sexta-feira, 31 de maio de 2013

Salvador - O martírio de um povo (1986)



Por Jason

Entre 1980 e 1992, El Salvador atravessou um período de Guerrilha Civil que deixou pelo menos cerca de 80 mil mortos, milhares de desabrigados e de exilados. Esse conflito da história recente do mundo é retratado no filme de Oliver Stone, "Salvador O martírio de um povo", de 1986, com grande carga política, dramática, tensão e uma boa interpretação do ator James Woods. 

No filme, baseado em fatos reais e escrito pelo jornalista Richard Boyle ao lado do diretor, Stone não só mexe na ferida do conflito, como a morde a ponto de fazê-la sangrar sem parar. Não contente com a própria crueza do conflito, a direção expõe pilhas e mais pilhas de corpos das vítimas da guerrilha, mutiladas e apodrecendo, enquanto os repórteres estão registrando aqueles momentos. Porque nos tempos em que Stone era Stone, seus filmes eram crus e viscerais e Salvador não foge a regra. Nada, no entanto, parece gratuito. 

Stone envereda pelo lado negro do conflito - em determinado momento, surgem as crianças vítimas do conflito, amputadas, dilaceradas e feridas pelo horror - e como esse lado cruel da guerra civil é capaz de mudar o personagem e também o próprio espectador. Para se ter uma noção da loucura pela qual o povo do país passava, a igreja entra no meio do conflito e o resultado é o assassinato do arcebispo, que na vida real seria o estopim da guerra, uma vez que ele era opositor do novo regime. A política de El Salvador era feita na base da extrema repressão e da propaganda enganosa. O diretor transforma o personagem de James Woods não só em uma testemunha do caso político e social do país, mas os nossos olhos e sentimentos de revolta diante do conflito. 

Há uma sensação de impotência - o presidente dos EUA está na televisão falando para um mundo que parece completamente a parte de El Salvador enquanto o país fornece divisas para grupos de direita. Missionárias são estupradas e assassinadas - e Stone não poupa o espectador para deixá-lo revoltado com toda a situação com toda a crueldade e cenas de estupro e de cadáveres retirados das covas. O filme simpatiza então com o movimento de esquerda, que lutam contra o regime ditatorial e o fim do caos e da guerra, mesmo que para isso precisem matar. A lição politicamente incorreta que os personagens passam é que muitas vezes a paz não é o bastante para acabar com a violência. Stone questiona também a posição da mídia e o seu envolvimento no conflito, de vítimas à participante ativa da guerra, dos políticos, os americanos e a total ineficiência destes em acabar com o conflito.

No meio disso tudo, está Richard Boyle, interpretado por James Woods. Relaxado, desprovido de bom senso, drogado, do tipo que adora beber e pegar muitas mulheres, o personagem começa de uma forma e, aos poucos, começa a se transformar. De uma pessoa completamente passiva, interesseira, vaidosa e egoísta, que visa sair do buraco e recuperar algum prestigio como jornalista, Boyle acaba sendo engolido pelo conflito e se desfazendo de uma posição neutra e imparcial para um envolvimento mais profundo e uma opinião mais ofensiva contra o caos causado pelo regime. Contribuem para a mudança, a presença de uma mulher em sua vida, a falta de tato e total indiferença de outros jornalistas que querem apenas ganhar notoriedade com a miséria do povo e o suporte do amigo desajeitado - interpretado por Jim Belushi. Tamanho empenho de James rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. 

O final, infelizmente, é pessimista. Como todo filme da década de 80, o filme envelheceu em diversos aspectos - as cenas do conflito e os cenários, os efeitos sonoros principalmente - mas é impossível negar a coragem do filme em discutir, machucar, nos induzir a pensar sobre os temas da trama, que continuam atuais e necessários para profundas reflexões - porque muitas nações como El Salvador ainda hoje continuam a morrer e a renascerem do próprio do caos.

Cotação: 4/5


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