segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pra virar filme... ou não! - Prometheus² - Capítulo 19 - Sacrifício



Capítulo 19 - Sacrifício

Naquele ambiente fisicamente deteriorado, os homens começavam a se deteriorar — não só fisicamente como mentalmente também. A sufocante sala central era o maior símbolo de loucura naquele momento dentro daquela colônia.
 A ideia de esfriar os ânimos e discutir sobre a doença que havia possuído George, e a probabilidade alta de que se espalhasse, desgastava cada vez mais o senso de respeito mútuo daquelas pessoas.
David, com sua expressão gélida habitual, raciocinou rapidamente. Percebeu que precisava estudar e reconhecer o local onde estavam.
— Precisamos de um mapa.
— Um mapa?! — indagaram.
— É, um mapa da colônia — persistiu ele.
— Procurem um mapa, rápido! — disse Shaw: — Precisamos nos familiarizar com o que temos, com o local todo... Tenho que conhecer esse lugar por um mapa ou posso me perder.
— Por quê?
— Por que assim teremos mais segurança para saber por onde andar e para onde seguir sozinhos ou conduzindo pessoas contaminadas, James.
— Eu... Tenho um... — disse o Bispo, fuçando os armários num gesto de colaboração finalmente.
O velho pegou um enorme e empoeirado plástico, que tinha uma enorme planta do local. Shaw tomou de suas mãos e o estendeu sobre a mesa, arremessando o que estava sobre ela no chão sem nenhum cuidado. Não tinha tempo para recolher aquelas coisas sem quebrá-las, aquelas tralhas do Bispo. Debruçaram-se sobre mapa, enquanto o Bispo começou uma oração em um tom de murmúrio.
— Onde estamos? Digam-me, onde estamos? Preciso me situar...!
— Ao centro — fixou Yamato, apontando: — Aqui!
— E onde está o templo?
— A leste — respondeu James: — Está aqui. Estes são os dutos de ventilação que ligam todo o complexo...
— A enfermaria?
— Aqui, ao norte...!
Shaw ponderou. Seus lábios, tão generosos, torceram: entre o caminho do templo e o da enfermaria, a nordeste, havia uma projeção, na qual se encontrava o lixão, que tinha abertura para fora da colônia. Os banheiros maiores estavam próximos da enfermaria, mas havia banheiros na maior parte da colônia. Do lado oposto do complexo, a outra saída, a baía de carga e descarga, ao oeste. Ao noroeste, o refeitório com as cozinhas. Ao sul, o cemitério. Ao sudoeste, a estufa.
Observando o mapa com agilidade, David memorizava pontos, imediações, situando-se dentro da colônia. Nada ficava de fora daquele olhar gigante deitado sobre o mapa.
— Em caso de uma epidemia, temos que ir para o setor de cargas. Temos trajes por lá? Trajes suficientes para nós?
— Sim, mas... Por onde vamos? — perguntou James, cruzando os braços.
— Pelo refeitório e cozinha. Se não conseguirmos, podemos ir por outro lugar?
— A estufa. Está abandonada, mas podemos passar por lá. E de lá saímos daqui.
— Certo. Refeitório, cozinha, área de carga — Shaw deslizou as mãos sobre o mapa, com os dedos indicando os pontos referidos: — Nosso plano é simples, mas precisamos de um plano B por aqui: Cozinha, refeitório, estufa, área de cargas. Uma vez que sairmos, teremos apenas as horas do traje para esperar um resgate. Poderemos voltar para a área de cargas e reabastecer usando os outros trajes. Eles podem se comunicar com naves em órbitas?
— Não, estes sistemas não funcionam mais.
O Bispo interrompeu suas orações.
— O demônio está aqui dentro — dizia, em direção à Shaw, fazendo com que ela perdesse a linha de raciocínio.
Arthur era uma figura que transpirava, além de suor em demasia, neurose. Forçava as mãos uma na outra, tremia: — Ele atacou as pessoas da colônia. Ele está matando os que aqui estão.
— Eu desafio que me prove onde está esse demônio, senhor — desafiava ela.
— Mulher, estes homens tinham uma vida tranquila, de paz, de harmonia, de busca pelo seu eu interior. EU tinha uma vida tranquila! — Arthur deu ênfase a cada palavra, com um gesto egoísta que apontava para si: — E o que aconteceu desde o momento em que você pisou os pés na colônia?
— Acalme-se, homem! — pediu James. Num gesto típico de nervoso, passou uma das mãos sobre a cabeça brilhante. — Com certeza isso não tem nada a ver com demônio! Eu sou o médico daqui, sei o que estou dizendo. Estamos no centro de uma emergência médica.
— Eu não me importo que o senhor pense que eu trouxe ou não o demônio para cá, mas seja qual for a sua visão... Eu estou aqui para ajudar a entender e arranjar a droga de uma solução para isso!
Arthur deu um passo atrás. Shaw prosseguiu.
— De quantas maneiras eu vou ter que repetir isso para que o senhor entenda? Se não vai nos ajudar, por favor, não nos atrapalhe com todas as suas baboseiras religiosas!
— Droga, mulher, estamos mesmo falando de contaminação por uma doença? — reclamou ele. Como sempre, mergulhado em suor. Não ajudava nada o fato de Arthur estar à beira de um colapso nervoso. — Como você explica aquela coisa em que George se transformou...? Diga-me, então, o que era aquilo, se não a própria besta?! Era um monstro... Uma aberração! Explique, mulher, o que era aquilo então? Nós vimos!      
— Eu não vou explicar nada. Sua ignorância me cansa.
Shaw estava muito resolvida e não voltaria atrás: — E, por favor, isso não tem nada a ver com “demônios”. É uma criatura alienígena. Eu não tenho muitos conhecimentos sobre ela, mas um homem teve seu corpo totalmente deformado por causa dessa coisa e acabou de morrer.
— Se não é esta a materialização do demônio, eu nem sei mais o que pensar...! — protestou, censurando-a. — Há seres, criaturas sobrenaturais, que estão além da compreensão humana. Estas criaturas são capazes de atravessar o mundo em que vivem, o plano em que estão, para o nosso. E, para isso, elas se apoderam de corpos mais frágeis, como o de George... Causam-lhes dores e sofrimentos... Doenças... Misérias e moléstias incuráveis... E o que vocês cientistas sempre tentaram fazer? Enganar-nos, nos causar dúvidas, nos questionar!
Os outros nada falavam, mas demonstravam, em suas expressões de insatisfação, o quão desconfortante era estar ali. Ou o cérebro de Arthur não funcionava direito, ou todos estavam em estado de loucura.
— Está vendo, James? Estão vendo? Vocês ouviram isso...? A tentação. A ignorância. Ela nos julga burros e ignorantes, porque somos homens voltados para Deus e a religião não é aceita pela ciência vaga dela.
— Podemos discutir isso outra hora.
O bispo ignorou o apelo de Yamato.
— A ciência só serve para nos dar uma ideia de quão extensa é a nossa ignorância . Cientistas não possuem Deus no coração, eu sei como eles são... Cientistas são ateus! E assim, com o ateísmo dessa mulher, começa a possessão demoníaca, atraem-se coisas ruins, porque seus corpos estão preenchidos apenas com vácuo. A ausência de fé é o que faz com que os corpos sejam possuídos pelo demônio. E assim, meu caro, se inicia a nossa ruína.
— Eu tinha Deus no coração... Até o momento que ele me fez parar aqui, neste lugar.
Shaw bufou de impaciência. Estava enraivecida, mas arriscava ainda não demonstrar.
— A ciência não é uma ilusão, mas seria uma ilusão acreditar que poderemos encontrar noutro lugar o que ela não pode nos dar.
James perdeu a paciência.
O Bispo iterava, encenando expressões de pavor, o que tinha presenciado e o que tinha acontecido na enfermaria em detalhes que beiravam o sadismo. Explicava tudo o que viu, porém sem a clareza necessária: para ele, eram ações de um demônio. Agitado, com os nervos a flor da pele, borrando-se de medo, o velho era o próprio esboço do horror. Não sabia relatar com concisão sequer o que tinha visto George se transformar: sua mente imaginava um ser bizarro que, para ele, era meio homem, meio monstro. Parecia que tinha braços alongados, como ossos em forma de foices. E suas análises sobre o que advinha dentro daquela colônia se baseavam apenas nisso.
— George se transformou em um demônio, de chifres... — inteirou —, com ossos por todos os lugares do corpo... Esta mulher trouxe o demônio para cá... Ela trouxe satanás...
— Já chega de acusações vazias, Bispo! — gritou Yamato. — Não vamos resolver nada dessa forma!
— Eu estou tentando avisar a todos, mas ninguém me dá ouvidos! Vocês se arrependerão! Deus irá nos castigar!
— O senhor fala como se estivesse no mesmo estado deplorável que George! — reclamou James.
— Mas foi o que eu vi dentro daquela enfermaria! Ele segurou em minhas mãos e eu pude sentir, vocês não compreendem?
— O senhor não viu demônio coisa nenhuma — desmentia Shaw, estressada. — Sua religião está te deixando cego!
— Agora eu sou mentiroso? — o Bispo, afoito com aquelas afirmações, ia partir para a briga física com Shaw. — Como ousa me acusar disso, sua filha de satanás? Como ousa debochar da minha crença e da minha fé? O que lhe dá o direito de fazer isso comigo?
Shaw alteou os braços, revoltada.
James entrou no meio dos dois, impedindo-os que a confusão explodisse em uma agressão.
— Parem vocês dois!
Shaw parou, pedindo espaço. Os ânimos se exaltavam.
— Bispo, o senhor fala como se ela fosse uma enviada de satanás para nos atormentar, mas não consegue ao menos cogitar a possibilidade de que ela foi mandada por Deus.
— Para quê, Yamato? Por que Deus nos mandaria uma mulher?
— Para testar a nossa fé, é claro! Para testar nossas crenças, para avaliar nosso respeito, nossa capacidade, para nos testar se somos dignos de entrarmos no paraíso. E eu poderia ficar aqui falando sem parar até que não tivesse mais uma gora de sangue dentro de meu corpo, o senhor me entende? Isso nunca passou por sua cabeça desde que Shaw pisou aqui?
— Eu sei de tudo aqui dentro, eu sou o senhor da razão e estou aqui por que Deus me escolheu. A minha palavra é a ordem — destrinchou, com sua arrogância típica: — Deus não manda mulher para colônias religiosas, Deus me mandou um sinal quando eu estava naquela exploração de gás e todos foram queimados menos eu. Isto é um sinal do poder de Deus. Isto é a interferência de Deus na vida de uma pessoa.
Yamato não poderia acreditar que pudesse existir tamanha ignorância na humanidade.
— Achei que depois de tanto tempo você tinha aprendido a distinguir as ações de Deus e as enganações do demônio — continuou Arthur. — Todas essas questões, todas estas interrogações são artes do demônio para nos confundir cada vez mais. Tudo o que precisamos fazer é resistir. Esta mulher tem que sair daqui o mais rápido possível, isso é um fato que não dá para ser negado!
— Que bom seria se isso acontecesse agora! Seria ótimo não ter mais que olhar para a sua cara! Ótimo! — berrou ela, em desabafo, para aquele velho insuportável.
Yamato era mais equilibrado nas conclusões.
— Concentrem-se no que estamos procurando. No que estamos pensando.
O Bispo chiou.
— George tinha passado por situações limites durante boa parte de sua vida. Levava uma vida miserável em uma mina subterrânea, extraindo minérios usando pesado maquinário e os transportando em vagões — contou o Bispo.  — Trabalhava mais do que o previsto por lei, não tinha direitos respeitados, era humilhado. Não tinha estudos. A bebida começou a atrapalhar ainda mais sua vida quando George, bêbado, invadia os postos de trabalho causando riscos não apenas a si como aos colegas. Não era sabido de seus familiares; se tinha, se estavam vivos, ninguém sabe. Não era uma pessoa que pudesse ser considerada normal, mas não era um louco a ponto de manter relações sexuais com um cadáver, por exemplo — salientou.
— E acha que o que aconteceu com ele pode ser um castigo...?
Com a pergunta de David, o Bispo se calou.
Shaw teve consciência, naquele momento, que a ameaça que enfrentavam era apenas um veículo de confissão da fragilidade humana diante de um perigo — cujo tamanho e potencial de destruição eram desconhecidos. Toda a fé dos homens, já abalada pela chegada daquela bela mulher ao local, entrava em conflito com uma ameaça que não se sabia o que era, qual o tamanho tinha, do que se tratava, o que queria. Se fosse possível, naquele momento, medir a escala de tensão dentro daquela sala, certamente ela explodiria. Todos eram fieis reproduções da irritabilidade, da aflição, do desespero. O bispo, aliás, só provava seu total despreparo para agir em uma situação emergencial como aquela, com sua papada enrugada e toda aquela gordura, caminhando de um lado para outro como se estivesse tonto.
Yamato pediu calma, rodando pela mesa como se procurasse um chão. Suas mãos ora se cruzavam na altura do abdômen, ora estavam ansiosas, sem pararem. Precisavam discutir sem agressões verbais ou físicas.
— Do que precisamos para deter essa coisa? — indagou.
Todos olharam para David. David enrugava a testa e sorriu, um sorriso de sarcasmo.
— Vocês não têm armas aqui? Não tem nada que possa ser usado como arma?
— Estamos em uma colônia de religiosos, não uma penitenciária ou um covil de assassinos. O que esperava? — interrogou o Bispo, abarrotado de estupidez.
— Lanternas, pelo menos?
— Só no setor de cargas. Não usamos lanternas. Lanternas consomem baterias e geram lixo. Usamos velas e tochas, que se desgastam e podem ser consumidas pela terra por serem feitas de materiais orgânicos.
— Droga... Estamos lutando contra uma coisa maior que nós e não temos armas para isso? — e Shaw sentenciou: — Vocês estão cheios de tecnologias ultrapassadas, sem noção alguma de tempo...
Arthur ergueu os braços. E implicou:
— Nossa noção de tempo é instintiva. Somos conscientes do passado, do presente e do futuro e isso é o suficiente.
— Não há relógios, não há cronômetros, não há nada que possamos usar para contar um tempo de ação e desenvolvimento dessa coisa nessa merda de lugar. Não temos como executar um plano de ação sem noção exata de tempo — explicou David, sério.
— Nós vamos todos morrer se ficarmos aqui.
Shaw não era uma militar treinada, mas a experiência com a Prometheus em LV 223 tinha lhe dado conhecimento de diversos fatores necessários à sobrevivência humana em um local hostil. O primeiro fator tinha ido pelos ares: não permitir que os integrantes do grupo mais próximo dela entrassem em pânico. O Bispo era a reprodução exata do medo. Suas mãos e suas pernas se abanavam como o rabo de um cão.
Avaliou rapidamente a sala central. Shaw precisava aferir, inicialmente, a situação. O que a circunstância impetrava naquele momento era precaução. Menos irritação, menos emocional, mais racional. Fator que ela dominava bem, mas que estava lhe escapando.
Refletiu. E mediu o ambiente, calculando seu tamanho mentalmente.
— Em primeiro lugar, não estamos seguros aqui... — concluiu. — Isso vai se espalhar e eu não tenho como precisar o grau e a rapidez de contaminação. E vamos ficar encurralados aqui dentro sem termos por onde sair!
— Esta sala é segura, podemos trancar as portas.
— Estamos no centro da colônia. Temos todas as chances de ficarmos encurralados se mais homens ficarem doentes e vierem para cá. Quanto tempo até os militares chegarem?
— Dias. Talvez uma semana.
Shaw ficou boquiaberta. Yamato murchou.
— Isso nos leva a tomarmos medidas drásticas — recomendou ela.
As lâmpadas piscaram. A luminosidade diminuiu, deixando o ambiente com uma claridade falha. Encontrar-se numa área desolada, longe do planeta Terra, esperando um resgate que provavelmente demoraria a chegar, dividindo um espaço com algo desconhecido disposto a matar não era uma experiência para a qual qualquer pessoa estaria plenamente preparada.
Shaw tinha conhecimento e clareza suficiente para perceber que o tempo que tinham para tomar uma decisão e agir era mais curto do que as ações do inimigo incógnito. Mas possuía uma vantagem: não estava sozinha. Isso poderia fazer toda a diferença.
— Rápido — exigiu ela.
Shaw olhou para o Bispo, de baixo para cima. Aquele corpo enorme de Arthur estava ali, diante dela, molhado de tanta transpiração. O Bispo, de tão gordo, não era capaz de entrar em um traje espacial, muito menos de se mover com todo o peso da roupa sem o auxílio da ausência da gravidade.
— Nós temos duas alternativas: desligamos a central de oxigênio de toda a colônia e usamos os trajes até religarmos. Depois, quando a nave aportar, não há outra saída... é chegarmos ao setor de cargas e ir embora daqui ou... chegarmos ao setor de cargas e irmos embora daqui. Qual será a nossa escolha?
— Por que desligar, Shaw?
— Sem isso, sem gravidade nem oxigênio, o vácuo criado aqui dentro matará todos que estejam contaminados ou ao menos, deixará todas em estado vegetativo... Se George ainda é um ser vivo, então precisa de oxigênio para sobreviver. Sem oxigênio, o corpo hospedeiro morrerá, forçando-as a incubação.
— O que você está dizendo...? Meu Deus, todos aqui vão morrer se fizermos isso! — deduziu o Bispo, atônito com a proposta dela. — Há pessoas vivas, seres humanos aqui dentro!
— Pense positivo, senhor Arthur. Sem gravidade, o senhor se sentirá leve como nunca esteve — disse David.
James esboçou um sorriso num canto da boca com a piada.
— Eu digo que não farei isso. E ordeno que os meus homens não façam, não colaborem com essa loucura.
Shaw sabia, perfeitamente, depois de trabalhar tanto tempo em grupo em sua vida, que as dificuldades de sobrevivência a uma situação grave como aquela só aumentariam proporcionalmente as discordâncias.  Precisava contornar a situação, mas sua paciência estourava.
— Infelizmente, Bispo... Eu não dou a mínima nem para você nem para ninguém aqui dentro. Por que eu deveria me importar com um grupo de homens religiosos em um planeta como este? Por que deveria me preocupar com um bando de religiosos tarados, que não são capazes de conviver pacificamente com uma mulher, sem pensar em estuprá-la? Qual a função da religião neste lugar: não era livrar estes homens do mal?
— Antes de sermos religiosos, somos homens.
— E antes de eu ser mulher, sou um ser humano.
— Espere um pouco... Eu discordo da posição do Bispo, mas... Preste bem atenção no que você está dizendo, Shaw, não somos assassinos! Não podemos simplesmente sair e deixar essas pessoas a própria sorte. O que eles estão fazendo agora... Orando por uma salvação que não virá?
Shaw se virou para ele e cruzou os braços.
— Ou pensando em meios de me atacarem e me queimarem. Eu não sei. Tudo o que eu sei é que não existe alternativa, James. Não estamos enfrentando apenas um inimigo, mas uma infestação deles, uma contaminação. Podemos ter apenas George. Podemos ter todos os colonos, incluindo você. Você é médico e sabe o que deve ser feito em um momento como esse!
James pensou.
— Para começo de conversa, temos que isolar o restante dos colonos...
—... E colocá-los aonde? — observou ela.
— Está bem, Shaw, eu estou tentando ajudar, eu não estou sendo egoísta a ponto de só pensar em mim! Eu não me tornei médico para isso. Temos que chegar a um consenso! — interferiu James, discrepando da atitude dela.
— E eu também! Não cometam o mesmo erro que eles cometeram naquela nave! Você sabe o que se deve fazer quando não podemos isolar um grupo, você sabe!
— Evacuação...
— Exatamente...! Então porque insiste nessa tecla de salvar as pessoas, James?
— Estou certo que não temos como evacuar todas estas pessoas. Mas... Podemos ficar e lutar enquanto esperamos por socorro!
— Sem armas? Vamos lutar com o quê? Garfos e facas? — perguntou ela, virando seu corpo para a figura gorda e asquerosa do Bispo agora. — Estamos completamente despreparados para enfrentar isso. Imagine se todos começarem a passar pelo que George passou, de uma só vez... E apresentarem aqueles sintomas de violência e confusão mental. O que será de nós? David...
— Ou tentamos nos salvar ou todos nós morreremos.
Ela voltou, inclinou a cabeça, como se quisesse prestar mais atenção no que James ia dizer: — O que você acha que essa coisa fará conosco? Vai pra o templo orar com vocês?
— Você conhece, você sabe do que se trata e do que é capaz! — insistiu James. — Deve haver uma maneira. Vamos tentar o isolamento por enquanto...!
Enquanto falava, a luz diminuía, branca, ficando amarela, depois alaranjada, finalmente, avermelhada. Piscaram.
— O sacrifício de todos para nos salvar — interpretou Yamato. O oriental deu um suspiro, decepcionado com o que teria que fazer para se salvar: abandonar o restante dos moradores à própria sorte. — Deus, a que ponto nós chegamos... Nós não podemos decidir pelos outros. Há pessoas que merecem e precisam ter esta opção. Não podemos decidir por eles, Shaw.
— Eu sinto em dizer que seu Deus está preocupado com os assuntos terrenos, Yamato. Estamos no meio do nada e só temos a nós mesmos. É pegar ou largar.
— Se ponha no lugar delas.
— Sim, eu estou me colocando no lugar delas — ela reconheceu, irritando-se e gesticulando desesperadamente —, mas estou me colocando no meu também. Ou ficaremos aqui aguardando o próximo caso da doença e todos nós morreremos.
— Não, Shaw. Não podemos deixar essas pessoas aqui, abandonadas, e simplesmente sair, sem ao menos tentar, sem ao menos esperar até que o resgate venha e que tudo seja feito como deve ser. E eu preciso de você para isso. Mais do que nunca, eu preciso de você.
  Shaw parou. Rodou, de um lado para o outro, com as mãos na cabeça. Passou os cabelos por detrás das orelhas. Queria ir embora dali, mas algo dentro dela, que ela não conhecia nem saberia dizer o que era, falava mais alto. Os homens mostravam sua verdadeira cara. Shaw não queria ficar e defendê-los, já que eles foram hostis com ela desde o momento em que caiu ali — poucas as exceções estavam ali naquela sala.  Ela queria sair da colônia e deixá-los lá abandonados à própria sorte.
James insistiu que precisavam separar os homens que tiveram contato com George para uma análise clínica. Shaw insistia que não dava certo e traçava um plano de fuga:
— A falta de oxigênio provocaria perda de consciência depois de um ou dois minutos, seguida finalmente pela morte por asfixia. Cortamos o oxigênio. Somos os únicos que não tivemos contato com o líquido negro.
Ninguém respondeu. A despeito de sua ignorância religiosa, Shaw chamava uma responsabilidade para si, a qual nenhum dos homens demonstrava ter poder para assumir: a carga de procurar um meio de sobreviver. Entendia que, forçadamente ou voluntariamente, alguém teria que assumir este posto. Mas não se dispunha a convencer ninguém ou se expor por ninguém. Shaw atacava com o que tinha em mãos. Alguns homens, um mapa e vontade de sair dali.
— Sem os trajes espaciais, elas não conseguirão sair daqui, então podemos aguardar até esperar um próximo contágio ou tomamos uma atitude antes disso. Eu fico com a segunda opção.
— Eles me acolheram e me deram um lar e uma religião para adorar — salientava Yamato, com os olhos cheios de lágrimas. — Não há veículos emergenciais, não há roupas espaciais suficientes para todo mundo. E agora quer que os condenemos a morte.
— Por que não tem veículos emergenciais aqui, Bispo?
— Bem... O que queria que tivesse: jipes para os presos passearem no deserto? Não há nada que possa fazer sairmos daqui, além daqueles velhos trajes e um guindaste. O que você sabe sobre Iosis, David...?
— Iosis. Solitário planeta ao redor de uma estrela, o nome Iosis deriva de um dos quatro estágios de processo alquímico e significa enrubescimento. Foi nomeado desta forma devido a sua coloração vista do espaço — entre marrom e vermelho, — e na sua superfície — com aspecto dourado no final da tarde. Com uma inclinação orbital de 7 graus, o planeta é coberto de rocha e deserto, sem vegetação, fauna ou áreas cobertas por água. Sua coloração é avermelhada, barrenta, suas nuvens são feitas de areia amarelo-ouro, o que dá uma bela aparência alaranjada e arenosa para o planeta ao ser visto do espaço. Iosis é uma terra estéril, um verdadeiro grand canyon planetário. Um mundo semelhante ao solo da lua terrena: montes ondulados de poeira erodidos pela constante ação da natureza. Existem escarpas com vários quilômetros de altura e centenas de quilômetros de extensão. Está cheio de crateras, e contém bacias que variam em tamanho, desde os 100 metros até 1.300 quilômetros — cheio de grandes penhascos que se formaram quando o planeta se arrefeceu e sofreu uma compressão de alguns quilômetros.
O Bispo se manteve impassível. Shaw não conseguia piscar os olhos, encarando a figura pálida de cabelos dourados de David, com aquela bandagem no pescoço, quase que o impedindo de falar corretamente com sua voz mecanizada.
— A maior parte da superfície está coberta de planícies. Estas planícies foram formadas quando as correntes de lava cobriram os terrenos mais antigos. As planícies suaves são recentes, com poucas crateras. Além de colisões de meteoritos, a superfície permanecia assim fazia milhões de anos. E agora, o mais importante.
Todos se viraram para ele.
— Iosis possuía uma prisão espacial destinada a prisioneiros de todos os cantos do universo, mas foi desativada em nome de cortes de custos de governos e de empresas que forneciam manutenção, incluindo a Weyland Corporation. Os prisioneiros foram transferidos para outro planeta, Fiorina Fury, e no lugar da prisão foi fundada uma espécie de retiro espiritual de caráter universal, controlado por integrantes de uma seita religiosa que visam se desprender dos bens materiais e elevarem seus espíritos com orações e conceitos — para assim, alcançarem a paz e interior e chegar mais perto de Deus. A entrada de mulheres, crianças e animais não é permitida.
O Bispo demonstrou incômodo. David revelara mais do que Arthur pensava que ele soubesse.
— Como sabe disso, David? — questionou Shaw.
— Por que no início da construção prisional, foi cogitada a possibilidade de terra-formação do planeta pela Weyland Corporation. A terraformação é um processo de transformação da atmosfera para que esta tenha condições de abrigar vida animal e vegetal, como no planeta Terra, através de complexas e caras estações de processamento de gás.
— Metamorfose. Que irônico — resmungou Shaw.
— O processo demonstrou sucesso em outros planetas, mas foi abandonado e o consórcio de empresas desfeito. Estudos preliminares geológicos mostraram que Iosis não era potencialmente econômico para exploração.
Shaw se virou para James.
— Weyland desistiu de Iosis.
Eles a encararam como se quisessem esquartejá-la. Suas expressões denotavam grande reprovação. Shaw não desviou o olhar de ninguém:
— Shaw, por favor... Weyland desistiu... Mas você não pode desistir.
— Eu vou tentar por sua causa, James. Mas se não der certo, se algum destes homens passar pelo que George passou antes de morrer, estou determinada a escapar, com vida, daqui. Se alguém quiser, que fique na minha frente e tente me impedir.
O velho não se mexeu. Recuou, cabisbaixo, a um canto da sala e começou a orar novamente.
— É possível abrir as comportas de saída daqui da sala central?
James não soube responder.
— Senhor!
O Bispo parou mais uma vez sua oração. Suspirou.
— Sim, mas só as do lixão. Temos todo o controle operacional daquela área apenas porque o processo é todo automatizado. As de carga precisam ser abertas manualmente porque estão com defeito — explicou o velho.
— Isso é ótimo. Yamato, abra as comportas do lixão e acione as prensas. Feche os dutos de conexão para lá.
— Mas isso matará quem para lá for sem o traje espacial. A pressão e a atmosfera do planeta acabarão com o setor! — contestou o asiático, sem entender.
— Eu sei. Só estou traçando a minha rota de fuga. Porque essa ideia de separar pessoas que não sabemos se estão doentes das outras, que não sabemos se estão saudáveis, não vai dar certo.
Shaw deu as costas, no seu assombro de pessimismo. Ela amarrou os cabelos, e a imagem que tiveram não era mais a de uma mulher fragilizada, uma vez atacada por molestadores da colônia durante uma cerimonia religiosa. Não havia vaidade. Shaw, desarrumada, vestida num traje masculinizado, era o espectro de uma mulher que se rebaixava a condição degradante daqueles homens, alienados, de passados nebulosos e trágicos.
Do lado de fora, os colonos inquietavam-se, todos enlouquecidos, querendo respostas e exigindo a presença do Bispo para explicações.   
— Vá lá fora e acalme as pessoas. Ordene que elas voltem para os seus alojamentos — pediu James. — Vá com ele, Yamato. Rápido!
— Eu não vou sair. Não até ter uma explicação razoável sobre isso.
— Está bem, eu vou tentar, James! — ele bufou, furioso. — Mas não sei se dará certo!
— Tem que dar, o senhor é autoridade aqui dentro e eles têm que lhe respeitar!
O Bispo saiu. 

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