segunda-feira, 8 de abril de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 18 - No refeitório



18.                  NO REFEITÓRIO

Quando Shaw chegou com o seu grupo ao local, o refeitório já estava revirado.
As mesas e cadeiras, antes enfileiradas e limpas com cuidado exemplar, ficaram empilhadas, fora dos seus legítimos lugares. Elas eram feitas de metal, mas a maioria foi retorcida como que feitas de papel. Havia um odor forte, característico de fezes e urina. Sim, os colonos, furiosos, medrosos, pareciam atacados por um leão e, trancados, urinaram e defecaram lá.
Alguns homens estavam amontoados, pelos cantos de todas as paredes de azulejo branco, dando uma ideia do que aconteceu no local. As pilastras do lugar, seis ao todo, possuíam sinais de água correndo. As tubulações do teto vazavam. Algo tinha destruído o lugar.
De um lado, as portas de acesso para o local. Do outro, duas portas davam acesso para um corredor estreito, que se conectava com uma área próxima do setor de cargas. Era por ali que chegava a comida e os mantimentos para abastecerem a cozinha. Uma área em anexo dava acesso para esta, de estilo industrial. Não havia luz na área porque elas foram quebradas pelos colonos.
Os bandejões minavam-se pelo piso. Carrinhos para transportar comida, feitos em aço inox, revirados. Havia focos de curtos circuitos nas paredes, em fiações expostas. O lugar umedecido fedia.
Sangue, escorrendo pelo chão, pelas paredes, como num pesadelo. Sangue, em profusão absurda.
— Pela glória do Senhor! Parece que houve uma chacina aqui dentro!
Os homens, apavorados, gritavam em um único coro que queriam sair dali. Mas estavam em choque. James e Yamato tentavam falar com eles, mas nenhum deles respondia.
— Estão em choque. Como se tivessem visto a própria besta.
David e Shaw se entreolharam. O androide fez um sinal para que ela seguisse adiante. Em um local mais afastado, próximo das saídas de ventilação, Shaw notou que havia talheres, e restos de comida, jogados no chão. Não se aproximou mais do que o suficiente para que a luminosidade entregasse o que havia ocorrido ali e delineasse vagamente a mobília, revirada, gotejada de gordura de comida. Uma imundície.
— Vou até a cozinha, verificar como estão as coisas — avisou Yamato, seguindo para lá.
— Tome cuidado — aconselhou ela. — David, vá com ele.
O grupo se alastrou. Yamato foi para a cozinha com David. James e o Bispo contornavam o problema de todos aqueles homens, procurando fundamentar alguma conversa. Mas eles pareciam possuídos por todos os traumas mentais.
— Foi horrível... — balbuciou um deles. — Foi horrível...
— Quantos morreram? Quantos dos nossos irmãos morreram?
Um deles fez sinal de dois com os dedos.
— E onde eles estão? Onde estão os corpos?
E fez-se, assim, silêncio.
Um caso, no entanto, despertara a prudência de Shaw naquele instante, nem sempre muito cautelosa, mas bastante perceptiva.
— Como era servida alimentação, se não existe sequer um relógio dentro dessa espelunca?
— O Bispo. Ele sabe de todos os horários. Ele coordenava tudo.
Arthur engasgou, semicerrando os olhos.
— Sim, eu sei.
— Mas nem sempre sabemos se o que estamos comendo é o café da manhã ou almoço ou jantar — revelou James.
Arthur se sentiu imprensado contra a parede, sob olhares de desconfiança de Shaw. Áspera, Shaw deu um passo em sua direção e ele recuou.
— Por que isso, Bispo? — Shaw o pressionou por uma explicação. — Sem noção de tempo, as pessoas ficam desorientadas. As pessoas não sabem o que fazer, não sabem como proceder, o nosso organismo...
— Esqueça isso, Shaw. Os homens das cavernas não possuíam relógios. E, mesmo assim, viviam de acordo com suas necessidades — intrometeu-se o doutor.
— E o que vocês são...? — Shaw virou seu rosto, olhando por cima do ombro. — Os homens das cavernas de Iosis?
Os homens em sua volta deram de ombros. Todos conformados com o fato de que o tempo passava arrastado dentro daquelas paredes. Dolorosamente arrastado.
— Se o Deus de vocês não é capaz de salvá-los disso, então qual a importância Dele agora?
Na cozinha, as panelas se estendiam por todos os lugares. Era uma área ampla, espaçosa, bem dividida por estantes de metal para recipientes e móveis em forma de módulos, como se fossem de montar.
Yamato notou que, na frigideira basculante, um pedaço de carne tinha terminado de fritar na chapa e fumarava. O sistema de exaustão apitava. Os dois rapazes perceberam que havia comida, no piso, nas paredes, sobre elas. Mais do que isso: as grades que fechavam os sistemas de ventilação estavam quebradas.
Pratos e talheres, bem como vasos plásticos, por todos os cantos. O forno industrial e os fogões abertos. No chão, bandejas, gaveteiros, prateleiras e mesas viradas de tal forma que mal dava para transitar ali dentro. Os registros de gás, no entanto, foram fechados pelo sistema de segurança — que cortava a saída de gás numa situação de emergência.
David reparou que a geladeira estava com as portas abertas e os freezers virados de cabeça para baixo.
— Estava faminto.
Yamato o olhou de cima a baixo.
— O cheiro de comida pode tê-lo atraído — explicou David, comprimindo o seu pescoço. —Não deixou corpos.
Tinha café numa poça, escorrendo por um fio de uma cafeteira e alagando o piso antes encerado. Fios de óleo quente fumaravam na fritadeira industrial. Tudo quebrado, como se o lugar fosse chacoalhado por um terremoto.
Voltou. E, nesse momento, chamou.
— Elisabeth.
Shaw entrou correndo, acompanhada do Bispo e James, na cozinha.
No chão, havia algo bizarro e asqueroso. David pegou um talher grande e balançou sobre a coisa, que parecia pegajosa. Em seguida, David, sem muita habilidade, se agachou mais próximo daquilo e deixou transparecer um leve e incômodo sorriso num dos cantos da boca. Suspendeu aquela coisa e ela parecia cheia de escamas escuras, coberta por algum tipo de gel claro grotesco e uma porção de líquido enegrecido.
— David, o que é isso...?
— Pele — respondeu ele, em seu habitual tom frio. David ergueu as sobrancelhas e sorriu outra vez, virando-se para ela e soltando a coisa: — Está trocando de pele.
— Deus do céu...! — murmurou Yamato, petrificado.
Havia um misto de orgulho e felicidade na expressão de David. Ele se ergueu, ignorando os restos daquela coisa.
Olharam para o alto. A saída de ar da tubulação por onde ele tinha fugido estava no teto.
Shaw deixou o cômodo.
— Aonde vai?
Shaw fez o possível e o impossível para que aqueles homens tivessem noção da gravidade do problema.
— Vamos todos morrer.
— E o que vai fazer?
— Não sei quanto a vocês, mas eu vou embora. Eu vou sair daqui.
— Mas... Nós precisamos de vocês — disse James. — Vocês sabem o que está acontecendo aqui!
— Não, eu não sei...
— Você trouxe o mal para dentro dessa colônia — reclamou o Bispo.
— Ora, você é o dono dessa porcaria, então FAÇA ALGUMA COISA!
— Shaw, por favor... Nos ajude... Diga o que devemos fazer... — implorou James: — Olhe para aqueles homens, olhe para mim... Estamos todos assustados com isso... Não temos ideia de como agir...
— David, diga a eles o que sabe. Conte-me o que sabe. O que é aquela coisa, David?
David hesitou. Como sempre.
— DAVID!
— Eu não sei exatamente o que é — respondeu ele. — Tudo o que posso é supor.
— Então suponha!
— George teve contato com a carga na nave. Isso é fato.
— Isso é impossível. Eu não o vi...!
James e Yamato entreolharam-se.
— George voltou com uma carga. Ele disse que era equipamento — contou Yamato. — Meu Deus... ele trocou as ferramentas da mala... por outra coisa.
— Um agente bioquímico desconhecido — consertou David. — A outra coisa, a qual você se refere... É um agente bioquímico. Ele reage ao nível do DNA. E tem resultados diferentes nas reações.
— Como assim?
— Uma vez que a substância reage com um DNA de um engenheiro, ele é capaz de gerar indivíduos tanto masculinos quanto femininos. Mas, uma vez em contato com um DNA humano masculino, resulta em um novo tipo de criatura. O reagente causa mutação nas cadeias de DNA. Mas o DNA feminino é imune. Suponho que os “engenheiros”, aqueles que criaram a vida na Terra, tentavam criar um ser superior, mas precisavam de algo que completasse a cadeia, para obter o resultado que eles tanto queriam.
— O nosso DNA — inteirou Shaw.
— Do que vocês estão falando?
— Bispo, o senhor não viu o que vimos quando resgatamos Shaw e David... A nave que aqui caiu... É um veículo de origem alienígena. Jamais poderíamos construir algo como aquilo — recordou Yamato.
— Ele estava carregando uma carga biológica. Uma substância capaz de reagir e causar uma doença... Como a que aconteceu com George... — explicava James. — Capaz de causar aquilo que você mesmo viu com os próprios olhos. George não devia ter pegado nada daquilo, mas ele... Ele tinha que fazer... Tinha que acabar com todos nós...!
Sob a iluminação deficiente, James, em especial, muito irrequieto, caminhava de um lado para outro. As mãos de Yamato vibravam, como se não houvesse meios de encontrarem paz. O Bispo, com todo aquele cansaço visível em seu semblante, não conseguia sentar, tamanha ansiedade que sentia.
— Você não percebe o que se passa aqui?
— Há mais uma coisa. George deu aos homens do templo a mesma substância que lhe causou essa metamorfose.
Shaw levou as mãos ao rosto, em desespero.
— Não pode ser...
— Eu vi. Ele estava servindo a todos. Estava causando uma epidemia.
— Quem ingeriu o líquido terá o mesmo final que George — concluiu Shaw, atordoada.
— E quanto aos outros?
— Comida — respondeu David, com um tom de cinismo.
— Oh meu Deus... Os homens da colônia estarão fora de controle e o senhor será incapaz de medir esforços para manter a ordem!
— E o que você quer que eu faça, James? — indagava o Bispo. — Que eu tranque todos dentro de seus alojamentos? Não é assim que fazemos. Não é assim que deve ser. Não alteie o tom de sua voz para mim...! Eu estou cansado de tudo isso! Estou exausto! Desde que esta mulher chegou aqui, os homens se transformaram e nem sei quantas horas já se passaram, ou dias, ou semanas! Eu não sei! Isso é uma grande loucura, todos nós estamos enlouquecendo, essa é a verdade!
— Nem todo mundo. Pare de se lamentar — reclamou Yamato: — O senhor foi avisado das condições mentais dele! Eu avisei que ele estava atordoado e o senhor foi negligente!
— E o que você gostaria que eu fizesse? Casos assim são comuns de existir! Ora, não estamos na Terra, estamos longe de casa, com homens que vivem reclusos como se fossem morcegos em cavernas! — justificava o Bispo, suando, enquanto as mãos limpavam o suor. Tentando subtrair-se da culpa, rebateu: — É um barril de pólvora prestes a explodir. Ela é a chama. O que você queria? Que o prendesse dentro do necrotério ou de seu alojamento e o impedisse de circular pela colônia?!
— Qualquer que fosse a atitude seria bem-vinda, desde que me comunicassem porque eu sou o médico aqui!
  James reclamava, levando as mãos à cabeça.
  — Não olhou as fichas dele, não verificou o histórico dele? Será que não tinha problemas mentais? — sugeria o médico: — Ninguém toma uma atitude desta à toa, de uma hora para outra! Ele estava tentando convencer outras pessoas de que ela é uma enviada do demônio, você pode imaginar uma coisa dessas?! Pois então, ESTÁ ACONTECENDO...!
  — Sim, isso é uma insanidade, e não foi ela quem começou isso, fomos nós todos! Todos nós somos responsáveis por isso!
  — É claro que é insano, eles queriam estuprá-la e matá-la! São homens que dedicaram muito para evoluírem mentalmente e espiritualmente, aqui, através da religião e não foram capazes de conviver algumas horas com uma mulher! — reclamou James, bufando de raiva: — Isso só prova que essa ideia de religião é uma ideia falha, senhor! Ela não vai levar estes homens a lugar nenhum, a colônia não é capaz de atingir seus objetivos.
  — Espere um pouco, doutor, não questione o poder de Deus! — e o Bispo ergueu seu indicador direito para ele: — Está perdendo sua fé em Deus?!
  — Não, senhor. Eu perdi a fé nos homens... Eu achei que aqui eu recuperaria minha fé na humanidade, mas... Tudo em vão... Não é Deus, é o que estamos pregando por Ele que não funciona.
  James suspirou. Meneou a cabeça várias vezes. Os outros o olhavam.
  O Bispo limpou o suor da gordura sob o rosto, com as mãos, depois enxugou em suas roupas. Respirou fortemente e procurou a cadeira para se sentar. Prosseguiu:
  — Mas, sabe... — continuou Yamato, amenizando a situação —, não acho isso um mal, não se isto acontecesse lá fora, em uma nave, em outro planeta. Aqui dentro, as coisas são diferentes. Nós precisamos ir atrás dos homens que estiveram no templo. Temos que separá-los do restante.
— E fazer o que com eles?
David olhou para o Bispo. A resposta estava clara na sua face.
— E que sintomas deveríamos procurar?
— Na primeira fase havia apenas dor ou sensação de queimação na ferida, náuseas, vômitos e mal estar. Tosse, febre, e pode ser contraída por contato sanguíneo ou sexual — resumia Shaw. — Nesta fase surgiriam os espasmos musculares intensos por todo o corpo; Outros sintomas podem ser os episódios de hostilidade violenta, tentativas de morder e bater nos outros e gritos, alucinações,  ansiedade extrema, falta de tato, ausência de estímulos de dor, acessos de loucura, provocados por estímulos visuais ou acústicos... Alteração corporal, como nódulos, atrofia de músculos, dormência, demência mental; paralisia muscular e morte do homem.
— Uma completa... mutação — emendou David.
— Isso são suposições, feitas com base no que observamos no paciente número um — explicou ela. — Charlie.
— Ele era um dos homens da Prometheus?
Shaw confirmou com um balançar de cabeça.
— Mas não vimos o resultado final. Ele foi morto antes disso — contou David.
— Posso estar certa; posso estar errada sobre isso. Mas foi o que presenciamos, e vou dizer homens... Não vão querer ver o que vimos... Se alguém aqui sentiu algum desses sintomas nas últimas horas, pelo amor que vocês têm a Deus... Eles precisam dizer. 
Ninguém se moveu.
— Essa coisa pode avançar de uma maneira progressiva, pode se desenvolver a ponto de não matar o hospedeiro. Podemos ter o terceiro estágio a qualquer momento, com episódios de hostilidade violenta e tentativa de matar e agredir uns aos outros, vocês entenderam?
— Está tudo revirado, tudo no chão. Parece que houve uma guerra aqui dentro. Tem coisa por todo lugar.
O Bispo bufou. E, num acesso repentino de emoção, começou a chorar diante daqueles homens atordoados e chorosos do lado de fora, no saguão principal do refeitório. O bispo se dirigiu a eles, na tentativa de acalmá-los.
— Vocês estão todos assustados e cheios de medo, de rancor. Como acham que Deus está nos vendo agora... Ele está decepcionado conosco. Como tudo o que estamos fazendo. Com toda essa loucura.
— Você permitiu que esse demônio entrasse na colônia. O que ela faz aqui conosco? Ela trouxe a doença! — lamuriou um dos homens.
— Não, ela não trouxe — repulsou James, limpando o suor que escorria pela testa com um movimento truculento do seu braço direito: — Ela não trouxe, eu asseguro que não. George estava doente desde muito antes. Isso não faz de Shaw a nossa causa, mas a nossa possível salvação porque ela foi capaz de entender sobre a doença e nos dar uma luz para o caso.
E os homens demonstraram surpresa. James, Shaw e Yamato começaram avaliar qualquer sintoma que invocasse uma doença: dores no corpo, especialmente juntas e estreitamento de garganta; tosse, febre, fadiga, cefaleia, olhos irritados. Olhos, pele, boca, garganta e nariz avermelhados e dor abdominal; secreções, feridas, bolhas de pus... Todos negaram e eles nada conseguiram.
Isso não ajudava muito. Shaw precisava de exames laboratoriais mais detalhados, o que era impossível. Só restava ao grupo observá-los, então, em quarentena, e impedir que saíssem dali, juízo que não agradava em nada aos colonos confinados.         James e Shaw avaliaram os homens. Procuravam por cortes ou até por mordidas.
— A ideia é de que uma ferida ou contato com sangue infectado pode ser um veículo de transmissão — explicava James, para os homens.
Não havia, porém, sinais externos de doença alguma. E não havia, mesmo assim, o que comemorar.
— O que fazemos?
— Todos eles devem retornar aos alojamentos — disse James. — Eles não poderão sair de lá até segunda ordem.
— Precisamos encontrar o paciente numero um. Precisamos encontrar George.
— Temos que tirar todos daqui, isso sim — preocupou-se Yamato.
— Como faremos isso...? Não temos como fazer isso até os militares chegarem — disse o Bispo. — E não temos como caçar aquela coisa.
Todos olharam para David. David caminhou até a cozinha e olhou para o alto, exatamente para o ponto de saída do duto de ventilação. David sabia exatamente o que precisava fazer.
— Ele levou os corpos. Ou seguimos os rastros de sangue rapidamente — e virou-se para o Bispo, destilando ironia: — Ou seguimos os gritos dos que ainda estão vivos.

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