segunda-feira, 25 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 15 - Shaw


15. SHAW


James ordenou que Shaw sentasse na maca e estirasse o braço direito para ver os ferimentos. Em seguida, enfaixou o membro, um pouco abaixo do cotovelo ao pulso. Ela sentia dores, como se tivesse uma leve torção. A pele estava arranhada e com hematomas da agressão pela qual passou. 
— Está melhor? — indagou, ao concluir o curativo.
— Eu vou sobreviver — disse ela. — Eu sabia que não seria uma ideia boa. Eu senti isso.
— Jamais achei que eles teriam essa postura na presença da lei.
— Ora, James, qual é...? O bispo não sabe de nada. É um ignorante que...
—... Que passou por diversas situações complicadas na vida e que hoje encontrou Jesus, que o salvou.
— Que se dane essa baboseira toda, eu só gostaria de sair dessa porcaria de lugar. Viva.
Ele tocou os seus braços. Shaw sorriu, desajeitada por aquele gesto de cuidado e carinho de James. Mexeu o pescoço, sentindo dores. Agradeceu.
— Sorte que tenho medicamentos. Aqui uma ferida exposta pode não cicatrizar e causar uma infecção.
  — Já disse, vou sobreviver. Ficou muito bom — elogiou ela, mexendo o braço para cima e para baixo. — Tá vendo? Nem precisava disso, mas já que insiste tanto...
— Eu sou o médico aqui... As pessoas costumam confiar em mim, sabia?
Silêncio. 
  Shaw olhou ao redor.
— Você tem uma marca, uma cicatriz de cesariana. Vi quando lhe resgatamos e... Desculpa, não deveria te perguntar... Mas você teve filhos?
— Não tive... Eu sou estéril. 
Outra vez, os dois ficaram em silêncio.
— Foi apenas um acidente. Um corte, nada mais.
— Isso tem a ver com o que vocês passaram LV 223?
Ela fez que sim com a cabeça. James evitou prosseguir com aquele assunto.
 — Eles me odeiam...
— Eles não odeiam — contestou ele. — Eles desejam. Muitos estão sem praticarem seus desejos carnais há muito tempo... Meu Deus, que loucura... 
— Que absurdo... — disse ela, bem mais calma: — Não quis provocar nada disso. Nada disso foi minha intenção.
— É claro que não foi. Não se culpe, você não tem nada a ver — alentava ele. — Não ligue para o que eles disseram de você. São homens violentos, homens que sofrem por estarem aqui nesse planeta, durante muito tempo. Eles não vão te fazer nenhum mal. Não enquanto eu estiver vivo.
— E quanto a você...?
— Eu vou ver o que posso fazer...
— Não falo disso, falo de me desejar... — e Shaw olhou para ele, fixamente, nos olhos. As duas faces próximas uma da outra, olhos sem pestanejarem: — Você também me deseja?
James desconversou rapidamente.
— Eu tenho mente forte. Eu fiz uma escolha, eu renunciei muitas coisas — e torceu o pescoço, de forma que não mais olhasse para ela. Por fim, respondeu: — Não, você não me atrai, se é isso que quer saber.
— Está tudo bem... Não precisa ficar nervoso, doutor James... Uma mulher percebe coisas que os homens não são capazes de perceber.
— O quê, por exemplo?
— Ela sabe quando um homem não pode gostar dela por causa de outros motivos. Ela sente quando um homem se recusa a admitir que gosta dela, apenas para protegê-la. E ela sabe quando está dormindo e um homem a admira.
James se afastou, evidenciando não entender sobre o que ela dizia. Estava, no entanto, aborrecido com aquela conversa. Não bastasse, a testa de James começou a se irrigar de suor, num claro aspecto de que se intrigara com aquelas palavras e aquele olhar, ora intimidador, ora doce e carente, de Shaw.
— E aquele homem? Por que aquela raiva por mim, eu não fiz nada para ele!
— Não, não fez. Ele provavelmente deve ter um histórico de problemas mentais, embora eu não saiba de nada referente a isso. O nome dele é George. Trabalhou nos processos de mineração de cobre na maior mina conhecida dos sistemas solares... George passou por situações limites durante boa parte de sua vida — explicou James. — A atividade mineradora era uma das maiores empregadoras conhecidas e das menos recompensadoras. Implicava em um custo monstruoso para o empregado — principalmente em se tratando de saúde mental e física. Além do impacto ambiental e da modificação de relevos de planetas, a atividade era, proporcionalmente a quantidade de empregos gerada, a maior causa de acidentes com vítimas fatais da história da humanidade. George levava uma vida miserável em uma mina subterrânea, extraindo minérios usando pesado maquinário e os transportando em vagões. Trabalhava mais do que o previsto por lei, não tinha direitos respeitados, era humilhado. Não tinha estudos. 
— Isso explica muito.
— A bebida começou a atrapalhar ainda mais sua vida quando George, bêbado, invadia os postos de trabalho causando riscos não apenas a si como aos colegas. Não era sabido de seus familiares; se tinha, se estavam vivos. Nada. Um dado muito comum a quem trabalhava no espaço era a raridade com que se adquiriam familiares. A vida pulando de planetas em planetas, explorando-os, trabalhando pesadamente por longos períodos sem intervalos; passando meses, anos, biênios, triênios — vagando entre as estrelas dentro de uma câmara criogênica —, a vida era vazia, solitária e deprimente. George não fugia a esta regra. Assim, todo o dinheiro que George gastava era com mulheres da vida, tal qual fazia Arthur, o que lhe resultava em tratamentos para doenças sexuais caros em planetas — cuidados cujos rendimentos não eram grandes o bastante para pagar.
— Ele nunca fez nada disso aqui?
— Não, nunca. Aliás, ninguém aqui. Isso jamais aconteceu. Todos são muito pacíficos e parecem estressados com a sua presença, porque viveram muito tempo isolados. É só isso. Não fique encucada com isso, está bem?
— Está bem...
James voltou sua atenção para Shaw.
—... Até as coisas se acalmarem um pouco e vão se acalmar. E você ficará aqui — James tocou o rosto dela e segurou seus ombros: — Em hipótese alguma, abra essa porta... Aconteça o que acontecer, não deixe que entrem aqui... 
Shaw segurou uma das mãos do doutor. Os dois se olharam. 
— Tenha muita cautela ao sair, eles podem te machucar também... 
— Creio que não, porque o Bispo não toleraria mais baderna, mas... — James sorriu para ela, puxando a mão: —, não custa nada ser cuidadoso. 
 — Quando você nasceu, eu já dormia, num sono tão profundo quanto a própria morte, meu querido.
— Do que você tem medo agora, James?
A pergunta fez com que a expressão do doutor se desarmasse.
— Do que você tem medo...? — persistiu ela.
— No momento... Tenho medo apenas que lhe machuquem. Não quero que uma coisa dessas aconteça aqui dentro, nem com você, nem com ninguém.
Shaw o olhou dentro nos olhos, como alguém que enxerga até a alma de outra pessoa.
— O medo é a maior das doenças, capaz de destruir mais pessoas do que qualquer outra coisa. Vocês são religiosos, James... Mas, no fundo, são como os prisioneiros que aqui viviam antes de vocês... Buscando uma libertação que nunca encontrarão.
Shaw percebeu que os olhos de James rutilavam, embora ele se esforçasse para que ela não percebesse. Ela, então, se deitou. Adiante disso, James sabia e escondia que o amor que sentia por ela era movido pela dor. Mas nunca descobriria que o amor de Shaw por ele era movido simplesmente por pena. Porque James e Shaw não passavam de dois solitários e fingiam não saber que um completava o outro. 
  James era gratidão e a proteção que Shaw transparecia, como mulher, não ter. Shaw era como o remédio doce para curar a solidão e a ingratidão da vida que James parecia esperar apenas terminar.
  James recuou com cuidado, temendo que alguém estivesse a sua espera ou à espera dele. Não foi muito longe. Yamato e o Bispo abriram as portas com tanta violência que quase a derrubaram. Atrás do grupo, a figura impassível de David assistindo os homens carregarem um anêmico George para cima de uma das macas.
— Oh meu Deus! — exclamou James. — O que aconteceu?!

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