terça-feira, 19 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 9 - Tentação


9. TENTAÇÃO



O burburinho em torno da chegada de Shaw àquela colônia era tão grande que, no mesmo dia, homens procuraram Yamato no templo. Queriam se confessar, ou contarem seus pecados, e registrarem seus males provocados pela presença da mulher naquele lugar. A maioria dizia estar atordoada com a ideia de dividir espaço na colônia com uma pessoa do sexo feminino. 
  Yamato, sempre centrado e pacífico, tentava contornar a circunstância, informando que a mulher em questão não passaria muito tempo na colônia e que logo seria retirada de lá. 
  Entretanto, um dos homens a procurá-lo era o senhor George.
Homem magro, alto e branco, de aparência quase cadavérica, George apresentava sintomas de irritação e de mudanças bruscas em seu temperamento. Seu rosto tinha traços quadrados, o nariz era grande e os olhos miúdos e escuros.
  Suas olheiras apareciam, bem visíveis, denotando que já passava muito tempo sem dormir. As pequenas sobrancelhas lhe davam uma aparência de assustado, como se o olhar estivesse sempre bem aberto, atordoado. Sua boca era torta, no lado esquerdo. Os dentes, grandes e vistosos, eram bem feitos, mas amarelados. Como todos na colônia, o homem era careca, usava as túnicas e calçava as sandálias tradicionais da colônia. George era um dos homens que seguiram com James e Yamato para o resgate dos corpos. Entrou no veículo com James, e viu o corpo de Shaw dentro da câmara criogênica. Ninguém percebeu, até aquele momento quando falava com sua voz pastosa, que ele atravessava um transtorno psicológico.
No templo, em um espaço mais reservado próximo a uma estátua de Jesus Cristo, George sentou-se ao lado de Yamato e admitiu para este que sofria com sonhos que, nas palavras dele, eram depravados.
— Eu odeio confessar isso, mas... senhor... é que eu tive sonhos com... com a mulher, sabe?
— Que tipo de sonhos...? — o oriental não se surpreendeu.
— O senhor sabe... sonhos carnais... Isso está me atormentando — George tinha uma aparência torturada. Passou uma mão sobre a cabeça, vagarosamente. Balançou a cabeça duas ou três vezes seguidas em negação. Com estes movimentos, Yamato teve a certeza de que ele não estava mentalmente bem. — Eu fico imaginando que o doutor que está cuidando dela pode estar... se relacionando com ela. E isso me excita muito. Ontem eu pequei: eu me masturbei...
— Senhor George — interferiu Yamato, agora claramente desconfortável ao ouvir aquela confissão: —, está orando e pedindo proteção ao Senhor contra esses desejos satânicos?
— Sim. Sim, claro que estou. Eu estou. Mas não consigo tirá-la da cabeça. Eu a vi, deitada, e imaginei... ela... nua, e ela era linda. E depois faz... mais de cinco anos que eu não vejo uma mulher nua, o senhor compreende?
O oriental agiu com a frieza necessária naquele momento.
— Sim, eu compreendo que o senhor precisa de uma avalição médica mental. Se for confirmado que o senhor não tem mais condições de morar aqui, será expulso dessa colônia, George.
— Não, eu não quero isso... — protestou o homem, lacrimejando: — O Senhor sabe que não quero. Será que Deus me castigará por esses desejos? Mas eu não faço por mal, não. Eu não faço por mal. A carne é fraca. Não é?
— Todos os problemas terão solução, todos os sofrimentos serão transformados em felicidade, se o senhor orar para Deus — explicava Yamato. — Deus tem as respostas para todos os seus problemas, mas não fará nada por ti se não orares para Ele.
— Então, eu devo orar mais, é isso? Mais do que eu oro, mais do que eu peço e imploro? 
— Sim — meneou a cabeça.
  — Eu entreguei minha alma ao Senhor, para que Ele cuidasse dela, mas agora eu não o sinto dentro de mim.  Esta mulher que aqui nos ronda pode ser um ser de natureza demoníaca, fruto da relação entre um demônio e um humano. Um demônio que quer ter relações sexuais com um humano, para recolher assim o sêmen e poder engravidar outras mulheres. Ou ela pode ter feito um pacto com o demônio e ser amante do diabo, e em troca de relações sexuais com ele, receber os seus poderes. Tal qual Aaba, o demônio disfarçado de mulher sedutora...
— Ou simplesmente uma mulher, no lugar errado — concluiu Yamato. — Pare de pensar desta forma. Quando esses pensamentos maléficos surgirem em sua pobre e atormentada mente, deve pedir proteção a Deus para livrar sua alma deste mal. 
— Eu entendo, senhor.
  — Nós fizemos uma escolha quando resolvemos vir para cá, para essa colônia, que era deixarmos todos os prazeres da carne enterrados no passado, para sempre. Lembre-se sempre disso, a cada instante da sua vida. Lembre-se disso.
— Sim — concordou ele, claramente angustiado. — Eu lembro disso, sim.
— Como era sua vida antes de vir para cá, senhor George? 
Ele fez uma pausa, como se recordasse de tudo em um único flash de memória. Coçou os braços e em sua indescritível ânsia, demonstrou suas mãos com unhas corroídas e sua transpiração excessiva. 
Yamato, atento, sentiu certo desconforto em estar no mesmo ambiente com George. Apesar de não entender muito de medicina, poderia jurar que George parecia um tanto perigoso e exaltado, cheio de suores, tremores incontroláveis nas mãos e aparência de fadiga.
— Ela... Ela era vazia e sem sentido — respondeu ele. — Eu trabalhava em uma mineradora. Bebia e só queria saber de mulheres e torrava tudo o que eu ganhava com elas... Eu peguei diversas doenças sexuais, senhor, e foi muito doloroso me livrar de todas elas... Graças a Deus nenhuma foi fatal e sou saudável.
— Sim, graças a Deus.
  — Mas... Isso começou a atrapalhar o meu trabalho e eu comecei a ficar sem dinheiro até mesmo para comer. Até perceber em uma propaganda que o melhor que eu tinha que fazer era conhecer esta colônia de pessoas tentando se livrar dos pecados. Aqui eu teria comida, me livraria dos vícios, teria uma vida controlada... 
— E Deus entrou em sua vida e purificou sua alma. Repita comigo: Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus. 
  E o homem repetiu. Disseram: — Amém.
  — Não deixe que os prazeres da carne sejam maior que o poder da purificação e livre-se desses pensamentos maliciosos que atrapalharão sua jornada rumo à elevação espiritual —aconselhava Yamato: — E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo. Ou o senhor quer voltar para a vida de bebidas, perversões e doenças que levava?
— Não, eu não quero. Era muito sofrimento.
Como George, centenas de homens antes se encontravam no mesmo sofrimento. Dependentes químicos, depressivos e com pensamentos e ideias suicidas, os quais tinham perdido suas famílias ou não, que soterraram seus futuros graças aos vícios e afundaram em desgraças pessoais. Gente que tinha perdido ou se afastado da família, do casamento, dos filhos, e não enxergavam nenhum motivo para continuar vivendo. Eram as chamadas “doenças espaciais”. 
— Eu acabei com minha vida, com meu emprego... Eu estava perdido. Mas aqui, encontrei JESUS, que me resgatou, me libertou, me deu seu perdão, e o mais importante: deu sua própria vida por mim. Hoje sou uma pessoa renovada. Aqui eu sinto que não preciso me importar com minha tristeza, minha solidão. Aqui encontrei o amor de Jesus.
— Exato. Não deixe esse amor escapar de ti.
— Mas eu ouço vozes e elas dizem que eu tenho que pegar aquela mulher e livrar-se dela, porque ela foi enviada do demônio para nos atormentar.
— Não...! Deus do céu! Isso está errado. Não dê ouvidos a isso. O que você tem a fazer neste momento é orar mais. Mais e mais... e verá que será curado de tudo isso.
— Tem certeza? E se eu estiver com razão...? E se Deus estiver me mandando um sinal de que ela tem que ser destruída, por estar nos atormentando? Pode ser Deus falando comigo!
O oriental insistiu, dissentindo energicamente: — Não é. Eu asseguro que não seja um sinal divino, é apenas sua mente confusa com tudo o que está ocorrendo e com o que você viu, que o abalou profundamente. Preste atenção apenas nas orações e verá que isso passará rapidamente. Procure sua cura espiritual na sua fé, nas nossas orações e o louvor a Deus lhe trará alento e logo esquecerá essas coisas ruins.
Yamato recomendou que George lesse os rolos de pergaminhos de tecido antes de dormir e que orasse para que Deus o livrasse de todo aquele mal. Mas temia, em seu íntimo, que isso não fosse o suficiente. 
  Por isso, Yamato informou ao Bispo o que sucedia, solicitando acompanhamento psiquiátrico para ele. George precisava passar por uma análise mais elaborada de James, o médico da colônia, ou traria mais problemas não só para si como para os outros também. Dentro de um local fechado, por muito tempo, um caso de uma pessoa que apresentava desvios de conduta e contradições às regras do lugar deveria ser analisado com cautela. 
  O Bispo, sem muito esforço, ignorou os apelos do oriental, afirmando que o caso do homem era temporário.
— Quantos casos não temos de pessoas que passam por isso por aqui? Isso é normal. Não vai durar muito — disse o senhor, tremendo suas gorduras do pescoço como se estivesse engolindo uma máquina de vibrar. — Quando esta mulher for embora, Yamato, tudo voltará ao normal. Eles não vão demorar a chegar, você verá.
— Ele está abalado mentalmente, por ter visto os corpos, ter visto ela, ter saído da colônia... Isso pode ser resultado de alguma disfunção... Não seria melhor ordenar o acompanhamento deste senhor pelo doutor James?
— Não é necessário porque instituí que o doutor está responsável por aquela mulher. E quanto menos tivermos contato com ele e deixá-lo fazer o trabalho dele, é melhor. E não quero que comente com ninguém para não transformar este lugar numa maior confusão em que está. 
— Mas senhor, isto...
Arthur tentou encerrar aquele assunto.
  — Ouvi comentários no refeitório hoje de homens desejosos por essa mulher. Talvez se pudéssemos realizar outra oração, com todos os fieis, as coisas se acalmassem. Só estão um pouco abalados, mas nada que o poder de Deus não contorne a situação. 
— Senhor Arthur, eu acredito no poder de Deus, mas tenho plena consciência da necessidade de intervenção clínica em algumas pessoas. O doutor James poderia...
— Poderia cuidar melhor dessa mulher para que ninguém tenha contato com ela. É isso. O doutor James está aqui por uma necessidade dos controles espaciais de terem um responsável médico, ao menos, nas colônias. Porque a medicina só é capaz de curar uma pessoa se sua alma está curada também. Cuidamos do nosso corpo. Cuidamos da nossa alma. Deus cuida de todos nós.
Yamato cruzou os braços, resignado e inconformado com aquela postura. 
  — Precisamos mais de Deus, do que de um médico, Yamato. Deus pode tudo. Deus me salvou e salvou este homem uma vez e salvará quantas vezes forem necessários. Deus é o Senhor do universo, é a razão pela qual estamos aqui, o motivo pelo qual estamos vivos. Reconheço que a tentação é grande na mente do homem, mas tudo ficará bem. Tudo passará como todas as coisas ruins pelas quais passamos.
Yamato não concordava totalmente com aquela visão dos fatos, mas se aquelas eram ordens do superior, ele nada podia fazer a não ser obedecer e confiar no Bispo.
— Entendo, Senhor... Se o senhor decide, assim será feito.

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