terça-feira, 15 de outubro de 2013

Boven is het stil - 2013



Por Jason

Helmer vive uma vida desagradável numa comunidade rural do interior da Holanda. Seu pai está doente, atrofiado em cima de uma cama e é Helmer quem por uma crueldade do destino acaba sendo responsável por cuidar do velho - dá banho, comida, limpa suas imundícies e o mantém na cama, enquanto o pai, sem conseguir andar direito, insiste em lhe dar trabalho. Helmer é grosseiro, reservado e não consegue dialogar com ninguém. Traz no rosto a própria imagem de amargura, reclusão e de sofrimento que parece que não vai acabar nunca. Não é bonito, não é muito educado. Não se conhece seu passado. As conversas entre pai e filho não rendem. Para completar, ele sempre priva o pai de visitas, um peso, um martírio em sua vida com o qual ele visivelmente não sabe lidar. 

Em sua sina, Helmer passa o dia todo no meio dos bichos, cuidando da propriedade rural, de vacas, burros e ovelhas de onde tira seu sustento. Limpa suas imundícies, dá comida, cuida. Não tem uma vida sexual, não se relaciona com ninguém. Esse paralelo entre a vida em que ele leva cuidando de seu pai e dos animais é uma das partes mais interessantes do roteiro. A analogia é clara: a vida de Helmer é ingrata, isolada e solitária - e ele vive praticamente vinte e quatro horas em um beco sem saída, servindo apenas para cuidar das coisas e dos outros. Em seu íntimo, ele anseia se livrar daquilo (verifica se o pai está morto, ouve dele o desejo de morrer, vê o quadro pendurado na parede com uma imagem que lhe parece bonita e decide não jogá-lo fora quando está tentando mudar as coisas dentro de casa) mas nada do que faça parece ser o bastante.

Paralelo a isso, Helmer mantém contato diário com o parceiro de negócios, o motorista do leite que, visivelmente, demonstra interesse nele, mas toda vez que ele investe, Helmer se esquiva e se retrai. Até que surge em sua vida um jovem ajudante para as atividades diárias e, gradualmente, o inevitável acontece entre os dois. É então que Helmer começa a diferenciar a sua vida e as possibilidades que ele abandonou por não saber lidar com seus sentimentos. Quando sabemos um pouco mais sobre seu passado, entendemos o que finalmente o deixou nesse estado e sofremos com o fato de que o personagem se anulou durante boa parte de sua vida a troco de nada. 

É nas atuações que o filme se sobressai porque todos os atores são excelentes. Boven is het stil é um filme difícil, contudo. É seco, a fotografia é monocromática, como a vida de Helmer, ganhando sempre um tom cinza, azulado ou escuro e o sol só parece dar alguma vida a ele ao final do filme. O roteiro sabe trabalhar as nuances do personagem complexo, embora peque por não desenvolver gente que entra e sai na vida dele (o motorista, o jovem ajudante, a amiga). O próprio passado dele é apenas pincelado em alguns diálogos e o final, apesar de sinalizar um novo caminho para o personagem, deixa, de certa forma, um tanto a desejar.

Cotação: 3,5/5

2 comentários:

  1. Muito bom o post! Estou louca para ver esse filme! Creio que fará parte do Festival MIX BRASIL de São Paulo desse ano.

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  2. Acabei de assistir o filme. Dei um "google" pra ver as críticas. Eu já acho ruim um filme sem diálogos, me da uma impaciência, sou muito hiperativo, mas procuro assistir até o fim pra ver se o longa me surpreende. Acho que quando fazem filmes desprovidos de diálogos, as cenas têm que dar conta do que não foi dito com palavras. Achei sinceramente fraco, vago, obsoleto... Eu fico chateado pelo fato de não saber nada sobre o jovem ajudante, queria saber o trauma do garoto... E o relacionamento entre o personagem principal e o motorista? Tem uma cena que dá a entender que já aconteceu algo... Quando o motorista fala que "prefere nadar", achei que soou como algo que ocorreu no passado. Enfim... Perdi meu tempo vendo o filme. #Chateado #EsperavaMAISmuito+

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