enfezada com aquela conversa. — Então... Este tal homem, o Bispo... você falou alguma coisa dele, o que ele é? 
— Sim. Arthur está acima de todos nós. É ele quem controla tudo. 
— Então preciso falar com ele. Imediatamente.
  James explicou que, se ela tivesse interesse, Shaw poderia falar com ele depois, no momento em que James decidisse. 
  — Até lá, ficará aqui sob meus cuidados médicos e se recuperando. Você entendeu?
Ela respondeu afirmativamente com a cabeça, mesmo que sua expressão fácil demonstrasse outra coisa. James se levantou, preparando-se para sair do lugar. Virou-se para ela.
— Não temos noção de horas e dias aqui. Não sabemos nem em que dia, em que mês ou que ano estamos. Todos aqui acham que já se passaram dez anos que chegaram aqui, mas muitos estão há mais tempo que isso, outros menos. Ninguém sabe se é dia ou noite, qual semana, nada — completou ele. — Tempo, aqui, não tem relevância para nós. 
Shaw nem conseguiu mover um músculo da face ao ouvir aquele discurso. 
— E então?
— Eu... Eu... — ela gaguejou. — Eu nem sei... o que dizer...
— Por que o espanto...?
— Não sabem em que ano estão. Vocês não tem noção nenhuma de tempo? — Os olhos dela saltaram. — Está falando sério?
— Sim, por que o espanto...? Faz parte do nosso estilo de vida. Aqui não podemos ver se o sol está se pondo ou se é noite. Vivemos sem noção alguma de tempo. A única pessoa capaz de saber em que ano, década ou milênio estamos é o Bispo. Nós, no entanto, aprendemos a contar o tempo de intervalo entre uma visita e a outra das naves de suprimento e manutenção. E a contar o dia pelo horário de alimentação que é controlado por ele. Mas, claro, sempre existem erros. Não é uma medida precisa.
  Era incrível perceber também que a mesma incompreensão de Shaw, que a levava a se assustar ao perceber que ali estava, era a mesma de James ao vê-la; havia certa inversão de valores: sem a natureza de sua Terra, Shaw não era absolutamente nada. Sem a natureza daquela colônia, James, adaptado àquele local, também não era nada. 
  Era como se ele precisasse daquele meio para viver assim como Shaw precisava sair dali. Shaw não entendia que, por mais que se modificassem seus estilos de vida, o homem sempre necessitaria do tempo, do sol, do clima para viver.
— Então eu preciso que veja David — disse ela, em tom de ordem. — Isso não pode ter ocorrido...! Deveríamos estar no planeta dos... Oh, será que...? Eu devo... Devo estar dormindo ainda... 
  — Eu sinto muito... Mas não está dormindo — proferiu ele. — Isso é real. Eu não entendo muito de aeronaves, mas parece que o veículo fez uma aterrissagem forçada depois que tentaram derrubá-lo... e... acabou se chocando em um grupo de rochas. Se tivesse caído como um meteoro, provavelmente, não teria sobrevivido à queda, doutora. A proposito, onde achou aquela coisa? Como foi parar lá?
  — É uma longa história...
— Ele se partiu — interrompeu James —, parte ficou no meio do caminho e a outra parte, aquela em que você estava, se espatifou nas rochas. Seja o que for, pelo que vimos, parece que o derrubaram.
  Shaw balançou a cabeça, negando aquela versão dos fatos. 
— Onde está David?
— O robô...? Está em um depósito.
  — Onde o veículo está?
— Em um lugar no deserto. Agora descanse, pois voltarei em breve. Vou ordenar que preparem comida e arranjar mais roupas. 
Shaw verificou seu corpo, debaixo dos lençóis. Nem tinha reparado o que vestia naquele minuto. Não tinha sequer percebido se estava nua ou não.
— De quem são estas roupas?
— Minhas. Espero que não se importe. Quando eu a encontrei, usava trajes espaciais — explicou ele. As roupas que ela vestia, naquele momento eram masculinas, com blusa e calça, ambas encardidas, usadas por ele no trabalho.
— Não, eu não me importo.
— E se lhe preocupar... Ninguém a tocou — contou ele. — Tenho poucos ajudantes e... Quando percebi que você era...
—... Uma mulher?
— Sim... Pedi que eles se afastassem e deixassem que eu cuidasse de ti. 
Shaw, finalmente, desde o momento que tinha aberto seus olhos, sorriu.
  — As tentações são muitas nas cabeças destes homens, e os demônios costumam atacar cabeças vazias e cheias de tentações. Não tenho problemas, no entanto, com Isaac, que é o mais novo deles...
— Tudo bem... — falou ela, mais relaxada. — Obrigada... Doutor James.
  — Por nada — ele não escondeu sua felicidade quando ela lhe agradeceu, abrindo um sorriso que ele se recusava, por vergonha, de mostrar. — Precisa de um banho também. E eu... Vou preparar o local e depois... Falar com o superior...
— Mas...
— Até daqui a pouco.
James, nervoso, saiu pela porta e Shaw reparou quando esta foi trancada por fora. Ela estava presa ali dentro, naquele lugar cheio de mofo, isolada do restante da colônia, e ficaria assim até ele retornar. 
  Daquele primeiro contato, Shaw poderia logo se adiantar em dizer que não tinha gostado de James. Havia algo que a incomodava, sua maneira de olhar para ela, principalmente. Inteligente o bastante, porém, para saber que não havia outra forma de permanecer ali e entender o que se passava, como tinha parado ali, se não garantisse a confiança dele. 
  Shaw precisava de mais informações sobre aquele lugar, sobre a nave em que estava. Precisava saber mais sobre aquelas pessoas, sobre os motivos que a levaram para aquele lugar, sobre como sair dali. 
  E algo, em seu interior, lhe dizia que precisava encontrar David o mais rápido possível.

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