terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pra virar filme... ou não - A sereia do espaço - de Jorge Luiz Calife

 A sereia do espaço

Lembrava-se de tudo como se fosse um sonho. Algo enevoado, cujos detalhes perdiam-se rapidamente no passado. Havia uma moça no sonho. Uma jovem bonita cujo rosto simpático adornara as capas das revistas, as imagens dos noticiários de Videorama. O rosto oval de uma mulher européia, olhos castanhos, cabelos negros lisos e finos caindo sobre a testa numa franja rebelde.

Uma heroína do futuro. A relações-públicas perfeita para o programa espacial. Os políticos e os cientistas sabiam disso e contavam com ela para conseguir mais verbas. Depois de décadas de desinteresse o mundo acompanhou em suspense quando aquela jovem bonita foi enclausurada no casulo cibernético de uma nave espacial. Enviada para os mundos do crepúsculo, as terras geladas da órbita de Netuno.

Filmada pelos microssatélites que a acompanhavam, a Artemis IV parecia uma antena parabólica singrando o espaço. O emblema das agências espaciais da Europa e do Japão adornando a concavidade do escudo de aerofrenagem. Uma bandeja côncava abrigando os tanques de combustível, os módulos tripulados e o propulsor termonuclear. Realização máxima da tecnologia, a espaçonave era um engenho compacto, feito para um único tripulante. Uma jovem corajosa, nascida em Nice, na França, que aceitara o desafio de colocar a marca da humanidade sobre os gelos eternos de Tritão.

Recebera cartas apaixonadas de admiradores, fora comparada às pioneiras da aviação, como a americana Amélia Earhart. Sentira-se no topo do mundo, com uma carreira política garantida quando retornasse de sua odisséia solitária. Não tinha qualquer dúvida de que retornaria. Confiava na tecnologia sofisticada de sua espaçonave. Tritão era um mundo morto, congelado a 240 graus centígrados abaixo de zero. Não havia nada lá que pudesse ameaçá-la. Nada que sua mente jovem e hiperconfiante teria podido prever.

Lembrava-se de Netuno. Um globo azul impossível flutuando na escuridão, com uma mancha oval escura que parecia um olho a observá-la. Infelizmente, no momento de maior aproximação, não pudera ver nada. Estava esmagada por uma força de vinte gravidades, achatada no sofá de aceleração enquanto a nave riscava a noite gélida, transformada num cometa deslumbrante.

Assistira a tudo pela televisão, depois, e fora como se visse um filme estrelado por outra pessoa. O ventre afundado e delineando as costelas. O rosto distorcido pela pressão, o busto esmagado, tentando escorregar para as axilas. Seus 55 quilos tinham chegado a 250 naqueles instantes torturantes. Felizmente passara rápido. A ausência de peso voltou, fazendo-a flutuar como num sonho. Netuno ficara para trás e a lua de gelo rosado surgia a sua frente.

Fora tudo tão diferente em Tritão. A frenagem suave, sem penetração atmosférica. Ela estava linda, vestindo uma malha rendada, contendo apenas os sensores biológicos. Ensaiara alguns passos de dança para as câmaras de TV. A dança era seu hobby, e ela aproveitava para exercitar o corpo enquanto ainda estava em órbita. Não teria essa liberdade em Tritão.

O módulo de pouso descera num lago congelado, erguendo uma nuvem de cristais de nitrogênio — uma aranha metálica embrulhada em papel dourado, como um bombom. A analogia também era válida para Nicole Geliny. Ela se tornara o delicioso recheio para o invólucro espesso e assexuado do traje de excursão. Podia saltar na baixa gravidade da Lua e voar com a mochila propulsora, mas deixara de ser a namorada do mundo. O escafandro rígido dava-lhe a aparência de um ovo plástico amarelo, com braços e pernas sanfonados. O sol distante refletia-se na viseira espelhada, ocultando-lhe o rosto.

Plantara sensores no mar de gelo e filmara os estranhos vulcões de gás frio no horizonte. Depois da frenagem na atmosfera de Netuno o segundo momento mais perigoso da missão transcorreu sem incidentes. Nicole mandou mensagens para a Terra e depois voltou para o módulo.

A decolagem e o encontro com a nave mãe em órbita foram um verdadeiro passeio. Nicole estava cansada e achava que merecia um dia de repouso. Tomou um banho quente, vestiu a malha rendada e foi inspecionar a nave.

Artemis IV funcionava com a precisão de um relógio, girando para produzir gravidade centrífuga a bordo. Nicole estava na câmara de pressão, checando um painel defeituoso, quando percebeu um movimento atrás dela.

Não houve tempo para qualquer reação. Tentáculos envolveram-Ihe as pernas e os braços. Era tudo tão absurdo que a primeira sensação da astronauta foi de perplexidade e não de medo. Uma coisa gelatinosa e fosforescente introduzira-se dentro da nave. Algo que parecia um polvo de metal fluido, logo se transformou em uma medusa gigantesca, colorida e transparente.

O pavor substituiu a expressão de espanto no rosto de Nicole. Depois de imobilizá-la, a medusa começou a absorvê-la, englobando a mulher como uma ameba consumindo um protozoário. Primeiro a malha, depois a pele de Nicole fundiram-se à estrutura do exobionte. Não havia ninguém para ajudá-la ou ouvir seus gritos.

No módulo de comando, os sinais vitais no painel biomédico tornaram-se frenéticos, e depois se apagaram. Ficou apenas um diagrama tridimensional de um corpo feminino, piscando na tela do computador como um fantasma da heroína desaparecida.

II

Diziam que o trabalho ajudava a esquecer, mas Gustavo não queria esquecer. Executava suas tarefas a bordo da estação espacial, mas a imagem de Nicole estava sempre em sua mente. Em todos os seus sonhos.

Ela estivera linda naquela última transmissão de bordo da Artemis IV. Estava no topo do mundo, e quando voltasse seria a mulher mais famosa do planeta. Infelizmente ela não voltara... ainda.

Ninguém sabia exatamente o que lhe acontecera. A telemetria dos biossensores indicara uma frenética atividade física e depois o silêncio. Sons incoerentes, ruído de luta e gritos foram transmitidos pelos microfones que monitoravam o impacto dos micrometeoros. Algo terrível acontecera com a bela espaçonauta, mas ninguém sabia exatamente o quê.

E então viera uma imagem, captada ao acaso por uma câmara de TV no módulo central. Uma coisa orgânica, fluida, que parecia uma medusa feita de metal derretido. Da parte inferior da criatura brotavam as formas de um corpo feminino, como que impresso em alto-relevo na estrutura metálica da coisa. O que seria exatamente aquilo ainda era debatido pelos cientistas.

Gustavo se agarrara a uma possibilidade extrema. Talvez Nicole ainda estivesse viva dentro da coisa. Capturada apenas para estudos por alguma inteligência extraterrena. Talvez ela fosse libertada. Talvez tudo fosse apenas um terrível engano. Não era possível que extraterrenos evoluídos fossem criaturas hostis ou agressivas. Todos os especialistas juravam que eles seriam pacíficos e de moral impecável.

Quando os radares e telescópios detectaram uma coisa grande se aproximando da Terra, suas esperanças aumentaram. Talvez “eles” estivessem trazendo sua amada de volta.

A nave alienígena parecia um enorme girassol prateado e era difícil imaginar que uma coisa tão bela pudesse ser uma ameaça. Mas todos sabiam o que ela podia fazer.

Excalibur, a estação militar em órbita baixa, interpelou o intruso e enviou-lhe instruções para que ficasse além da Lua. A nave mudou de forma, virou algo que parecia uma tigela e continuou sua aproximação.

Os militares abriram fogo. Mísseis nucleares, lasers e feixes de partículas foram disparados para destruir o invasor. Tudo inútil. A forma alienígena refletiu ou absorveu todas as energias lançadas contra ela. Depois tomou a forma de uma lente côncava e mergulhou na atmosfera terrestre.

Sua velocidade ainda era muito alta, e ela apenas ricocheteou nas camadas superiores. Perdendo velocidade como a Artemis IV fizera ao sobrevoar Netuno. Mísseis lançados de aviões e submarinos tentaram atingi-la, mas ela os ignorou. Subiu para encontrar-se com a estação orbital União.

Havia mais de cem pessoas no complexo orbital e só três espaçonaves nas imediações. Uma das naves era a Andromeda, que acabara de voltar das luas de Saturno e ainda não fora reabastecida. Setenta pessoas foram alojadas em uma nave lunar e no avião hipersônico e mandadas para longe do perigo.

Gustavo ficou a bordo da União, junto com um grupo de voluntários. Não estavam inteiramente indefesos. Poderiam dirigir os feixes de microondas das usinas solares para cozinhar o intruso. Gustavo achava a idéia tola. Algo que sobrevivera a uma barragem de mísseis certamente sobreviveria a um ataque de microondas.

Voltou o complexo de antenas na direção da coisa e tentou se comunicar. Nicole podia estar lá. De alguma forma ela poderia entender sua mensagem.

A trezentos metros da estação espacial a forma alienígena começou a mudar. Ficou com 120 metros no eixo maior, virou um fuso e então começou a tomar forma humanoide.  Duas pernas, dois braços e uma cabeça brotaram da coisa. O corpo tornou-se decididamente feminino.

Chocou-se suavemente com a estação. Uma mulher gigantesca abraçando a base orbital como se fosse um amante. Gustavo reconheceu as pernas roliças, os quadris redondos, o busto plenamente desenvolvido. A mulher cósmica envolveu o eixo da estação com as pernas. O rosto, envolto nos cabelos prateados, ondulantes, era o de Nicole.

Os olhos de metal pareciam refletir a luz do Sol, devolvendo seu brilho para o infinito.

A estação espacial estremeceu e oscilou. Um veículo de transferência orbital, preso na concha do aerofreio, soltou-se do hangar e rolou na escuridão. Letras formaram-se na tela do computador.

— Gustavo, você está aí?

Os dedos dele correram pelo teclado, digitando uma mensagem. O coração estrondava em seu peito. Aquela coisa lá fora assumira a forma de Nicole, mas sua estrutura e composição eram alienígenas.

— Nicole, eu sabia que voltaria.

— Eu voltei, eu sou Nicole.

— Você mudou. O que fizeram com você?

— Eu sou Nicole, eu sou tudo aquilo que fui.

As formas femininas se acentuaram ainda mais, tornaram-se mais opulentas enquanto a imagem mental da criatura moldava sua estrutura física. Um brilho elétrico percorreu a pele metálica e sobrecarregou os circuitos eletrônicos da estação espacial. As telas do computador explodiram em imagens.

O céu de um aglomerado globular de estrelas, a Via-Láctea ao fundo, como espiral fosforescente em meio a uma nuvem de pirilampos. A alvorada no mundo de uma estrela de nêutrons, rios de energia ionizante colorindo o céu. Depois as profundezas de um planeta gasoso, onde criaturas em forma de serpente fugiam e caçavam entre nuvens em ebulição.

Gustavo sabia que, no devido tempo, entenderia tudo. O importante é que o pesadelo terminara. A angústia da incerteza se fora. O Ulisses do futuro ficara em casa enquanto Penélope partira numa jornada ao desconhecido.
Agora ela estava de volta. Uma semideusa transformada pelas experiências por que passara.

E o mundo nunca mais seria o mesmo.

Alarmes soaram no centro de controle. A coisa, aquela mulher de prata, estava retirando a estação de sua órbita. Fazendo-a decair. Gustavo percebeu o perigo.

— Nicole, pare, você vai nos matar.

— Só, muito só. Eu não quero mais ficar sozinha.

— Você voltou por mim?

— Eu preciso de você. Eu posso realizar seus sonhos. Venha à comporta Delta, quero lhe mostrar uma coisa. Algo que você sonhou...

A criatura estava assumindo o controle dos computadores da União. Não precisava mais se comunicar por uma tela de vídeo. Podia usar a voz sintética do computador.

— Acredite em mim, agora, eu sei que posso!

Gustavo sentiu que não podia recusar aquele convite. A réplica gigante de Nicole continuava abraçada ao eixo central da estação espacial. Seu seio esquerdo se comprimira de encontro à comporta de escape Delta e se transformara num duto, uma passagem para o interior da criatura.

Vestiu um traje pressurizado, do tipo usado em operações de resgate, e colocou uma mochila de manobra orbital. Nicole falava com ele através do computador, ligado ao sistema de comunicação da estação.

— Não tenha medo, vou lhe mostrar uma espaçonave como nunca sonhou, algo que pode levá-lo aos confins do Universo.

— Nicole, não estou entendendo.

— Abra a comporta. Eu posso protegê-lo e carregá-lo comigo para lugares de sonho. Posso lhe dar o Universo.

Abriu a comporta. Era tudo tão bizarro, tão irreal, como se estivesse num sonho. Estava entrando dentro do seio de Nicole para encontrar um novo Universo. Sabia que a coisa agarrada à estação espacial não era realmente a mulher que conhecera. Era algo que assumira a forma e a personalidade dela, mas não importava. Sentia-se preso a um compromisso, uma obrigação. Precisava descobrir o que acontecera com sua amada. No que ela se tornara.

Flutuou dentro de um túnel orgânico com paredes que pareciam uma tela fluida, por onde escorriam estrelas e faíscas luminosas. Algo como uma brisa o arrastava para o abismo, para um lugar de uma luminosidade azul suave. Os sensores do traje indicaram uma atmosfera externa, feita de nitrogênio e oxigênio. Mas não havia gravidade.

Emergiu em uma câmara gigantesca, uma catedral orgânica iluminada por aquela luz irreal. Estava no centro do tórax da criatura, no lugar onde tinham ficado os pulmões da Nicole original. Algo como vértebras ou vigas gigantescas subiam para um abóbada onde brilhava um céu alienígena. Um céu como homem algum jamais vira, exceto em pinturas, em reproduções artísticas.

Duas galáxias tinham-se chocado naquele céu. Passando uma por dentro da outra enquanto seus campos gravitacionais interagiam e se modificavam. A galáxia maior virara uma lente, depois um anel vaporoso feito de estrelas e nebulosas leitosas. A outra desenvolvera longas caudas, como pontes luminosas saltando o infinito. Era um animal ferido derramando seu sangue de estrelas no abismo.

Gustavo ficou perplexo observando a cena. A voz de Nicole sussurrou em seu ouvido:

— Eu vou levá-lo até lá. Eu vou lhe dar o Universo, meu querido.

Soltou-se da estação orbital e flutuou no vazio. Retrofoguetes brilharam ao longo da estrutura do complexo espacial, queimando combustível para recuperar a velocidade perdida pela União. Não havia mais perigo, a estação estava salva.

A mulher prateada se magnetizou e subiu em direção aos cinturões Van Allen. Absorveu toda a energia de que precisava e então começou a mudar. O corpo feminino se derreteu e se liquefez até virar uma esfera prateada. Depois se alongou, virou um fuso, pontudo em uma extremidade, arredondado em outra. Parecia uma imensa lágrima prateada, prestes a se derramar sobre um hemisfério azul ofuscante.

Só por um instante. Depois os céus do mundo explodiram em uma fantástica aurora boreal — um redemoinho de cores fluorescentes enquanto a nave escavava seu túnel para as estrelas.

Galáxias saltaram ao encontro de Gustavo. A Terra e a Via-Láctea sumiram no abismo.

Tudo era belo e irreal. Como num sonho.

A sereia do espaço - de Jorge Luiz Calife
ISAAC ASIMOV
MAGAZINE
FICÇÃO CIENTÍFICA
NÚMERO 20



Um comentário:

  1. http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-522442949-as-sereias-do-espaco-_JM

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