quinta-feira, 21 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 11 - David


11. DAVID


James explicou, enquanto caminhava pelos corredores mal iluminados do lugar, que David se encontrava numa área gigante de compactação de lixo. 
  — Todo o lixo gerado pela colônia é separado. Os resíduos líquidos vão para fossas, em forma de tanques, que são recolhidas pelas naves periódicas para serem processados e transportados para um planeta lixão, chamado Palymax por uma nave recolhedora da Weyland Corporation. 
— Palymax... Nunca tinha ouvido falar — contou Shaw, numa amostra de estar totalmente perdida naqueles labirintos escuros. — Em que parte deste buraco estamos?
— Não se assuste, estamos chegando.
  Os corredores davam para inúmeras portas, que pareciam celas, onde os moradores dormiam. Alguns, mais ousados, saíam e ficavam à espreita, pelas grades das portas, em silêncio, vendo-a passar. O som de orações de dentro daqueles cubículos era constante. Eram pedidos para que Deus purificasse suas almas e livrasse todos aqueles homens das tentações. 
  Shaw mantinha sua postura ríspida o tempo todo durante o trajeto. Não baixaria guarda para aquele bando de homens prisioneiros de seus próprios destinos naquela masmorra religiosa. Sua cabeça estava erguida para os olhares de curiosos e afoitos, sequiosos pela sua pele branca e macia, pelos seus olhos iluminados e os lábios delicados que não esboçavam sequer um sorriso irônico.
— Como eu ia dizendo, os sólidos orgânicos vão para outros tanques. Peças descartáveis, plásticas, metais, etc. são lançados aqui, onde vamos entrar agora, para serem compactadas por enormes prensas hidráulicas.
— Este lugar é de dar arrepios... 
— Está com medo? Eu te protejo.
— Não preciso de proteção — rosnou ela, aborrecida: — Preciso de uma saída deste buraco... Há alguma porta operada eletronicamente por aqui?
— Os portões podem ser operados manualmente ou pela central. A exceção são os portões da baía de cargas, que estão com problemas elétricos e só podem ser acionados manualmente.
— Entendi.
— Não imagina a confusão que vou arrumar com o Bispo se ele descobrir que você está aqui.
— Confusão maior ele vai arranjar comigo — reclamou ela: — Disse que naves da Weyland recolhem o lixo...
— Sim, isso mesmo. A Weyland é uma gigante universal. Trilhões e trilhões em dinheiro a fizeram conquistar vários planetas.
— Eu sei. Mas se Peter Weyland está morto, quem teria assumido o lugar dele...?
— Isso eu não sei te responder. Apenas sei que trabalhei para alguém na Weyland em um planeta chamado Daxan... Era um acionista poderoso, parente de Peter Weyland. Karl Bishop Weyland. Esse nome lhe é familiar?
— Não.
— Daxan é um planeta com atmosfera semelhante a da Terra, povoado por colônias de mineradores e grandes empresas exploradoras de cromita, chumbo e outros metais pesados. Eu era responsável por tratar dos milhares de doentes que trabalhavam em condições sub-humanas a mando do senhor Bishop. A maioria deles sofria de sangramento gastrintestinal, tuberculose, asma, infertilidade, defeitos congênitos, danos cerebrais entre outras milhares de doenças. O baixo nível tecnológico das mineradoras, as operações ilegais e a falta de medidas preventivas levaram a uma situação calamitosa. Os métodos cirúrgicos em Daxan remetiam aos séculos passados. Sem anestésicos de confiança além de bebidas e pó alucinógeno para sedar quem lá chegava com dor, até uma fratura simples era terrível de aguentar para um ser humano. Eu precisava tratar uma fratura exposta, por exemplo, com amputação. Munidos de serras de corte de carne de boi, os médicos socavam o pó alucinógeno na cara do acidentado e arrancavam o que achavam que precisasse ser arrancado ― mãos, pés, pernas e braços. Os médicos aprendiam com a observação feita em cobaias escolhidas a dedo. E vivas. Quanto mais sujos estivessem de sangue, mais confiáveis em executar o trabalho sujo. E Bishop sabia de tudo isso. Mas nunca fez absolutamente nada para reverter essa situação.
— O legado de Peter Weyland. Em algum lugar do além ele deve se orgulhar do que deixou.
— A situação não é muito diferente daqui. Não temos aparelhos adequados, e tudo é controlado pelo Bispo. Naves trazem medicamentos e alimentação ou alguns artigos como roupas e lençóis, enfim... Graças ao bom Deus, não precisamos usar a enfermaria daqui com muita frequência, apesar de muitos terem problemas de vista por causa da baixa luminosidade ou então problemas respiratórios.
Shaw reconhecia naquele homem uma impassibilidade diferente. A de alguém que já tinha visto de tudo na vida e parecia não se espantar com nada mais. A ideia que ela tinha de James havia desaparecido naquelas palavras dele. Se ela precisava de alguém em quem confiar plenamente, James parecia ser esta pessoa. Não o via mais, com os mesmos olhos que o tinha visto, naquele primeiro contato com ele.
— Você fala com tamanha naturalidade que assusta. Isso é perturbador...
  — Com o tempo, você se acostuma ao horror, Shaw. Creio que, qualquer coisa que passemos aqui não deve ser nada pior do que passamos na Terra nos últimos tempos. E você não estava presente para ver. Dê glórias ao Senhor por isso.
— É verdade. Eu sinto muito que tenha passado por tudo isso...
— Eu também — disse ele. Sempre muito sério, ele sorriu, desconcertado. — Mas Deus tem um propósito para todos nós. Se você veio para cá, temos que descobrir qual é.
— É nisso que você acredita...?
— Sim. Não crê nisso?
Ela fez questão de responder e ele percebeu que ela não era uma pessoa que fugia muito fácil de perguntas.
— Eu sou uma cientista. Eu tenho o meu Deus, mas não uma religião.
— Por que não...?
— Porque nunca entendi a atitude de pessoas que se diziam extremamente religiosas, mas não exerciam os mandamentos religiosos que eram pregados. Gente que rezava e pensava se livrar dos pecados pagando dízimos e, mais tarde, mandavam os conceitos religiosos pelos ares em nome da ganância. E é isso que importa no momento — Shaw deu por encerrado o assunto. Afastou-se, mudando o tom: — Mas e quanto a sua família? Eles estão aqui...? Há algum deles aqui com você? Irmão? Pai?
— Não, não estão — e, pelo tom da resposta dele, ela preferiu não insistir no assunto. James se saiu com uma explicação, frisando algo que já tinha dito: — Aqui só existem homens, mulheres e animais são proibidos. Você é a única mulher.
  — E isso é bom ou ruim para você...?
Ele titubeou: — Eu ainda não sei.
  Shaw respirou fundo.
— Você não poderá entrar. Eu vou.
— Eu não acredito nisso.
— Acredite. O Bispo determina como as coisas funcionam por aqui — contou ele. — Sou um homem à procura de Deus. Não um santo ou um anjo caído. Olha, eu quero te ajudar, mas você precisa confiar em mim. 
James encarou aquele olhar fulminante, que faiscava aquele brilho de característica impar. Olhar estreito, ameaçador, misterioso, sedutor. James estava baixando a guarda.
— Shaw...
  James não disse mais nada. Estavam diante dos pesados portões que davam acesso ao depósito de lixo. Os portões, que corriam sobre pequenas rodas, foram destrancados por uma pesada trava. Poupando-a dos esforços físicos, o próprio James se encarregou de abri-los. 
Imediatamente se acendeu, adiante, uma torre de lixo e um odor nauseabundo. 
  O teto era coberto por enormes prensas, cada uma com cerca de seis metros quadrados, responsáveis por compactar o lixo colocado sobre um piso de metal. Havia espécies de espátulas gigantes e esteiras, do tamanho de caminhões, que em funcionamento recolheriam este lixo compactado em blocos e empurrariam para um tonel monstruoso, de formas quadradas.  Estes blocos, levados pelas espátulas e esteiras, se encaixavam perfeitamente e preencheriam o tonel de baixo para cima como se fossem cubos gigantes de gelo. 
  Mais tarde, quando estivesse cheio, este tonel seria guinchado por uma nave lixeira pelos portões que davam passagem à área externa da colônia. E, dessa forma, o processo reiniciaria, como numa fábrica, visualmente poluída por maquinário ultrapassado, grande, enferrujado e imundo.
  Shaw não hesitou em entrar, ignorando os pedidos do médico. James fechou os portões, mas não os trancou. Para se chegar ao chão, na área em que chegavam os entulhos e se erguiam as torres, uma velha e ruidosa escada curva servia de acesso.
  Shaw se emocionou ao ver aquilo. Atravessou a primeira montanha de lixo, abaixou o capuz. 
  David descansava aos pedaços, mais ao centro do local. Cabeça ao lado, próxima do corpo. Shaw se aproximou e o tocou, cujo corpo emanava uma palidez inebriante, morta. Ela manteve a fácil expressão de quem necessitava acreditar que aquilo era real. 
  Pediu um tempo, observando aquele entulho e buscando explicações para o que aconteceu. De repente, uma lágrima escorreu por seu rosto. Sem deixar se abater por qualquer sentimento triste, ocultou o rosto, para que James a sentisse fraquejar. 
  — Estar viva é um milagre, Shaw. Você poderia ter ficado no espaço durante tanto tempo que morreria sem saber sequer um motivo.
— Um milagre...?
— Sim. É a única sobrevivente. Um milagre de Deus. 
  Shaw era o tipo de mulher que tirava sua resistência da convicção de que nada poderia surpreendê-la. Mas ver o estado de David e estar viva lhe dava, sim, uma sensação de deslumbramento e, paralelamente, alívio imediato. 
Não demorou muito e outra pessoa chegou ao local. Os portões foram abertos e fechados novamente. Desta vez, a pessoa os trancou por dentro e se aproximou, rapidamente, dos dois. Shaw não entendeu porque aquele homem estava ali, James a tranquilizava.
— Fique calma, não há nada a temer. 
  Era um homem, de traços orientais, como bem notou ela. Shaw reagiu com espanto, ao que James tranquilizou: — Tudo bem... este é Yamato, uma pessoa que quero que conheça. Ele é o responsável por nos ministrar orações e encontros religiosos... É de minha confiança e irá nos ajudar com isso.
Shaw o cumprimentou, com a mão direita firme, mas um leve aperto de mão. Seus olhos suaves encararam, fixamente em vacilarem num piscar, o jovem Yamato de cima a baixo. Os cabelos desceram pela testa e pelos ombros. Ela os arrumou. James a apresentou.
— Yamato tem conhecimento nessas tecnologias, embora esteja há muito tempo sem consertar um... 
— Que bom que está bem, senhorita — disse ele, coalhado de sua educação oriental. — Fico feliz que tenha sobrevivido... É um milagre de Deus...
— Sim... Claro... Está tudo bem...
— Por onde vão começar? — perguntou James, para ela. — Não temos muito tempo. Este é um lugar em que todos têm acesso. Se alguém aparecer e perceber que está fechado por dentro, teremos problemas.
— E essas prensas? Não há perigo de ficarmos aqui?
— Elas só são acionadas pela sala central — explicou Yamato. — Apenas o Bispo tem acesso aos comandos. Elas só são acionadas quando há aviso de que as naves estão vindo.
— Precisamos consertá-lo. Ele tem o que quero.
— E o que é? — quis saber o oriental.
— Respostas.
— Ora... Muito de admira procurar por elas justamente aqui... Onde descartamos tudo o que não queremos e não precisamos.
— Por quê?
  — Porque às vezes costumamos procurar por respostas em todo lugar... — disse ele —, quando, na verdade, elas estão perdidas dentro de nós esperando por serem encontradas.
Shaw hesitou.
— Torço para que tenha razão. E torço muito.
  — Vamos pegar o androide e dar o fora — ordenou James, sugerindo o caminho —, rápido.
— Para onde vamos?
— Para a enfermaria.

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