terça-feira, 2 de julho de 2013

Um dia de cão - 1975



Por Jason

Al Pacino brilha neste filme excepcional de Sidney Lumet, no papel do perturbado Sonny, que, junto com dois capangas, tentam assaltar um banco e tudo dá errado. O roubo idealizado por Sonny deveria levar poucos minutos, mas uma vez lá, um dos companheiros desiste e vai embora. Começa então uma confusão. Completamente perdido, Sonny precisa lidar com os reféns e as exigências, a polícia local, um negociador, o FBI, a mídia e a população, o que acaba transformando o banco num espetáculo da televisão com direito a entrevista em rede nacional. 

O roteiro, vencedor do Oscar, foi inspirado em artigos dos jornalistas Thomas Moore e P. F. Kluge escritos no New York Daily News sobre episódio ocorrido no bairro do Brooklyn, em Nova Iorque, no dia 22 de agosto de 1972. Lumet (indicado ao Oscar de Melhor Direção) dirige o filme empregando agilidade, cinismo e acreditando em Al Pacino, um acerto notável de escolha. Sem Pacino no filme, com segurança para transformar tudo em um circo midiático, mas ainda assim um personagem de intrigante complexidade por ser real, o filme perderia sem dúvidas seu impacto.

Sonny é o que podemos chamar de lixo social, que a sociedade produziu e que não sabe o que fazer com ele. Sua vida é fracassada. Sua esposa, gorda, mesquinha e egocêntrica, é do tipo que fala pelos cotovelos e é incapaz de compreende-lo. Em determinado momento, mesmo percebendo a confusão que o marido está metido, não o poupa de reclamar sem parar do quanto ela está sofrendo e sequer se importa de tentar falar com ele no banco em que ele está assaltando. O roteiro resume brilhantemente toda a personalidade desequilibrada da mulher em poucas e eficientes conversas.

A mãe de Sonny é atormentada e tem uma relação conturbada com o pai dele, que o renega. Joga a culpa pelo fracasso do filho em outra pessoa - a esposa dele, que ela odeia - mas esquece do fato de que, como o pai diz, sempre passou a mão na cabeça dele. Para completar, Sony se envolveu com um homossexual, Leon (Chris Sarandon, em atuação indicada ao Oscar também) e casou com ele, outro personagem atormentado por não se sentir completo e por desejar fazer uma operação de mudança de sexo. Os dois tem uma relação de amor e ódio e supõe-se que o motivo do assalto seja a forma que Sonny encontrou para levantar dinheiro para a cirurgia. O parceiro de Sonny, o débil Sal, é confuso, ignorante, sem ideia própria e aparentemente incapaz de ter uma noção da dimensão que o assalto tomou - em determinado momento, recorda do que Sonny diz se nada desse certo, mas é incapaz de tomar qualquer ação para dar fim aquilo.

No meio disso tudo, como se não bastassem personagens tão desajustados, Lumet consegue fazer um ótimo estudo social: a polícia local está completamente despreparada (ela prende um refém e atrapalha o negociador, que não consegue desembolar a negociação, necessitando de ajuda dos federais); o público transforma Sonny em herói instantâneo na porta do banco, vibrando com seus protestos enquanto recebe dinheiro que ele arremessa, mas ao descobrirem seu envolvimento com o homossexual, vira motivo de piada; a mídia não sabe como vender sua imagem para tirar proveito, enquanto espera pelo sangue derramado como urubus em carniça. Os próprios reféns, a certa altura, já se envolveram no assalto ao ponto de darem sugestões aos assaltantes. Por fim, a resolução do filme é tensa e bem filmada, o que garante a surpresa do espectador até os últimos instantes.

Preste atenção: no jovem Lance Henrikssen, que faz o papel de Murphy, o policial que acaba tendo uma participação decisiva ao final. No personagem Leon, de Chris Sarandon, primeira aparição do ator em um filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, mas a carreira não decolou.

Cotação: 5/5

Imperdível.


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