terça-feira, 7 de maio de 2013

A árvore da vida - 2011


Título Original: The Tree of Life
Ano de lançamento: 2011
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Jessica Chastain, Brad Pitt
Sinopse: "A Árvore da Vida" aproxima o foco na relação entre pai e filho de uma família comum, e expande a ótica desta rica relação, ao longo dos séculos, desde o Big Bang até o fim dos tempos, em uma fabulosa viagem pela história da vida e seus mistérios, que culmina na busca pelo amor altruísta e o perdão.


Por Jason

Em primeiro lugar, não dá para negar que A árvore da vida é um filme difícil. Não passa bem, não flui como deveria. Não o achei a oitava maravilha do mundo, como muitos chegaram a pregar. Mas também não é de todo ruim, como aqueles que não arriscam uma interpretação costumam julgar. 

Tecnicamente, Malick faz um filme impecável. Fotografia, trilha sonora, direção de arte, não há do que se questionar em nenhum quesito, até mesmo nos efeitos especiais, usados de maneira pontual, sem excessos. O elenco é bom e não compromete, Brad Pitt surpreende, sem caricatura, e Jessica Chastain consegue um desempenho intimista e adequado ao papel. Nem todas as crianças tem falas ou muitos diálogos, mas o filho mais velho é uma ótima surpresa. O que pesa contra o filme é o ritmo e o fato de seu roteiro embaralhar as linhas narrativas também não ajuda na sua compreensão - ou na sua indagação, uma vez que o filme levanta mais questionamentos do que entrega respostas. É um filme para refletir. E filmes para refletir dificilmente encontram um meio termo com o público: ou se ama, ou se odeia.

Qualquer pessoa que assista o filme terá sua própria interpretação - para aqueles que conseguirem ver e chegar até o fim, é claro. Em minha interpretação simplista, o filme corre três linhas narrativas e que se conectam de uma forma ou de outra. Há a questão, contudo, central: o mote paternal. De um lado, o pai de família representado por Brad Pitt, agressivo e incompreensivo. Do outro, Deus, que é procurado pela mãe Jessica Chastain - o Deus bondoso e incompreendido, porque leva o filho dela - e que seria o criador da Terra e da vida.

Em uma linha narrativa, temos o nascer da vida na Terra e a sua extinção, para depois renascimento. O nascimento da vida na Terra é tão complexo quanto gerar uma vida no ventre da mãe (e Malick cruza as imagens de maneira eficiente, reparem, porque a aventura celular do nascimento da vida mais parece um útero), mas o desenvolvimento vem sem o "caminho da graça" sugerido pela narração OFF, no qual os animais nascem, crescem, se reproduzem e morrem. A dor e a piedade, o sentimento de misericórdia, no entanto, são as mesmas: o dinossauro marinho agoniza depois de ser atacado, mas o carnívoro abandona o herbívoro para não matá-lo como num ato divino de piedade. É o caminho da natureza, é ela quem dita as ordens, o outro caminho sugerido pelo roteiro. Deus criou a Terra e ela se virou, criou os fortes e os fracos, e ali eles se adaptaram. 

Mas vem a humanidade, na segunda linha de narração, representada naquela família. O amor da família é destruído pela morte de um dos filhos, mas as relações deixaram de ser simples como a natureza do passado e embaraçaram em complexidade muito antes desse acontecimento. A culpa disso pode ser a busca do divino ou da religiosidade (mimetizado na cena em que a mãe conversa com a sogra e ela diz que Deus dá e é aquele que pode tirar) ou não (pode ser da própria natureza, ditando suas regras). O amor está presente (na figura materna, nos laços dos irmãos), mas o ódio também (na figura do filho que não se entende com o pai). A violência e incompreensão (no pai) e todos os sentimentos que constroem um ser humano, como bondade e maldade (o menino começa a transitar nesse terreno perigoso). O teor religioso da trama é evidente a todo momento.

Ou seja, construir a vida deixa de ser apenas um complexo de células para ser algo ainda mais trabalhado - a geração da vida, como nos lembra o filme, na forma das células no útero, é a mesma -, mas a forma como isso se desenrola vai refletir no futuro, na terceira linha narrativa, da qual faz parte Sean Penn. Ao final, como após a extinção dos dinossauros, o ciclo da vida continua representado na mesma chama que abriu o filme depois do planeta ser engolido pelo sol no final dos tempos. As inquietações são muitas, contudo: qual o sentido da vida? O que há depois dela? Tudo é apenas uma passagem? Qual a função de Deus, apenas a de confortar a dor e a de criar um mundo, para que o acaso haja por si só moldando os seres que nela vivem? Esses mistérios nunca serão respondidos - talvez quando o ser humano evoluir espiritualmente,  em uma esfera ou para uma direção ainda desconhecida.

É impossível para os mais atentos não conectar a A árvore da vida com Kubrick e seu "2001 Uma odisseia no espaço". Se Malick mostra a violência e ódio ou o amor e a fraternidade entranhada na vida da Terra com dinossauros, Kubrick nos mostrou os macacos fazendo o mesmo. Se Kubrick usava cenas de inseminação do universal com sua nave espacial em forma de pênis ejaculando uma capsula com um homem em seu interior, rumo ao infinito e a imortalidade, com o passado, presente e futuro se encontrando em uma suíte de um hotel de luxo, Malick nos mostra um final que nos remete a obra Kubrickiana, com a travessia de uma porta. Depois dela, assim como a porta que se abriu aos olhos do astronauta Bowman em 2001, o personagem de Penn encontra seu passado, seu presente, num futuro que parece apontar para a evolução humana em direção a um plano espiritual. O "além", além da vida pequena e diminuta do ser humano na Terra e uma reconciliação com tudo, onde não existe dor ou sofrimento, e onde todos os sentimentos humanos foram substituídos apenas pela paz eterna.

É claro que tudo isso é apenas uma interpretação. O filme está cheio de metáforas visuais (a ponte, que é um símbolo de ligação ao final do filme, a porta que se abre para o "além", os girassóis  a própria árvore, a chama que se acende no começo e no final do filme, etc), e simbologias (a própria citação de Jó, que trata da natureza da relação entre o homem e Deus, ou seja, entre o filho e o Pai, como no filme, etc) que parecem não ter sentido algum, cabe a cada um espectador decifrar. Nada disso pode ser verdade. O que é verdade é que se trata de um filme para poucos apreciadores, incompreendido, louvável por ser diferente, de teor filosófico e religioso, mas com desenvolvimento difícil e tedioso.

Cotação: 3/5

2 comentários:

  1. Tenho uma relação muito especial com o conceito "Árvore da Vida". E por isso mesmo, quando vi esse filme na prateleira, com este título, o aluguei cheio de curiosidade, mesmo sob avisos insistentes de que o filme era intragável.
    Tá, ele é bem lento mesmo. Tem que ter paciência de Jó e pouquíssimo sono para conseguir chegar ao final... Ouvi falar tambem (mas não sei se é verídico) que o Malick fez um directors cut de mais de 6 horas. Senti arrepios.
    Mas vá lá...Em contrapartida, o visual é muito bonito. E eu gostei por ser uma experiência diferente, algo que a gente não está acostumado no cinema. Cinema este que, geralmente segue a linha da "jornada do herói", decifrada pelo genial Joseph Campbell. Em Arvore da Vida eu não consegui detectar essa estrutura. Não tem clímax, nem nada. É simplesmente a historia do universo rolando. Desde a Luz Primordial acendendo, universo, vida, dinossauros, família americana década de 50, transição para outro plano, fim do universo, Luz Primordial esvanecendo... fim. Putz, quando ele terminou, fiquei pensando... pensando... e não consegui chegar a lugar algum!! Daí que eu vi que valeu a pena assistir essa doideira, pois não é todo dia que um filme me deixa catatônico enquanto rolam os créditos.
    Não caí de amores... mas gostei.

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  2. Cara, odeio esse tipo de filme. Pq sempre vai aparecer alguém pra dizer uma teoria diferente, uma razão pra considerar o dito cujo uma obra "diferenciada". Avisa que vai ser chato e lento pra kralho q dae naum olho mesmo né, pqp.

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