sexta-feira, 26 de julho de 2013

Behind The Candelabra - 2013



Por Jason

Wladziu Valentino Liberace foi um pianista que nasceu numa família de músicos. Seu pai tocava trompa na Orquestra Filarmônica de Milwaukee. Sua mãe, a polaco-americana Frances Zuchowski, tocava piano. Seu irmão George era violinista. Desde muito cedo o menino demonstrou uma aptidão excepcional pelo piano. Dito isso, pouco da infância dele interessa ao telefilme Behind The Candelabra, dirigido por Steven Soderbergh para a HBO, porque ele é baseado nas memórias de Scott Thorson, o jovem rapaz com quem ele manteve um relacionamento escondido da mídia durante cinco anos. 

O foco aqui é a relação destrutiva entre Liberace e o jovem Scott, que é contratado para ser um dos seus inúmeros empregados e que acaba se envolvendo sexualmente - e amorosamente (?) - com o velho músico de Las Vegas. O romance começou quando Scott tinha dezessete anos e trabalhava com animais, até ser apresentado a Liberace por Bob (Scott Bakula, irreconhecível). No começo, Liberace mexe com o ego de Scott e com sua aparência. Sugere adotar o rapaz, o força a transformar sua aparência para reproduzir nele uma imagem própria perdida - a da juventude -, ao ponto de Scott praticamente mimetizar o parceiro. Liberace mexe na ferida da vida de Scott - a falta de pais, a vida no orfanato, de pobreza e de falta de oportunidades. É um predador por excelência, que usa o dinheiro para ganhar as pessoas, não consegue construir vínculos amorosos com elas, é possessivo, quer sempre mais do que todo mundo, paga tudo para o parceiro com a finalidade de exercer o controle total da vida dele. Sua mãe é louca por dinheiro, assim como ele, e o parceiro jovem vê nele a possibilidade de uma vida que nunca teve. 

Em contrapartida, o jovem passa a adotar o estilo extravagante do parceiro, deslumbrado pelo tipo de vida que ele leva. Scott não é nem tão santo quanto aparenta ser nem tão esperto quanto deveria. A relação começa a degringolar quando começa a questionar sua posição dentro da relação, uma vez que Liberace, o passivo da relação, o controla e o impede de se expor e de ter contato com qualquer pessoa. Para completar, Liberace começa a desejar o parceiro de forma ativa como um predador louco para devorar sua presa e o jovem resiste às investidas. Liberace começa a procurar outro, lugares de sexo fácil, e assim como todos os outros que passaram por sua vida (seus parceiros se tornam todos descartáveis), ameaça descartar o jovem também. Scott começa a sentir ciumes e a surtar ao perceber que seu lugar está desaparecendo. O resultado dessa relação destrutiva e cheia de interesses, fadada ao fracasso desde sempre, será um processo na justiça e um fim inglório para o cantor.

Matt Damon e Michael Douglas tem aqui duas interpretações inspiradas e brilham no filme - com o segundo se sobressaindo no papel de celebridade exótica que parece vinte e quatro horas da vida viver em um baile de carnaval, seja pela fantasia, seja pelos pecados da gula, dos excessos, da droga e do sexo. Douglas é a chave de tudo e faz uma performance de entrega total, transitando pelo trágico e pelo cômico na mesma medida (a primeira opção do diretor seria Robbin Williams, que é ótimo ator cômico, mas correria o risco de deixar o personagem caricato). A relação e o entrosamento dos dois atores é o que garante o êxito da produção, muito mais do que a habilidade empregada aqui por Steve Soderbergh de contar uma história de maneira enxuta e seca, sem rodeios: os atores estão completamente à vontade, contracenam em cenas de nudez (Michael Douglas pelado é a visão do inferno) e em cenas de beijo e sexo com total desprendimento, convencendo em papeis distintos mas que se complementam. É uma relação perturbada, de poder, de ambição, de sexo, de carência e drogas.

Há os deslizes. Como citado, o filme não explora a infância nem a adolescência de Liberace, deixando um certo vácuo para preencher sua personalidade e fazer com que o espectador entenda como ele se transformou naquilo (é Michael Douglas que resume tudo em uma conversa na cama). Soderbergh não explora o drama - o filme carece disso, deixando apenas para o personagem drogado de Matt Damon a responsabilidade de conduzir os momentos mais dramáticos, que envolvem uma confusão no momento em que seu personagem precisa deixar a mansão onde mora - e no final em uma cena com o velho já doente. 

O filme também traz Rob Lowe, no papel de um cirurgião cuja cara está deformada de plásticas e não consegue fechar os olhos - outro personagem no mínimo tragicômico - e Debbie Reynolds, como a mãe interesseira de Liberace, ambos sem serem muito explorados. Também se apressa em resolver o reencontro dos dois, primeiros nos tribunais, quando o jovem processa o cantor que o deixa praticamente sem nada, e quando Liberace já estava em seu leito de morte, sem atentar aos últimos momentos dessa figura impagável. A maquiagem também não convence - Matt Damon sofre com as próteses bizarras que tem cores diferentes da sua pele e Michael Douglas parece ter cera na pele com o excesso de pó em sua cara. 

Ao final, o filme acaba sendo superficial, se valendo pelas ótimas atuações dos atores principais e pela curiosidade em descobrir mais sobre a vida artística dessa figura espalhafatosa, mas reconhecidamente talentosa.

Cotação: 3,5/5

O filme está indicado ao Emmy 2013 na categoria de melhor Telefilme, Melhor ator em filme para a Tv (Matt Damon e Michael Douglas), e ator coadjuvante (Scott Bakula).

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