sábado, 21 de setembro de 2013

O outro lado de Hollywood - 1995



Por Jason

Em cem anos de cinema, a homossexualidade pouco foi retratada no cinema - e na maior parte do tempo, diga-se de passagem, não foi bem representada. Os filmes que tentaram fazer isso sempre trataram o tema como uma questão de pena, comédia ou de medo. O ótimo documentário O outro lado de Hollywood (The Celluloid Closet, apesar de datado de 1995, ainda se mantém incrivelmente atual), trata da visão que o cinema de Hollywood tem sobre o tema tabu, desde os primórdios do cinema até os dias atuais, trazendo participação de escritores, roteiristas e de atores conhecidos como Tom Hanks, Whoopi Goldberg, Toni Curtis, Susan Sarandon e Shirley McLaine.

É interessante notar como através dos tempos a visão que o público e o cinema possuem dos homossexuais pouco mudou. Segundo o documentário, os gays passaram de vítimas para se transformarem nos agressores em diversos filmes, quase sempre com finais trágicos, o que representava a mentalidade do público e da indústria cinematográfica de cada época. Nenhum dos dois nunca viu com bons olhos atores ou atrizes homossexuais - muito menos personagens gays sendo representados nas telonas. De vítimas e motivo de chacota, de humor, passando a vilões, os gays quase nunca se reconheceram nas telonas porque foram retratados de maneira estereotipada e preconceituosa. Quase sempre eram mal vistos pela plateia e tinham destinos inglórios nas tramas dos filmes. A homossexualidade no cinema era e ainda é um tabu - não se discutia o assunto - e astros e estrelas eram obrigados a se esconderem em casamentos arrumados porque isso poderia arruinar bilheterias, carreiras e produções de filmes. 

Em décadas passadas, não era aconselhado a nenhum ator fazer papel homossexual no cinema. Se hoje vemos Sean Penn ganhar um Oscar pela sua interpretação magnífica como um líder homossexual em Milk, ou Tom Hanks levar o seu pelo papel de homossexual vítima da AIDS em Filadélfia, nenhum ator queria se envolver em um filme que colocasse um personagem gay como uma pessoa séria. Mesmo assim, apesar do preconceito e da opressão, o cinema produziria ícones como Marlene Dietrich, em Marrocos na década de 30. A igreja, nesta época, e os órgãos censores começaram a fiscalizar os filmes e a censurar tanto filmes de cunho sexual quanto de cunho homossexual,  alegando quebra de valores morais e protestando contra a exposição de corpos nus no cinema, ameaçando com boicotes e regras através do chamado Código Hays, que proibia, dentre outras coisas, cenas de prostituição e de beijo na boca. 

Essa alienação e loucura chegou a causar transformações em roteiros que tinham cunho homossexual -, mesmo se tratando de roteiro de filmes sendo baseados em fatos reais ou em livros adaptados (!); Os homossexuais passaram então não só a ficar camuflados na vida real, mas também nas telas, ganhando personagens que quase sempre representavam uma ameaça (como a governanta obcecada em Rebecca, de 1940). Os diretores então, mais habilidosos, tentavam a todo custo driblar os censores, usando de músicas e personagens apenas sugestivos.

Os anos 50 foram piores. Os personagens precisavam ser másculos e as mulheres sensuais e femininas e tudo o que era homossexual precisava ficar em subexposto,  como a relação de adoração de Messala por Ben Hur em Ben Hur - que precisou ser escondida de Charlton Heston pois o ator não concordaria em fazer o personagem se descobrisse a real intenção do roteiro, o que dava uma noção da paranoia a respeito do tema. Paralelo a isso, o cinema inglês se adiantava na temática na década de 60, com personagens mais bem resolvidos e que não precisavam morrer ao final do filme para satisfazer os censores sequiosos e o preconceito do público. Foi nessa década que a censura começou a cair, liberando outros temas, mas a homossexualidade continuou sendo algo desprezado pelo público e depreciado por Hollywood, o tipo de coisa que as pessoas sabiam que existia mas evitavam falar.

A situação começou a mudar em 1982 com o filme Making Love, que passou a abordar uma visão mais simpática dos gays, um grande salto para o cinema, mas seguiu a regra de outros filmes, acabando por estigmatizar e acabar com a carreira de envolvidos (ninguém queria assumir os papeis para não se comprometer). A nudez feminina, no entanto, sempre pareceu ser algo mais aceito do que o contato entre dois homens, e o cinema reflete assim, na opinião dos entrevistados (Susan Sarandon, Goldberg e Hanks são pessoas de grande esclarecimento e contribuem com opiniões sinceras) o grande tabu da sociedade machista e a insegurança sexual da população. 

Ao final, como visto, o espectador fica com a sensação que, passado 18 anos desde o lançamento do longa documentário, o cinema, infelizmente, pouco avançou.

Cotação: 5/5

Uma simples e interessante análise a respeito da homossexualidade do cinema que vale a pena ser vista.

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