segunda-feira, 18 de março de 2013

Pra virar filme... Ou não! - Prometheus² - Capítulo 8 - Central


8. CENTRAL



— Ela se chama Elisabeth Shaw. Estava em sono criogênico, dentro de uma câmara parecendo um sarcófago... Nunca vi nada igual àquilo... Mas não sei precisar ainda quanto tempo ela passou dentro daquela coisa... 
Na sala central, James rodava para lá e para cá, esfregando as mãos e transpirando preocupação. 
Sentado em sua poltrona, o Bispo escutava aquelas palavras com puro descaso e falta de respeito. Suas atenções só despertaram quando a palavra “tempo” foi pronunciada por James.
— Que tempo? — interrogou, cheio de assombro, como se quisesse destruir James apenas com um olhar. — Tempo é o menor dos nossos problemas. Não precisamos de tempo, temos todo o tempo do mundo. Que interessa saber se estamos em 2.500 ou no ano 3.000...? Ora... Isso não muda nada. 
— Mas...
 — De que interessa saber se é dia ou noite lá fora? Apenas viva! É esse o ensinamento do Senhor: viver o presente, sem pensar no futuro ou no passado. Todas as causas no passado e todos os efeitos no futuro estão condensados dentro do momento presente da vida. Se nós melhoramos ou não o nosso estado de vida neste momento, é o que determinará se podemos expiar as maldades que causamos no passado e se seremos capazes de acumular a boa sorte que permanecerá por toda a eternidade. Assim disse o Senhor.
— Bispo, isso não se trata de Deus... Por favor, preste atenção no que eu digo: ainda não estudamos o veículo em que ela e aquele robô vieram e, mesmo que pudesse, precisaria da senhorita Shaw para tal. Ora, ao menos para saber de que época ela veio — salientou James. Ponderava: — Pelo que entendi e que vi dentro daquele veículo, eles pareciam ter sido raptados! Ela falou de uma carga biológica dentro daquele maquinário e teríamos que retornar lá para conferir se o que ela fala é verdade, se não estaremos com sérios problemas...! 
— E...?
Arthur tinha no rosto puro deboche. James, pressionado por uma resposta, engasgou.
— Ora... E... E ela falar do robô, diz que ele pode ajudar... Mas ele parece destruído. Não sei como seria possível. Depois, o planeta mais próximo com base militar é...
— E porque diabos essa mulher veio parar aqui? — interrompeu Arthur. 
  O Bispo reclamou do calor, mais preocupado com o próprio suor e o odor de suas axilas, e prosseguiu:
— Deus, isso só pode ser uma mensagem Sua para nós. Além de mulher, trabalhava com os militares... Então temos que mantê-la aqui e não arranjar nenhum problema com ela. 
— Tem mais uma coisa, senhor...
— O que é?!
— Ela é uma cientista.
Silêncio. 
  Arthur agitou as mãos e a cabeça. Negava-se a crer no que tinha acabado de ouvir. Não dava para James saber se era pior o fato de terem uma mulher dentro da colônia ou uma cientista.
  — Isso só pode ser brincadeira sua. Além de mulher, é... Uma cientista?! — interrogou, cheio de escárnio: — Por isso, doutor, precisamos ter muito cuidado com ela...
— É claro, os homens da colônia...
O Bispo não o deixou terminar.
  —... Porque cientistas em geral são pessoas que renegam a Deus e confiam plenamente no poder de sua ciência. Eu interpreto isso como uma mensagem de que algo de ruim vai acontecer. A ciência duvida de nós, religiosos. Eles nos veem como... digamos... Místicos. Ciência é um veneno contra a religiosidade. Você entende onde quero chegar...?
— Sim. Claro, eu entendo. Mas ela me parece inofensiva nesse sentido e...
  — Discordo. Temos que tirar essa mulher o mais rápido possível daqui, porque ela pode começar a colocar a fé destes homens mais fracos em xeque... Antes que questionem a existência de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo. E tudo o que não queremos aqui é uma crise de pessoas histéricas duvidando da palavra do Senhor!
James fez silêncio. Esfregou o rosto e cruzou os braços, numa sequência de gestos peculiares de alguém impaciente com uma complicada situação — e não sabia como resolvê-la diante da total passividade e alienação de Arthur.
— Não é muito difícil. Não será. Ela fica trancada, até segunda ordem.
— Ela estava dormindo, dentro de um aparelho alienígena — continuou James, desta vez solenemente ignorando-o: — Provavelmente houve um acidente ou alguém atirou na nave em que ela e o tal David estavam. Penso que David deve ter os registros e, por isso, preciso de sua autorização para conduzi-la ao depósito... Para que ela o analise.
— Não tem a minha autorização.
— Por que não, senhor?
— Ora, porque não quero esta mulher por aí perambulando entre os homens — e ele enxugou o suor do rosto com as testas das mãos. Depois passou as mãos molhadas na própria roupa. — Este lugar é uma colônia sagrada. Vivemos em contato com Deus. Mulheres como ela podem atormentar a nossa paz aqui. 
— Ela é um ser humano, como nós.
  — Só que as pessoas não são nobres desde o nascimento, mas se enobrecem através de suas ações, James. Você está há tempos aqui e tem se tornado uma pessoa cada vez mais nobre em suas ações. Não deixe que essa mulher lhe atrapalhe nessa jornada. 
  James tentou falar algo e foi interrompido por outro discurso daquela montanha de banhas encharcada de suor, dobras e lodo.
  — As pessoas não são medíocres desde o seu nascimento, mas tornam-se assim através de suas ações. Se existe alguma diferença entre as pessoas, então essa diferença está somente nas suas realizações. Portanto, faça com que não se torne um homem medíocre através das suas ações. Obedeça ao Senhor...
— Mas, Bispo... — James não se deu por vencido e, com os palmos das mãos abertos e os braços inquietos, continuou: —O senhor sequer a conhece, como pode criar esse conceito de alguém que...
— E não quero conhecê-la! — interferiu. — Ora, por favor! Não se torne uma pessoa medíocre, não permita isso, James! Mantenha aprisionada sob seus cuidados, até que venham pegá-la. Eu enviarei mensagens de contato para naves próximas, a fim de que venham tirá-la daqui. Sem “mas”, James — disse.
  O Bispo falava de uma forma quase neurótica. Depois de recuar na poltrona, continuou com suas alegações sobre a presença de Shaw na colônia. 
  — Imagine como os homens desta colônia, que há muito tempo não veem uma mulher como ela, sendo tentados por este... este demônio...! Este lugar vai virar um inferno e todos nós queimaremos com os nossos pecados para toda a eternidade!
James protestou.
— Deus, homem, o senhor não entende?! Lembremo-nos do que o Senhor nos disse: devemos não fazer mal aos outros e compreender os ensinamentos sobre o sofrimento. Podemos estar em perigo! Em perigo, entendeu? Foi o que ela disse...!
— Sim, é claro que estaremos em perigo, enquanto ela estiver aqui... Ela é uma ameaça a nossa paz — repetia: — Uma ameaça a nossa paz, à harmonia desse lugar. Ela É o perigo e...
— Não este perigo! — interferiu James, explicando. As mãos estavam abertas, no ar, num sinal de inquietação: — Não é disso que eu estou falando, não é sobre isso! Você está distorcendo o que eu digo. Entenda homem: aquela nave em que ela estava continha amostra de vida extraterrestre. Nós entramos lá. Talvez tenhamos nos contaminado com algo que não sabemos o que é.
O homem parou. Piscou os olhos, e fez uma expressão desacreditada. Arthur não tinha entendido muito bem em que ponto James queria chegar.
  Torceu a boca. Era a alma do ceticismo. 
— O quê? Oh, meu Deus, estou assustado com isso! — disse, com deboche. — Então, os alienígenas nos atacarão? Aqui, nessa colônia? Ah, e todos nós morreremos? Vamos, James... eu tenho mais o que fazer. Tenho que fiscalizar a alimentação e os horários da colônia. Tenho cultos a programar. Você me entende?
— Sim. Mas... Eu falo de uma carga, que, a julgar pelo tamanho daquela coisa que encontramos, deve ser enorme... Falo de seres de outros planetas, em nível microscópico, é claro, mas ainda assim seres não naturais da Terra. É o que eu estou tentando...
— Está dizendo que... Algumas coisas minúsculas, bactérias, eu sei lá o que mais... Estavam dentro daquela nave e caiu aqui? E você acha que estão vivos, doutor? 
James confirmou com um gesto da cabeça.
  — Ora, faça-me o favor, James! Até o senhor, doutor, preocupado com uma bobagem dessas? Com uma fantasia criada por uma mulher que bateu a cabeça quando despencou do céu dentro de uma nave?! Pois, então, pode dizer a ela: o senhor Arthur, mais conhecido como Bispo, não acredita nessa sua trama louca de vírus extraterrestre. 
— Não é um vírus, não é uma bactéria, ela não sabe o que é, ainda não me explicou direito e...
  — Que seja o que ela quiser, eu não me importo com nada que ela tenha a dizer, só quero que ela saia daqui o mais rápido possível para não atrapalhar a vida na nossa colônia de paz. E doutor... Vá descansar. Você teve um dia cheio hoje. Isso pode ser efeito de ter saído da colônia e ter visto o planeta, depois de tanto tempo. 
James se mostrou surpreso.
  — Eu reconheço que errei contigo — dizia ele —, quando não acreditei que essas coisas poderiam acontecer, mas você está passando por esse efeito. Está com seu psicológico abalado.
Arthur riu. James não moveu um nervo do rosto. Era, depois daquela afirmação assustadora de puro descaso do Bispo, a representação máxima da preocupação. Sua fisionomia estava lívida. Não piscou. Não se movimentou. 
— James, você ouviu o que eu disse?
— E se for um vírus alienígena e se espalhar pelo ar? — interrogou James, ciente do perigo que cruzavam. — Eu não pude conversar muito tempo com ela, ela está se recuperando do impacto da queda. Nem ela mesma tem estudos mais profundos e por isso mesmo, precisamos acreditar nela e manter a segurança do lugar. Nós não sabemos os efeitos dessa coisa, se ela pode escapar e contaminar o ar.
— Deixe claro para ela como são as nossas regras. Eu sou a lei, eu sou a regra e sou responsável pelo lugar. Eu determino as coisas por aqui e não quero complicações — determinou.
  James ainda insistia. E quanto mais insistia, parecia piorar a situação e irritar ainda mais o Bispo. Arthur se mantinha irredutível, ao menos até aquele momento. Não abriu mão dos costumes religiosos, para evitar maiores constrangimentos ou uma confusão descabida com James. 
— Senhor Arthur, pense bem... Pense em nossa segurança... Tenho que levá-la ao depósito para que ela veja o tal androide...
— A resposta é NÃO. Ela não vai sair de lá. Mantenha aquela mulher dentro da enfermaria — ordenou Arthur, orgulhoso pela sua atitude. — Se você se satisfizer, mandarei uma equipe observar a nave e capturar qualquer coisa estranha, está bem? 
— Mas não temos nenhum cientista ou biólogo aqui conosco. Ela é a pessoa mais indicada para avaliar a situação. Aliás, não a mais indicada, mas a única... E depois, qualquer pessoa com um pouco de bom senso entenderia que esta mulher pode falar a verdade, afinal, ela viajava numa nave... estranha... 
— Eu disse “não”, James.
  James concordou, meneando a cabeça. Era um gesto a contragosto. 
  — Eu entendo os seus sentimentos por ela, doutor. Mas os meus sentimentos religiosos e minhas crenças dizem que esta mulher pode ser uma espécie de encarnação de Aaba...
— O que disse?
  — Aaba... O demônio fêmea, de beleza irresistível, que a todos seduz. O demônio com capacidade de se disfarçar de mulher e seduzir quem bem deseje. 
James evidenciou não crer no que aquele homem asqueroso, repugnante, pronunciava. Foi para a mesa, apoiando-se nela, oposto ao Bispo. Os olhos, bem abertos, mostravam toda sua grande surpresa.
— E o demônio está atacando sua mente.
— O quê...?! Deus do céu, estamos falando de uma coisa séria aqui e vocês...
  — A mente que você tem é a parte da imagem de Deus mediante a qual Ele se comunica com você. Uma vez enfraquecida, ela é possuída por coisas pecadoras. É preciso ter força...
— Oh, Deus! — exclamou James.
— Eu passei a minha vida toda com prostitutas, procurando uma mulher ideal e não encontrei. E você... que perdeu sua família e está há tanto tempo que nem se lembra mais... não queria ter sua vida de volta? Ter sua família, com uma mulher bonita? Filhos...?
— Bispo, por favor... 
— Não adianta mentir para si próprio, doutor. Não tente se enganar — aconselhou. — Se Satanás conseguir que você creia nela, ele vai te levar ao pecado. É por isso que ele começa atacando à mente, e por isso devemos proteger nossa mente dos ataques do maligno. Quanto mais afastados ficamos da Palavra de Deus, não podemos compreender bem sua vontade. Ficamos cegos, surdos e mudos para as palavras de Deus e nos rendemos ao maligno.
James logo se sentiu pressionado contra a parede. 
  — Em primeiro lugar, temos regras. Regras claras de não fazer mal a nenhum ser vivo. Ela pode ser mulher, cachorro, ou o que diabos for, Deus me perdoe... A questão... A questão aqui é sobre manter a integridade física de uma pessoa que não pertence a este lugar — interferiu James, furioso, batendo uma das mãos sobre a mesa —, e que por sinal... é uma mulher. Você entendeu? Nós somos seres humanos. Não somos animais. Não vamos permitir que aquela mulher seja machucada, de nenhuma forma. Ou o senhor vai sofrer grandes consequências externas, Bispo. O senhor batalhou para manter a ordem e a paz e agora vai ver seus homens arruinarem tudo? O problema não está nesta mulher. 
— O que podemos fazer para acalmar a situação no momento, além de deixá-la isolada do restante dos homens? — questionou o Bispo, buscando objetividade. — E que Deus me perdoe... Eu preciso fazer umas orações para nos defender de coisas ruins. Agora, pode ir embora.
  E James se retirou da sala, completamente desolado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gostou? Não gostou? Sugestões? Críticas? Essa é a sua chance de dar a sua opinião porque ela é muito importante para nós! Seja educado e cortês, tenha respeito pelo próximo e por nós, e nada de ofensas, tá? Esse é um espaço democrático, mas comentários ofensivos serão excluídos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...