quarta-feira, 27 de março de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 17 - Sangue Negro


17. Sangue Negro


Shaw avançou contra o doutor. Segurou seus ombros e o sacudiu com força, aos berros: — James, temos que tirá-lo daqui AGORA! Vamos levá-lo para o necrotério! Ele está infectado! Ele está infectado! Empurre a maca, vamos!

James a empurrou e se afastou, desnorteado. 

George deu um último impulso e segurou fortemente a mão do Bispo, quase quebrando seu pulso. Em seguida, seu corpo caiu mais uma vez na maca.

James meneou a cabeça em negação e estendeu os braços, para que Shaw não se aproximasse.

— Não, Shaw! Eu não posso fazer isso, meu Deus, eu não sou assassino! Ele só está inconsciente e eu posso salvá-lo...!

— Ele já está morto, James! 

— Ele está paralisado, mas ainda vive inconsciente! Está vivo! Ele tem pulso, está em coma!

O doutor analisou. Segurou o pulso do homem, ainda esperançoso. Pediu para que os outros se afastassem.

O Bispo não se afastou. A mão de George se agarrara a dele de tal forma que ele não conseguia soltar.

— Fortaleça sua fé dia após dia, mês após mês — murmurava Arthur. — Se enfraquecer mesmo um pouco, os demônios aproveitar-se-ão. Amém!

— Escute o que eu digo! — implorava Shaw: — Essa coisa está dentro do corpo dele e não está morta! Ele foi infectado! Está acontecendo, James, como eu avisei!

Os segundos rolavam e eram preciosos. James ainda se dispunha a tentar salvá-lo. Procurava a calma que não chegava.

George, sem pulso, ali jazia inconsciente e flácido. O corpo estava enegrecendo.

James colocou as pontas dos dedos no pescoço, ao lado da traqueia. E começou, assim, uma massagem cardíaca.

— Vamos, reaja!

— James, ele não vai reagir! — contestou Shaw, se afastando da maca e demonstrando abandonar o médico naquela complicada situação.

— Eu sou médico, esse é o meu trabalho! Salvar pessoas! Ele ainda está vivo!

Averiguou. Nada. Verificou mais uma vez. Voltou a fazer a massagem. Nada. Nenhuma reação, nenhum sinal de vida. Shaw o puxou. E os dois começaram a discutir, aos berros.

— Ele já era! Nós temos que congelá-lo!

— Não!

— James, por favor!

— Não, não, não! Afastem-se todos! — e, com a ordem do doutor, o Bispo finalmente conseguiu soltar sua mão e se apartou. — Eu vou salvá-lo! Eu estou dizendo que vou salvá-lo!

— Ele está morto, James!

— Não está, Shaw! Ainda não!

— Isso não vai trazer sua família de volta!

James cessou automaticamente. Os olhos vivos, as sobrancelhas erguidas, a expressão assustada. Não se moveu. Não acreditava que Shaw tivesse dito aquilo, mas ela, direta como era, prosseguia. Sem imaginar no mal que faria a ele com suas palavras e sem sensibilidade para saber o quanto o magoaria.

— Não adianta...! Isso não vai trazer ninguém de volta, James... Ele está morto. E isso não é culpa sua. Aceite a ordem das coisas! Você não pode mudar isso, James... Você não tem controle sobre essas coisas! 

James agitou a cabeça em negação. Rodou para um lado e para outro, num estado de visível tormenta. Todos olhavam para ele, aguardando ansiosamente sua reação.

— Droga, eu tentei avisar... eu tentei...

— E do que você sabe, Shaw? — indagou, se enfurecendo. Shaw, inerte, não se moveu. — Você não sabe de nada! Você não sabe de merda de nada! Você não é desse lugar, Shaw, você nem pertence a ele!

— Ninguém pertence a essa droga de lugar, James! Ninguém, nem mesmo você! Achou o que? Que vindo para cá você esconderia suas lembranças, o seu passado? Achou que Deus apagaria tudo, James? O seu Deus não quer saber de vocês. Ele não quer saber de mim, ele não quer saber de ninguém! 

Houve alguns segundos do mais absoluto silêncio, em que todos se entreolhavam e consideravam, mesmo sem admitirem, que Elisabeth Shaw tivesse toda a razão. Bastava olhar para os corpos suados e desesperados próximos daquele que já parecia ser o cadáver de George, estirado sobre a maca.

— Estamos no meio do nada — considerava ela, serenando todo o nervosismo —, e vamos comprometer a segurança de todos aqui dentro por causa deste homem cujo destino de morte é certo. 

Shaw estava decidida por retirar o corpo de George dali o mais rápido possível. Ignorou James e caminhou até a maca.

— Vamos, todos vocês, por favor, me ajudem a tirá-lo daqui! Vamos, David, você sabe o que temos que fazer!

O doutor James não concordou com a postura dela e se virou, impedindo que qualquer um ali dentro se movesse.

— Ele não vai sair daqui! — vociferou, com olhos se enchendo de lágrimas. — Saiam todos vocês daqui! Saiaaaam! Saiam daqui! 

— James, tenha calma!

O Bispo tentou acalmá-lo, mas não conseguiu sequer dar um passo à frente. James estava incontrolável e irreconhecível. 

  Na discussão que começava a tomar proporções caóticas, Shaw não deu ouvidos aqueles apelos e se moveu para tentar empurrar a maca, sozinha, para fora dali, mas não conseguiu. Era tarde demais. 

Como se estivesse sob uma pressão extremamente baixa, o ar preso dentro do corpo de George começou a se expandir, rasgando seus pulmões. De repente, George deu um pulo em direção a Arthur, agarrando seu pulso outra vez, agora com força bestial. O Bispo deu um grito, mas o susto o impediu de ir mais longe. George tentava mordê-lo, como um cão, e esmurrá-lo, cheio de gritos, impulsionado por destruidoras e nauseantes alucinações. 

Yamato o segurou com o apoio de James, mas o braço de George começou a se entortar, forçando o Bispo a girar seu próprio braço para evitar que quebrasse ou que George o mordesse violentamente. A princípio, o Bispo se esgoelou de dor, quase caindo. Depois se agarrou na maca, rasgando o lençol sobre ela.

Em seguida, George lhe deu um empurrão e, demonstrando inacreditável força, o velho se arrebentou em uma das camas. Os outros se afastaram. Shaw gritou.

Lentamente, George sentou sobre a maca. Começou a sacudir os braços. O pescoço dobrou para trás, soltou um barulho de quebra, rasgou-se na região da traqueia e formou praticamente um ângulo de 90 graus com sua própria coluna. George não era mais humano. Era uma coisa, malévola, um animal, um monstro. Todos se separaram, aos berros, espantados com aquela reação súbita. Depois se apertaram apenas num canto, em torno de Shaw que, a esta altura, empurrava os homens para ter uma visão completa daqueles momentos de agonia de George. 

George parou, rodando sobre a maca. O sangue negro escorreu pela sua boca, pelos olhos, na forma de bolhas que estouravam dentro de suas narinas. Depois desceu por todo o seu corpo totalmente escanifrado. Soltou ruídos, como se ainda sentisse dores, e defecou bolas enormes de um líquido negro nauseabundo. 

A cena desagradável prosseguiu. 

Seu corpo começou a inchar mais uma vez, na altura do pescoço e do peito, violentamente, como se um balão de hélio dentro dele quisesse subir. A pele começou a esticar e todos, ao verem aquilo, começaram a gritar. Ninguém, porém, teve coragem de chegar próximo dele ou tentar impedir que aquela transformação macabra prosseguisse. 

  Num gesto súbito, George deitou, jogou a nuca contra a maca com tal estupidez que quebrou a goela. Ele não tinha mais poder sobre seu corpo. Os braços batiam, dobravam-se, as pernas tremelicavam. Moribundo, vibrava furiosamente sobre a mesa, em convulsão. Gemia como se estivesse vivo, quebrando-se como se fosse feito de plástico. 

  Um jato de líquido preto estourou em direção ao teto. Ouviu-se o som de estalos de ossos: eram as costelas, partindo-se como biscoitos e se transformando em algo que era impossível descrever. Os olhos se dilataram e arrebentaram. A boca, forçadamente, se vergava e abria, até que o maxilar despedaçasse em duas partes, empurrando a língua para fora e expondo os ossos da mandíbula. Os ossos da queixada esticavam até encurvarem, como se fossem duas presas enormes. George gritava. E tossia. 

  David, pela primeira vez ali dentro, estava atônito, aflito, desesperado. Uma mistura de terror e fascínio impregnava o ar. Aquilo era, sem dúvidas, a coisa mais bizarra que já tinha presenciado em sua vida. 

— OH MEU DEUS! OH MEU DEUS! — gritava o Bispo. 

A pele das pernas do cadáver se distendeu, fazendo buracos. Soltava uma gordura pastosa negra que escorria pela mesa, cheia de odor e de pus. A bexiga estrangulou até forçá-lo a urinar. Ele vomitou. Então mais bolhas pútridas, cheias de pus, pipocaram pelos braços. Os gases dos intestinos e estômago o fizeram defecar seu reto sobre a mesa, como se fosse pedaços de tripas de porcos. As imundícies espirraram, desceram pelo chão. Esparramaram-se em meio a uma quantidade inimaginável de sangue negro. Despejaram-se sobre o corpo de George, sobre a maca.

Gritos. 

Quando o corpo, sacolejando, ameaçou cair, todos recuaram até a porta. Foi o momento em que o Bispo tentou sair correndo, mas, sem coordenação motora suficiente, tomado por aquela sensação desesperadora, esbarrou no próprio medo e ali ficou.

As mãos e pernas de George esticaram, os ossos deformavam e cortavam a pele. Ninguém conseguia sequer piscar os olhos, tamanho terror que existia naquela sala: o esqueleto de George crepitava dos pés a cabeça, agitado como peixes fora d’água, e crescia cheio de fraturas expostas, tortuosas e quebradiças, tal quais galhos de árvores no outono. 
A barriga dele inchou, rompendo as fibras da derme até ficar do tamanho de um armário, e explodiu. Suas vísceras caíram no piso e o corpo desabou. Havia algo dentro delas, como uma outra criatura, um outro ser, uma outra coisa. Contorceu-se, esfregando-se no chão como uma lesma em agonia, girou e soluçou. 

David sacou o pote de ácido.

— David! — gritou Shaw.

O androide atirou o ácido. Houve um grito furioso com uma intensidade tão absurda que toda a colônia pareceu ouvir. O ácido corroeu seu rosto, soltando sua pele e deixando transparecer uma casca negra brilhante. George, ou agora o que parecia ser ele, deu um salto e se agarrou no teto, de cabeça para baixo. Rosnou furiosamente como um cão raivoso, caminhou rapidamente pelo teto, soltando imundícies, e violentamente, adentrou um buraco do duto de ventilação.

Todos estancaram ali de tal modo que era impossível removê-los de sua posição de defesa. Shaw, de braços erguidos e mãos abertas, impedia qualquer pessoa de se aproximar.

As luzes piscaram. Respirações afoitas tentavam se controlar em vão.

— Já vimos o suficiente — disse David, com os olhos arregalados.

Isto fez com que Shaw se afastasse precipitadamente e se atirasse para os braços de James. Os dois trocaram empurrões, mas ela fincou seus pés e não se mexeu mais. Mesmo perturbada e terrificada, havia algo latejando em sua cabeça, obrigando-a a não sair dali. 

Nada se comparava a experiência de estar naquela sala, com aquela aberração que agora estava no duto de ventilação. Seus rostos não tinham cor, eram fisionomias deformadas por pavor. De nada adiantou as preces do Bispo, a esta altura do fato com a cor de um tomate e encharcado de suor. Não tinha palavras que pudesse falar porque sua garganta tremulava. 

As pernas de Yamato tremiam, sua pressão subia a ponto de deixá-lo zonzo. Serenava sua respiração, em vão. Não conseguia ter forças para se mexer, tão pasmado estava em estado de transe, agarrado ao armário. O coração batia enlouquecido no peito; a garganta estava seca, tal qual a de alguém que vê a personificação da própria morte.

Fez-se silêncio, durante talvez um minuto. O ar estava pesado, cheio de asco e vulgaridade. Uma luz, posicionada sobre eles, piscou. Pareceu demorar uma eternidade. 

— James...? — chamaram. 

O terror se dissipava, pouco a pouco. Os corações, outrora descontrolados e arrítmicos, agora repousavam. Sugeriam que não havia mais nada a temer, pois o pior tinha passado. George, ou aquela coisa em que ele se transformou, tinha fugido. 

Shaw se aproximou, lentamente, da maca onde o líquido ainda escorria. A imagem de uma mulher, aparentemente mais frágil que os homens da sala, mas muito mais corajosa do que todos eles juntos, fez todos os homens ruírem, impressionados com sua ousadia. 

Um ou dois passos longos adiante, Shaw paralisou-se. Fitou aquilo, como se avaliasse uma melhor posição para ver, e engoliu seco. Era impossível descrever o seu nojo. 

— Shaw...?

— Eu sei o que estou fazendo, James.

— Shaw, não chegue perto dessa... coisa... Fique onde está!

— Silêncio...!

— O que você vai fazer, saia já daí! — implorou Yamato. — Saia daí! Saia! Não pegue nessa coisa!

Deu um passo minúsculo, depois outro, depois mais um. Tanto quanto sua prudência e seu medo possibilitavam chegar mais perto.

— David, você sabe o que temos aqui.

— Nós precisamos estudá-lo, Shaw — contrapôs ele, com toda a frieza que lhe cabia sua cientificidade. 

— Estudar?! — Shaw não conseguiu conter sua surpresa: — O que você quer dizer com estudar? Nós dois sabemos do que essa coisa é capaz de fazer... Do que essa coisa foi capaz de fazer com Charlie, com todas aquelas pessoas! Aquela nave carregava a morte e agora estamos com ela aqui DENTRO!

— Temos que tirar isso daqui e limpar sem que ninguém veja — disse o Bispo —, mas eu confesso não ter coragem de pegar isso... Não, eu não tenho, eu não posso fazer isso...

— Eu não tinha visto isso, Shaw. Ainda. Nunca tinha presenciado esta metamorfose.

— No que ele se transformou, David?

— Você viu o que houve com ele, já viu o que essa coisa pode fazer! — gritava o Bispo, impressionado. — Agora, por favor, vamos sair todos daqui! James, limpe esta coisa! Tire essa coisa daqui... o mais rápido possível!

Shaw avançou contra David disposta a quebrá-lo, mas James a impediu de ir mais longe: — Responda, SEU DESGRAÇADO!

— Essa coisa matou George... e você sequer se importa com ele...!

— Ela não o matou, Bispo! — discordou ela, eufórica. — Essa coisa o transformou em outra! E David sabe muito bem o que ela é e como age...!

— Alguém precisa pegar aquela coisa e colocar de volta na maca — disse David, friamente. — Nós temos que estudá-lo agora. Como vamos nos prevenir de uma contaminação se não sabemos com o que estamos lidando?

— Eu não vou fazer isso... — disseram.

— Shaw, não temos equipamentos adequados aqui...!

Ouviu-se um silvo, violento. E uma gritaria explodiu pelos dutos de ventilação até a enfermaria. O Bispo chamou por Deus incontáveis vezes seguidas.

— De onde vem isso?!

— Oh, céus... O REFEITÓRIO...!

— Não é hora de refeição! Eu ainda não autorizei ninguém a ir pra lá! 

— Mas está vindo de lá — praguejou Yamato, como que pedindo ajuda a todos —, precisamos ir!

Todos deixaram a enfermaria correndo.

O líquido preto e toda aquela sujeira deixada pelo corpo de George, lentamente, escorria pelo piso, em direção ao ralo.

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