domingo, 25 de agosto de 2013

O resgate do soldado Ryan - 1998




Por Jason

O filme começa com uma família visitando um tumulo no cemitério dedicado aos mortos da Segunda Guerra Mundial. O filme então volta para 1944, para o chamado Dia D, focando na operação das tropas em Omaha Beach na Normandia. No desembarque, os soldados são recebidos por uma tempestade de balas de tudo quanto é calibre dos inimigos. Tiros de canhões, metralhadoras, fuzis, morteiros, bombas, granadas, bazucas, sons ensurdecedores e efeitos especiais descabelantes, a técnica empregada ajuda a compor uma das cenas de abertura mais impressionantes da história do cinema. 

É um show espetacular de direção de Steven Spielberg, que coloca a câmera no meio do conflito à medida que as tropas americanas avançam pelo terreno da praia e pedaços de corpos voam para tudo quanto é lado. No meio de todo o caos da guerra, homens morrem afogados pelo peso dos equipamentos, gente procura pelo braço perdido numa explosão, um soldado apela para Deus, alguém segura as próprias tripas chamando pela mãe, ao passo que um grupo é morto incinerado. Os médicos tentam salvar o que não dá mais para ser salvo, costuram a pele rasgada de jovens que já estão mortos. A comunicação vai pelos ares, gente espera por um socorro que nunca virá. É o retrato cru do conflito e somos testemunhas do capitão John Miller que, ao chegar a praia e ver toda a recepção calorosa do inimigo, precisa armar uma estratégia às pressas à medida que vê todos os pelotões serem dizimados numa chuva de sangue. 

Depois dessa meia hora de inferno no meio da guerra, o capitão recebe a missão de resgatar o soldado James Ryan (Matt Damon), o caçula de quatro irmãos, que é paraquedista e que está também na Normandia. Os três irmãos mais velhos dele morreram em combates, o que faz os militares tomarem outra atitude. Porém, John não sabe se o soldado está vivo ou morto ou se foi capturado por tropas inimigas, e nem sabe como é Ryan, o que o leva a ficar procurando por todo Ryan que ele encontra pela frente. É também uma missão suicida, uma vez que a região está infestada de alemães. Ao encontrar o rapaz, o capitão precisa se decidir entre ficar ou seguir com a missão incompleta, uma vez que Ryan se recusa abandonar a missão a qual foi designado por achar injustos com os colegas. Horas depois, o grupo é atacado fortemente em uma ponte de acesso e quando tudo parece perdido, um caça acaba abatendo um tanque alemão que forçava passagem e os reforços finalmente chegam. Não sem tirar muitas outras vidas, é claro, que incluem a do próprio capitão ferido no combate.

Spielberg mexe na ferida do conflito. A certa altura, o oficial do exército questiona: o que dizer a uma mãe que perdeu os filhos numa guerra? Mandar uma mensagem, um elogio, uma bandeira enrolada e dizer obrigado? Isso parte de oficiais que muitas vezes não lutaram uma guerra, não sabe a dor e o sofrimento que é o conflito não só para quem está nas trincheiras, mas para quem está em casa mergulhado em angústia à espera do retorno de seus entes queridos. Nesse sentido, o filme é visceral em mostrar a crueldade do conflito e a forma como jovens e despreparados vão lutar contra inimigos que não conhecem e que deixaram sua humanidade ser subtraída pela violência do combate (o alemão que ganha liberdade é o mesmo que mata o capitão, afinal). Tudo a mando dos superiores em seus escritórios assépticos e bem iluminados, regados pela trilha sonora melodramática de John Williams, em contraste com a sujeira, a brutalidade e a escuridão da guerra. 

O elenco, além de Tom Hanks, é estelar, com  Paul Giamatti, um jovem Matt Damon, Vin Diesel ruim como sempre, Edward Burns cuja carreira não decolou, Ted Danson, entre outros. Hanks atua com a mesma competência de sempre e seu empenho em se transformar no capitão Miller, um professor de redação jogado no meio do conflito que tem que lidar com temperamentos tão diferentes e com as perdas irreparáveis, valeu merecidamente uma indicação ao Oscar de Melhor Ator. Falando em premiação, aliás, o filme ganhou o Oscar de Melhor Edição, Fotografia, Efeitos Sonoros, Melhor Som e Direção (para Spielberg) e mais de cinquenta prêmios, fazendo deste um dos maiores e melhores filmes de todos os tempos a retratar os horrores da guerra. As indicações também em Roteiro Original, Filme (perdeu para o sonífero Shakespeare Apaixonado), Direção de arte, Trilha Sonora, Maquiagem e Ator provam que Spielberg estava no seu auge como realizador porque tecnicamente, não há o que se questionar de um filme que tem quinze anos de idade. Tudo ainda é impecável e deve ficar assim ainda por muito tempo.

Se há alguma coisa contra a produção isso se deve ao fato de que o filme tem um excesso de duração - são quase três horas, sendo meia hora de conflito no começo e outra meia hora no final - que embora não comprometa o saldo final poderia ser usado para outros personagens que não se desenvolvem. Há ainda aqueles momentos de pieguice desnecessários e certos vícios de Spielberg, como o de Hanks discursando no meio dos soldados, dando aquela lição de moral enquanto a trilha sonora sobe ao fundo (desnecessariamente) para emocionar. Nada a declarar da patriotada representada pela bandeira tremulante dos Estados Unidos - a cruz de Miller ao final representaria melhor o sepultamento de uma nação que esqueceu que todo país já entra numa Guerra perdendo antecipadamente - sem falar no discurso de Ryan - o filme viveria muito bem sem isso. 

O resultado final, contudo, é espetacular.

Cotação: 4,5/5


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