terça-feira, 20 de agosto de 2013

Minority Report - A nova lei - 2002



Por Jason

Na ótima e esperta ficção Minority Report, A nova lei, Spielberg nos traz um mundo onde uma divisão da polícia acabou com os crimes da cidade de Washington. O sistema é considerado perfeito: o crime, que ainda não correu, é visualizado pelos chamados Precogs, três paranormais que vivem dentro de uma piscina e entram em colapso quando preveem o assassinato, informando aos policiais. Nesse contexto, Tom Cruise, o policial defensor do sistema, viciado em drogas, separado da esposa e sem superar a perda do filho, é vítima do sistema e acusado de assassinato por antecipação. Cabe a ele correr contra o tempo para provar a sua inocência, descobrindo aquilo que ele não esperava: provas de que há brechas no sistema.

Todo o desenho da produção e a parte técnica são deslumbrantes, como em todo trabalho de Spielberg, possíveis ao custo de uma superprodução de 100 milhões de dólares. No mundo do futuro, os carros despencam de verdadeiros cânions, presos em pistas magnéticas de alta velocidade. O personagem Anderton, de Cruise, movimenta seus painéis digitais usando os dedos em luvas especiais ao som de uma orquestra. Enquanto transita pelas ruas, comerciais de diversas marcas o reconhecem e oferecem diversos produtos. Os prisioneiros são postos em verdadeiros tubos de ensaio em que ficam em coma profundo pelo resto da vida, mudando o modelo prisional mundial. Em uma feira tecnológica, aparelhos realizam as mais obscuras fantasias dos consumidores. A certa altura entram em cena as aranhas robóticas com scanners de iris, que parecem ter saído de Inteligência Artificial, do próprio Spielberg, É durante essa fuga de Anderton que o filme ganha notáveis - e muito bem vindo - ares sombrios, que vão culminar em um bizarro transplante de olhos.

Em determinado momento, acompanhamos um voo do personagem - como em Farenheit 451, os policiais chegam em planadores pessoais. Spielberg deixa sua câmera em atividade ao ponto da plateia primeiro entender a cena. Movimenta sua câmera com elegância e constrói cenas de ação dignas de nota: Anderton se refugia numa fábrica de automóveis e a montagem do filme nos leva para dentro do maquinário, para dentro da ação, que nunca é videoclipada ou cheia de cortes bruscos. O mesmo vale dizer para a escalada do personagem sobre os carros no meio do trânsito, talvez a melhor e mais marcante sequência do filme.

Todo o filme tem um tom acinzentado. Poucos são os objetos coloridos em cena. Mas não seria este o futuro perfeito desejado pela sociedade? O futuro imaginado por Minority é ironicamente sufocante e prisional. Apenas perto do final, quando Agatha encontra a ex de Anderton numa casa do campo é que a coloração do filme, nota-se, muda - assim como quando os pre cogs estão livres, uma mensagem inconsciente de que a segurança, levada ao extremo, e a prevenção criminal imposta pelo sistema acaba transformando a sociedade numa espécie de robotização. O campo representa a libertação, não só mental como também emocional, enfatizada na cena mais dramática do filme, em que Agatha - uma futurista - fala de passado e de presente sobre o filho de Anderton.

Minority é baseado no conto de mesmo nome de Philip K Dick. Assim como no livro, o filme também questiona o poder de decisão humana entre o certo e o errado e suas respectivas consequências, seja elas quais forem - embora o filme não se aprofunde, um descuido tolo do roteiro que poderia deixar o filme ainda mais interessante. Toca, assim, na questão do livre arbítrio e nas responsabilidades morais de cada ser humano: como alguém pode ser responsabilizado por uma coisa que ainda não fez? E se o ser humano é senhor do próprio destino, o que impede ele de mudar de ideia e evitar que um ato aconteça no último instante? O personagem de Colin Farrell, apesar de pouco tempo de cena, tem atitude filosófica questionadora: é ele quem leva o espectador a pensar numa forma possível de burlar o sistema dito perfeito.

E poderíamos aqui discorrer e nos estendermos sobre uma série de questões relacionadas a Direito, Filosofia, Sociologia e muitos outros temas embutidos no filme, porque os assuntos levantados por ele são amplos e ricos. Há, contudo, diferenças enormes entre o conto de original - mais agressivo e sombrio - e o filme, já que, infelizmente ou não, nem tudo funciona em Hollywood como está no papel original. Antes de mais nada, Minority se trata de um filme de Spielberg e ele não nos deixa esquecer disso. 

A revelação do verdadeiro vilão no eixo central da trama é de certa forma antecipada, até pelos ecos da Precog Agatha. Por falar nela, Samantha Morton, talentosa, pouco pode fazer a não ser cara de doente como a personagem, a principal dos três Precogs (o roteiro esquece dos outros dois). É dela, aliás, as duas maiores cenas dramáticas do filme, aquela em que presencia o assassinato do personagem Leo Crow, que foi contratado para fingir ser o assassino do filho de Anderton, dentro da conspiração realizada pelo vilão, e a cena em que antecipa a captura de Anderton em que ela fala sobre o filho morto do policial. Agatha também tem parte importante na trama porque sua mãe foi assassinada uma vez que a queria de volta e sem ela o sistema não funcionaria, e é em virtude desse crime que ela vê "ecos" em suas visões - mas isso é apenas pincelado pelo roteiro do filme. 

Colin Farrell, que parecia ter um personagem interessante, acaba sabotado pelo roteiro e despachado para o além. O drama de Anderton parece pouco desenvolvido, bem como a própria tragédia da ex mulher que vai ter papel importante na sua salvação (a personagem parece que cai de paraquedas). O terceiro ato, que inclui um epílogo, também é mais longo do que o necessário. Nada disso impediu de Minority Report ser merecidamente um sucesso de público e de crítica. Gostem ou não, é Spielberg em mais um ótimo arrombo de imaginação.

Cotação: 3,5/5

Para saber mais: uma interessante comparação entre filme e conto que o originou aqui
Minority Report: uma análise juridica e filosofica: aqui

Um comentário:

  1. Caí por acaso aqui, e percebo que o nome do site realmente é a amostra de suas críticas: O horror, o horror. Pois todo "crítico" quer encontrar (muitos) defeitos para se sentir um cinéfilo respeitado, abrangendo a ideia de que ele, com o roteiro e storyboard em mãos, poderia fazer melhor. O horror, o horror!
    :
    Caí por acaso, e quero sair sem ser visto, para nunca mais voltar.

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