sábado, 16 de março de 2013

Pra virar filme... Ou não! - Prometheus² - Capítulo 7 - Contaminação


7. CONTAMINAÇÃO
 
James retornou. Trazia uma bandeja metálica com um prato de comida, água, uma cartela de remédios e, sob ela, mais roupas, dobradas. Colocou tudo, bem arrumado, sobre uma bancada ao lado dela. 
  Shaw reparou que, quando ele adentrou o lugar, trancou as portas mais uma vez. James notou que ela parecia melhor, menos pálida e seu corpo repousava mais firmemente sobre a cama.
— Sente-se melhor? Não quer que eu te examine?
— Não.
— Tem certeza?
— Por que trancar as portas? — interrompeu ela, diante de um James nervoso. — Disse que não era sua prisioneira.
Ele respirou. Gesticulava pouco, tentando esconder suas apreensões. 
— Precaução. Para manter a sua paz e lhe preservar. Estamos em uma colônia de homens. Você entende...? São religiosos. Mas eles são homens antes de tudo. 
— Nenhuma mulher?
  — Não. Nem crianças, nem animais — respondeu ele, atencioso. — Trouxe seu analgésico. É efervescente, de rápida absorção. Logo fará efeito... Coma enquanto está fresco. É a melhor comida que temos.
 Shaw, sem pestanejar um só momento durante este tempo, perguntava:
— Eu preciso falar com David.
James encolheu os ombros.
— Só encontramos a cabeça e o corpo separado. Não sei se ainda funciona.
Shaw titubeou.
— O que quer tanto falar com aquela coisa...?
— Preciso saber por que vim parar aqui e porque isso aconteceu. E se tem alguém que pode responder isso, este alguém é o David. Se você está em um lugar desconhecido, qual a primeira coisa que você faz?
— Eu acho que... Eu tento fazer um amigo.
Shaw não reparou que ele respondeu com seriedade.
— Não estou brincando, doutor James. A primeira coisa que fazemos é entender o que houve para que cheguemos neste lugar. A segunda imediata é estudá-lo, para evitar surpresas desagradáveis.
— Shaw... Eu sou apenas uma espécie de funcionário aqui — explicou ele, sentando-se na cama, mantendo, novamente, a distância de um braço dela. — Tudo o que eu faço é sob ordens de um senhor. Eu não posso desobedecê-lo ou ele pode me punir. 
Ela se espantou. 
  — Punir...?! Pelo amor de Deus, que... Que porcaria de lugar é esse?! Nós não vivemos mais na época medieval, Doutor James.
  — Existem regras aqui a serem seguidas. O lugar funciona com base nelas e é por isso que gostamos daqui. Há um regimento, uma série de leis que não podemos desobedecer. 
— Nada de mulheres. Nada de animais. 
— Nada de brigas, desentendimentos. Nada de pessoas que não são religiosas, a menos que elas queiram se integrar a nossa colônia, que seja um homem que queira se arrepender dos seus pecados e queira encontrar Deus, você me entende? Por isso vivemos em paz e harmonia, próximo do nosso Deus. Não podemos infringir ou recebemos a pior das punições. 
— Pior...? Eles vão te matar ou te torturar? Isso não pode ser verdade, James... Quem esse senhor pensa que é?
—... Eles me mandarão de volta para a Terra. Essa é a punição — rompeu ele, deixando-a completamente estática. — E, sinceramente, não quero voltar para lá.
Shaw coçou a testa, lentamente. Estava pensativa e corada. Apertou os olhos, já assimilava melhor a luminosidade. Olhou para a comida. Estava faminta. 
 — Está bem... não vou discutir isso agora, podemos conversar sobre isso depois... — e suspirou, em direção à bandeja. 
 A cabeça ainda doía. Tomou o remédio, com o copo com água, e colocou o objeto de volta à bandeja. Avaliou: — A comida parece boa.
— Alimente-se devagar. Depois te levarei para tomar um bom banho e se vestir com roupas mais... confortáveis. Depois você poderia me falar como veio em um aparelho como aquele... Para sabermos como você chegou aqui...
Ela riu, de forma espontânea. E não mexeu na bandeja.
— Shaw...?
— Estou pensando em maneiras de explicar isso. Dê-me um tempo, por favor. Nossos procedimentos padrões ensinam que, em caso de comprometimento do grupo, certas informações devem ser discutidas, devem ser analisadas, por questões de segurança.
— Está bem... — James balançou a cabeça em afirmação, fingindo que entendeu tudo o que ela falou. — Podemos conversar depois, que você se alimentar direito e...
— Precisamos destruir a nave devido ao risco de contaminação por doença desconhecida.
James quase deu um pulo para trás com aquela revelação. Estava boquiaberto. Ela repetiu o que tinha dito, ele não se mexeu, como se não tivesse escutado nada. Ao final daquele momento em que ele demonstrara total passividade, ela pressionou:
— E então, doutor, o que me diz? 
— Do que você está falando, Shaw...? — e ele sorriu, desacreditado, em desdém. — Contaminação? Ora, não temos nenhum caso de contaminação de nada faz tanto tempo que nem me lembro. Todos os homens foram vacinados contra todas as doenças possíveis. Depois, o veículo caiu em uma área deserta... Não há problemas, eu asseguro.
— E quanto a doenças desconhecidas? Vocês entraram nele, não? Afinal, nos tiraram de lá.
James mudou sua expressão facial. Ela ganhou um ar inevitável de preocupação.
— Não estou brincando. Escute-me com atenção: havia uma carga biológica naquela nave e deveríamos levá-la a um planeta. 
— Uma... — James engasgou. Pigarreou: — O que você entende por carga biológica? Você quer dizer... Uma forma de vida?
— Entenda como quiser, desde que pense em uma situação de perigo — rebateu Shaw. — Você é médico e deve ser ético a ponto de não espalhar esta notícia, James, ou todos podem entrar em pânico. Ao menos, não enquanto minhas suspeitas não forem resolvidas. 
— Está dizendo que... — James parou. 
Levantou-se. Balançou a cabeça. 
Shaw olhava para a bandeja apenas, indiferente àquelas reações assustadas de James.
Ele rodou um pouco, para um lado e para o outro. Pôs a mão no queixo, transbordando inquietude, pálido como um cadáver. James quase se debruçara sobre ela, excitado e temeroso por aquela revelação: 
— Trata-se de uma forma de vida... Extraterrestre?
Shaw contrapôs, com a clareza e um rigor que chegava a causar arrepios.
— Sim, mas não do jeito que você a concebeu em sua mente. Não, não são homens verdes ou cabeçudos, James. São organismos celulares que não os estudei com mais profundidade e, por isso, precisamos deixar todo mundo afastado daqueles que entraram na nave, devido a possível risco de contaminação — e concluiu: — Estou tão preocupada que nem sei mais se vou suportar comer. 
— Onde... Onde vocês o acharam? É impossível, em milhares de planetas conhecidos, muitos com características de atmosfera terrena, nada foi encontrado, pelo que sabemos. Tudo bem que, não temos muitas notícias do exterior, mas...
— Surpreso?
— Sim, é claro que estou — James agitou a cabeça, com os olhos saltados e as rugas cansadas de tanto expressar horror.
— Estamos no meio do nada, pensemos na nossa segurança então. Pensemos essencialmente em nós.
James concordou, com um leve gesto da cabeça. Era a imagem da perplexidade.
— É uma longa história, que contarei em outra ocasião e explicarei tudo o que quiser, como quiser e para quem você quiser. Mas até lá, temos que agir rápido, se você me entende... Preciso ter certeza de que a carga daquela coisa não foi mexida ou todos nós estaremos com sérios problemas.
— Eu verei o que posso fazer. Mas não posso garantir nada.  O senhor Arthur é muito rígido com as tradições religiosas... eu vou conversar com ele e explicar a situação. Durante este tempo, você fica aqui, deitada nesta maca, se recuperando, está bem?
— Como quiser, James... Aposto que ele não hesitará em tocar fogo em tudo o que está morto nesta porcaria de lugar ao saber que todos correm perigo de vida.
Shaw finalmente se posicionou para comer. James concordou. Em choque, ele se retirou do local.

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