sábado, 17 de agosto de 2013

Guerra dos Mundos - 2005



Por Jason

Em 2005, alienígenas desembarcaram nos cinemas causando pânico e vaporizando com suas máquinas os pobres e indefesos humanos. Era o ano de estreia da refilmagem do clássico de 1953, Guerra dos Mundos, de Steven Spielberg, baseado no livro de H.G. Wells, A Guerra dos Mundos. A um custo de superprodução - 135 milhões dólares - o filme se tornou merecidamente um dos maiores sucessos do ano, arrecadando quase 600 milhões pelo mundo e se tornando o maior sucesso comercial da carreira de Tom Cruise até hoje.

Gostem ou não, com defeitos ou não, o roteiro do filme é estruturalmente muito bem dividido em cinco partes. Uma introdução, com o personagem de Tom Cruise, Ray, se mostrando um pai relapso com os dois filhos; o surgimento dos incríveis Tripods, a ameaça que permeia todo o filme e que garante os melhores momentos do filme; a fuga desesperada da família, que vai de um esconderijo nos porões de uma casa enquanto um avião despenca do lado de fora à divisão da família - com o filho partindo sozinho, deixando Ray e a menina Rachel para trás; o esconderijo com o personagem Ogilvy (Tim Robbins); e o final, o motivo de tanta discórdia em relação ao filme. 

Spielberg repete aqui, disfarçadamente, a mesma fórmula empregada desde Encurralado (1971) passando por Tubarão (1975), Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977) e Jurassic Park (1993) - principalmente na primeira meia hora do filme: esconder ao máximo as ameaças e revelá-las no momento apropriado - ou não (no caso do primeiro filme citado, ele esqueceu dessa parte) potencializada pelo fato de que estamos diante de espetaculares efeitos especiais e de uma edição de som no mínimo sinistra (o som dos tripods é algo realmente inesquecível). Assim como o monstro do mar chega sorrateiro até atacar na praia e causar pânico nos banhistas, ou como o menino é sequestrado por um OVNI enquanto sua casa sacode, ou ainda o enorme Tiranossauro é escondido o máximo possível naquele mal fadado parque, Spielberg faz do surgimento de um Tripod em Guerra dos Mundos um espetáculo aterrorizante e um exercício de tensão de primeira. 

Toda a sequência é perfeita. Do buraco que surge no chão e começa a crescer aos poucos, um monstro mecânico aparece e faz com que a população local se deslumbre, num misto de pavor e surpresa, sem saber o que dali pode sair nem de onde vem aquela criatura. É a partir daqui que começa o horror, com a enorme máquina vaporizando tudo pela frente. É a fuga do Tiranossauro do parque. É o ataque do Tubarão ao menino na praia. É o Spielberg que o público quer ver. 

A partir daí vemos a fuga da família para o interior do estado e o filme segura seu ritmo. Spielberg novamente esconde mais do que mostra em uma queda de avião, onde o espectador supõe apenas o que está acontecendo do lado de fora, um acerto e tanto da direção sugestiva que ele impõe. Ao final da sequência, aos poucos, quando a câmera abre, percebemos que um avião desabou causando destruição. No caminho para a balsa, uma multidão enlouquecida se mata por um carro. Quando pensavam que estariam a salvos, os Tripods atacam novamente virando o barco. Na escuridão, roupas caem do céu, numa espécie de balé macabro. Não há sangue em profusão - as criaturas trabalham processando humanos e pulverizando o resultado do composto em jardins de ervas vermelhas -, e não é preciso: se fosse um balde de sangue, o filme perderia o impacto e viraria um espetáculo trash. O horror então é conhecido, o público já sabe do que aquelas coisas são capazes, mas o público quer ver quem controla aquelas máquinas. E Spielberg faz a revelação em uma cena apropriada, dentro de um porão escuro visitado por uma sonda alien posteriormente pelas criaturas surpreendentes, com aspecto vampíricos de três membros.  

Não há do reclamar dos já citados efeitos especiais (Spielberg sabe como usá-los, doa a quem doer), dos efeitos sonoros e da trilha incisiva de precisão cirúrgica realizada por John Williams, que complementam sequências como a da balsa ou do surgimento do Tripod. A trilha, aliás, funciona melhor dentro do filme do que fora dela: percebemos que quando o Tripod se ergue, Williams parece evocar o seu tema famoso de Tubarão, incrementando sons rasgados como os de gritos à medida que a população vai sendo vaporizada. Não se pode criticar a fotografia, que traz um tom cinzento que casa com a forma que os humanos são transformados após serem atingidos por um disruptor de partículas. Ou da montagem do filme, elegante nas cenas de ação ou no plano sequencia enorme do carro desviando de um engarrafamento gigante de veículos parados, durante a fuga da família. Para os cenários, a produção destruiu um boeing, qualidades técnicas de uma produção com orçamento inchado. 

Há ainda certas metáforas que uma investigação mais precisa é capaz de descobrir no filme. Os tripods iniciam seus ataques em um bairro portuário da cidade - o filme dá a dica ao mostrar Ray movimentando uma grua no porto e deixando o trabalho -, atacando imediatamente, claro, a economia do lugar que representa claramente uma cultura multiétnica, dando ao filme um viés universal. Há referência também ao pânico da sociedade americana pós 11 de setembro (personagens que falam de terroristas; avião causando destruição; prédios que desabam e explodem criando uma nuvem de poeira que deixa todo mundo cinza, como no atentando em Nova York; o personagem Olgivy, já paranoico). Quando o Tripod se levanta, uma fumaça e poeira são cuspidas de dentro do buraco tal qual enxofre, como se dali se erguesse o próprio Lúcifer ou um monstro infernal e - pausa - Spielberg enquadra uma igreja que está despencando paralelamente. As balsas, lotadas de gente em pânico, nos remetem claramente a hordas de refugiados africanos que se arriscam em rios e mares para fugirem da fome e da miséria, o que faz com o filme esteja sintonizadíssimo com o seu tempo.

Os problemas

São vários os problemas da produção e não dá para fazer vistas grossas. A começar pelo desenvolvimento dos personagens. O filme abre com pouco tempo para desenvolvê-los - rapidamente já estamos no meio da ação e isso pesa na concepção final dos personagens, tanto de Robbie e Rachel quanto de Mary Ann, a mãe. Miranda Otto, aliás, passa completamente batida na produção. Justin Chatwin, que faz Robbie, o filho de Ray, além de péssimo, é incapaz de desenvolver um personagem relegado ao estereotipo de rebelde. Tim Robbins surge do nada e, embora seu personagem acrescente algo, o ator nada pode fazer por ele.

Para Dakota Fanning, apesar de talentosa, competente e já demonstrar inteligência acima da média como uma atriz mirim, não resta muito a não ser gritar e entrar em pânico o filme todo. Há cenas piegas, como a discussão no meio da rodovia de pai e filho, que salienta o quanto os atores estão ruins. Mas é Tom Cruise que incomoda. Na pele de pai relapso, que tem que proteger suas crias de qualquer jeito, Cruise não consegue convencer em nenhum momento. Sua carga dramática, ao ter que eliminar uma ameaça de sua filha, é basicamente nula. Tamanho esforço jogando contra só poderia resultar em uma indicação a pior ator no ano seguinte, para o Framboesa de Ouro.

Aí vem o final. Não se trata de criticar o reencontro forçado e da lição de moral quase gritante de que uma família unida é capaz de vencer qualquer apocalipse - o abraço com o filho rebelde selando a paz com o pai não poderia representar outra coisa mais cafona além disso. Se trata mais da narração e do artifício, mantido os conceitos usados na obra original. Ele não casa com a época atual do filme. Fica difícil aceitar que criaturas tão mortíferas e inteligentes, que passaram tanto tempo estudando a humanidade, possuem máquinas gigantes processadoras de seres humanos, dotadas de escudos de força contra misseis, não souberam construir roupas protetoras contra ameaças microscópicas para vestirem seus aliens pernetas. Bola fora. 

Cotação: 3,5/5

Spielberg faz um filme de ação e ficção acima da média, constrói um espetáculo visual e sonoro de encher os olhos, com uma trama frágil que garante ao menos um bom entretenimento.


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