domingo, 24 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 14 - O demônio


14. O DEMÔNIO

Ao chegar ao local, acompanhada de James, todos os homens cessaram suas orações para ver Shaw entrar. Ela ficou cabisbaixa, sem dizer uma palavra, intimidada, acuada em uma área próxima dos portões principais. Os homens começaram a cercá-la.
— Eu estou vendo o demônio aqui dentro! O demônio está conosco nessa colônia, vocês não perceberam? Ele está nos atormentando! — gritava uma voz. — Satanás está aqui hoje dentro do nosso lar! E nós o recebemos de portas abertas! Ele entrou, nos tocou, e agora todos nós queimaremos no inferno!
Ninguém poderia acreditar no que ouviam. Todos procuravam de onde vinha aquela voz esganiçada, estridente, que desequilibrava a paz do lugar. Os homens, atônitos, entreolhavam-se, transbordando suas dúvidas. Abriram passagem para alguém. A pessoa que caminhava aos berros era George. 
Shaw ficou assustada com a atitude. Era impedida de andar pelos presentes que, afoitos e curiosos, desejavam encontrar a melhor posição para vê-los. George andava na direção dela, com passos longos, colérico, numa notável aparência afligida. James percebeu que George era a imagem de um atormentado, prestes a causar uma confusão maior.
— Você! — e ele apontou o indicador direito para ela, com o intuito de ofendê-la. — Você é um demônio enviado por Satanás para nos destruir! 
Shaw corava. 
David caminhou por dentre os homens e percebeu que eles tinham nas mãos espécies de cuias. Elas continham líquidos pretos com a consistência de uma lama. David não conseguiu esconder sua surpresa numa expressão fácil digna de terror. Os homens estavam fazendo fila enquanto eram servidos daquele líquido.
— O que sabemos sobre demônios, hã? Sabemos sobre nossos anjos e Deus, sobre nosso Senhor Jesus Cristo, mas não sabemos quase nada sobre os nossos inimigos e aqueles que nos atormentam! — bradava George. — Satanás abandonou os céus para manter relações sexuais com as humanas junto de três centenas de anjos que desceram à terra. Foi Satã que num ato de rebeldia contra Deus entregou à humanidade a ciência. Você, mulher, está nesse planeta para acabar com as nossas vidas!
— Meu Deus, homem, você está angustiado! O que deu em você?! — James se pôs à frente dela para protegê-la de uma inexorável agressão. George estava disposto a avançar sobre ela, alucinado, mas James o empurrou: — Afaste-se! 
— Quem comete pecado é do Diabo; porque o Diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do Diabo! Satã é o anjo desertor que abandonou os céus para espalhar a ciência e enganar a fé dos homens! 
— Alguém o segure, pelo amor de Deus!
Ninguém se prontificou a ajudá-lo. Todos estavam bestificados com a atitude de George, mas ao mesmo tempo esperavam, como urubus sequiosos por carniça, o resultado daquele confronto. 
  David foi para o portão, para abri-lo, esperando que Shaw e James saíssem. Eles foram cercados.
— Vocês! — convocou George. Mãos para o alto, voz aos brados. — Vocês, todos vocês... Não se atormentaram com a visão desta mulher desde que ela aqui chegou? Hein? Falem! Confessem! Satanás a enviou para nos tentar e nos matar com nossos pecados!
Yamato se aproximou impelindo os presentes, ao lado de George. Ele percebia que as pessoas dentro do local não reagiriam em favor de Shaw. A atmosfera derramava tensão. Se os homens resolvessem partir para a agressão física, Shaw, James e seus companheiros seriam esmagados num piscar de olhos.
— Vejam o que ocorreu, vocês não percebem?! Ela era a única mulher e sobreviveu! Ela sobreviveu! Seria uma coincidência ou poder de satanás para nos tentar e nos matar? — e recitou: — Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes permanecer firmes contra as ciladas do Diabo!
— Eu tive sonhos com ela! Eu tive! — admitia um deles, com as mãos elevadas. A própria figura da demência. — Ela me atormentou nos meus sonhos! Eu era livre, agora só penso coisas ruins a cada minuto. Eu penso nela... eu penso nela!
— Eu também! Perdoe-me Bispo, mas eu me masturbei pensando na mulher de satanás! Ela veio para nos perturbar mentalmente e nos despertar para o fogo de desejo proibido!
— Meu Deus do céu! — exclamou Yamato, horrorizado.
— Eu não consigo me controlar! — continuou o homem: — Eu preciso tê-la em minha cama para me aliviar desse peso... Vamos colocá-la em nossas camas, vamos possuí-la, um por um, todos poderão tê-la, inclusive o senhor!
— PARE, HOMEM, OU VAI CONHECER A FÚRIA DE DEUS! — gritou o asiático, erguendo suas mãos para contê-los: — PAREM TODOS VOCÊS! PAREM! PAREM!
Os homens se excitavam. A presença de Shaw, aquela bela mulher, cheia de curvas generosas, olhos faiscantes, lábios róseos, os atormentava. Fantasiavam, enlouquecidos, relações íntimas com seu corpo, tal quais cães ensandecidos por sexo.
— Viu o que eu disse! Vejam, todos aqui sentem atração pela vadia de satanás! É o que eu digo, o diabo está nos tentando! Vamos usá-la e matá-la antes que ela nos contamine ainda mais! Vamos dar a ela o que ela merece!
— BISPO, FAÇA ALGUMA COISA!
Shaw gemeu, sufocada pela multidão. Mal conseguia se mexer. Cabisbaixa não reagia àquelas ofensas, mas temia, mais do que nunca, sua segurança naquele lugar.
— Esperem um pouco! — e o velho cedeu aos apelos de Yamato: — Ninguém aqui vai matar ninguém, não em minha colônia, porque eu não vou permitir! Isso vai de encontro aos nossos costumes religiosos. Somos homens, não assassinos! 
George regressou, teimoso em sua assombrosa posição de atacar Shaw, estuprá-la e matá-la. Pior, ele começava a ter o apoio de todos ali dentro.
— Se não matar o diabo, ele te matará!
— O louco que reconhece sua loucura possui algo de prudente — gritou Yamato —, porém, o louco que se presume sábio está realmente louco! 
— Uma das ciladas de Satanás é nos tentar para nos desequilibrar e desequilibrar nossa fé em Deus! 
— E você está agindo como se estivesse se desfazendo da obra de Deus! Está sendo roubado pelo diabo na palavra, homem! O diabo rouba-lhes a Palavra. Está tirando o que é plantado no coração das pessoas para que elas não venham a crer em Deus e usando essa mulher como arma para confundi-los!
— Ora, Yamato... — George estava atacando-o: — Quanto tempo faz que não coloca sua língua nas entranhas de uma vagina doce e quente? Quanto tempo faz que não se entrega aos prazeres da carne? Ou você nunca gostou disso...? Não gostaria de ter essa mulher em sua cama e aliviar seus desejos sexuais que tanto estão repreendidos?
Yamato se rebelou, perdendo a cabeça com as ofensas. Tentou agredi-lo, mas ambos foram afastados. A violência se disseminava e ia explodir. O Bispo impediu que eles saíssem. 
— Doutor James, você está seduzido por esta enviada por satanás! Não deixe de purificar sua alma! Eu odiaria dizer isso, mas ele tem razão... Isole esta mulher de todo o restante da colônia imediatamente! Não vê o que ela está causando nestes homens?!
— Controle então estes homens, senhor Bispo, ou vai haver um assassinato aqui dentro e o senhor vai estar em maus lençóis!
— Tire-a daqui! — gritou Yamato.
George deu um berro, como se estivesse fora de si. Um berro tão agudo que sua voz pareceu dissipar-se e o ar de seus pulmões secou. Seu rosto avermelhou. Ele não queria que Shaw saísse. E estava disposto a tudo para impedi-la. 
 O doutor empurrou o Bispo, para protegê-la. Alguém caiu sobre os bancos do templo, fazendo um barulho ensurdecedor. 
Yamato o seguiu e houve mais tumulto. Se conseguissem agarrá-la, Shaw seria arrastada de uma só vez. Agarraram seus cabelos e ela gritou, desesperadamente. Atacaram seus braços e a feriram. 
 Os homens a cercavam, neuróticos, ensandecidos, querendo apalpá-la, mordê-la, lambê-la. Como lobos, procuravam o cheiro dos fios de seu cabelo, do seu pescoço, das suas mãos. 
Yamato retornou para ajudá-los na saída e a agarrou por um dos braços, arrancando-a do meio da multidão. Shaw passou pelos homens, mas foi espremida pelos portões. Ela só conseguiu passar com a ajuda de James. 
— David! — gritou ela.
O androide ficou para trás.
Os dois, James e ela, saíram, correndo, em direção à enfermaria. Ali, se trancaram.
Dentro do templo, uma multidão continuou acompanhando os dizeres de um morador da colônia. Com aquela aparência magra e febril, um ar doentio e mãos erguidas para os céus, como de hábito, George gritava para quem quisesse ouvir os seus planos de atacar Shaw — para atacar, assim, o demônio que ele julgava estar ali dentro da colônia, com eles.
— Vamos nos unir, homens de C.E.R.I., para dar uma lição naquela vagabunda do diabo! É isso que as vagabundas do diabo merecem! — gritava, com voz esganiçada e gestos obscenos, para uma plateia completamente anestesiada de excitação. — Vamos fazer o que tem que ser feito, um a um, e ela vai se arrepender de ter vindo para cá, para a nossa colônia! Ela vai voltar para o inferno de onde nunca deveria ter saído! Vamos queimá-la! Queime! Queime, vadia!
Naquele momento, o Bispo percebeu, afinal, que não possuía condições de manter o controle do local. 
George reunira um número enorme de pessoas e, caso executasse seu plano, o lugar viria abaixo. Era o espectro da própria tormenta mental, convocando pessoas empolgadas com suas ideias cheias de cólera e rancor. Todos os conceitos, tudo o que pregaram até ali, toda a pacificidade, a harmonia da colônia, iam por água abaixo.
— Eu os advirto a estarmos prontos porque nós temos de lidar com um adversário astuto, muito mais poderoso do que nós e que emprega ciladas sutis, armadilhas espertas, disfarçadas na pele de uma mulher que nos encanta e nos matará! — praguejava George. 
As chamas das velas balançavam com sua perturbação e o local parecia menear com seus berros. Havia ar abafado e uma sensação tenebrosa de claustrofobia ali impossível de descrever. 
— Ela está nos destruindo e querendo nos afastar da palavra de Deus!  E aqueles homens estão protegendo-a! Sim! Sim! Estão protegendo o demônio dentro de nossa colônia de paz! Nossa colônia de Deus! Assim como o Diabo fora expulso dos céus por criar desavenças e rebeliões entre os anjos contra nosso Pai Todo Poderoso, para tomar o trono Dele, esta mulher quer nos confundir e destruir nosso templo, nosso Deus!
Gritos e mais gritos de exultação se seguiram. David estava assustado.
George não carregava mais conceito algum de respeito ao próximo. Não guardava mais paz alguma de espírito. Parecia possesso por alguma entidade disposta a acabar com Shaw, deixando claro que ela era um problema a ser solucionado e que, para tal, deveria ser destruída, como se ela precisasse ser queimada em uma fogueira de uma Inquisição.
— Oh meu Deus! Quem este louco pensa que é para fazer uma coisa dessas? O demônio está usando o corpo deste homem agora para ludibriar todos nós! Está contaminando, espalhando suas mentiras. Só a Palavra de Deus pode derrotar as mentiras do diabo. Nós não podemos raciocinar como Satanás, nem conversar com ele. A sabedoria do homem não é rival para a astúcia de Satanás. Temos que interrompê-lo o mais rápido que pudermos com a ajuda de Deus!
— Isso não se trata de fé, ou Deus ou o diabo, Bispo! — resmungou Yamato: — Não se trata de religião, ele é um doente e precisa ser tratado com medicamentos, mas eu não perderei meu tempo discutindo isso aqui, agora!
— O desespero é o refúgio dos tolos. O diabo quer que nos humilhar mas não vai conseguir. Ele não vai nos contaminar com suas ideias, temos que nos manter firmes no nosso propósito! Lembre-se disso: o nosso propósito é Deus! Fugir perante a luta é o mesmo que abandonar a fé. Enquanto mantivermos a esperança, vamos conseguir. 
Para o Bispo, assim como uma planta encarava muitos obstáculos antes de se tornar uma árvore, os homens precisavam enfrentar diversas penúrias para poderem transcender espiritualmente. 
  Para ele, aquela espécie de possessão era apenas um momento ruim de fraqueza espiritual pela qual George passava. Ele não aceitava o fato de que George deveria ser tratado com medicamentos.
  — Uma gripe é um caso de saúde. Um transtorno espiritual é um caso de perda da fé em Deus, temos que saber distinguir — completava o Bispo, trêmulo e cheio de aflição. — Nós temos um caso típico de fraqueza espiritual aqui. Alguém que está esquecido dos mandamentos do senhor.
— E o que o senhor fará: um ritual de exorcismo? Senhor Arthur, compreenda! 
  — Não se acovarde diante das armas do diabo, Yamato. Porque a covardia deixa as pessoas fracas, longe de Deus e mais próximas dos demônios. Para praticarmos Deus precisamos ter coragem de enfrentar essas armadilhas que os demônios estão nos pregando!
Daquele momento em diante, o templo tinha se transformado na maior desordem. George não obtinha controle sobre os homens que, afoitos, discutiam em vozes alteadas.
— Todos vocês, escutem! — o Bispo vociferava, procurando controlar a situação. — Saiam imediatamente desde templo e vão para os seus alojamentos! AGORA!
Ninguém atendeu. 
  Começou um empurra-empurra. Pessoas queriam sair, por outro lado, outras não permitiam. Gente passava mal, orando para as estátuas religiosas, sob a luz anêmica dos vitrais, escorados nas pilastras.
— Vocês não estão me ouvindo?! — o Bispo puxou um dos homens e o empurrou em direção à saída. 
  Revoltado, Yamato fazia o mesmo. David permanecera impassível por todo o momento.
— Chega de baderna! Chega de confusão ou todos vocês voltarão para a Terra para morrerem por lá mesmo! Saiam daqui AGORA!
— Olhem no que vocês estão se transformando! Estão enlouquecidos! — lamentava o oriental. — Estão fora de si!
— Vaaaamos, saiam! O que estão esperando? Essa loucura acabou!
— Eles não vão te ouvir, seu velho gordo imundo! — rebateu George, enlouquecido. 
  George deu gargalhadas e insultou o Bispo com palavrões. O Bispo exigiu respeito aos berros. George, apesar disso, regurgitava suas palavras, cheio de fúria e rancor: — Eles cansaram de toda essa mentira, de toda essa baboseira e toda a sua tirania! Eu mostrei para eles a verdade! Eu mostrei para eles que satanás está aqui e agora... Eles querem lutar para derrotá-lo! Eles ouviram o berro de uma vítima de satanás! Estamos livres! A verdade nos libertou! 
Yamato tentava chegar mais próximo do altar, mas não conseguia. As pessoas não permitiram que ele passasse. Alguns deixavam o local às pressas. Tudo era um caos.
— Não se recorda mais dos nossos ensinamentos, povo de C.E.R.I.? Aquele que protege sua mente da cobiça, e da ira, desfruta da verdadeira e duradoura paz! Protejam sua mente deste homem perturbado! Não deem ouvidos a ele!
— Povo de C.E.R.I.! Vamos embora retomar nossas vidas porque este lugar está contaminado por demônios e eles — e George apontou para o Bispo e para Yamato —, nos traíram, trazendo para cá a vadia do demônio! Nós os temos aqui, agora, e somos a maioria! Vamos dar uma lição neles em nome de Deus! Amééééém!
— Amém!
Tentaram segurá-los. Yamato, revoltado, conseguiu se libertar. O pobre oriental quase não tinha mais voz.
— Suas mentes estão poluídas pelos abusos de um homem doentio! Despertem para Deus! Nosso Pai está envergonhado desta atitude!
Todo o esforço para conter aquele alvoroço seria inútil. O lugar não permitia transitar porque era pequeno e era apertado para a quantidade de gente. Yamato berrava para que deixassem o seu templo, ao que George contra atacava:
— Este não é o seu templo! É o NOSSO templo! NOSSO local sagrado para orarmos contra o demônio que habita esta colônia! Glória a Deus Pai Todo Poderoso! Abre, Senhor, os olhos desses senhores que não enxergam o que temos que fazer aqui! 
— George, está confundindo estas pessoas! Está atormentando-as com suas ideias!
  George acusava Shaw de heresia e condenava, até mesmo, o fato de Shaw usar as roupas de um homem — James — como forma de permanecer ali dentro. Para ele, aquilo era uma afronta gravíssima, uma vez que ela provavelmente queria se equiparar aos homens, seres superiores e viris na visão embaçada dele.
  Por um momento, tentou propor ao Bispo que ele fizesse um julgamento de Elisabeth Shaw. 
— Sobre que acusação, seu doente mental?
— Acusação de perturbação da ordem da nossa colônia e de espalhar um problema de saúde entre nossos homens, tal quais as prostitutas espalham suas doenças e causaram tantas mortes na Terra. 
Caso fosse condenada pela maioria, Elisabeth Shaw seria estuprada e queimada viva. O Bispo foi contra.
— Eu sou a favor da preservação da vida, seja ela qual for. Elisabeth Shaw é propriedade dos militares e precisa ser resgatada com vida, independente de sua atividade. Infelizmente, eu preciso seguir regras, assim como você, assim como todos vocês. Acha que eu gosto dela? Eu a rejeito, como a pior coisa do mundo. Ela é um monstro, que veio para nos atormentar, mas eu não posso simplesmente me poluir de ódio ou ordenar que queimem esta mulher em uma fogueira porque não vou me rebaixar à qualidade de um animal, George.
  George começou a tossir. Não era uma tosse branda: tossia como se estivesse prestes a colocar os próprios pulmões para fora. Ao vê-lo daquela forma, fraquejando, os homens chamaram por Deus várias vezes seguidas. 
Um intervalo. Ninguém falou nada.
— Deus! — chamava George. 
  Ele girava seu corpo, como se estivesse delirando de excitação por efeito de droga: — Deus! É o senhor, meu pai! Ou é o demônio, nos dando sinal de que quer minha alma? Pai, se for o Senhor, nos mande uma mensagem! Mande-nos uma imagem! Apareça e fale conosco!
  Sem oxigênio e o ar para circular no seu peito, George ofegou, pressionando suas mãos contra o peito. Os olhos estavam apáticos. David se aproximou do homem, como um urubu sequioso por carniça, observando com passividade aquele momento.
— Deus do céu, o que está havendo?! — perguntou Yamato. Os olhos saltavam da cara. O coração palpitava, num grande frenesi. — O que é isso?! O que há com esse homem?
— É O DEMÔNIO QUE ESTÁ DENTRO DELE! É O DEMÔNIO! — gritavam.
Um clima de medo soprava o ar e impregnava com cheiro de morte todo o templo; cada fresta, cada pessoa, cada parede, cada partícula do ar que ali circulava. Tudo abafado, entre a loucura, a alienação coletiva e sintomas científicos de uma grave doença, os homens não sabiam o que fazer. 
  As fisionomias se perdiam naquela atmosfera tenebrosa e enfumaçada de incensos. Perdiam-se em meio a imagens de Jesus de mármore ganhando um tom tenebroso na pouca iluminação, e as orações que de nada adiantavam para assustar um perigo que se aproximava dali, sorrateiro, letal.
Fraco, George desabou no piso como um bolo de carne diante de David. 
Os homens abriram um círculo ao redor de George. Jamais, em suas vidas ali dentro, presenciaram tal fato extraordinário. 
  O que era aquilo que ele sentia? Questionavam-se, suando calafrios. Benziam-se, os homens, tão covardes, atordoados de medo em se aproximar do pobre George, imóvel, estirado no chão. 
Aproximaram-se, Yamato e o Bispo. David não se moveu. Todos os homens, de olhos arregalados transbordando espanto, não se intrometeram a chegar mais perto que o necessário para vê-lo, ainda temendo que George não estivesse mais vivo.
— George...?
Ele estava em choque e não respondeu aos chamados, como se entrasse em coma diante de todos aqueles homens.
Yamato tomou uma atitude: juntou alguns homens e pediu para que o recolhessem, para levá-lo a enfermaria, a despeito da possibilidade de se contaminarem com alguma doença grave. E assim fizeram.
David olhou para os cálices nas mãos daqueles homens. Eles não paravam de beber do líquido preto, como se tomassem um chá relaxante. David se aproximou de um dos homens, que lhe ofereceu um pouco da bebida. Recusou gentilmente e o homem consumiu todo o líquido, elogiando o sabor. David queria expressar algo, tal qual horror, mas sua fisionomia pálida não permitiu que movesse nenhum dos seus músculos sintéticos. Ele lentamente deixou o local.

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