sexta-feira, 3 de maio de 2013

Gêmeos - Mórbida Semelhança - 1988



Título Original: Dead Ringers
Ano de lançamento: 1988

Direção: David Cronenberg
Roteiro: Bari Wood, David Cronenberg, Jack Geasland, Norman Snider
Elenco: Geneviève Bujold, Jeremy Irons

Sinopse: Os gêmeos idênticos Beverly e Elliot, brilhantes ginecologistas canadenses, pesquisam a fertilidade feminina em sua clínica particular. A atriz Claire Nivean, que não tem filhos, procura auxílio na famosa Clínica Mantle. Diagnosticada por Beverly como possuidora de um útero tricervical, Claire deve perder a esperança de engravidar. O arrogante Elliot fica fascinado pelo masoquismo da atriz e dorme com ela. Como é costume deles compartilharem as pacientes, encoraja o irmão a tomar seu lugar. Os dois passam a se revezar nas visitas a Claire, mas o tímido Beverly se apaixona pela atriz e, influenciado por ela, começa a usar drogas.


Por Jason

No estranho Gêmeos: mórbidas semelhança, David Cronenberg realiza, com menos exposição e mais sutileza - mas ainda assim, de modo perturbador -, um estudo da psicologia de dois ginecologistas, que tem suas vidas tão ligadas a ponto de dividirem, além do local de trabalho, um apartamento e suas conquistas amorosas - e que acabam mergulhando, com suas obsessões e personalidades desequilibradas, numa verdadeira espiral de loucura. 

O filme é vagamente inspirado em uma história real, a dos gêmeos ginecologistas Stewart e Cyril Marcus, que foram encontrados mortos no apartamento em que moravam no ano de 1975 em Nova York, com os corpos nus e em decomposição, depois de consumirem drogas (nunca se soube se por overdose acidental ou por suicídio). Cronenberg aqui pinça o mote central dessa história estranha e dá a ela corpo e toque pessoal com a presença irretocável de Jeremy Irons.

Irons consegue rivalizar facilmente com a temática do filme e dar corpo e psicologia aos dois personagens, de forma que ao mesmo tempo em que ambos se parecem diferentes, completamente distintos, são capazes de se completar para formar uma única personalidade. É um trabalho hercúleo do ator, uma vez que ambos os personagens não são caricatos e trabalham o psicológico de forma sutil - na forma de olhar, no gestual, na forma de falar. De um lado, temos Elliot, um irmão arrogante, canalha, que se aproveita da sua profissão para transar com as mulheres, cheio de si, seguro, sedutor e narcisista. Do outro, o rapaz tímido e introspectivo Bervely, que tem uma vida sexual à sombra da do irmão (Elliot conquista as mulheres e faz com que o irmão o substitua para experimentá-las). Percebe-se, nesse primeiro momento, que Bervely tem uma personalidade dependente de Elliot. 

Ao se envolverem com Claire, uma atriz decadente, promíscua e que é obcecada por engravidar - mas tem problemas que a impedem - Bervely começa a se sentir parte de algo - algo que  não seja a outra extremidade do cordão umbilical do irmão. Ou seja, Bervely começa a se distanciar do irmão, a guardar segredos, a ser ele mesmo - e aqui percebemos que por trás da segurança de Elliot há também uma estranha dependência da personalidade do irmão. Os dois então se revezam nos encontros com Claire, que começa a notar as alterações comportamentais e acha que o doutor é esquizofrênico, até descobrir a verdade. A partir daí, o doutor Bervely, inicialmente rejeitado por ela, parece procurar na mulher o próprio irmão. Bervely diz estar apaixonado por ela, mas não consegue romper com completo com o irmão. Entra em cena o problema com as drogas - e os espectadores adentram a veia central do filme: a questão da identidade. 

Percebe-se no roteiro do filme que todos os personagens buscam uma identidade, um ser único e exclusivo: Claire busca num filho impossível uma identidade feminina, o "ser mulher" (ela diz que se não tiver um filho, será sempre uma garota). Já os gêmeos buscam se dissociarem, mas parecem se misturarem, a buscarem cada vez mais um ao outro - e aqui vale citar a presença da dependência química de Bervely como artifício do roteiro para fazer um paralelo sobre a dependência dos dois. Ciúmes (Elliot vai encontrar Claire e tenta seduzi-la novamente, como uma forma de alimentar seu ego dominador e se sobrepujar ao irmão, mas ela o rejeita) e obsessões sexuais (Elliot parece desejar algo mais do irmão na sequência de dança) se embolam, numa trama de tormenta psicológica orquestrada com cuidado que beira ao neurótico por Cronemberg. 

Mas Gêmeos tem os seus pecados. O ritmo do filme, lento, pode afastar o espectador interessado em mais ação. E sim, estamos num filme de David Cronenberg e tudo pode acontecer. Em determinado momento, lá está o doutor Bervely tendo um pesadelo em que é separado de um cordão umbilical bizarro pela mulher (que os separa com a boca, diga-se de passagem). Na busca por melhorar as cirurgias femininas, surgem as obsessões por objetos cirúrgicos que parecem instrumentos de tortura medievais e não são adequados às mulheres. Na cena de sexo, Claire está toda amarrada, expondo seu comportamento masoquista. E ao final,  quando o espectador é brindado pelo ápice de toda essa loucura e bizarrice.

Cotação: 4/5




4 comentários:

  1. Respostas
    1. Sim, o filme é muito bom. Quanto ao comentário de que o filme é lento, não entendi... perdoe a grosseria, cara, mas este não é um filme do Bruce Willis.

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    2. O filme é muito bom, como disse o Jason... o que não exclui o fato de ser... lento, rsrs

      Abraços da tia! =)

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