segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Pra virar filme... ou não! - A GAROTA COM OLHOS DE 100°

A GAROTA COM OLHOS DE 100°

Encontrei-me com Jeannie, pela primeira vez, em meu apartamento, diante de uma garrafa de fino Scotch. Antes disso, encontrei-a em um bar. Mas talvez seja melhor eu explicar. Tudo começou no Five O’Clock Club, à 1h da madrugada — uma hora depois de iniciado o dia do meu aniversário.
Eu estava sentado sozinho no bar, pois tivera uma briga com minha garota e “mandava, umas e outras” com Al, o empregado do bar. Mencionei que era o dia do meu aniversário e como era chato não ter gente com quem comemorar e tudo o mais, quando Al disse:
— Que vergonha, Danny! — e dirigiu-se para a sala do fundo.
Voltou um minuto depois com uma velha e empoeirada garrafa de Scotch que surripiara do estoque dos patrões.
— Para você — disse ele — e minhas felicitações. O velho não perceberá a falta: encomenda essa marca às caixas, em uma firma estrangeira, mas só abre uma, talvez duas, por ano.
Soprei a poeira para ler o rótulo, mas era uma língua que eu nunca vira antes.
— Que é isto? — perguntei.
— Scotch. Pelo menos, é o que o velho diz. Ele nunca abriu uma garrafa aqui. Leve-a para casa e esqueça-se da vida. Agora, preciso fechar.
Assim, fui para meu apartamento.
Depois de deixar cair alguns discos de blues na máquina, cortei o selo da garrafa e quebrei uns pedaços de gelo. Embora alguma coisa balançasse dentro da garrafa, a uca não saía. Estava quase a ponto de me chamar de otário quando vi minúsculos dedos aparecendo na beirada do gargalo. Depois, com uma nuvem de fumaça, a pequenina dama apareceu — uma dama pequenina, boa e nua.
— Sou Jeannie — disse a garota em miniatura.
— Estou maluco — respondi.
Ao que ela começou a crescer, à maneira de Alice no País das Maravilhas, até se transformar naquele suculento tipo à Las Vegas. Alta, de pernas esbeltas e uma parte superior bem abastecida. Seus olhos eram cor-de-âmbar, o que combinava com os cabelos.
Imaginei que o truque fora feito com espelhos ou coisa semelhante. Quero dizer, quem ia esperar que uma suculenta boneca daquelas saísse de uma garrafa? Por um minuto, ela ficou parada em pé sobre a mesa de café, com aquela expressão sonolenta nos olhos.
Parecia bem real. Tinha cheiro real, também... uma espécie de mistura de almíscar e sexy, com um toque de vinho fino. Poderia ser mágica de salão, mas quem estava se importando com isso?
— Vou ajudá-la a descer — disse eu, estendendo as mãos em sua direção.
O olhar sonolento desapareceu e seus olhos arregalaram-se. Então, ela deu um gritinho e saltou da mesa, derrubando, ao mesmo tempo, a garrafa. Correu para o banheiro. Eu também corri, antes que ela tivesse tempo para fechar a porta. Agarrou uma toalha e enrolou-se nela.
— Não me toque — disse, com os olhos muito grandes, saindo depois correndo do banheiro.
A toalha balançava-se, abrindo-se atrás e expondo o substancioso traseiro, que tinha uma covinha. A covinha afastou-se, oscilando torturantemente, quando ela entrou na sala de estar e sentou-se no sofá, enrolada na toalha.
— Eu vou gritar — ameaçou.
Decidi que discrição era a melhor atitude a tomar. Sentei-me do outro lado da sala. Afinal de contas, ainda nem sequer nos conhecíamos e Jeannie era evidentemente do tipo tímido.
— Alô — comecei, em tom casual.
— Alô — respondeu ela, desconfiada.
Pude ver que aquilo não nos levaria a lugar algum.
— Você fica sempre dentro de uma garrafa de Scotch?
— Quase sempre — respondeu, começando a tranquilizar-se um pouco. — Preciso ficar lá até que tirem a rolha.
— Já haviam tirado a rolha alguma vez, antes?
Seus olhos adquiriram uma expressão sonhadora.
— Sim.
Eu também estava começando a ficar um pouco sonhador:
— Que aconteceu?
Ela franziu um pouco a testa e respondeu:
— Não me lembro.
Tive a impressão de que estava mentindo. Tentei um gambito diferente:
— Já viveu dentro de uma lâmpada?
Ela se ofendeu:
— Eu? Dentro de uma lâmpada velha e mal-cheirosa? Nunca! Minha família é das mais finas garrafas. Naturalmente... bem, houve o tio Charles. Ele vivia numa horrível lâmpada à querosene — corou, depois acrescentou: — Mas nunca nos demos com ele.
Tive uma repentina inspiração.
— Então, se você é um gênio verdadeiro, uma vez que fui eu quem tirou a rolha da garrafa, é minha escrava. Tem de fazer tudo que eu ordenar.
— Não é assim.
— Que quer dizer quando fala que não é assim? É o que dizem todos os livros.
— Bem — disse ela, pensando. — Não é exatamente assim.
— Ah! — falei, exultante. — Então, estou certo!
Pensei nas possibilidades e acho que deve ter aparecido um brilho em meus olhos, pois ela começou, rapidamente:
— Você só pode dar três.
— Três ordens?
Ela confirmou com um aceno de cabeça.
Com apenas três iguarias místicas com que brincar, acho que devia ter pensado melhor, mas ela parecia tão apetitosa, ali sentada com a toalha, que eu disse, sem mais aquela:
— Entregue-se.
— Agora? — perguntou ela e seus olhos tornaram a arregalar-se.
— Agora.
— Você precisa dizer as palavras mágicas.
— Quais seriam?
— Mogen David.
— Hem?
— O engarrafador tinha senso de humor.
— Oh — disse eu, com um sorriso estúpido. — Um palhaço.
Ela também sorriu, mas nela o sorriso não era estúpido e a toalha escorregou um pouco para baixo.
— Mogen David — disse eu, respirando fundo. — Entregue-se.
Então, aqueles seus olhos de 100° de teor alcoólico adquiriram uma divertida e encantadora tonalidade de âmbar enfumaçado. Ela sorriu um pouco mais e quase ficou reclinada no sofá. Os cabelos espalharam-se pelos ombros e ela soltou a toalha.
Estendi as mãos para ela e beijei-a. Os lábios eram quentes e macios. As coisas estavam indo muito .bem, “quando, de repente, ela começou a encolher.
— Que diabo é isso? — gritei.
Mas lá estava ela, toda nua no sofá, com apenas vinte ou vinte e cinco centímetros de altura.
Ela sorriu de novo — era, decididamente, um sorriso maldoso — e voltou ao tamanho normal.
— Onde você pretende chegar — perguntei — fazendo isso?
Ela ergueu novamente a toalha.
— Eu me entrego — disse, inteiramente inocente outra vez.
Depois, começou à chorar. Quero dizer, ela começou a chorar. São capazes de entender uma coisa dessas? E disse, derramando lágrimas:
— É uma espécie de mecanismo de defesa, sabe?
Eu não sabia de nada, mas fiquei abalado vendo-a chorar. Ela enxugou os olhos com a ponta da toalha e, fungando, disse:
— Não posso evitar. Quando me dão ordens, funciona para proteger-me.
Fez um beicinho adorável, e continuou:
— Gosto de você, Danny, gosto mesmo. Mas, simplesmente, não posso entregar-me antes que... — começou a chorar de novo. — Antes de ter vovó aqui comigo.
Eu não disse nada. Quero dizer, que poderia falar?
Jeannie enxugou de novo os olhos e disse:
— A pobrezinha. Está sozinha. Foi despejada de sua encantadora garraifa de Draumbuie e agora está vivendo numa botija de vinho barato, na mercearia Shoermer — bateu os cílios para mim e acrescentou: — Sei que tudo correrá bem quando vovó estiver fora de lá. Você não quer ajudar?
Eu não tinha muito que escolher. Por isso, fui à mercearia Shoermer e comprei a botija. Reconheci-a pela rolha azul que Jeannie dissera que ela tinha.
Entreguei a botija a Jeannie e desviei o olhar, enquanto ela a abria,imaginando que seria falta de respeito observar a avó sair nua e tudo o mais.
Escutei a rolha saltar com um pequeno, “ploc” e o que. ouvi logo em seguida foi aquela, grossa voz masculina dizendo:
— Menina!
E Jeannie respondendo:
— Harold, querido!.
E não havia avó alguma.
Apenas aquele sujeito grandalhão e nu andando pelo meu apartamento e Jeannie pendurada em seu braço, com uma expressão amorosa nos olhos.
Então, ela olhou para mim e disse, com ar de simpatia:
— Sinto muito, Danny, foi um golpe baixo.  Mas sei que você compreenderá. Harold e eu nos amamos.
E o sujeito grandalhão, Harold, ria. Pude ver que o amor era unilateral, pois Harold transpirava lascívia e avareza. O que procurava não era puro e saudável.
— Jeannie — gritei, — você se deixou cegar por essa criatura! Êle não é para você.
Harold serviu-se de meu uísque e acendeu um de meus cigarros. — Não adianta — disse Jeannie, anelante. — Harold e eu somos almas gêmeas.
Quase perdi as estribeiras — sabem? — vendo Jeannie tão caída por aquele paspalhão que bebia minha uca.
— Mogen David — disse eu a Harold. — Suma.
Harold serviu outra dose e Jeannie explicou:
— Não funciona. Não foi você quem tirou a rolha da garrafa dele. Fui eu e as ordens são intransferíveis.
— Dois podem jogar juntos este jogo , estúpido — disse-lhe, severamente. — Mogen David. Faça Harold entrar de novo na botija.
— Oh... Oh! — gemeu ela e começou a chorar de novo.
Mas fez o que mandei e Harold ficou com uma aparência toda vaporosa e voltou a entrar na botija. Jeannie chorou mais um pouco, enquanto tapava a botija com a rolha.
— Jeannie, querida — disse, tentando consolá-la, — não chore.
Ela tremeu um pouco e, ao fazê-lo, a garrafa de Harold começou a vibrar sobre a mesa. Depois, começou a sacudir-se e dançar em roda até partir-se — exatamente em dois pedaços. E ali estava aquele sujeito grandalhão e nu, andando de novo pelo apartamento e Jeannie com arde quem pede desculpas, falando sobre mecanismos de defesa e almas gêmeas.
Aquilo era intolerável. Quero dizer, fiquei como que estraçalhado. Aquele paspalhão do Harold quebrara a sua garrafa e eu estava olhando lubricamente para a covinha de Jeannie. Eu olhava para Jeannie que olhava para Harold.
— Quem precisa disso? —perguntei, em tom escarninho; mas não me adiantou nada, porque eu sabia que precisava, por isso usei minha última ordem, — Mogen David, ama-me.
Jeannie ainda olhava para Harold, como se ele tivesse saído de baixo de uma pedra ou coisa semelhante. Depois, olhou para mim, com os olhos se tornando sonolentos, e disse:
— Danny, querido. Harold precisa ir embora.
— Você é quem sabe — disse eu, no tom mais casual que pude. Mas e a garrafa dele?
— Êle pode usar a minha — respondeu ela. — Não vou mais precisar dela.
Depois, aproximou-se de Harold e segredou-lhe alguma coisa. Ele fitou-a com ar feroz, mas, em seguida, sua carranca se desfez e êle escorregou para dentro da garrafa de Scotch.
— Pobrezinho! — disse Jeannie, pondo a rolha. — Sei que êle vai ficar terrivelmente apertado aí dentro.
— Não se incomode. Ele se ajustará — afirmei, pensando em como o dono do Five O’Ciock Club ficaria abalado se eu devolvesse a garrafa às escondidas, ao seu estoque particular e um dia ele desanimasse Harold em lugar de uma garota.
Depois, esqueci-me da peça que pensara pregar, pois Jeannie estava me fitando adoravelmente com aqueles olhos cor de-âmbar e comecei a me sentir quente por dentro. Ela disse, em tom macio:
— Eu o amo, Danny.
E eu disse, todo sentimental:
— Eu também a amo.
— Meu mecanismo de defesa — falou ela, com uma risadinha.
— Era preciso que você me amasse.
Mas isso pouco me importava.
Segurei-a com um braço e beijei-a, enquanto que com a outra mão jogava Harold no cesto de lixo.
Jeannie sorriu, com o olhar todo sonolento, e deixou cair a toalha.

A GAROTA COM OLHOS DE 100°
Ron Webb
Trad. de Aydano Arruda
MAGAZINE DE FICÇÃO CIENTÍFICA
N0 10 - JANEIRO DE 1971

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