quarta-feira, 20 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 10 - Passado



10. PASSADO


            James levou Shaw para o banheiro, para que ela pudesse tomar banho. O local, aliás, parecia improvisado, mas era visivelmente mais limpo que o restante da colônia.
            Os azulejos não eram novos, mas guardavam brancura maior que os da enfermaria e não apresentavam quebras nem rachaduras. Tinham encaixes simétricos.
            Ali era possível que muitas pessoas se lavassem e fizessem suas higienes pessoais em cabines especiais, privativas, feitas de madeira, para isso. Shaw se sentia mais confortável em saber que não havia ninguém lá, pois o local tinha sido esvaziado pelo doutor para que ela ficasse à vontade.
            A luminosidade do banheiro também funcionava melhor por causa de filtros de luz especiais no teto, que refletiam a energia acumulada durante o dia através de painéis solares. O banheiro, um dos muitos da colônia, ficava em anexo a enfermaria — então, como o Bispo queria, Shaw não ficaria exposta ou visitaria outras partes da colônia desnecessariamente. A ideia era evitar ao máximo sua exposição.
            Durante o percurso da sala central para a enfermaria, no entanto, todos queriam saber notícias dela. James apenas ignorava, dizendo que ela se encontrava desacordada e em recuperação.
            Shaw tomou um banho demorado. A água era morna, a ducha expelia as gotas na medida certa, nem muito fraco, nem muito forte, do jeito que ela preferia, enquanto a água descia suavemente pelas curvas simétricas e torneadas de seu corpo. Ela adorou.
            — Vem de um tanque com fonte térmica — explicou James, feliz pela sua própria generosidade e pela gratidão dela. — A água é aquecida por uma bateria nuclear.
            — E você disse que não possuem luxos...
            Estava vestida, de volta a enfermaria. Roupas novas, mais confortáveis. Um manto religioso, de cor amarronzada, do pescoço aos pés. Uma faixa na altura da cintura acentuava os quadris largos e a cintura afinada. Os seios, pouco volumosos, ficavam marcados sob a túnica.
            Não dava para disfarçar que eram trajes masculinizados. Isso poderia ter uma vantagem para ela. Enfeada, talvez os homens não se interessassem por ela e isso diminuísse as ideias de molestamento, caso os mais afoitos assim agissem. Se conseguisse prender os cabelos, julgava, seria ainda melhor.
            — Ficou bem — elogiou ele, sem jeito. Torceu o rosto, para que ela não visse que ele sentia vergonha. A visão de Shaw, endireitando o vestido e ressaltando assim seu corpo torneado de pura beleza natural, era excitante. Mas James, claro, tão profissional como era e cheio de respeito e encabulado, forçava-se a ignorar. — Parece um vestido.
            Ela riu. Ele entregou um embrulho. Ela, contente pelo cuidado por ele empregado, se sentou na cama.
            — Trouxe sandálias. São as menores que achei. Você tem pés pequenos.
            — Você é bastante perceptivo.
            Shaw agradeceu e calçou as sandálias. Velhas e gastas sandálias, mas eram do tamanho de seus pés. Ela ajeitou os cabelos, com as mãos, e eles, gotejando levemente, deitaram sobre os seus ombros.
            Shaw inspirava graciosidade e beleza com um gesto simples, de mexer o cabelo e passar por detrás das orelhas, por exemplo. O coração de James batia aceleradamente, num ritmo descompassado que ele mal conseguia esconder. Havia uma tensão entre os dois que era impossível explicar. Algo ora excitante e fascinante, ora temeroso e desprezível.
            Alguma pessoa, sem o senso de ética e de respeito que James possuía, provavelmente não a trataria daquela forma.
— E então... doutor James... quer dizer que eu estou em uma colônia religiosa?
— Exato. Não tem nenhum problema, eu cuidarei de você no que for preciso.
— Obrigado, eu agradeço. Mas posso me cuidar sozinha por ora, não se preocupe. O que eu preciso saber mais, no momento, é como as coisas funcionam por aqui.
James explanou como funcionava a C.E.R.I. e algumas regras básicas. Não era permitido sair por questões de segurança:
— Aqui os ventos podem chegar até 150 km/h... Podem se formar repentinamente e arrastar quem estiver do lado de fora. Há também ausência de equipamentos adequados para manutenção de vida por mais de dez horas, o que impede uma longa permanência do lado de fora do complexo. Por isso evitamos sair e não vimos o sol ou noite. O C.E.R.I. tem uma estufa desativada, um necrotério, cemitério, refeitório, uma enfermaria e um templo religioso, além dos aposentos, área de lixo, área de carga e descarga de mantimentos, uma central com uma antena para contato espacial... é, acho que é basicamente isso.
Vangloriou-se de resgatá-la com vida e contou para Shaw como tinha sido o processo de resgate. De como ele a tinha encontrado desacordada e de como ficou feliz em saber que ela estava viva e seria salva.
Ao final daquela narração heroica, Shaw se interessou em saber mais sobre o Bispo.
— O Bispo... Ele queria ser esportista, quando novo. Mas era o pior aluno, por causa da fama de rebelde e encrenqueiro. A obesidade o impedira de crescer na profissão. Era rejeitado pelas meninas, esnobado pelos mais inteligentes. Acabara numa empresa de exploração de gás em um planeta, graças à ajuda de um de seus poucos e falecidos amigos.
— Isso explica muito sobre ele?
James soltou um sorriso.
— Sempre tivera aquele ar de arrogância e era chamado de “mandão” pelos colegas. Não tinha se casado, não tinha relacionamentos amorosos durante o período de trabalho na colônia de exploração a não ser com prostitutas — que para lá eram mandadas e lá terminavam morando para atender sexualmente aqueles habitantes. Não conhece sua mãe, seu pai e ninguém da família. Não tem filhos. Viveu a vida toda focado para o trabalho, o fumo, as meretrizes e a bebida nos fins de semana. Ninguém comenta, nem mesmo ele, mas sabe-se que o verdadeiro motivo pelo qual vive aqui foi um acidente.
— Acidente?
— Um dia, numa sonda planetária de exploração de gás, um dos equipamentos sem manutenção quebrou, causando um incêndio. Seus colegas de trabalho morreram queimados, vaporizados quase que instantaneamente, Arthur foi o único o sobrevivente. Sem um único arranhão. O fato passou a ser interpretado por ele como um sinal de intervenção divina em sua vida. No começo, aqui na colônia, era solitário, indefeso, com uma vida completamente diferente da que levava. Não se pode negar, porém, que Arthur sempre foi muito exigente e trabalhador tanto quanto o seu péssimo estado de humor. Por seguir tudo religiosamente e cheio de critérios — e, claro, pela naturalidade com que manda nos outros — logo se tornou substituto do dirigente do local e passou a ser chamado por todos pelo apelido de “Bispo”.
— Interessante... E quanto a você?
— Ah... A mim? — ele gaguejou.
Shaw encarou aquela figura careca, desajeitada, com um tanto de timidez aparente e de olhar sofrido.
— Há quanto tempo está aqui?
— Eu nem me lembro mais — objetou ele. — São vários anos.
— E quanto tempo não divide o mesmo espaço com uma mulher, doutor James?
A pergunta, provocante, ficou sem resposta. James se retraiu. Encolheu-se e se afastou, dando as costas para ela. Deu dois passos, parou em uma das extremidades da cama e ali ficou. Shaw, se aproveitando daquele gesto, emendou outra pergunta.
— Veio da Terra diretamente para cá?
— Não. Quero dizer... Mais ou menos... — disse, tentando explicar: — Eu trabalhava na Terra, como médico. Antes, eu trabalhei em outros planetas, é claro. Até perceber que aqui era o melhor lugar pra mim.
— Então você já era médico... Por que não me conta mais sobre isso...?
— Tem certeza que quer mesmo ouvir...? Não temos muitas pessoas aqui interessadas nas minhas histórias. Na verdade, quando aqui chegamos e depois que conversamos tanto entre nós, não temos mais nada para falar uns sobre os outros. Todos sabem de todo mundo aqui.
— Devem se sentir felizes quando uma pessoa vem de fora, trazendo vida nova a esse lugar, não? Quando uma pessoa traz novas histórias para contar...
— Sim, é verdade — disse, acabrunhado.
— E para uma pessoa como eu, que acabo de chegar aqui — Shaw mexeu nos cabelos —, pode apostar que sim, eu quero ouvir o que você tem a dizer.
— Ah, certo... Então... Eu trabalhei num hospital durante o período de guerra na Ásia e, vou te dizer, não era um trabalho nada bom... Todos os dias, eu via pessoas com a pele pendurada no corpo, cortadas, mutiladas, costuradas sem anestesia, doentes. Gente definhando, sem nariz, mãos... Deficientes, sem pés ou dedos, babando sangue, sem dentes, com cicatrizes enormes, sem olhos, queimados, cadavéricos, sobre velhas cadeiras de rodas... Nós corríamos para lá e para cá, enquanto pessoas continuavam gemendo, em macas improvisadas, e eram incontáveis, pelos corredores... Era horrível.
Elisabeth Shaw mostrava toda sua atenção, mas não tinha expressão de pavor. James, entretanto, mantinha os sinais de horror daquele período estampados em sua expressão facial. Isso por que, em época de guerra, a situação dos hospitais era calamitosa, com os doentes e mutilados originários do confronto: os hospitais abarrotavam-se de gente, ausentes de tecnologia e de profissionais capacitados ou não para o serviço.
— Os dejetos e a água usada eram atirados pela janela, por causa da destruição do sistema de esgotos ou a vedação deste ― para evitar a fuga e a criação de esconderijos da população fugitiva da guerra. As roupas dos pacientes tinham pulgas, carrapatos e percevejos; a dos médicos, de piolhos a traças. Crianças morriam antes de completar um ano ou na hora do parto, devido às condições subumanas que se encontravam os hospitais, cujos leitos que abrigavam mulheres grávidas eram os mesmos que davam abrigos à doentes de contaminações bacterianas ― e abrigávamos corpos, em diversificados estados de decomposição.
Shaw, finalmente, ficou não conteve sua expressão de horror.
— A inexperiência de médicos fazia com que partos simples resultassem em mortes de mães, por contágios ou hemorragias, bem como mutilações de crianças recém-nascidas, dentre muitos outros casos de assassinatos por erros médicos. As casas, clínicas e hospitais se entupiam de pessoas sem estudo, conhecimento, aptidão para o exercício da medicina, mas precisavam recrutar pessoas para cuidar dos feridos de mortos nos confrontos... Auxiliares e enfermeiros então atuavam como médicos ou, mesmo quem nunca tivera contato com um hospital, precisava atuar para salvar os feridos. Os profissionais da área não davam conta da quantidade de pessoas que precisavam de atendimento. Eram lugares sem aparelhagem, sujos e, em geral, ninhos musculosos de baratas e ratos. Animais que transmitiam infecções pneumônicas e que, logo, se tornavam epidemias. O não isolamento de um doente trazia consigo problemas até mesmo para a própria família. Não raro — como explicava James —, pais abandonavam seus filhos, filhos abandonavam seus pais, em estações improvisadas de tratamento ou de isolamento.
— Por quê?
— Para esperarem por um socorro que nunca viria. Era um horror... Casas eram encontradas com famílias inteiras mortas por infecções e doenças venenosas que, sem tratamento, matavam em menos de três dias...
E as memórias desta época se acendiam e brandiam em sua cabeça. James via os cemitérios se abarrotarem de mortos. Mortos por doenças, dividindo espaço com mortos mutilados de guerra e mortos por erros médicos. Faltavam caixões, então se abriam covas ao modo medieval e enterravam bandos de pessoas juntos. Os que sobravam vivos não poderiam nem sequer velar seus entes queridos, por segurança da própria saúde.
O mal acompanhava as pessoas que, desesperadas, deixavam suas casas para migrarem para outros pontos, outras cidades, fugindo da catástrofe implacável. As doenças se escondiam entre essas pessoas, silenciosas, para fazerem novas vítimas em outros lugares. Doentes fugiam das cidades e morriam nas estradas. E em outras cidades, mais doentes apareciam, para que epidemias surgissem em diversas partes dos países e, por causa do período de guerra, não se encontrasse um controle para todos os surtos epidêmicos.
— A prova de que os hospitais da cidade viravam açougues era uma das salas do local em que trabalhávamos, onde era possível ver os mortos, presos por ganchos de metal como carnes de boi, balançando no ar, à medida que apodreciam a espera que alguém os retirasse de lá. Eu me recordo que... — James fez uma pausa.
Nesse momento, Shaw repousou uma de suas mãos sobre as mãos dele, num sinal de que ele poderia prosseguir. Forte como demonstrava ser, Shaw não se abateria facilmente com aquelas revelações.
James não continuou, um pouco atordoado com todos aqueles detalhes frescos na cabeça. Concluiu: — Ninguém se importava mesmo com aquilo. Pessoas vivas não tinham valor nenhum, pessoas mortas significavam menos valor ainda.
Shaw ficou mumificada com todas aquelas revelações, ao passo que se aliviava por não ter presenciado nada disso que ali era relatado. Dormindo em seu sono profundo, sonhando com dias melhores na Terra, jamais imaginava que a humanidade estivesse passando por isso.
Se pudesse entrar na mente daquele homem perto dela, veria as moscas que zuniam por sobre toda a gente, rastros de sangue no chão do hospital; sentiria o odor característico de esgoto e carne podre, a revirar o estômago e despertar vontade de vomitar sem parar.
Era o retrato cruel da última guerra pela qual a humanidade começava a passar e que James havia presenciado apenas o seu começo.
— Eu vi homens que imploravam para serem mortos, a fim de que a dor lacerante acabasse. Como zumbis, mexiam-se com os olhos vazios pelos corredores do hospital, gemendo, com seus olhos revirados e brancos. Escoravam-se nas paredes, porque não conseguiam se manter de pé... Em lágrimas que escorriam até secarem.
— Oh, James... Eu sinto muito.
Shaw emudeceu.
— As mãos de muitos tentavam acalmar as dores. Pressionavam-se, sabe? Umas nas outras... E quando não tinham mais mãos, os gritos procuravam um alívio que nunca aparecia. Se não tinham voz ou garganta para gritarem, gemiam e gemiam. Contorciam-se, como sanguessugas, pelo chão. Doía a barriga, a cabeça, os olhos, as pernas, os cortes, as feridas, o pus. Eu me recordo de algumas mulheres, que costuravam com linha a pele desgarrada da cabeça de um homem, enquanto o sangue espirrava desvairadamente em suas mãos. Os esguichos eram bombeados de tal maneira que não adiantava por um sem número de mãos para fechar o rasgo. A paciência então era essencial para fechar o corte.
James assumira a tarefa: dispensou as mulheres e tentou salvar o homem. A frieza dos movimentos das mãos e da agulha, com a ponta quebrada e a linha suja improvisada, tinha sido adquirida com o exercício contínuo. Como se fosse possível pegar a prática absoluta, depois de se costurar milhares de pedaços de pele.
— Eu não consegui salvá-lo — disse, com baixa em um lamento. — Eu não consegui.
A tremedeira causava mais dor. Gritos soavam, às vezes melódicos, às vezes distorcidos, pelos caminhos fantasmagóricos daquele verdadeiro labirinto.
Sangue nas paredes. Alguém tinha acabado de morrer.
Homens com tosses sanguinolentas perambulavam... Com manchas gangrenosas negras na pele, úlceras negras, erupções cutâneas regadas a pus e sangue, dores pelo corpo, olhos encovados e rostos cavernosos. Estavam fracos, deliravam de febre, tinham náuseas e vômitos. Em seus braços havia bolhas pustulentas que cresciam, pulsavam, do tamanho de grãos de ervilhas a maçãs.
Sons de bombardeio.
James corria de um lado para outro em meio ao inferno. Uma mulher corria com o ventre aberto, o intestino para fora. Alguém tentava colocar aquelas tripas para dentro. Os olhos dela sangravam. Sangue pingava pelo nariz e escorria pela boca como se fosse baba. Enquanto empurravam as tripas para dentro, elas estufavam, se recusavam a entrar.
Não muito distante, o osso da perna exposto de um homem. Alguém procurava uma imobilidade. Ficaria ali até que a perna necrosasse e amputassem. E necrosasse de novo e o matassem, se ainda estivesse vivo nesse estágio de degradação total.
Uma mulher ninava um neném cadáver nos braços, abraçada, ainda na esperança de alimentá-lo, com os seios murchos, bem visíveis. Roçava os mamilos secos e duros na boca da criança morta para amamentá-lo com um leite que nunca seria puxado.
Não havia porta fechada que inibisse as dores dos cortes rasgados e do sangue derramado. James viu um homem passar com um serrote avermelhado e um balde de água, um em cada mão. Entrou em uma sala e fechou a porta. Só de ver o material, sujo de sangue, a vítima gritara.
Loucos arrancavam os cabelos com as mãos. Babavam. Regurgitavam palavras indecifráveis, quase sempre acompanhadas em seguida de guinchos e grunhidos que imitavam ruídos deformados de animais, como as aves de rapina.
Alguém não tinha mais as orelhas. Sem a língua. Com dentes podres, rugas deformadas na face e tumores malignos que se rompiam e sangravam.
— Estavam todos esfarrapados, mortos de sede e de fome — narrava. — O medo de que se tornassem canibais e desejassem a carne um do outro parecia visível. Olhavam para as peles penduradas, uns dos outros. Olhavam cobiçosos para a carne exposta e limpa, para a gordura uns dos outros. A ideia de que os homens começassem a se atacar e a se mastigarem era mais assustadora que a ideia de sair dali vivo. Ou de morrer em cima de uma maca.
Em outro corredor, uma criança sentava sobre um banco. Ela estava estática. Inerte, com as pupilas dilatadas, os olhos abertos para o nada, mas ninguém havia notado. Era um menino esquelético e branco, com aquela expressão de horror de alguém que vê um fantasma. Agora, ele era um fantasma. Ninguém reparara sequer que tinha morrido.
— Era como se alguém tivesse aberto as portas do inferno. Depois que se vê tudo isso, tudo o que você procurar é por paz interior e descanso espiritual.
            — Eu sinto muito. Mesmo. Nem imagino quantos inocentes não foram envolvidos nessa estupidez...
            — Ora, todas as pessoas que atendíamos eram inocentes. Ficávamos dias e mais dias sem comer e adoecíamos por não temos sequer água para beber. Não tínhamos nada a ver com o conflito, não éramos soldados. Nós, médicos, trabalhávamos em locais mal iluminados, debaixo de goteiras que nunca paravam de pingar, no meio de berros e de cadáveres. Pessoas que morriam sem que a gente percebesse. Era o mais puro caos.
James se recordava de cada minúcia. Fazia tempo, era verdade, de forma que sua mente o traía e não conseguia precisar em que ano tinha passado por aquilo.
Ali, naquela colônia, os moradores acreditavam na ideia de que o tempo era relativo. Não se incomodavam com nada mais a não ser elevar seus espíritos para ficarem mais próximos de Deus e cuidarem uns dos outros.
— James, eu não tenho sequer como lhe expressar o quanto estou chocada com tudo isso. Você sofreu muito — reconheceu ela, embora demonstrasse que nada daquilo que tinha sucedido com a humanidade a surpreendia.
— Nós costumamos dizer que o segredo da saúde da mente e do corpo está em não lamentar o passado, em não se afligir com o futuro e em não antecipar preocupações; mas está no viver sabiamente e seriamente o presente momento — concluiu, salientando o fato de que os homens ainda não tinham ganhado a guerra desde que havia deixado a Terra para trás. Mas suspeitava que a Terra encontraria seus momentos de paz soterrada sob escombros e nuvens de fumaça intermináveis.
— Eu desci ao inferno. E, posso assegurar que, hoje, estou mais próximo do paraíso.
— Certamente — concordou ela, apertando suas mãos —, esse lugar por mais vil que seja é melhor do que um campo de batalha como esse pelo qual você passou.
— Bem, mas, como eu disse, trabalhei em outros planetas também. Antes de a Weyland me chamar para trabalhar em um planeta distante.   
— Weyland...?!
— Sim, a Weyland — confirmou ele. — Por quê?
— Você conheceu o Sr Peter Weyland?
— Não, nunca tive a oportunidade de conhecê-lo, nem poderia... Apenas por imagens. Peter Weyland, o fundador da corporação, morreu quando eu ainda era criança, em 2089... Acho que duas décadas antes de eu trabalhar em outro planeta contratado pela Weyland... Sabe quem ele é?
— Sim. Eu o conheci pessoalmente.
James recuou.
— Como assim? Onde o conheceu...? Isso seria impossível, você é muito jovem...
— Peter Weyland está morto, doutor James. Mas ele morreu em 2094 no satélite LV 223. Eu estava lá no momento em que isso aconteceu. E eu me lembro perfeitamente disso.
— Não acredito... Isso seria impossível... — James era a própria imagem da dúvida. — Não faz sentido...!
Shaw meneou a cabeça, sem entender.
— Ora, porque não, James?
— Bem, não somos bons com contagem de tempo, mas... Acho que você ficou em sono profundo por muito tempo. Eu diria que... Quase três décadas...!
Shaw quase caiu da cama. Com visível espanto, quase como num tom de apelação, pediu: — James, você precisa me levar até David...!
Depois pensou um pouco.
— Ora... Não vai adiantar, James... A menos que você saiba mexer em sistemas eletrônicos e de comunicação de um robô. Eu não tenho experiência nisso, confesso... acho que ninguém aqui tem.
  James refletiu.
  — Hmm... Eu conheço alguém que pode fazer isso. Alguém que confio muito...
  — E...?
  — Mas, se quisermos chegar lá sem sermos notados, temos que arranjar um jeito de esconder seu rosto...
  James ficou admirado. Shaw pensou com a rapidez de um computador e puxou a manta para a cabeça, de maneira que cobrisse parte do seu rosto.
  — Estou pronta.


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