quarta-feira, 15 de maio de 2013

Ellen Ripley, um paradigma a ser quebrado




Por Jason

Um dos personagens criados para o cinema, que mais me impressionam até hoje, é a Tenente Ellen Ripley, da cinessérie Alien.
Ridley Scott e sua criação
Eleita a melhor personagem feminina que já existiu na ficção por muitas listas especializadas e uma das melhores personagens femininas que o cinema já criou, Ripley representa não apenas um modelo de personagem a ser seguido pelas produções hollywoodianas, mas um paradigma a ser quebrado pelo cinema - o que é um grande problema. Isso devido ao fato de que Ellen Ripley é, ainda hoje, a síntese da heroína perfeita, que o cinema tentou reproduzir de diversas formas, na pele de outras atrizes, mas que nunca conseguiu atingir tal patamar desde que ela surgiu em Alien, o oitavo passageiro, em 1979.
​
O que faz com que uma personagem seja tão fascinante quanto Ripley no imaginário popular e nos fãs de ficção e cinema? Como seria possível superá-la? São vários os motivos.

O primeiro de tudo, sem dúvidas, é a forma profunda com que a atriz Sigourney Weaver se transformou na personagem e em todas as camadas de sua personalidade. É impossível dissociar a imagem da atriz, com seu semblante rijo, rosto de forte expressão, pele branca, cabelos desgrenhados, quase dois metros de altura e olhar afiado - da sua personagem. Em todos os filmes, sendo eles bons ou não, gostando o espectador ou não, é louvável a forma como Weaver se dedica a Ripley, com todas as nuances, detalhes, gestuais e expressões.
A então novata Sigourney Weaver
no papel de Ellen Ripley (1979)
Weaver é uma das atrizes mais inteligentes de sua geração, uma mulher capaz de compreender que este tipo lhe renderia fama e dinheiro - mas que nem por isso esse personagem deveria ser tratado com indiferença ou descaso ou falta de profissionalismo. Weaver foi capaz de defender seu personagem de diversas ideias malucas de roteiristas, mantendo a sua integridade por quatro filmes (mesmo no último, o mais fraco, há integridade e dedicação em seu trabalho). Só pisou num set para uma continuação do filme de 1979 quando percebeu que a personagem estava alinhada com um perfil realista e não deturpada pelo roteiro. Ela entende Ripley, ela É Ripley e não surgiu ninguém em Hollywood, desde 1979, que fosse capaz de encarar o trabalho de ser Ripley com tal integridade. É a decisão mais acertada de Ridley Scott, o diretor de Alien - O oitavo passageiro, para uma personagem feminina em sua carreira, sem dúvidas. Um trabalho tão incrível que nunca conseguiu ser reproduzido novamente no cinema de ação e ficção com tamanho empenho.

O segundo, a consistência da personagem. Ripley é, desde o primeiro momento em que surge na tela, no filme de 1979, a personagem mais intrigante, estranha, complexa e ao mesmo tempo, agressiva. SIM! Ela não é a donzela que fica gritando esperando alguém (em geral, um herói marombado) socorrê-la. Não é uma mulher que posa de gostosa com uma arma na mão querendo ser sensual, como os filmes do gênero costumavam tratar personagens femininos. E, ao mesmo tempo, não é um Rambo de calcinhas, que pega uma arma e sai atirando pra tudo que é lado. Ripley é o elemento mais real dentro de uma fantasia sombria.

"Desta vez é guerra!", tagline de Aliens -

O resgate. Desta vez, Ellen Ripley não enfrenta
um, mas uma horda de criaturas
No filme de 1979, Ripley começa como uma pessoa chata, antipática. É aquela personagem que os espectadores que nunca viram o filme desejam que morra primeiro. É aquela pessoa que incomoda o restante da equipe por ter uma atitude burocrática: um de seus companheiros está em perigo do lado de fora da nave, mas ela quer seguir as regras de quarentena. Tem uma atitude questionadora. Ripley questiona um chamado de socorro - que ela suspeita ser um aviso. Questiona a atitude do capitão Dallas por aceitar as ações do oficial de ciências. Questiona as atitudes do oficial de ciências Ash que comprometem a segurança de todos. Questiona a postura dos oficiais operários que só pensam no dinheiro, questiona a postura e o trabalho de sua colega Lambert (e, numa cena deletada, questiona até mesmo sobre a vida sexual dela ao desconfiar da verdadeira natureza de Ash). É aquela pessoa que atua ao fundo do grupo, que sabe o que fazer, mas que ninguém a ouve. É uma pedra no sapato de todos os outros e que, aos poucos, se vê obrigada a chamar a responsabilidade para si porque a puseram dentro de um problema que os outros construíram - e que não sabem solucionar.

Ripley não é, em Alien - O oitavo passageiro, o personagem central (uma versão do roteiro original queria até mesmo matá-la ao final do filme). Mas é o elemento que "empata" a engrenagem dos outros. É a funcionária competente que trabalha arduamente, que tem regras, que segue as normas, que preza a segurança, e que os outros olham de maneira torta porque vivem a quebrá-las. Mas ela não é durona como as pessoas se acostumaram a vê-la. Ela é áspera, lógica e rude porque parece ter em sua vida apenas sofrimento. Ripley é, no filme, a reprodução do que a vida lhe deu. 

Cena de Alien³
É uma sofredora pela sua natureza e, por causa dela, é hostilizada - Lambert lhe dá um tapa na cara, Ash a ironiza, Dallas discute com ela, Brett e Parker debocham dela. Kane parece ignorá-la. Mas é humana, porque é capaz de ser compreensiva e de sentir medo. É sensível e maternal - ela se preocupa com o gato no momento em que todos estão caçando a criatura. E aqui se dá o melhor do filme: o paralelo entre Ripley e a criatura hostil. Alien é um duelo, de uma criatura hostil incompreendida contra um ser humano hostilizado incompreendido. Quando todos são mortos, Ripley se vê sozinha, naqueles corredores sombrios da nave, e ela precisa usar seu medo a seu favor, uma vez que esse se torna o maior problema dela, já que a criatura é desprovida de sentimentos. E sim, ela é sensual... numa corrida de gato e rato, a bela se despe para lutar contra a fera no embate final, num rápido jogo de tensão sexual. É para lembrar aos espectadores que por debaixo de tudo aquilo há uma mulher, agressiva, mas ainda assim, uma mulher, feminina, solitária.
 
Uma das cenas mais marcantes de toda a
série (Alien³). Ellen Ripley de novo,
encarando uma nova criatura
O terceiro fator é o crescimento da personagem. A ampliação dessa personalidade complexa viria com o segundo filme graças a habilidade de James Cameron em construir personagens femininas. Em Aliens - o resgate, a conhecida Ripley ainda está lá, rude, sofrida, agora traumatizada, mas há um fator em jogo: a sobrevivência de uma criança. Ripley mostra então sua faceta mais humana e superprotetora - ela está disposta a se sacrificar pela criança - e explora seu instinto maternal, o que lhe dá sensibilidade. Para chegar até a menina Newt, Ripley precisa se conectar a ela e precisa mudar de atitude. Continua desprovida de vaidade - se veste como um homem, cabelos desgrenhados, desajeitada, não usa maquiagem - porque precisa sobreviver nesse meio. Ela faz o que sabe fazer: é, de novo, aquele funcionário de empresa, que chama a responsabilidade para si quando ninguém sabe o que fazer (ela pega o tanque e invade a base para resgatar os soldados encurralados, organiza um plano de defesa). É, outra vez, hostilizada e ignorada, pela soldado Vasquez, que a ironiza, pelo burocrata Bourke que quer usá-la como uma hospedeira. Mas precisa ir além (sobe numa empilhadeira para lutar com o monstro). Os medos ainda estão lá - na cena do pesadelo, quando ela visita a base no planeta em que seu primeiro contato com a criatura aconteceu, quando se vê sozinha e abandonada com a monstruosa rainha Alien atrás dela e de Newt - mas ela precisa transformar isso em coragem. É isso que a diferencia de todos os heróis de ação e mulheres que apareceram na ficção.

A Ellen Ripley de Alien, a ressurreição:
Ripley ainda é um personagem forte e icônico.
Resistiu a décadas e a quatro roteiros diferentes,
mantendo sua essência e sua personalidade
No terceiro capítulo da série, mesmo sendo bastante criticado pela forma como é conduzido e pelo resultado final, é a personagem de Weaver que se mantém estável: a primeira Ripley ainda está lá, basta arranhar um pouco. Desprovida de vaidade, não sabe como agir no seu relacionamento com o doutor daquela colônia penal - e raspa a cabeça sem cerimônias para se equiparar aos outros. O alien é capaz de se adaptar a qualquer ambiente. Ripley precisa se equiparar a ele e se adaptar ao ambiente (o paralelo é inegável na trama). A criatura é uma sobrevivente, mas Ripley também. É instintiva, maternal, mas sabe que o que carrega deve ser exterminado e, lógica como é, pericia o cadáver de uma criança para se certificar que não há nenhum mal - e ao descobrir que carrega um bicho em seu ventre, se sacrifica ao final do filme. De novo, Ripley está no meio de homens e precisa superar a masculinidade. Precisa transformar os medos em coragem, o seu ceticismo na fé que ela perdeu. A diferença aqui é que o problema criado lá foi trazido por ela, ela é a responsável e carrega a sua culpa e seu fardo por isso. Em detrimento ao subtexto religioso, Ripley é, de novo, a personagem mais humana do texto. E de novo, o elemento estranho, como no primeiro filme, como no segundo.
Esse "elemento estranho" vai ficar evidente na quarta parte, Alien A ressurreição, também. Clonada, Ripley revive, carregando em sua genética o DNA da criatura. Há uma dualidade em sua personalidade. Mas ela continua rude, sofrida e infeliz, por vezes arrogante, como nos filmes anteriores. De novo, Ripley chama a responsabilidade para si, para resolver o problema criado em torno dela e que ninguém sabe como solucionar. Mesmo com o DNA alien, Ripley continua, ao fim de tudo, humana. Sente amor por uma criatura hibrida que foi originada do seu útero, mas sabe que precisa "abortá-lo" (e chora nesse momento tal qual uma mãe que perdeu o filho - de novo, o instinto maternal aflora). Um dos clones que não deram certo agonizam e imploram para morrerem - e é Ripley quem faz o que tem que ser feito. Ou seja, a personagem é tão forte que resistiu a duas três décadas de diversos roteiros e muitas abordagens - e é grande o suficiente para rivalizar com as criaturas hostis dos filmes. Chegamos assim ao quarto motivo.

Cena de Aliens - O resgate: mais maternal,
mas ainda assim, a mesma Ripley
​O quarto motivo é a força e a resistência da personagem. Pergunta básica: você se lembra de um personagem marcante de... Charlton Heston? Ben Hur...? E de Silvester Stallone? Rambo. Rocky...? Força é a palavra chave para durar. Força na forma de sobreviver a gerações. Muitas outras personagens femininas vieram depois de Ripley, mas nenhuma encontrou uma mistura tão duradoura de complexidade e talento nas telas do cinema. Vieram outras antes dela, e talvez a única personagem capaz de chegar aos pés de tanta força feminina foi uma criação de James Cameron, Sarah Connor, para Exterminador do Futuro 2. Sarah, contudo, veio depois de Ellen e carrega, no segundo filme, muito mais dela do que imaginamos (instinto maternal, coragem e inteligência, principalmente). Depois, a Sarah Connor do primeiro filme é completamente diferente do segundo e não possui a linearidade atingida por Ellen Ripley em quatro filmes.​

Antes de Ripley, outras personagens femininas marcantes surgiram na ficção e poderiam ser citadas (a princesa Léia, de Star Wars? Barbarella?) mas que sofreram nas mãos de roteiristas incapazes de compreendê-las e de dar os devidos destaques - são personagens inconstantes, não lineares e rasos, carentes de melhor trabalho, humanização e complexidade, disputando atenção com personagens masculinos, apagadas. Depois de Ripley, vieram atrizes incapazes de transformarem seus personagens em ícones no cinema de ficção e ação (Milla Jovovich?) ou por estarem limitadas por roteiros capengas, a qual a que mais se sobressai nesse quesito é Angelina Jolie (mas poderíamos citar Charlize Theron no horrível Aeon Flux também). 

 A beleza e os traços marcantes
da atriz Sigourney Weaver ajudaram
a perpetuar o ícone desde o
final da década de 70
Outra criação de James Cameron, a guerreira Neytiri, é um exemplo de habilidade do cineasta com personagens femininos de ficção, mas ainda precisa crescer e amadurecer como personagem ao ponto de se tornar marcante - e rivalizar com o festival de efeitos especiais do filme, tal qual Sigourney Weaver na cinessérie, uma missão impossível. Sem contar o fato de que Neytiri não é humana. A competente atriz Zoe Saldana, que interpretou a guerreira azul em Avatar, do diretor, é um talento a ser explorado - sua Uhura, na franquia Star Trek, é um personagem cativante e que pode demonstrar força se bem trabalhada, mas que tem um problema sério - sempre ficará à sombra de outros personagens centrais como Kirk e Spock. Não podemos deixar de citar a enigmática Trinity, de Matrix​, sacrificada por um roteiro chulo das continuações que não permitiram a atriz Carrie Ann Moss desenvolver e explorar seu personagem (que era mais interessante e misteriosa que Neo, diga-se de passagem). Recentemente, Ridley Scott trouxe Noomi Rapace para o filme Prometheus. Noomi é esforçada, se revelou ser boa atriz, capaz de segurar o filme, mas foi letalmente sabotada pelo roteiro e prejudicada pela forte imagem de Ellen Ripley, ainda viva no imaginário popular e na cinessérie.

O que fazer então?

O cinema precisa novamente de uma combinação, com uma atriz de talento, que tenha presença de cena, um personagem humano e tão complexo, forte, bem desenvolvido, com um roteiro que seja capaz de combinar esses elementos perfeitamente. Uma nova personagem feminina precisa permanecer, perdurar, marcar no inconsciente dos espectadores. O desafio está lançado - a tarefa é difícil. Diretores, atrizes, roteiristas, dinheiro, tudo isso existe para que tal paradigma seja quebrado - e que o cinema não só dependa de James Cameron para criar um modelo de força feminina que perdure.
Enquanto isso não acontece, Ellen Ripley, no panteão das heroínas de ação e ficção, reina solitária, lá no alto, com seu lança-chamas - onde deve ficar por muito tempo ainda, sem ser incomodada por ninguém.

3 comentários:

  1. Bem, depois de ler esse post, é inevitável notar a competência dos Tios Cameron e Scott, que, ao meu ver, possuem o toque de Midas (mesmo com muitas críticas, acho Ridley Scott um dos melhores diretores em atividade)...
    Sobre a Ripley, não tem pra ninguem. É heroína, é foda, é inigualável. Marcou a geração do meu pai, que a viu de calcinha na nave, brigando com o "oitavo passageiro" e marcou minha geração também. Todos os filmes da série Alien (mesmo os sofríveis dois últimos capítulos) tem momentos memoráveis e marcantes: em Alien 3, a cena icônica do Alien babando horrores pertinho do rosto da Ripley e a autopsia da Newt; e em Ressurreição, a hora que Ripley encontra seus clones defeituosos (essa cena vale o filme inteiro, é de arrepiar).
    Por fim, ressalto outra heroína que, mesmo não tendo a repercussão que Ripley teve, é minha musa por várias das qualidades mencionadas nesse post: Clarice Starling, da minha querida e linda Jodie Foster. No Silêncio dos Inocentes, Clarice tem seu misto de fragilidade e força combinados de forma maravilhosa, e para mim, é outro ícone da mulher de verdade no cinema.

    E é isso. Parabéns, post muito interessante e bem escrito!!! Nite nite!

    ResponderExcluir

Gostou? Não gostou? Sugestões? Críticas? Essa é a sua chance de dar a sua opinião porque ela é muito importante para nós! Seja educado e cortês, tenha respeito pelo próximo e por nós, e nada de ofensas, tá? Esse é um espaço democrático, mas comentários ofensivos serão excluídos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...